Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Platitudes, palpites – e uma notícia

Por Luiz Weis em 27/04/2009 | comentários

Seria impossível pedir que a imprensa não especulasse sobre o futuro da candidatura Dilma Rousseff à presidência da República a partir do momento em que a ministra revelou estar em tratamento para prevenir a reincidência de um tumor linfático, como foi identificado o nódulo removido do seu organismo.


Afinal, a primeira pergunta que há de ter ocorrido a quem quer que soubesse que Dilma é candidata e ficou sabendo que ela tirou um câncer só poderia ser: e agora?


[Aliás, depois dos telejornais do sábado, devem-se contar nos dedos os brasileiros que ainda ignoram quem o presidente Lula gostaria que o sucedesse.]


Nada mais natural, portanto, que os jornais saíssem correndo atrás dos homens do presidente, dos políticos dos dois lados do balcão e dos cientistas políticos disponíveis no fim da semana para lhes perguntar: e agora?


Colheram, com as proverbiais exceções à regra, uma safra de platitudes e palpites.


Platitudes:


** Foi um bomba.


** A sucessão presidencial entra numa fase de incertezas.


** Tudo vai depender da reação da ministra à quimioterapia e dos resultados do tratamento.


** Mesmo que ela se saia bem e a candidatura se confirme, a possibilidade de que a doença volte ficará pendurada no ar durante a campanha.


** A escolha de seu eventual companheiro de chapa mudou de figura.


** Um presidente pode ter um vice com câncer. Um presidente que teve câncer não pode ter um vice qualquer.


** Para Lula, o PT e o PMDB, sem Dilma a sucessão volta à estaca zero.


Palpites:


** Dilma candidata se beneficiará de ter tido câncer.


** A oposição irá tratá-la com luvas de pelica.


** O eleitor irá se solidarizar com ela.


** A sua imagem de mulher durona vai ficar mais humana.


** A sua imagem de mulher forte vai ficar mais forte.


** Sem Dilma, a ideia de um terceiro mandato para Lula voltará para valer.


Vamos nos entender. Todos estão sujeitos a dizer lugares-comuns e dar chutes. Poucos, quando procurados pelos repórteres para comentar uma novidade quente, silenciam se só tiverem a declarar obviedades e fazer previsões a esmo. Ninguém gosta de passar por desinformado.


Mas a imprensa não precisa publicar tudo que ouve, quando o que ouve e um prato de abobrinhas são praticamente a mesma coisa. Quando publica, sobra para o leitor, que não precisa que alguém lhe diga, com a credencial de ser uma autoridade no assunto (do contrário, não estaria sendo entrevistado), o que ele pode concluir por si próprio.


Mas o pior não foi nem o espaço ocupado por essas não-notícias. Foi a decisão do Globo de decretar em manchete, na edição de domingo, que “Câncer e tratamento longo abalam candidatura Dilma”. Nada do que o próprio jornal publicou nesse dia, nenhuma informação, nenhuma suposição, suporta a teoria do abalo. Nem poderia, pela crassa razão de que é cedo para saber.


Foi o que ressaltaram, por exemplo, os colunistas da Folha Eliane Cantanhêde (“O imponderável”), no domingo, e Fernando Rodrigues (“Dilma e o câncer”), na segunda.


“Nunca se sabe o dia de amanhã”, escreveu ela. “Nem sobre a eleição de amanhã.”


“É ocioso especular”, escreveu ele, “como será a recuperação da ministra ou sobre sua disposição para a empreitada da eleição presidencial de 2010”.


Agora, notícia que é bom, só uma – e ainda assim no condicional. A repórter Vera Rosa, de O Estado de S.Paulo, apurou que Dilma “está tão otimista em relação ao tratamento” que admite “antecipar a saída do governo para janeiro de 2010 para se dedicar exclusivamente à campanha eleitoral”. [Pela lei ela teria de sair até 3 de abril, seis meses antes do primeiro turno do próximo ciclo eleitoral.]


Com isso ela compensaria a desaceleração forçada da construção de sua candidatura durante a quimioterapia.


Fonte: amigos não identificados da ministra com quem ela teria tido “conversas reservadas” no fim de semana. Pode ser, por parte dela ou deles, um balão de ensaio. De toda maneira, a repórter Vera Rosa é escolada no pedaço: ela cobre o PT desde o tempo em que o partido falava em mudar tudo isso que está aí.


Em tempo: os jornais registraram – e seria bom se viessem a comentar – que foi do presidente Lula a decisão da entrevista coletiva de Dilma, ao lado de seus médicos, no sábado. Pode ter sido por respeito à opinião pública, ou por um cálculo de conveniências, mas em matéria de jogo limpo foi um salto quântico em comparação com a farsa das versões oficiais sobre a doença do presidente-eleito Tancredo Neves, em 1985. Outro que joga limpo com o público, no mesmo departamento, é o vice José Alencar.


“Democracia 2.0”


Ocupada – ainda bem – em expor os podres do Congresso, a imprensa só de raspão trata das possíveis curas para a crônica moléstia moral que acomete a maioria dos deputados e senadores brasileiros.


E aí não dá outra: a salvação está na reforma política.


Du-vi-de-ó: a mudança das regras do jogo eleitoral – que é disso que se trata, no fundo – pode tornar os candidatos menos dependentes dos grandes financiadores das campanhas, por cima e por baixo dos panos, e aumentar a representatividade das casas legislativas. Mas nem por isso ela servirá para tornar os seus integrantes menos chegados a um privilégio ou a uma maracutaia com o dinheiro que recebem teoricamente para servir ao povo.


Mais eficiente seria pressionar pela divulgação permanente dos seus gastos, sustenta o professor (e veterano jornalista) Rosental Calmon Alves, da Universidade do Texas, em Austin.


Citado pelo colunista Merval Pereira, do Globo, ele chama a atenção para a coincidência da revolução digital com o movimento pelo acesso à informação pública – “a democracia 2.0”.


“As informações estão todas armazenadas nos computadores naturalmente”, observa. Sites brasileiros como Contas Abertas e Congresso em Foco, por exemplo, se valem disso para vasculhar o que os Poderes fazem com o meu, o seu e o nosso.


Mas, no Congresso, o armazenamento é parcial e tardio. E considerando que a instituição “se agarra a mordomias e se irrita com a divulgação de suas irregularidades”, como destaca Merval, há toda uma batalha a ser travada – pela imprensa em primeiro lugar – para forçá-la a tornar públicas as movimentações financeiras de seus membros em tempo real, ou quase isso.


Há 25 anos o Brasil perdeu, nessa mesma instituição, a batalha das Diretas Já. (Depois, o país deu a volta por cima.) Mas não está escrito nas estrelas que perderá também (e custará a dar a volta por cima) a batalha da Transparência Já.

Todos os comentários

  1. Comentou em 29/04/2009 Neusi maria Manso

    A imprensa grita muito por seus direitos sem respeitar os direitos alheios. Se faz de executivo, de legislativo e de judiciário.
    Não respeitam nem as pessoas que adoecem. Dilma está em tratamento com todas as chances de cura. Se ela será candidata ou não, não nos interessa; o ano não é eleitoral. Acho até possível que tamanha arrogância leve a imprensa a tomar o poder e nos governar.
    Até parece que ela trabalha para a Transparência Já. Engane a quem quiser. A mim, não.

  2. Comentou em 29/04/2009 dante caleffi

    Miriam ‘gripe suina’Leitão e Eliane ‘febre amarela Cantanhêde, são os expoentes da informação democratizada. Ambas ,postadas respectivamente ,no/na Globo e Folha de SP,contribuem para graduar ou o alarmismo,ou o pânico, de seu público leitor.Distante de hipotéticas ‘platitudes’,ou vulgares ‘palpites ‘. Seus textos,tem intensidade canônica, comprovado em recente histeria coletiva. Merval Pereira,inutilmente,tenta transmitir credibilidade através de sua coluna,obtendo escassos comentários indulgentes de seus pares.
    É a vida do militantes do PIG, se tornando ,cada dia mais árdua…

  3. Comentou em 28/04/2009 carlos anselmo

    temos o contas abertas e o congresso em foco para o executivo e o legislativo, respectivamente.

    daí, mãos à obra. que se crie o ‘data venia’ para escancarar o poder judiciário. os cidadãos agradecem.

    abçs

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