Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Para que tanta informação?

Por Carlos Castilho em 06/11/2009 | comentários

O leitor Sérgio Ribeiro, de São Paulo, perguntou num comentário postado aqui no Observatório se a avalancha informativa gerada pela internet e pela digitalização, em vez de ajudar não está complicando ainda mais a já atribulada vida do cidadão contemporâneo? Ele questiona se os mortais terão capacidade de lidar com tanto conteúdo e se na verdade não estamos criando um fantástico desperdício informativo?


 


Ele não é o único a se colocar a mesma dúvida e se formos ver em detalhe, é bem possível que cheguemos também à mesma pergunta.


 


Para encontrar uma resposta tranqüilizadora, nós teremos é que mudar o foco das nossas preocupações. Até agora, o metro usado para medir quantidades de informação era dado pela nossa capacidade de processá-la. Nós comprávamos só os livros, jornais e revistas que poderíamos ler, só ligávamos a televisão para ver os programas considerávamos interessantes, e por aí vai.


 


A avalancha informativa mudou os parâmetros e passou a concentrar as preocupações nas comunidades, na sociedade global. E por que isto?


 


Antes da revolução tecnológica, o conhecimento individual era suficiente para atender às nossas necessidades de produção de novos conteúdos informativos e alimentar a criatividade universal. Os cérebros privilegiados, os cientistas e aquelas pessoas que muitos chamam de gênios.


 


Mas a economia cresceu e se diversificou, passando a exigir novos conhecimentos para alimentar a cadeia da inovação. A demanda de conhecimentos superou a oferta, pressionando a busca de inovações que acabaram levando à revolução gerada pela digitalização e pela internet. A combinação de ambas liberou uma massa de informações, dados e conhecimentos nunca vista na história da humanidade.


 


Usando dados da pesquisa How Much Information, feita em 2002 pelos professores Hal Varian e Peter Lyman, da Escola de Sistemas e Gerência da Informação da Universidade da Califórnia (Berkeley) , seria possível estimar que, em 2008, a avalancha informativa disponibilizaria para cada ser vivo no planeta uma pilha de livros, DVDs e CDs da altura de um edifício de nove andares.


 


Um número como este deixa muita gente na dúvida. Primeiro se o cálculo está correto e, em segundo lugar, porque comprova uma distribuição de conhecimento muito mais desigual do que imaginamos.


 


A questão é que esta massa de informações é necessária para alimentar um processo de produção de conhecimentos que adquiriu também características inéditas na história da humanidade. Quando você faz uma busca no Google, cada resultado que você lê na tela resultou de vários bilhões de recombinações de informações armazenadas nos servidores do mecanismo de busca, tudo em questão de fração de segundos.


 


Nós ainda estamos acostumados a pensar em termos aritméticos em matéria de absorção de conhecimentos. Mas o mundo já funciona numa outra realidade movida basicamente à base de informação, quase na velocidade de luz. Sem ela, a economia moderna entraria em colapso. O sistema financeiro simplesmente desapareceria. O tráfego aéreo implodiria.


 


Na verdade não há desperdício informativo. Pelo contrário, a demanda continua crescendo e a oferta, também. Tomemos o caso da chamada Web social, formada pelas redes, comunidades e coletivos virtuais. A soma de todos os conhecimentos de todos os usuários das redes é essencial para produzir sistemas cada vez mais rápidos, sofisticados e personalizados.


 

O Orkut, Facebook e todas as demais redes virtuais na Web são gigantescas usinas de conhecimento que consomem e produzem quantidades ciclópicas da  matéria prima informação. Sérgio, o meu conselho é: fica frio. A mesma angústia que estás sentindo atingiu os telespectadores quando a TV por cabo entrou no mercado, multiplicando por até 50 vezes a oferta de canais no sistema aberto. Ninguém morreu e hoje há muita gente que reclama por uma oferta mais diversificada de programas de televisão.

Todos os comentários

  1. Comentou em 09/11/2009 Ibsen Marques

    Me parce correto afirmar que esse é um caminho sem volta e que as nova gerações já vivem sob novos paradigmas do que seja a informação, porém, continuo afirmando que teremos que ser mais seletivos com nossas leituras e quanto aos tipos de informação que pretendemos absorver e dessa forma corremo o risco de peder a conexão com os conceitos mais amplos, como acontece com a quase extinção do clínico geral na medicina. Os médicos, hoje, não conhecem mais o homem como um todo, resumimo-nos, para eles, a órgãos apenas. Precisamos estar atentos a esse risco.
    Interessante notar um comunicado feito através da Globo esse final de semana onde os jornalistas e empresas de mídia lutam por restabelecer o controle sobre os direitos autorais dos jornalistas e escritores na WEB. Dizem que só assim se poderá garantir a qualidade, a independência e a confiabilidade das informações. A pergunta que se faz é: Quem disse que podemos confiar nas informações dos jornalões e grandes mídias e em sua independência. Parece que, não encontrando uma solução adequada que lhes permita a sobrevivência, essas mídias pretendem o impossível: exercer o controle e o monopólio das informações na NET. Isso me faz refletir e concluir que somente sob essa ótica autoritária se justifica a exigência do diploma específico para o exercício do jornalismo.

  2. Comentou em 08/11/2009 Lucio Carvalho

    O problema está mais na política de informação, na questão de direitos, na livre circulação que na quantidade em si. Informação não é um bem. Está ou não está.

    Lucio Carvalho
    http://www.inclusive.org.br

  3. Comentou em 08/11/2009 Anibal do Carambeí

    Concordo com o autor do texto quando aconselha: ‘ fica frio ‘. E que realmente tratamos dessa ‘sensação’ com parâmetros
    de perspectivas pouco ‘saudáveis’. Obviamente a informação ‘flat’,ainda é a escolha mais sensata
    quando o objetivo mesmo é direcionar a interpretação.Assim como uma gota d´água flutuando na chapa quente.
    Vivemos numa época de pluralidade da repetição com pequenas alterações. E a isso sintomatizo o tal do ‘excesso’. Num aspecto
    corriqueiro do trato informativo que torna-se descoberto nessa densidade contemporânea.

  4. Comentou em 08/11/2009 Paulo Monteiro

    Pra falar verdade esperava bem mais do texto, é verdade e notório que a quantidade e a facilidade de obter informação aumentou muito, também, e correto afirmar e elogiar as benesses que este quadro gera para a sociedade. Mas acredito que a indagação do Sérgio é sobre o quanto dessa informação é vazia, descontextualizada e efemêra. Por exemplo, muito se reclama da falta de profunidade do jornalismo, da análise completa da notícia, mas acredita-se que com 140 caracteres inventou-se um novo jornalismo. Vai entender…

  5. Comentou em 07/11/2009 Paulo Silva

    Chorar talvez verta intersecções. Não sei o que é energia. Joules, elétron-volts, auras e psiquismos. Não sei o que é energia.
    Se há informação organizada,ofertada, não sei o que é energia Onde talvez se precise pouco daquilo, não sei o que é energia.

  6. Comentou em 06/11/2009 Jaime Collier Coeli

    Sugiro que a dificuldade pode não estar entre os consmidores de informação, mas entre os produtores. De fato, ficou dificil levafr o consumidor a optar por um comportamento pre-estabelecido. Como enquadrar o cidadão nos ‘life styles’ estabelecidos no decorrer do século XX? Sistemas de crença religiosa, sistemas politicos, sistemas de consumo, sistemas artisticos e cia? Não houve tempo nem condições para uma autentica liberalização da informação. Como sou otimista, suponho que poderá ocorrer, para desespero dos demiurgos.

  7. Comentou em 06/11/2009 Jose Albino

    Caro jornalista, muito bom seu artigo. Lembro-me de entrevistas interessantes de cientistas americanos que percebem no excesso de informações uma certa estratégia humana de corroborar o pensamento antigo, ainda que incoerente com a realidade científica, por exemplo, por mais que o pensamento novo e científico venha conquistando o conhecimento público. Um exemplo citado nestas entrevistas é o crescente número de professores criacionistas na rede de ensino contra um número muito pequeno de professores “Darwinistas”. O apelo em quantidade de argumentos criacionistas é tão grande que supera o científico argumento evolucionista. A quantidade de informação criacionista é absurdamente maior que a informação evolucionista, seja na internet, através do Google, seja pela mídia televisiva, pela imprensa escrita, etc. Acredito que a tal pilha de nove andares seja um número realista, se contarmos somente a quantidade de informações criacionistas que o cidadão recebe em média em sua vida, enquanto que a informação evolucionista deste mesmo cidadão muitas vezes cabe em uma folha de papel apenas, e ainda por cima fica lá debaixo da pilha, totalmente inacessível. Isso é apenas um exemplo, entre as demais áreas do conhecimento em que a informação cumpre papel de transferir algo realmente benéfico em termos de conhecimento ao cidadão. Agora, já em outras áreas, a situação é pior.

  8. Comentou em 06/11/2009 Ney José Pereira

    Devemos ‘gastar’ ou ‘investir?’ o nosso ‘tempo’, sim, com as informações e com os conhecimentos!. Jamais devemos ‘perder’ tempo com… falácias!.

  9. Comentou em 06/11/2009 Roberto Ribeiro

    Ora, uma das primeiras coisas que eu aprendi é que ninguém lê um jornal de cabo a rabo, da primeira à última linha. Lá estão montes de informações, mas vc escolhe o que ler. Alguém lê todos os classificados? Alguém não deixa de vasculhar até a última linha de cada notícia? Não é por isso que existe uma hierarquia na redação de uma notícia: as primeiras informações são as mais importantes, a cada parágrafo a informação se torna menos relevante. Em geral só lemos manchete e lead. Logo sempre houve excesso de informação (nunca ninguém leu todos os livros de uma grande biblioteca) e sempre houve mecanismos de escolher e usar essas informações. Nunca um indivíduo sozinho usará todas as informações de que a humanidade dispõe. Alguns indivíduos usarão umas, outros outras, algumas não serão usadas, mas devem estar à disposição para o caso de necessidade. Logo, não percamos tempo com falácias.

  10. Comentou em 06/11/2009 Ney José Pereira

    Para que tanta informação pergunto eu!. Mas, há uma diferença (não sei se sutil ou fundamental) entre a ‘informação’ e o ‘conhecimento’. Realmente o ‘conhecimento’ -‘na velocidade da luz’- é mesmo necessário!. Mas, para que tanto (ou nem) tanto ‘conhecimento’ se não há ‘oferta’ para ele ser empregado?. E por falar em ‘empregado’ nem tanta informação nem tanto conhecimento gerou ou gera ou gerará ‘emprego’!. A não ser para os tais ‘gênios’!. Rarará!. Observação: Esse rarará é uma dedição aos tais gênios!. Principalmente aos tais ‘gênios’ da ‘politicologia’!. Brasileira!.

  11. Comentou em 06/11/2009 Hugo Rosa

    Algumas considerações. Maior quantidade de informação não implica em maior qualidade. A quantidade de informação sempre foi grande, desde de a Grécia Antiga existem milhares de documentos, hoje se facilitou o acesso a eles. Quanto aos gênios desde de o início eles tiveram acesso a muita informação, todos eles leram muitos trabalhos de seus predecessores. A criação de nova informação é um evento mais raro do que muitos pensam, muita informação é apenas retransmitida. O segredo está em saber processá-las. É isso que cria os gênios, eles sabem filtrar se concentrando apenas no importante. Quanto as escolas, há uma outra questão envolvida, só informação não basta, os aprendizes precisam ser guiados no oceano de dados para conseguirem aprender.

  12. Comentou em 06/11/2009 Carlos Daniel

    Será que chegará o dia em que as escolas serão descartadas? Já que
    temos toda informação disponível na internet não há a necessidade de
    saber dedução de fórmulas ou decorar algo. As mudanças estão
    ocorrendo rápido demais. Sinto-me lento.

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