Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Pílula dourada ameniza estagnação na circulação dos jornalões

Por Alceu Nader em 14/02/2006 | comentários

O título da reportagem do último domingo na Folha de S.Paulo, p A-6, não deixa margem para dúvidas: ‘Circulação de jornais aumentou 3,9% no ano passado, diz IVC’. A afirmação dá a entender que efetivamente houve um aumento na tiragem dos jornais brasileiros, mas, ao se ler a matéria, vê-se que o tom triunfalista não procede – muito pelo contrário, como, aliás, mostram os números e os gráficos que acompanham o texto.

A meia-verdade – ou meia-mentira, pode-se escolher – dá as caras no título e dribla o leitor do começo ao fim. Não há qualquer cifra indicando crescimento entre os maiores jornais do país, com exceção do O Globo, mas sim estagnação.

Aos números:

Em 2000, a Folha de S.Paulo tirava, em média, 440,7 mil exemplares por dia; em 2001, escorregou para 399,7 mil; em 2002, caiu para 346,6 mil; em 2003, encolheu para 314,9 mil; em 2004 diminuiu para 307,7 mil e, em 2005, cresceu 307,9 – ou seja, 200 exemplares a mais do que no ano anterior.

O Estado de S.Paulo também desceu a ladeira: 399 mil exemplares em 2000; 341,3 mil em 2001; 268,4 mil em 2002; 253,4 mil em 2003, 233,5 mil em 2004 e 230,9 mil no ano passado. O que os números mostram é a queda contínua desde 2000. No período, o jornal perdeu 168,1 mil exemplares – ou 33,62 mil por ano, 2,80 mil por mês.

O Globo tem o melhor desempenho, entre os jornais mais influentes do país: caiu de 322, 5 mil em 2000 para 296,3 em 2001, e tornou a encolher, em 2002, para 266,2 mil. No ano seguinte, afundou um pouco mais, para 253,4 mil e, desde então mantém-se em ascensão: 257,5 mil em 2004 e 274,9 mil no ano passado.

O Zero Hora, de Porto Alegre, ocupa o posto que, um dia, pertenceu ao Jornal do Brasil, que fechou o ano passado com melancólicos 68,2 mil exemplares diários, quantia ainda menor do que sua recente irmã, a Gazeta Mercantil, que fechou o ano de 2005 com 74,5 mil. O Zero Hora também perdeu eleitores entre os anos 2000 e 2001 – 182,mil exemplares, contra 167,9 mil -, recuperou-se nos três anos seguintes, alcançando a média diária, em 2004, de 180,4 mil, mas voltou a retrair-se em 2005, fechando o ano com média diária de 178,2 mil exemplares.

A reportagem também traz números de três jornais ‘populares’ – Agora, Diário de S.Paulo e Jornal da Tarde – mas o quadro é igualmente desalentador. Dos três, apenas o Agora esboçou alguma reação nos dois últimos anos, com 80,6 mil exemplares em 2005, apenas 400 a mais do que no ano anterior.

‘Os números auditados pelo IVC confirmam que a maior expansão ocorreu entre os jornais populares, cuja circulação total cresceu 7% no ano passado: 1,158 milhão de exemplares contra 1,082 milhão em 2004. A circulação dos jornais regionais cresceu 1,4%’, completa o texto.

Dois diretores da Associação Nacional dos Jornais comparecem no texto. Fernando Martins, diretor-executivo, comparece na reportagem. Primeiro, ele afirma que.’desde meados do ano passado, já se percebia um aumento consistente da circulação de jornais no país’. O ‘crescimento’ visto pelo diretor da associação, ele próprio adverte não se deveu à entrada da crise política nas manchetes, mas sim a outras medidas que aprimoraram os departamentos de vendas e assinaturas. ‘As empresas se preocuparam muito com a qualidade da prestação dos serviços aos assinantes. Isso, de certa maneira, também alavanca as vendas’, acredita ele.

Mais adiante, ele escorrega dizendo que 2006 está sendo esperado com otimismo pelas casas editoriais porque o ano é de Copa do Mundo e eleições. ‘A Copa do Mundo sempre dá um alento às vendas de jornais. A agenda eleitoral também deverá ter reflexos na circulação, com novos leitores interessados na campanha e nos programas políticos’, garantiu. Os números de 2002, também de Copa e de eleição, entretanto, mostram exatamente o inverso.

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/02/2006 fernando yassu

    Alceu, dá para saber como andam as revistas semanais e até as mensais?

  2. Comentou em 15/02/2006 Líbero Badaró

    Sorte sua, caro Bruno Silveira, nunca ter lido o abjeto jornaleco do grupo RBS. No mais, esta sua especulação estatística não o levará a concluir muita coisa relevante. O monopólio da RBS no RS é avassalador, principalmente por contar com as emissoras da RBSTV no estado para propagandear os lixos que produz. Sabe quem tem sido o campeão de vendas na tradicional Feira do Livro de Porto Alegre? Um tal de Anonymous Gourmet, irmão do dono da LP&M, com livrinhos de receitas. Pois o cara é colunista de ZH e tem um programa nas emissoras da RBS. Na tarde de autógrafos, a fila pra pegar a assinatura do camarada dava voltas e voltas na praça. No mesmo dia, mestre Moacir Japiassu recebeu…três pedidos de autógrafo! Estatisticamente, meu caro, os gaúchos lêem mais que os demais brasileiros, sim. É um fato. Mas, em matéria de jornal, coitados, estão muito mal servidos. Para seu governo, em matéria de canalhice, Zero Hora equivale a duas VEJA!

  3. Comentou em 15/02/2006 Bruno Silveira

    Alceu Nader, falei muito sobre o problema dos números e acabei não comentando o conteúdo, que me impressionou também. De acordo com site do Estado do Rio Grande do Sul, a população de lá é de 10,2 milhões (Porto Alegre tem 1,5 milhão). O jornal Zero Hora, de acordo com seu post, vendeu 178,2 mil exemplares por dia, em média, no ano passado. O site do Estado de São Paulo (o Estado-membro, não o jornal) informa que aqui residem 40.341.263 pessoas. Os jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo venderam, juntos, 538,8 mil exemplares por dia, em média, durante o ano passado. A cidade de São Paulo tem 10, 11 milhões de habitantes? O que chamam de “a grande São Paulo” tem 17, 18 milhões? Entendeu aonde quero chegar? O paulista lê pouco jornal? Lê muito? E em comparação com o gaúcho, lê pouco ou muito? Há estudos a esse respeito? Claro que coloquei as coisas aqui de forma simplista, e nem teria como ser de outro jeito. É que quando vi os números do jornal Zero Hora, que eu nunca li, me bateu essa curiosidade.

  4. Comentou em 15/02/2006 Eduardo Guimarães

    Caro Alceu, tenho uma receita para qualquer jornal estourar a boca do balão de vender exemplares: basta serem honestos, praticarem um jornalismo voltado para o interesse público, praticarem a pluralidade de idéias e opiniões e, sobretudo, não tentarem fazer o leitor de idiota, ainda que as vendagens deles se mantêm graças a idiotas que não percebem que os donos dos veículos tentam impor seus pontos de vista sobre tudo a seus leitores

  5. Comentou em 15/02/2006 Bruno Silveira

    Caro Alceu Nader, no blog do Luiz Weis há a informação de que o Estadão vendeu no ano passado 230,9 mil exemplares, “o seu quinto ano consecutivo de queda” (3º parágrafo). Você diz aqui que desde 2003 ele vem reagindo. Note que, no seu blog, os números de exemplares, nos anos de 2004 e 2005, do Estadão e do Globo, são iguais. Qual dos dois está correto? O Weis, não informa o número de vendas do Globo (esse comentário vai pro blog dele também). Temos que fazer conta pelas vendas do Estadão (facilitar a vida do leitor que é bom, nada). E aí?

  6. Comentou em 15/02/2006 Líbero Badaró

    É necessária uma enorme dose de boa vontade para considerar o tablóide da RBS um jornal. Por um simples motivo: Zero Hora não faz jornalismo. Da primeira a última página, diariamente, o que ZH pratica é outra coisa. Trata-se de um pasquim calhorda, mentiroso, arrogante e, principalmente, venal. Seu enorme rabo está preso à FIERGS e aos latifundiários, barões da soja transgênica. Sem falar do atual inquilino do Palácio Piratini, que o patrocina. O relativo vigor de sua circulação deve-se apenas aos classificados, anunciados à exaustão na RBS TV, afiliada da Globo. Faz meses que sequer toco as páginas dessa gazeta desprezível. Às vezes, acidentalmente, um exemplar do jornaleco aparece em minha frente, e basta uma passada de olhos em sua capa para revirar meu estômago – e estragar meu dia.
    Tenho pena dos 178,2 mil desavisados que continuam a comprar essa porcaria.

  7. Comentou em 14/02/2006 Fabio de Oliveira Ribeiro

    Desde que a Internet começou a se popularizar, os jornais paulistas já apelaram para o telemárketing, a oferta de presentes (livros, CDs, DVDs, etc…), concessão de descontos, mudanças gráficas e publicação gratuita de anuncion ‘on line’. Como nada deu resultado agora estão apelando para a mentira. Que feio… Antes da extinção talvez resolvam recorrer à distribuição gratuíta. Mas acho que ninguém além dos donos de açougue se sentirá tentados a aceitá-los. Não sentiremos falta dos jornalões escritos.

  8. Comentou em 14/02/2006 Marcos Simões

    Acredito que o que esteja acontecendo com os jornais está relacionado com o crescimento cultural da sociedade. Os jornais tradicionais, ou jornalões, estão perdendo espaço porque o eleitor deve ter percebido que há tendências nas várias matérias das reportagens, ou seja, a parcialidade, se não era possível perceber, ficou desnudada com o aquecimento das vendas de computadores e os acessos à internet. Os blogs de notícias ou sites relacionados vieram para elucidar muitas dúvidas que pairavam a respeito do Brasil e do mundo. As pessoas notaram que as notícias nos impressos tinham viés de interesse distinto do acontecido, ou seja, as reportagens eram ‘pintadas e decoradas’ de acordo com o interesse da empresa jornalística, além da omissão de muitos assuntos de interesse público, mas não do público.

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