Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CÓDIGO ABERTO > Regulamentação da imprensa

Pluralismo estrutural na imprensa, afinal que é isto?

Por Carlos Castilho em 24/08/2011 | comentários

É a expressão que os acadêmicos criaram para abordar a questão da diversidade de enfoques jornalísticos na imprensa. A idéia que está por trás deste conceito é a de que a imprensa, como parte do mundo da comunicação, só contribui para a produção de conhecimento na medida em que seu conteúdo for diversificado, respondendo à variedade de percepções sobre a realidade.

Trata-se de uma nova abordagem da regulamentação da imprensa nesta era de transição de modelos de produção de informações. A regulamentação não seria mais uma imposição externa mas uma consequência da própria reavaliação do papel da imprensa como ferramenta de produção de conhecimento no mundo contemporâneo.

O pluralismo estrutural é uma teoria proposta pelo sociólogo inglês Anthony Giddens e que acabou dando origem a uma série de estudos na área da comunicação e da imprensa. A teoria procura enfocar a realidade da comunicação a partir da análise das suas estruturas e do seu processo de produção de conhecimento.

Neste sentido, a questão da diversidade de pontos de vista e de enfoques jornalisticos não é mais apenas uma especie de luxo informativo, mas uma necessidade decorrente da própria natureza da materia prima da imprensa: a informação, o dado e o fato. A abordagem destes três elementos depende de percepções de repórteres, editores e comentarias, o que inevitavelmente abre a possibilidade de visões divergentes.

Assim, quando mais visões diferentes forem incorporadas a uma cobertura ou reportagem jornalística mais ela se aproximará do que pode ser chamado de realidade ou verdade. Também será possível contemplar uma maior variedade de públicos já que todos sabemos que as pessoas não enxergam a realidade da mesma maneira, pois têm experiências de vida, cultura e necessidades diferentes.

O pluralismo estrutural na imprensa tanto pode ser analisado dentro de uma empresa jornalística como entre elas. No primeiro caso, trata-se de verificar a diversidade entre as pessoas que compoem a redação por exemplo, qual a proporção de homens e mulheres, de grupos étnicos e culturais, de profissionais formados ou não etc. Esta diversidade é essencial dependendo do tipo de inserção social do veículo de imprensa. Um jornal cujo público está numa área de fronteira, como Foz do Iguaçu, deve possuir uma redação e uma linha editorial que contemple a diversidade cultural da região.

O pluralismo estutural interno na imprensa é quase sempre uma decisão corporativa, ou seja, tomada pela empresa, ao contrário do que acontece com o pluralismo externo, entre empresas. Neste contexto, a regulamentação passa a ser fundamental e o pano de fundo para toda a discussão atual sobre a necessidade ou não de normas que regulamentem a existência e ação de veículos de comunicação.

A pluralidade estrutural externa pode ser alcançada de duas formas: com ou sem a participação do governo. No primeiro caso ela é o resultado de uma lei ou decreto. No segundo, assume a forma de auto-regulamentação, quando as próprias empresas resolvem adotar normas ou códigos de conduta para garantir a diversidade de enfoques jornalísticos.

O debate do pluralismo estrutural nas empresas é complicado porque elas tendem a uniformidade pela lógica do seu modelo de negócios, que privilegia a produção em massa como forma de assegurar lucros máximos com mínimo de gastos. A diversidade custa caro porque implica romper o modelo de um produto para muitas pessoas. Por isto há uma resistência inata nas indústrias da comunicação contra o pluralismo estrutural.

Mas se a lógica convencional dos negócios aponta na direção da uniformidade do produto final, no caso a notícia, a lógica da produção de informações e de conhecimento sinaliza na direção da diversidade. A avalancha informativa gerada pela internet criou uma enorme diversificação das fontes de informação colocando a indústria da comunicação diante de um dilema. Se ela não assumir o pluralismo estrutural, ela pode ser atropelada pelas novas fontes de informação na internet.

A imprensa é hoje uma parte essencial na produção de conhecimento e quanto mais diversificado for este conhecimento maior a possibilidade de que ele contribua para a inovação tecnológica, social e cultural. Como a inovação é hoje o grande motor da nova economia digital, fica fácil perceber como o pluralismo já não pode mais ser visto como um penduricalho na estratégia editorial e comercial da mídia.

As indústrias da comunicação tentam condicionar o debate sobre a auto-regulamentação de forma a impor uma diversidade estrutural segundo os seus próprios termos, o que contraria a própria definição de pluralismo, desenvolvida por filósofos sociais como Giddens. Caso elas não consigam ver o contexto mais amplo do problema, a intervenção do governo como representante da sociedade se tornará inevitável.  

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