Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Pesquisa mostra que blogosfera policial tornou-se um grupo de pressão dentro da estrutura de segurança pública

Por Carlos Castilho em 04/11/2009 | comentários

A pesquisa organizada pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), da Universidade Cândido Mendes (RJ), e pela delegação da UNESCO no Brasil é uma prova de como os weblogs estão subvertendo hierarquias em algumas das mais verticalizadas e centralizadas organizações da sociedade contemporânea.


 


Nos quartéis ou delegacias policiais um subordinado não ousa criticar o seu superior ou protestar contra alguma ordem dos comandos, mas nos 70 blogs listados na pesquisa e produzidos por policiais civis e militares em todo o Brasil, o que mais se discute são salários, injustiças, privilégios, política e questões de segurança pública. Se não fosse pelo título, talvez fosse difícil identificá-los como páginas produzidas por policiais fardados e a paisana.


 


O trabalho coordenado pelas pesquisadoras Silvia Ramos e Anabela Paiva é uma radiografia da blogosfera policial e oferece uma rara oportunidade de observar como a mudança de valores provocada pela internet conseguiu penetrar até mesmo em organizações caracterizadas pela falta de transparência pública.


 


A primeira grande surpresa revelada pelo estudo é a constatação de que os policiais consideram o blog como uma ferramenta política (40% das opiniões emitidas no questionário online). Este fato se torna ainda mais interessante quando a pesquisa mostra que 58% dos blogueiros consultados são considerados subalternos dentro da estrutura das polícias militar e civil. Como era previsível, os homens formam mais de 90% do conjunto da amostra pesquisada.


 


Geograficamente, a maioria dos blogs policiais está concentrada no Rio de Janeiro (22 dos 70 pesquisados), seguindo-se São Paulo (11 blogs),  Minas (10), Goiás (7), Rio Grande do Sul (três blogs) e Bahia, onde está o Abordagem Policial. Onze estados brasileiros têm menos de dois blogs policiais listados na pesquisa do CESeC e da UNESCO/Brasil.


 


Nada menos que 58,9% dos blogs pesquisados, quase todos criados a partir de 2007, são produzidos por membros das polícias militares, seguindo-se os integrantes das guardas municipais (15,1%) e os policiais civis (13,7%) e os bombeiros, com 4,1%. Policiais aposentados ou na reserva e os policiais rodoviários federais participam com 1,4% cada, na amostra. Curiosamente não aparece nenhum blog produzido por integrantes da Polícia Federal.


 


Outra constatação surpreendente: apenas 1/3 dos entrevistados tem menos de 29 anos, contrariando a idéia de que a blogosfera é dominado pelos mais jovens. No caso da pesquisa sobre blogs policiais, os blogueiros com mais de 40 anos foram 37,7% do total estudado e 62% de todos têm curso superior completo, incluindo pós-graduação.


 


O índice de visitação dos blogs policiais é baixo. Quase 70% deles têm menos de 500 visitas diárias e, dos restantes, 26% chegam aos mil acessos por dia. Muito pouco se comparado aos 250 mil acessos diários do blog Caso de Polícia, do jornal Extra, do Rio de Janeiro. Mas a repercussão dos textos publicados é grande porque a maioria esmagadora dos visitantes é formada por pessoal da segurança pública e organismos de segurança.


 


A blogosfera policial não se limita aos PMs, bombeiros e policiais civis. Também há jornalistas participando deste diálogo horizontal sobre segurança pública, alguns deles veteranos no uso de blogs como Jorge Antonio Barros, autor do Repórter do Crime, publicado no jornal carioca O Globo desde 2005. Outro blog jornalistico famoso na blogosfera policial é o Body Count (Contagem de Cadáveres) produzido em Recife por quatro repórteres que imitaram um modelo norte-americano.


 


O interessante na blogosfera policial é que ela funciona basicamente movida por questões internas, ou seja, se transformou num canal de diálogo não apenas entre comandantes e subordinados, mas também entre membros de diferentes corporações e até com jornalistas e pesquisadores da segurança pública.


 


É claro que o marketing tem uma razoável participação, como mostrou o comandante da Policia Militar do Rio de Janeiro, coronel Mario Sergio Brito Duarte, que no dia seguinte à sua posse, em agosto de 2009, criou um blog do comando da PM carioca.


 


Os subordinados do coronel Duarte não esperavam muita coisa além de um novo canal para divulgar ordens de serviço, mas o gesto do comandante acabou legitimando todos os demais blogs de integrantes da corporação e dificultou a adoção de represálias contra os policiais que porventura criticarem seus chefes ou as políticas de segurança pública no país.


 


A janela estreita que se abriu no fechado universo dos quartéis e delegacias pode dar à sociedade a chance de ver o que há de podre dentro da estrutura policial brasileira. Vai também poder mostrar até que ponto a formação de redes entre policiais blogueiros está criando uma estrutura deliberativa paralela que põe em xeque valores centrais nas corporações, como é o caso da cadeia de comando vertical.


 


Leia também


 


Os blogs no debate sobre segurança pública – Nelson Souza Aguiar

Todos os comentários

  1. Comentou em 06/11/2009 George Felipe de Lima Dantas

    Já era de esperar, portanto, que ‘boas más perguntas’ de
    cunho político-ideológico fossem formuladas com viés certo
    e constante, ingenuamente respondidas por blogueiros policiais e que
    são, na verdade, a ‘primeira linha’ da transparência da categoria.
    Mas inverte-se um jogo histórico com uma abertura dos policiais e
    suas instituições. O que não parece ter sido invertida é a atitude
    intelectual de nichos acadêmicos na ‘demonização’ dos policiais e de
    suas instituiçõe

  2. Comentou em 06/11/2009 George Felipe de Lima Dantas

    É sintomático como pesquisas externas sobre temas policiais, desde
    as que focam questões as mais técnicas possíveis da atividade-fim,
    até as de cunho sociológico e cultural interna-corporis, como ao
    buscar decodificar e interpretar os simbolismos prevalentes no
    ‘ethos’ da categoria tenham que terminar sempre por algum tipo de
    conclusão de negatividade extrema. Isso vai citado textualmente no
    que vai acima no artigo de Carlos Castilho: ‘dar à sociedade a
    chance de ver o que há de podre dentro da estrutura policial
    brasileira’. Não participei do grupo daqueles que
    produziram respostas aos instrumentos, exatamente por temer a
    hipótese, agora confirmada, da ‘tábula rasa’ sempre negativa ao final
    de qualquer inferência sobre amostras da população policial do país.
    E Carlos Castilho não está incorreto no que ele próprio infere do
    universo amostral, após a coleta e compilação das respostas da
    ‘survey’.

  3. Comentou em 05/11/2009 Marcos Chaves

    Aqui tem censura aos Comentários? Certo é que não publicarão este questionamento.

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