Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Pesquisa tenta desvendar os mistérios do leitor virtual

Por Carlos Castilho em 14/05/2011 | comentários

Se depender dos resultados de uma pesquisa do Projeto pela Excelência do Jornalismo (PEJ), dos Estados Unidos, a produção de notícias tende a se tornar uma tarefa cada vez mais complexa, diversificada e imprevisível. É que os dados apontaram a existência múltiplos tipos de leitores, cada um com suas características e necessidades informativas.


Depois de pesquisar o comportamento dos leitores de 25 sites noticiosos na internet norte-americana durante nove meses, o trabalho patrocinado pelo Centro de Pesquisas Pew chegou a constatação de que existem vários tipos de leitores, o que leva à conclusão de que é inviável criar um padrão único de produção noticiosa.


Na teoria, isso não chega a causar espanto porque todo o profissional que tem um mínimo de faro noticioso sabe que a diversidade social é um fato. O problema é que as conclusões da pesquisa nos levam a refletir sobre o modelo de produção de notícias adotado pelos jornais e pela indústria jornalística.


Até agora era muito difícil pensar na diversificação da produção informativa porque havia a necessidade de um forte investimento para comprar rotativas ou equipamentos eletrônicos para rádio ou TV. Para que o investimento valesse a pena, era imprescindível a produção em massa de conteúdos com características unificadas para atingir o maior número possível de consumidores, com preços acessíveis.


Mas quando surgiram a computação digital e a internet, a situação mudou. A necessidade de capital para publicar notícias ficou reduzida ao preço de um computador e do acesso à web. Com isso a queda no custo de produção de informações caiu brutalmente, gerando um crescimento vertiginoso no número de usuários e com ele uma enorme demanda por diversificação noticiosa.


Este processo explica os resultados da pesquisa feita pelo PEJ e mostra qual a natureza do dilema enfrentado pelos jornais e emissoras de rádio e TV. Só entendendo como e por que surgiu a chamada Economia da Informação em Rede (Networked Information Economy) é que será possível superar os impasses criados pela Economia da Informação Industrial (Industrial Information Economy) [definições de modelos econômicos de produção inspiradas no trabalho de Yochai Benkler, autor de The Wealth of Networks, Yale University, 2006].


A notícia não pode mais ser produzida de forma industrial conforme o modelo convencional de negócios dos grandes grupos contemporâneos da mídia. E é isso que dificulta a solução do problema da queda de receita dos jornais porque o produto que eles oferecem — além de ser caro, pela necessidade de gerar retorno do capital investido — não consegue atender à diversificação de interesses dos usuários.


O que os donos de jornais estão tendo dificuldade de entender é que a economia da informação mudou e que isto implica novos processos de produção e de faturamento. O modelo convencional não oferece mais o mesmo retorno financeiro. É possível que algumas empresas consigam descobrir alternativas, mas a grande maioria está fadada a desaparecer, da mesma forma que as máquinas de escrever e calculadoras mecânicas saíram do mercado.


A pesquisa mostrou que o site Yahoo! News tem quase três vezes mais visitantes que a versão online do The New York Times, o jornal tradicional mais procurado e mais confiável entre todos os incluídos na investigação. Isso comprova o prestigio do Times mas mostra que os leitores preferem informação diversificada, já que o Yahoo! poderia ser comparado a uma revista de variedades.


O usuário de informações online é inconstante e prefere visitar várias fontes ao contrário do leitor convencional, cujo cardápio informativo é reduzido a duas ou três fontes. Nada menos que 70% dos usuários visitam o mesmo site de notícias no máximo duas vezes por mês, e não ficam mais de cinco minutos em cada um deles.


Muitos consideram isso um sintoma de superficialidade cognitiva, sem levar em conta as mudanças ocorridas na ecologia informativa do mundo digital.


 

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/05/2011 Plínio Bortolotti

    Carlos,
    Ainda que seja medida a se levar em conta, o número de visitantes a
    determinada informação, precisa ser visto com cuidado. Normalmente
    são notícias tipo ‘mundo bizarro’ ou de ‘celebridades’ aquelas com
    maior número de acessos. Nada contra quem queira oferecer tais
    informações – os jornais também tem a sua dose disso -, mas se
    falarmos de jornalismo, creio que a coisa muda um pouco de figura.

  2. Comentou em 15/05/2011 Antonio Brasil

    Parabéns, Castilho. Muito bom. O x da questão é reconhecer essas ‘mudanças’ antes que elas ‘mudem’ novamente. É dura a vida dos pesquisadores e analistas de mídia. Em outros tempos, filósofos gregos também acusaram os ‘leitores’ de livros de ‘Superficialidade cognitiva’, perda de memória oral. Deve ser muito difícil viver em um mundo que insiste em mudar. Forte abraço do admirador e amigo, Brasil.

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