Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Para senador, reação a Estatuto da Igualdade é forma de fugir do problema

Por Mauro Malin em 25/02/2006 | comentários

O senador Rodolpho Tourinho não apenas relatou favoravelmente o Estatuto da Igualdade Racial mas acrescentou-lhe ainda dois capítulos. Como os outros relatores, ele é de um estado onde há numerosa população negra na capital. Uns verão nisso a submissão a interesses eleitorais. Outro, o funcionamento da democracia, na qual cada pessoa tem um voto. Tourinho vê a reação ao Estatuto como tentativa de ignorar o problema.



– O senhor é apontado pela ministra da Secretaria Especial de Promoção de Políticas de Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, como um aliado da causa negra, por ter sido relator do Estatuto.


Rodolpho Tourinho – Por coincidência, os três relatores no Senado são do PFL: a senadora Roseana Sarney, o senador César Borges e eu. Fui o último. Inclusive acrescentei mais dois capítulos que julgava essenciais ao Estatuto, que eram a questão da mulher negra e a questão da religião de matriz africana. E acho que isso eram coisas muito próprias da Bahia e para a Bahia.


Fiz uma audiência pública na sede do Ilê Aiyê, no Curuzu, Liberdade, coração negro da cidade de Salvador, que tem uma população predominantemente negra. Todas as sugestões encaminhadas naquele momento foram incorporadas ao meu substitutivo, aprovado por unanimidade no Senado.



– Há muita resistência ao Estatuto.


R.T. – Muitos dos que são contra o Estatuto da Igualdade Racial alegam que não há discriminação racial e que aliás é esse Estatuto que de alguma forma poderia promover a discriminação. Isso no meu entendimento é uma farsa que não pode ser levada a sério.


– Faz parte da resistência brasileira a encarar esses problemas?


R.T. – Sim, não se encara de frente. Eu acho que tem que se encarar de frente. Existe a discriminação racial. Muita gente é contra o Estatuto, mas uma das formas de combatê-la é escancarar o problema. E não há lugar melhor para discutir isso do que na Bahia, onde a pobreza está muito associada à questão da cor.


– Multiplicam-se as formas de intolerância religiosa no Brasil, inclusive em canais de televisão. No início de fevereiro, a Folha de S. Paulo noticiou que traficantes em favelas do Rio de Janeiro convertidos a igrejas evangélicas proíbem cultos de candomblé e umbanda. Por intolerância religiosa e porque se usam fogos de artifício em cultos e os bandidos acham que atrapalha a operação deles. O senhor concorda com a idéia de que se essas manifestações continuarem a prosperar o país enfrentará um grande problema?


R.T. – Não tenho dúvida. Estamos assistindo hoje no mundo a uma grande divisão. Esses grandes problemas de terrorismo, no fundo, no fundo isso é um problema de intolerância religiosa. Isso não pode ser admitido. Há cem anos atrás, por exemplo, para se ter candomblé na Bahia era preciso obter autorização da polícia. Era um povo perseguido até nisso. Além de todos os efeitos da escravidão, a própria religião era proibida e dependia do chefe de Polícia autorizar ou não. A explicação de todo esse sincretismo religioso baiano está aí: eles procuravam se proteger. Daí nasceu o par do orixá com a Igreja Católica, que hoje acabou virando algo de fácil e boa convivência aqui, acho que muito, até, pelo temperamento do baiano. Ainda se vê muita perseguição. Recentemente, em Brasília, destruíram orixás no Lago. E há outros casos desses aqui na Bahia. Uma coisa que não se pode admitir.


– Seria possível chegar a algum tipo novo de sincretismo com pastores dizendo que o praticante do canbomblé é a encarnação do demônio?


R.T. – Não é possível. E é bom lembrar daquela imagem de Nossa Senhora Aparecida que foi chutada na televisão. Com esse tipo de procedimento não há sincretismo nem tolerância possível e caminhamos para um fosso que é que se assiste hoje no mundo. E não podemos permitir.


– O senhor acredita que o Estatuto da Igualdade Racial é um instrumento válido para agir contra essas tendências?


R.T. – Acredito, e destaco novamente o capítulo das religiões de matriz africana, incluído por proposta minha. A liberdade de consciência e de crença dos afro-brasileiros. Respeitar a dignidade dos cultos de matriz africana tem que ser uma orientação do Estado.

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