Sexta-feira, 25 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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CÓDIGO ABERTO > Desativado

Pesos distintos nos desmentidos e a luz de Elio Gaspari sobre a ‘falsidade múltipla’

Por Alceu Nader em 22/11/2005 | comentários

Conforme o último post registrou, O Estado de S.Paulo publicou, no sábado passado, ‘carta’ da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, desmentindo que o documento que sustentou a manchete principal do jornal no dia anterior fosse de sua pasta ou de sua autoria. Sem ratear, o jornal publicou a ‘íntegra’ do desmentido, mas não explicou aos seus leitores porque, no dia anterior, sua manchete principal se sustentou sobre um documento que, segundo a ministra, é falso. Nessa reportagem, o tal documento comprovava a tese de a guerra entre Dilma e o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, era anterior à entrevista que a ministra concedera para o mesmo jornal na semana anterior. A propósito, o Contrapauta também mostrou como as palavras-chave da entrevista – ‘rudimentar’ e ‘desqualificado’ – foram paulatinamente deturpadas nos dias posteriores.


Caberia pelo menos um aviso de correção do jornal?
Se ela diz que não escreveu o documento da manchete, de onde afinal ele teria partido?
Por que o jornal não explicou aos seus leitores nem desmentiu a ministra?


No dia seguinte, domingo, o mesmo Estado confirmou a política dos dois pesos e duas medidas ao publicar uma nota de correção sobre reportagem do dia anterior que tratou da posse do senador Tasso Jereissati (CE) na presidência do PSDB. Disse o jornal que, ao contrário do que afirmara sua reportagem, o ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, foi, sim, aplaudido pelos correligionários do partido na cerimônia.


Resumo da ópera: sobre a publicação de um documento de autoria negada, sobre o qual se supõe haver uma prova concreta (o próprio documento), o jornal publica o desmentido como ‘íntegra da carta da ministra’. Já a impressão da reportagem sobre a falta de entusiasmo do público na festa tucana – ainda se considerando que houve erro na avaliação auditiva do repórter – o jornal traz prontamente sua nota de correção.


Esse comportamento – não exclusivo do O Estado de S.Paulo, diga-se – enquadra-se no que o jornalista Elio Gaspari escreveu em sua coluna publicada na Folha de S.Paulo e no O Globo, domingo passado, no texto ‘Os tucanos exterminadores’.


No artigo de leitura mais do que recomendada, Elio Gaspari remete para ‘o magnífico ensaio’ do jornalista Richard Rovere, sobre a manipulação dos fatos denominada ‘a falsidade múltipla’. Reproduzindo palavras do próprio Rovere, a coluna acendeu a luz:


‘A falsidade múltipla não precisa ser uma grande falsidade, mas pode ser uma longa série de falsidades tenuemente conectadas, ou uma simples falsidade com muitas facetas. Em qualquer caso, o conjunto tem tantas partes que se torna impossível mantê-las simultaneamente na cabeça. Qualquer tentativa de demonstração da falsidade de algumas afirmações, deixa a impressão de que só aquelas afirmações são falsas e as outras são verdadeiras’.


Faz o maior sentido e se encaixa perfeitamente nos vários procedimentos adotados pela mídia nos seis últimos meses de crise política.

Todos os comentários

  1. Comentou em 26/11/2005 João Humberto Venturini

    O jornal Estadão esqueceu de dizer que FHC foi extremamente aplaudido e idolatrado pelo repórter do jornal que cobria o evento. Aliás o jornal parece mais assessor de imprensa do PSDB do que qualquer outra coisa. Ainda bem que Alceu é um dos únicos que critica o jornal, pois este é o maior representante da extrema-direita oligarquica no país hoje no caso de jornais.O Estadão só elogia as atitudes tucanas em todos os governos e se esquece ou da pouca ênfase a denuncias contra administrações tucanas e pefelistas. O jornal é muito paga-pau de ex-membros do governo anterior, tanto que toda semana é recheada com artigos destes. Já postei vários artigos no site de mídia independente analisando o comportamento as até fascista do jornal em relação a direitos humanos e questão agraria, pois nesta questão o jornal parece até defender trabalho escravo em fazendas do ‘sagrado’ agronegócio. Acho que o jornal deveria pelo menos publicar opiniões diferentes e tb publicar opiniões de leitores como eu que não concordam com a linha editorial do jornal. Concluo que não só o Estadão ,mas a grande imprensa em geral censura o que e quem eles bem entendem.

  2. Comentou em 23/11/2005 Odracir

    Caro Alceu. Na sua ansiedade em somente apontar o erro do Estadao, voce nao incorre no mesmo erro. Jaa li artigos do Elio Gaspari (que muito aprecio) que tambem eram tendeciosas, lembro de um no qual fazia propaganda para a Marta Suplicy (mais ou menos estava escrito que ela ia ganhar a reeleicao pq dava uniforme novo para os estudantes da rede municipal). Isto nao o desqualifica (soo mostra qto humano sao os jornalistas). Nao seria melhor partir do pressuposto que toda a noticia da midia ee tendenciosa, mas dai perde todo o sentido do post, nao!? O fato de que vc ‘ataca’ o estadao soo mostra as suas preferencias (o que nao minha opiniao o desqualifica como jornalista tb). Alias, eu acho que atee classificados e obituarios de jornais sao tendenciosos… abcs, Odracir.

  3. Comentou em 23/11/2005 taciana oliveira

    Por que jornais como A Folha deixaram de ser assinados por mim e outros nordestinos? Por essa deturpação da verdade que é natural a eles, mas, em horas de crise é intencional, como agora.Por exemplo:’o ladrão,paraibano, 20 anos’.Se for cientista e for nordestino, ou a sua descoberta é minimizada,se for divulgada, ou não se indica o seu Estado de origem.A imprensa tem o desplante de dizer UM TIPO NORDESTINO,como se de fato existisse um tipo no Nordeste,como de resto no Brasil.Não vejo,nunca ví,nenhum comentário dos críticos da imprensa a esse tipo de coisa, talvez por que faz parte do universo cultural de vocês que há um ‘tipo’ realmente de nordestino, não só físico mas também moral. Parece que este comentário nada tem a ver com o tema do articulista mas vem da mesma cepa: a verdade tem duas versões ou uma só? Quando a VEJA, sucessivamente publicou verdades, inverdades ou meias-verdades sobre ações atuais do governo e pretéritas de seus membros,em páginas nobres,em manchetes na maioria das vezes desconectadas do conteúdo, deu aos desmentidos o tratamento de cartas, espremidas após o nobre espaço da coluna do leitor que se manifesta coincidentemente SEMPRE A FAVOR DA JUSTIFICATIVA IDEOLÓGICA DA REVISTA.Quanto ao Estadão,salvo sua breve incursão pela defesa da liberdade de imprensa na ditadura, sempre teve uma postura parcial de direita, amiga da verdade que lhe convém.

  4. Comentou em 23/11/2005 taciana oliveira

  5. Comentou em 22/11/2005 Antonio Mello

    Absolutamente patético. Não há outra forma de tratar o espetáculo deprimente de ver um bando de repórteres, como foquinhas amestradas, correndo atrás do presidente Lula, debaixo de um temporal, e gritando:
    – E o Palocci?
    – E o Palocci?
    – E o Palocci?
    – E o Palocci?
    – E o Palocci?
    – E o Palocci?
    – E o Palocci?
    A cena foi na hora em que o presidente saía de um congresso de agricultura familiar, em Luiziânia. Sei que eles não têm culpa. Os chefes de redação, ou os chefes dos chefes, exigem esse comportamento deles.
    Em ‘Midiagenia: crônica de uma morte anunciada’, artigo publicado na semana passada no Jornal do Brasil, denunciei esse processo. Parece que a imprensa só vai sossegar quando conseguir inverter completamente a ordem natural das coisas e, ao invés de o fato virar notícia, a notícia (demissão de Palocci) virar fato.
    Aí todos vão falar: Eu não disse?
    http://blogdomello.blogspot.com

  6. Comentou em 22/11/2005 Iolando Fagundes

    Antes eu fazia questão de ler todos os jornais e comparar as matérias. Hoje, já estou de saco cheio de ver o óbvio. Já virou lugar comum números que não batem, diálogos deturpados, palávras distorcidas, título de matéria que não batem com o conteúdo das matérias, e por ai vai. Nos meus 40 anos de vida nunca vi nada igual. No entanto, o que mais me avilta a alma é perceber que muitos jornalistas sérios se omitem, não debatem e ainda tentam defeder o que não cabe defesa. A imprensa praticada hoje no país, com raras e valiosas excessões, não está preucupada em esclarecer a verdade dos fatos e sim em perpetuar fuxicos, dignos de beatas provincianas,debruçadas sobre a janela, falando da vida alheia. Nunca pensei que veria Rio e São Paulo como províncias, tão pouco os grandes jornais como janelas, povoadas por Beatas travestidas de Jornalistas a destilar picuinhas ao vento. O que diferencia a província do eixo Rio/São Paulo e uma cidadezinha, é que quando as beatas da cidadezinha espalham fofocas, as consequências são mínimas, no entanto, quando as beatas das grandes provincias atuam, grandes interesses estão em jogo, tais como: inversão de poder e grandes somas de dinheiro, que são ganhas ou perdidas. Em outros países, fuxicos como os que são reverberados atualmente na mídia, são tratados pelo código penal como crime contra o sistema financeiro. Repito as palavras do Lula, ‘ querem especular, procurem a bolsa de São Paulo!’ Ainda bem que, para a minha felicidade e de todos aqueles que não aceitam manipulações de qualquer ordem e possuem capacidade de dicernir factóides de fatos, jornalista como você Nader, fazem parte das valiosas exceções. Grande abraço!!

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