Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Pensata sobre as novas funções do jornalismo na era digital

Por Carlos Castilho em 02/01/2011 | comentários

Há semanas eu encontrei um amigo meu, professor de jornalismo, e ele me puxou de lado para dizer: “Poxa, cada vez que leio teus posts eu fico mais confuso sobre o papel futuro do jornalismo”.  Talvez esta tenha sido a observação  sobre temas publicados neste blog que mais me surpreendeu nos últimos anos.


Na verdade eu ainda não tinha me dado conta plenamente do efeito causado por reflexões feitas no Código a propósito da mudança no contexto atual  do exercício do jornalismo.  De fato, quanto mais a gente pensa mais se dá conta de que, se por um lado assistimos a crise de uma forma de encarar e exercer a atividade jornalística, por outro já é possível vislumbrar um novo perfil profissional, que nada tem a ver com o atual. 


Até agora, a visão predominante partia do princípio de que o jornalismo é uma atividade destinada a produzir notícias e informações capazes de ajudar o cidadão a exercer seus direitos e participar do convívio social. Trata-se de uma visão quase funcionalista, em que o cidadão era também tratado como um consumidor de bens e serviços. 


Está claro que a ferramenta deixou de ser útil aos propósitos pretendidos e a percepção do jornalismo foi distorcida por conta da preocupação industrial e mercantilista das indústrias da comunicação responsáveis pela produção de jornais, revistas, rádio, TV e também portais noticiosos na Web. 


Mas agora começa a ganhar contornos mais nítidos uma nova perspectiva para o jornalismo e uma nova função para a notícia. O jornalista deixa de ser um operário na linha de produção de conteúdos informativos para tornar-se  um contextualizador de dados, fatos e processos, bem como um treinador, ou consultor, de pessoas interessadas em participar da mega-arena noticiosa criada pela World Wide Web.


Tudo isso porque a notícia e a informação deixaram de ser uma commodity negociada pela imprensa em troca de anúncios pagos, para se transformar no impulso inicial de um processo que passa pela formação de comunidades, capital social e, no fim da linha, pelo desenvolvimento sócioeconomico sustentável.  A coisa é complicada, portanto vamos por partes.


A informação funciona como gatilho para a formação de comunidades quando uma ou mais pessoas trazem para o grupo uma notícia que os demais membros ignoram. É sabido que as pessoas se agrupam para obter alguma vantagem. E, geralmente, é a informação que torna esta vantagem atrativa para a maioria da comunidade ou rede.


Inicia-se aí um ciclo de troca de informações que gera o desenvolvimento de redes de contatos, que são causa e efeito da criação de um clima de confiança mútua que, por sua vez  leva a reciprocidade de gestos e condutas. Estes fatores são considerados essenciais na formação do capital social numa comunidade.


Este processo já é bem conhecido dos psicólogos e sociólogos. O que ainda não foi suficientemente discutido e estudado é o papel do jornalismo nesse novo contexto.  O maior obstáculo é a resistência de muitos profissionais em arriscar um mergulho nesta realidade criada pelas conseqüências sociais da avalancha informativa gerada pela Web. 


Mas já dá para vislumbrar que o jornalismo passa a ter uma função muito mais relevante do que a atual, onde ele é um coadjuvante na produção industrial de notícias. Alguns desafios já são imediatos como, por exemplo, a identificação das notícias que têm maior potencial de gerar comunidades sociais, sejam elas presenciais ou virtuais.


Anita Blanchard, pesquisadora da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, descobriu que notícias sobre educação de filhos e  sobre membros da comunidade foram as que mais motivaram as pessoas a entrar em redes sociais virtuais na cidade de Charlotte, também na Carolina do Norte. 


Os interesses e motivações variam de comunidade para comunidade e também com o contexto histórico de cada uma delas, abrindo um campo de trabalho totalmente novo para o jornalismo. Já não se trata mais de usar o interesse dos leitores pela notícia para alimentar o fluxo de caixa de anunciantes, mas de direcionar este mesmo interesse para a formação de capital social.


Muitos perguntarão: sim, e daí, como o jornalista vai sobreviver? Ninguém tem ainda a resposta, razão pela qual é impossível apresentar essa nova alternativa como uma solução imediata e definitiva. Mas não há mais muitas dúvidas de que a busca da saída está nesta direção.  Meu amigo não é o único perplexo com as mudanças. 


P.S. Aproveito esta primeira postagem do ano para expressar o meu desejo de que em 2011, a gente consiga ampliar a pequena comunidade de pessoas criada em torno deste blog. Um abraço a todos vocês.

Todos os comentários

  1. Comentou em 06/01/2011 Francela Pinheiro

    Como estudante de Jornalismo tenho que dizer que é brilhante comentários sobre os novos desafios da profissão como esses do Carlos Castilho. Hoje ao procurar estágios o que mais deparo é com testes ou produção de textos sobre os novos desafios do Jornalismo diante da revolução da comunicação com o surgimento das diversas redes sociais. Portanto, ser informado sobre esse contexto por meio de argumentos como esses é imprescindível. E muito válido o compromisso do Observatóriodaimprensa.com em divulgar conteúdos tão interessantes.

  2. Comentou em 06/01/2011 cesar vicente

    Professor, não serve qualquer informação. Por isso que jornalistas, de qualquer midia (escrita, falada, televisionada, da conectada…) são muito importantes. Tem que ser relevante para a sociedade, que nos leve o mais proximo da Verdade e da Justiça. Tal função deve ser de pessoas comprometidas com o povo, RESPONSÀVEIS e isentas pela informação que produzirem. Sem nenhum messianismo, só os mais nobres deveriam ser jornalistas. Deveriam.

  3. Comentou em 06/01/2011 Césazr Dorneles

    O jornalismo está deixando de ser um caminho de mão única, mas de mão dupla. Não sou jornalista, mas nos meus blogues (re)produzo informação. Se é de qualidade ou não, isso são outros quinhentos.

  4. Comentou em 06/01/2011 cesar vicente

    Jornalista deve ter opinião, pode expressa-la e deve ser respeitada. Ja ouvi muitos dizerem que jornalistas no Brasil até tem opinião, mas é a da dono do jornal que importa. Na minha opinião, fica algo meio que mercenário. Alias, insisto, que gosto de saber dos FATOS para que eu e os outros cidadãos possamos formar nossas próprias opiniões. Odeio ficar fazendo eco de quem ja faz eco do dono do jornal.

  5. Comentou em 05/01/2011 eustáquio fernandes

    Para noticiar fatos não é necessário jornalista. Penso que jornalista
    precisa ter opinião. Para noticiar fatos basta testemunhas, repórter e um
    veículo. Daqui a dez anos vocês estarão ainda noticiando a morte da
    velha mídia e o surgimento da nova!

  6. Comentou em 05/01/2011 Ney José Pereira

    E geralmente esse tal Paulo Bernardo mancomunado com a tal Folha de Notícias Populares de S. Paulo tem direito a ‘ilustração’ em suas ‘notinhas’ tuiteirinhas!. A notinha comentada abaixo teve direito a ilustração!. Ora, além de ser estranho é também confuso!. É estranho e confuso uma coluna de ‘política’ publicar tuitadas do tal ministro Paulo Bernardo!. Observação: Alô, Dines: Transforme este Observatório num Wikitório!. Ou num ObserLeaks!. E descensure-o!. Faça de seus dinesetes assangetes!.

  7. Comentou em 05/01/2011 Ney José Pereira

    O ‘jornalismo(?)’ na era digital e principalmente do jornal do futuro (Folha de Notícias populares de S. Paulo consiste em reproduzir as mensagens (feitas no horário do expediente ministerial ou não) de um tal Paulo Bernardo (atualmente ministro de Estado deste país das Comunicações (obviamente) ‘postadas’ no tal tuíter!. Pô, dia sim e dia sim a colunista e editora de uma coluninha social de política a ‘jornalista’ (ia dizer jornalistinha, mas, ela ainda merece uma chancezinha) Renata Lo Prete (ex-folháctica ombudswoman(!) da Folha de Notícias Populares de S. Paulo ‘edita’ numa ‘notinha’ o que o tal Paulo Bernardo das Comunicações escreve no tal tuíter. Geralmente trata-se bobagenzinhas!. Da última vez o tal ministro dilmático das Comunicações escreveu em seu tuíter e a tal Renata Lo Prete das Folhas reproduziu e editou o seguinte: ‘Vi um homem de terno no supermercado com um carrinho cheio de água e chocolate. Achei estranho’. Então, isso é o jornalismo digital do futuro!. Ou seja, o ministro das Comunicações deste país escreve bobagens num tal tuíter e a jornalista das Folhas reproduz e edita!. Observação: E o leitor do passado paga e lê!. E perde o seu tempo e o seu dinheiro e não adquire nenhuma informação!. Portanto, o amigo do articulista tem toda a razão de ficar confuso com o papel futuro do jornalismo!. Seja ele digital ou tradicional!. Realmente é estranho!. Não é?!.

  8. Comentou em 05/01/2011 cesar vicente

    Seria pedir demais que o reporter fizesse justamente aquilo que se espera; noticiar FATOS? Veridicos, não ficção ideológica neo-liberal. Por favor, ajudem a humanidade fazendo o que se espera e o que não é pouco. Tragam a VERDADE e nos libertem, mais Assange e menos catanhedes, mervals, mainardis, e outras perdas de tempo

  9. Comentou em 04/01/2011 Wendel Anastacio

    Carlos, realmente são muitas as perguntas e poucas as respostas!
    Contudo, acredito que os profissionais da imprensa seja ela escrita, televisada e/ou digitada (virtual), continuará sua trajetória querendo nós ou não! Hj, acredito para felicidade geral, estamos vivendo uma época onde a informação/notícia, tem mão dupla, e não como antigamente, que para contestar/retificar e/ou ratificar alguma questão, deveria irmos ao judiciário, onde não raras vezes, a retificação era feita nas páginas internas dos jornais e em espaços muito menor do que a notícia anterior!
    Como já afirmei diversas vezes, em matéria de jornalismo daqují por diante, e depois do Wiki, iremos nos referir a este período como o antes e o depois, pois julian/wiki é um divisor em matéria de jornalismo/informe ou seja lá o que dizem, pois mostrou que ‘o rei está nú’!

  10. Comentou em 04/01/2011 Graziela Angelo

    É isso aí Carlos, vamos continuar refletindo sobre os rumos dessa profissão tão obscuros ainda…

  11. Comentou em 04/01/2011 Márcia Coelho

    Carlos, o tempo todo, durante a leitura do seu artigo, me indagava sobre qual seria o papel da política dentro desse novo contexto jornalítico que você apresenta. Sim, porque a imprensa clássica pressupõe o cidadão político como o centro de suas preocupações – daí o pressuposto da centralidade da política no noticiário. Há também o viés da imprensa que coloca a vida privada e o consumidor no centro da cidadania, piorizando a veiculação de fofocas sobre as celebridades e as notícias que envolvem o mundo do consumo. Pelo que entendi, nesse ‘seu’ novo modelo jornalístico são as redes sociais o novo centro de exercício da cidadania. É isso mesmo? (Nessa perspectiva, o valor de mercado do Facebook vai continuar multiplicando, não é verdade?).

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