Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Petróleo de Tupi põe a mídia à prova

Por Luiz Weis em 14/11/2007 | comentários

Já perto do fim de uma matéria da Folha desta véspera de feriado sobre o petróleo de Tupi, um consultor estrangeiro, Mattew Shaw, diz que, se tudo correr como a Petrobras espera, o campo – uma área de 800 km de comprimento por 200 km de largura, do Espírito Santo a Santa Catarina – poderá gerar 1 milhão de barris por dia de óleo leve, de alta qualidade.

Um milhão de barris é metade de toda a produção brasileira diária prevista para 2008.

Repito: um milhão de barris é metade de toda a produção brasileira diária prevista para 2008.

“O impacto será grande”, diz a fonte, numa avaliação que já teria nascido franca favorita a um imaginário concurso de frases que são o máximo em matéria de dar a proverbial pálida idéia sobre alguma coisa.

Grande, Mr Shaw, é apelido – se tudo correr como a Petrobras espera, naturalmente.

Vem a calhar essa discreta passagem do alentado noticiário do dia sobre o que pode mudar no país, começando pela legislação do setor, a se confirmarem as previsões de que o mar de petróleo da chamada Bacia de Santos é muitíssimo maior do que se dizia quando a existência dessa jazida em águas profundas foi anunciada pela primeira vez, em julho do ano passado.

Vem a calhar porque coloca a mídia diante de um desafio que se prolongará por um tempo impossível de estimar a esta altura. É uma pauta nova que a força dos fatos impõe à imprensa.

Desde que neste país se começou a furar poço, como diria o inolvidável Severino Cavalcanti, ou pelo menos desde que a campanha do “petróleo é nosso” galvanizou a população, meio século e tanto atrás, a mídia não foi tão solicitada como agora, objetivamente, a explicar, tornar a explicar, explicar de novo e ainda uma vez e ainda outra o que estiver em jogo no processo que poderá culminar com a entrada do Brasil na liga dos 10 maiores produtores mundiais do tal ouro negro.

Os jornais de hoje dão um passo nessa direção quando procuram mostrar o que são e no que se distinguem as políticas de exploração de petróleo adotadas pelos diferentes países.

O gancho é a decisão do governo de aplicar aos 41 lotes da Bacia de Santos, retirados da próxima licitação de concessões, regras diversas das que a Lei do Petróleo, de 1997, prevê para essa modalidade de contratos de extração do combustível.

A questão imediata é se o marco regulatório específico para Tupi que o governo contempla demandará mudanças na lei – ou seja, via Congresso – ou se bastará um decreto presidencial, dando ao Estado um percentual maior que o costumeiro de lucros, sob a forma de royalties e “participações especiais”.

Se eu disser que são grandes os interesses em confronto no caso, estarei – à maneira do consultor ouvido pela Folha e citado no início deste texto – dando apenas uma pálida idéia da coisa.

A identificação desses interesses é uma das tantas explicações continuadas que o público tem o direito – e a necessidade – de receber da mídia daqui para a frente.

Porque a sociedade precisa de toda a informação que puder absorver – daí a insistência no jornalismo explicativo – diante do que leva todo o jeito de se tornar um prolongado torneio de queda de braço, envolvendo o Estado, a Petrobras de que é sócio maior, empresas e governos estrangeiros.

Nas edições do dia, entre reportagens, artigos e editoriais, a imprensa tende a ecoar os pontos de vista segundo os quais é no mínimo imprudente e no máximo lesivo ao interesse nacional o governo mexer no sistema de concessões em vigor na área de petróleo.

Pode ser, mas não ficou demonstrado – e talvez nem fique enquanto não se souber mais sobre o tesouro Tupi, o custo estimável de sua exploração, e a evolução, sempre incerta, das cotações do produto.

Porque a economia do petróleo ensina que a extração off shore de depósitos profundos – que custa três ou até quatro vezes mais do que nos outros casos – só compensa quando o valor de mercado do combustível é de US$ 60 o barril para cima.

E esse, por decisivo que seja, é um entre muitos aspectos – econômicos, políticos e estratégicos – de um problemaço que desde logo põe à prova a aptidão do jornalismo brasileiro para informar e elucidar.

Todos os comentários

  1. Comentou em 16/11/2007 olindina vilasboas

    Perfeito, LW!!!!
    Um primor de texto, dá exata noção de todas as facetas do achado em questão.
    Parabéns!

  2. Comentou em 16/11/2007 Carlos Cassaro

    Que eu saiba, a legislação prevê ‘joint ventures’ em contratos DE RISCO, para TENTAR localizar petróleo. Neste caso específico, o petróleo já foi encontrado, e portanto, não gera risco nenhum. Estaria, então, fora das premissas para oferta às empresas de pesquisa…

  3. Comentou em 15/11/2007 Wagner M Mor

    Caro amigos. Gostaria de lembrar que estamos em crise ambiental.
    Por mais que apareçam reservas de gás ou óleo elas devem ser guardadas para um futuro uso, pois com toda a tecnologia existente ainda se trabalhado gerara poluição e gás estufa.
    Portanto isso deve ser um prato cheio pra mídia e oposição.
    Boa sorte a todos.

  4. Comentou em 15/11/2007 Antonio Lyra Filho Filho

    É impressionante como estão usando esta conquista do Brasil politicamente. Em vez da confirmação da descoberta da jazida trazer alegria para todos os brasileiros, existem muitos que ficaram bastante tristes. A grande imprensa, tem tentado de tudo para minimizar o impacto da descoberta. Só existe um motivo para isto, ter acontecido durante a gestão de Lula.

  5. Comentou em 15/11/2007 Luiz Siqueira Paes

    Primeiro passo: O governo federal comprar todas as ações da Petrobrás na bolsa de NY colocada no gov. do Sr. FHC (O vendilhão do templo).
    Segundo passo: acabar (através de leis)definitivamente com os leilões para exploração do petróleo por empresas estrangeiras. Passando a exploração ser de exclusividade da Petrobras.
    E todos os brasileiros encampar um movimento cívico de proteção a esta riqueza que estamos recebendo e não deixando que interesses escusos nos surrupiem mais essa.

  6. Comentou em 15/11/2007 jedeão Carneiro

    Para a mídia, que só se contenta em dar notícia ruim, a descoberta de Tupi é um problemaço!

  7. Comentou em 15/11/2007 Marcelo Ramos

    Ótimo artigo, Weis. Levantou as perguntas certas. Se elas vão ser respondidas, aí é outra questão. Eu acrescentaria que essa jazida muda a relação geo-política do Brasil com a América Latina e com o resto do mundo. Só para ter uma idéia, no anúncio da confirmação, as ações da Petrobrás subiram 15%. Quanto subirão quando for extraído o primeiro barril? 20%? E não creio que Lula não faça seu sucessor. Com esse projeto de poder à curto prazo? E ainda, com projeto da Copa de 2014? Só sobe a rampa quem Lula quiser. Os grupos de comunicação vão ter que rebolar pra criar uma crise nova.

  8. Comentou em 15/11/2007 Euclides Rodrigues de Moraes

    Sr. Weis, Se nós nos guiarmos pela mídia, o Brasil será o responsável, pelo fato mais extraordinário dos últimos 100 anos: Seremos detentores do único poço de petróleo que deu prejuízo no mundo!

  9. Comentou em 15/11/2007 Toni Ferro Ferro

    A descoberta (ou a confirmação) da jazida de Tupi foi a pior notícia possíval. Para a mídia, é claro!

  10. Comentou em 15/11/2007 Norton Drongek

    Numa visão conservadora, é necessário explorar essas jazidas, mesmo que o preço não esteja momentâneamente recompensador, pois figura como uma das commoditys essenciais. Haja especulação e politicagem pra definir o quê é de quêm; só não vá cair, Weis, na tentação de permanecer no contexto da oposição nacional, cujo ‘problema é que só vê ´pobrema´’. Azar dos jornalistas tradicionais e seus editorialistas amigos. Ótimo pra sociedade, que deverá ver surgir uma outra forma de participação nas opiniões, já que novos meios informativos tendem a suprir e suplantar a antiga calh´orda permissiva que se julgava informativa. Outra coisa, sobre a reserva, quem deu a notícia dita requentada para o povo brasileiro foi praticamente o neo-Bolívar Hugo 3º. Sinceramente, viria bem a calhar também um Lula 3º, por que qualquer outro governante não haveria de sustentar por mais tempo as diretrizes que, bem ou mal, elevaram as cotações do Brasil mundo afora. Senão, qual outro cargo poderia ele ocupar?

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