Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Para que servem as datas

Por Luiz Weis em 18/11/2006 | comentários

Num dos seus mais amargos poemas, Fernando Pessoa diz a um imaginário suicida em potencial – ele próprio, decerto – que ‘serás lembrado aniversariamente / no dia em que nasceste / e no dia em que morreste’.


Para isso também é que existem o que nos velhos tempos se chamava efemérides e hoje, simplesmente, datas – que podem, ou não, ser aniversários, e de qualquer forma acionam as engrenagens que põem a mídia em movimento e abrem espaço, embora muitas vezes fugaz, na cultura de massa. É pouco, mas melhor que nada. Será muito, se a ocasião não for desperdiçada.


Hoje, antevéspera do Dia da Consciência Negra, a imprensa traz um estudo desalentador do IBGE, do qual naturalmente teve conhecimento antecipado, com novas evidências sobre o mito da igualdade racial no Brasil.


Pesquisando o seu território por excelência, as seis maiores regiões metropolitanas do país, o instituto identificou o cúmulo da perversão: quanto mais estudam, mais pretos e pardos ficam longe dos brancos em matéria de remuneração.


Um branco praticamente analfabeto (com até 1 ano de escola) recebe aproximadamente R$ 60, em média, acima do que um preto na mesma situação. Quando os dois têm 11 anos ou mais de estudo, a diferença média é de quase R$ 830. Ou seja, cerca de 15% no primeiro caso e de 92% no segundo!


Estudar obviamente compensa – mais para uns do que para outros. A minoria de pretos e pardos no topo da pirâmide educacional ganha 120% além do que a maioria com pouco ou nenhum ensino. Enquanto isso, o ganho do branco ‘doutor’ em relação ao branco semi-letrado é de 268%.


‘Você começa a sentir o preconceito quando começa a ascender’, resume na Folha um brasileiro que o jornal classifica de ‘caso raro’ – o negro Edison Souza Dias, 57 anos, diretor de banco, ‘cargo a que chegou após fazer curso superior e entrar no setor como auxiliar de RH’.


O Estado também tem o seu Souza, no caso Carlos Sousa, empresário bem sucedido de Salvador. (O da Folha trabalha no HSBC, em São Paulo.) ‘Tive a sorte’, conta ele, ‘de ter como primeiro empregador um estrangeiro, para quem era mais importante a competência do que a cor da pele’.


Fez bem o jornal em garimpar a sua exceção na Bahia, pois ‘apesar de ser formada predominantemente por negros (82,1%)’, destaca a reportagem, ‘a população de Salvador e a região metropolitana apresentada um dos retratos mais acentuados da desigualdade racial no País. O rendimento mensal de um negro é de R$ 644,91, ante R$ 1.749 de um branco’.


Mas Folha, de longe, foi que melhor soube aproveitar o tempo entre a obtenção dos dados do IBGE e a publicação. O assunto não só é a manchete de hoje do jornal (na primeira página, Estado e Globo se limitaram a pequenas chamadas), como se espalha por 4 páginas internas (contra duas do Globo e uma do Estado).


A Folha também informou melhor, em manchete interna, que ‘negros são metade dos desempregados’.


Nesse departamento, porém, a nenhum jornal ocorreu ligar os pontos. Domingo passado, o Globo publicou com exclusividade uma pesquisa acachapante do economista Carlos Alberto Ramos, da Universidade de Brasília (UnB).


Trabalhando com outros dados do IBGE, ele verificou que entre os 10% mais pobres da população economicamente ativa, o desemprego é 17 vezes maior do que entre os 10% mais ricos com o mesmo grau de instrução.


Hoje, pelo menos o Globo poderia voltar a essa pesquisa. Pela razão elementar de que pretos e pardos são a maioria absoluta da parcela mais pobre da sociedade.


Faltou também trazer às páginas, contra o pano de fundo da numeralha levantada pelo IBGE, a polêmica questão do Estatuto da Igualdade Racial e da adoção de cotas nas universidades federais e no serviço público.


Como é que fica essa discussão se ‘Educação não garante emprego’, como mancheteou o Globo do último domingo, a propósito da pesquisa do economista da UnB, e se ‘Educação não reduz desigualdade racial’, como mancheteia hoje a Folha?


Os números dão argumentos para defensores e adversários do estatuto e das cotas.


A favor: mais um motivo para arrombar a partir de uma legislação ousada o que a ministra da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, denomina  o ‘racismo sutil’ do país.


Contra: não será ‘racializando’ as relações entre os brasileiros, mas por uma evolução cultural estimulada por ações afirmativas e incentivos econômicos, que a educação passará a proporcionar as oportunidades que dela se esperam – também para pobres e pretos.


Se os dados que aparecem hoje na imprensa de nada servirem para irrigar esse debate, a data – jornalisticamente falando – será, aí sim, um desperdício.


***


Os comentários serão selecionados para publicação. Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas, que contenham termos de baixo calão, incitem à violência e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 20/11/2006 Calypso Escobar

    Sei da minha conciencia que aprecio mais uma boa compleic´ao mental que a cor do individuo,mas que racismo existe,[e modular a verdade.Uma heran;a milenar.Grata Calypso Escobar
    Meu PC esta com defeito,pe;o desculpas

  2. Comentou em 20/11/2006 Luiz Antonio Camargo

    100% Brasileiro.
    Muito me impressiona o se passa no Brasil. Aquilo que nos fazia achar que Deus fosse brasileiro, posto que guerra racial ou religiosa nunca haveria por essas bandas. Entretanto, vejo que o mau uso de dados conjugados ao demagogismo lvai levar o Brasil a pagar pelos fatos do passado. Hoje o Japao tem de dar vantagens empregacionais a tataranetos de escravos coreanos no Japao. Pior, muitos desses netos de coreanos nunca se naturalizarao se quer como japoneses para manter os tais direitos para as suas futuras geracoes. Imagine se a moda pega por ai? Outro exemplo e o caso dos brasileiros filhos e netos de japoneses no Brasil. Estando ai, muitos mantem o respeito pelas raizes. Porem, ao irem ao Japao, sao chamados de brasileiros. Que triste ironia!Pelo que vejo, querem copiar os piores exemplos do mundo. Sera que entao estava tudo errado? Sera que eu estava errado de ser feliz so por ser 100% brasileiros? (Perdao pela falta de acentos no meu micro japones.)

  3. Comentou em 20/11/2006 Conceição Oliveira

    Antes tarde do que nunca, né? A questão da cor aqui chegou, depois de muito grito e, claro, porque o 20 de novembro se aproxima.
    Mas ela está presente no restante dos 364 dias do ano, gente!.
    Convite pra vc e para os demais leitores enriquecer esta discussão que dentro do movimento negro está há léguas de distância em termos de reflexão:
    O primeiro link uma entrevista que vale a pena ser lida pra sair desse disco arranhado do mito da democracia racial; política universalista versus política de cotas e afins:
    http://www.lpp-uerj.net/olped/acoesafirmativas/boletim/30/entrevista.htm

    O segundo link traz uma série de sugestões de pautas que obviamente passaram e continuam passando ao largo da cabeça dos jornalistas, mas que ajudariam a problematizar, aprofundar e sair do lugar todas as vezes que se discute relações étnico-raciais no país:
    A Mídia Que Não Olha Para o Negro, A Mídia Míope Para Ações Afirmativas de Oscar Henrique Cardoso(*) http://www.dubig.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=67&Itemid=30

  4. Comentou em 20/11/2006 dioniso artuffo

    Nas grandes cidades brasileiras pratica-se descaradamente o apartheid racial. Bairros de classe média rodeados por uma imensa periferia miserável, habitada por uma maioria de negros, pardos e nordestinos( não descendentes diretos dos brancos europeus). Somos um país onde o racismo é odiosamente cínico e hipócrita.

  5. Comentou em 20/11/2006 Sonia Franca

    20 de novembro _ Dia da Hipocrisia Nacional!

    Não existem escolas,universidades,justiça,saúde,empregos e salários dignos.

    Aos adeptos do matrimônio e que ascendem socialmente buscam seus pares com brancos/as devido a carência e/ou ausência de negros/as na esfera mais abonada da sociedade.

    Porca Vergonha!

  6. Comentou em 20/11/2006 Paulo Bandarra

    Caro Eduardo Guimarães, (São Paulo/SP) Dizer que é 100% NEGRO com a camiseta com a inscrição no peito não discrimina os 100% BRANCO. Apenas é um preconceito para os que não são pessoas de “sangue puro”. Quem tem de 99% para baixo até chegar a 100% de pureza branca. É uma evidente manifestação de racismo. Despreza todas as pessoas que são descendentes de casamentos entre mais de uma etnia ou mal falado, raças. Agride os brancos que casam com pessoas afros-descendentes e aqueles com seus vários níveis de ‘impurezas’. Outro dado importante que a pesquisa denuncia é que cotas na Universidade não resolvem os problemas dos negros que ganham menos que os brancos e as mulheres. E que só uma escola de qualidade para 100% pode levar a melhoria e desaparecimento de diferenças em todos os níveis de emprego, principalmente para as mulheres negras, que assumem suas famílias e ainda são as mais discriminadas. Para medir o nível de discriminação pela escolaridade aos negros era só medir o desempenho em concursos públicos onde a raça não pode contar, mas apenas a nota do concurso público. Seria uma boa medida para saber se o problema real não é a discriminação de raça ou é uma discriminação pelas péssimas escolas públicas em todos os níveis.

  7. Comentou em 20/11/2006 Ivan Moraes

    ‘a imprensa cobraria melhores condições de vida para a raça negra no que tange a bons empregos, salário dignos, moradia adequada, educação de qualidade e congêneres’ !!!!!! Mas isso eh trabalho de governo! Era isso que eu queria dizer: nos EUA, lobista de compania que nao pratica igualdade tem zero chances com o governo. Ponto final. Acabou. Zé fini. O Brasil pode muito bem fazer isso, so nao quer fazer. Porque nao quer.

  8. Comentou em 20/11/2006 claudia rodrigues

    É tudo pelo social, festa, pão, circo, alguma discussão de encenação e ausência de ação. A mídia é a condutora. Nos grandes centros, nos jornaizinhos do interior; bajulações, guetos, quadrilhas…Entre dignidade e fogos de artifício, adivinhem qual a opção?

  9. Comentou em 19/11/2006 Eduardo Ramos

    Pois é, e depois querem negar que existe um ´Apartheid brasileiro´. O interessante é que estas evidências estatítisticas , já claras no senso comum, continuam sendo solenemente ignorada por todos – Igrejas, Governos, Mídia.
    Apesar da rara, e boa, exceção registrada por ocasião do Dia da Consciência Negra (foi isso, no fundo, que motivou a cobertura), o debate sobre o racismo no Brasil não ocorre como deveria. Negando a realidade, evitamos também a discussão séria sobre a compensação devida aos negros – algo como as políticas afirmativas promovidas nos EUA e também na Europa.
    Para muita gente, falar em COTAS continua sendo uma heresia. O mesmo ocorre em relação ao conteúdo dos livros didáticos (ainda hoje dúbios em relação ao conflito racial) e à relação entre o Estado e os Negros – nós, negros, continuamos sendo vítimas preferenciais da polícia e do desemprego, temos acesso restrito à Educação, e somos negligenciados na Saúde (existem ´boas´ estatísticas sobre isso também). A verdade é que só não sofremos mais no Brasil porque nossa expectativa de vida é menor que a dos brancos.
    Fica a pergunta: Até quando?

  10. Comentou em 19/11/2006 Paulo Bandarra

    Caro Eduardo Guimarães, (São Paulo/SP) Dizer que é 100% NEGRO com a camiseta com a inscrição no peito não discrimina os 100% BRANCO. Apenas é um preconceito para os que não são pessoas de “sangue puro”. Quem tem de 99% para baixo até chegar a 100% de pureza branca. É uma evidente manifestação de racismo. Despreza todas as pessoas que são descendentes de casamentos entre mais de uma etnia ou mal falado, raças. Agride os brancos que casam com pessoas afrodescendentes e aqueles com seus vários níveis de ‘impurezas’. Outro dado importante que a pesquisa denuncia é que cotas na Universidade não resolvem os problemas dos negros que ganham menos que os brancos e as mulheres. E que só uma escola de qualidade para 100% pode levar a melhoria e desaparecimento de diferenças em todos os níveis de emprego, principalmente para as mulheres negras, que assumem suas famílias e ainda são as mais discriminadas. Para medir o nível de discriminação pela escolaridade aos negros era só medir o desempenho em concursos públicos onde a raça não pode contar, mas apenas a nota do concurso público. Seria uma boa medida para saber se o problema real não é a discriminação de raça ou é uma discriminação pelas péssimas escolas públicas em todos os níveis.

  11. Comentou em 19/11/2006 João Pequeno

    A única evidência desalentadora é ver ‘analistas’ do IBGE ideologizando pesquisas para criar o mito do Brasil como um país racista. E a imprensa entrando nessa

    O Globo, por exemplo, usa a informação de que negros ganham menos do que brancos com a mesma escolaridade para basear a manchete ´Salário ditado pela cor´. No entanto, a pesquisa do IBGE não toca nas diferenças de nível entre instituições de ensino em todas as faixas de escolaridade, derrubando o mito de que se compararam indivíduos com a mesma instrução.

    Na única faixa em que o grau de escolaridade significa nível de ensino igual, a diferença entre negros e brancos é insignificante.
    Tratam-se dos praticamente analfabetos. Não tendo estudado, não são qualificados pelo nível de ensino que (não) receberam.

    Com 11anos ou mais, porém sem grau superior, a diferença de quase o dobro reflete as diferenças entre escolas públicas (maioria de negros) e particulares (maioria de brancos) do ensino básico.

    Já no ensino superior, a diferença cai a 47%, o que se explica pelo fato de 75% dos estudantes de todas ascores estarem em universidades particulares, em sua maioria com pouca tradição e constante expansão.

    O fato, portanto não é que a educação reduza ou não reduza desigualdade racial. É que a desigualdade não é racial, mas justamente educacional.

  12. Comentou em 19/11/2006 Marco Costa Costa

    Esta situação de injustiça que o negro tem passado a centenas de anos no Brasil, tem como pano de fundo uma imprensa omissa naquilo que é de sua competência, ou seja, fazer denuncias junto a opinião pública. A mídia em geral por deter a caneta na mão e o vernáculo na placa mental, poderia muito bem, utilizar estas ferramentas para fazer uma campanha contra os políticos, cuja maioria(branco) se faz presente em todas às instâncias governamentais, para denunciar um falso dia da consciência negra. Neste momento triste da história do Brasil, ao invés desta data demagógica, a imprensa cobraria melhores condições de vida para a raça negra no que tange a bons empregos, salário dignos, moradia adequada, educação de qualidade e congêneres. Basta de hipocrisia e demagogia contra todas as raças. principalmente ao povo pobre.

  13. Comentou em 19/11/2006 Eduardo Guimarães

    Luiz, reproduzo comentário de leitor ‘anônimo’ publicado pelo blog de Reinaldo Azevedo a propósito do artigo deste comentando estudos do IBGE que mostram que os negros e pardos são fortemente prejudicados no mercado de trabalho, na Educação, na Saúde etc. Azevedo tenta provar que o estudo teria sido distorcido de forma a mostrar uma situação dos negros que não existiria. Vale ler com muita atenção o comentário porque, como se sabe, o dono de um blog é responsável pelos comentários que publica. Assim, o comentário em questão é de total responsabilidade do sr. Azevedo. O comentário: ‘Lula é racista! Lula é um sujeito que discrimina: os ricos, as elites e a imprensa inteligente (atributo que lhe falta). Dividiu o país entre ricos e pobres. Optou pela segunda metade. Lula é um sujeito que discrimina. Porque não o processamos por isso? Agora não me venham com esse lero-lero de negros, brancos, mulatos, amarelos, etc e tal. Como se a cor fosse o item de diferença entre eles. Hoje deparei-me com uma cena e pensei em processar o sujeito.Um cidadão negro vestia uma camiseta com os dizeres: 100% NEGRO. Pensei, ah! fosse eu a desfilar com a mesma camiseta com a inscrição no peito: 100% BRANCO. Seria processado por discriminação. (…) Sou 100% branco! E daí?’ Leia o comentário completo em http://www.blogger.com/comment.g?blogID=30210460&postID=116379177765079157

  14. Comentou em 18/11/2006 Ivan Moraes

    Nao estou surpreso nem uma gota que o unico diretor de banco preto do Brasil eh um trabalhador do HSBC. O governo da o exemplo nos EUA. No Brasil tambem, mas o exemplo eh outro. Bem outro. Eu entendo como um governo com decadas de historia trabalhista dos empregadores de um pais simplesmente se cala ante a injustica. Perdoar, nao perdoo, mas entendo.

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