Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Poder abre espaço para as elites do crime

Por Mauro Malin em 27/05/2006 | comentários

Se o braço do Estado não for reforçado com inteligência, o Brasil, que já incorporou aos poderes supremos as elites agrária, industrial, financeira, militar, universitária e sindical, corre o risco de garantir espaço para as elites do crime. A imprensa deve ser dar conta desse risco. Até porque já se deixou levar por criminosos dos dois lados da linha que deveria separar o que é legal do que é ilegal.


É uma reflexão que emerge dos fatos recentes, de um mínimo de conhecimento histórico (Itália, Estados Unidos, Colômbia, México, Rússia, o leitor pode escolher entre muitos casos) e de entrevista com o deputado Antonio Carlos Biscaia, do PT do Rio de Janeiro.


Biscaia disse ao Observatório da Imprensa que a mídia deveria se mobilizar para mostrar à opinião pública que o atual surto de legislação criminal improvisada que assola o Congresso não vai levar a nada. Perfeito. Deveria denunciar os contrastes do país, especialmente os de sua área específica de atuação, a Justiça. Perfeito. Deveria ela mesma fazer investigações que a Polícia e a Justiça não se mostram capazes de realizar. É uma tese discutível. Para ser sincero, isso nunca daria certo.


Biscaia faz críticas sérias à mídia – pergunta, por exemplo, por que a imprensa não mostra que alguns candidatos podem e outros não podem entrar em áreas dominadas pelo tráfico no Rio de Janeiro – mas propõe uma liberdade absoluta de imprensa, sem levar em conta eventuais excessos. É outra tese com a qual não se pode concordar. Pode-se aceitar uma formulação que trabalhe com o conceito de “absoluto”?


O deputado sugere à televisão uma conduta educativa. Tese que se pode entender, mas não acolher. Desde o início, há 55 anos, a televisão brasileira se pretendeu educativa, de uma ou de outra maneira, mas isso não funcionou para dar aos cidadãos maior liberdade em face aos poderes da República, entre eles, especificamente, o Quarto Poder, a própria mídia.


Biscaia conhece a realidade do crime. Ele foi procurador-geral do estado do Rio de Janeiro em1984-86 e em 1991-95, durante os dois governos de Leonel Brizola. Foi ele o responsável principal pelo oferecimento de denúncia contra bicheiros do Rio que foram parar na cadeia. Nesse processo houve um episódio, no tribunal, que notabilizou a então juíza Denise Frossard, hoje deputada federal pelo PPS do Rio de Janeiro. Frossard deu voz de prisão aos arrogantes bicheiros e aos seguranças que os acompanhavam dentro do tribunal.


Na entrevista ao Observatório da Imprensa, Biscaia faz críticas ao primeiro secretário Nacional de Segurança Pública do governo Lula, Luiz Eduardo Soares. Acusa-o de ter desfigurado durante o governo de transição o plano de governo de Lula para a segurança, de ter ficado quieto em 2004 e 2005 e agora, em ano eleitoral, fazer críticas contra o governo do partido de Biscaia.


Luiz Eduardo Soares responde que aceitou a redução do status da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senad) porque o “núcleo duro” do governo lhe pediu paciência e lhe prometeu uma evolução gradual que acabou não ocorrendo.


Das duas entrevistas sai mal o governo federal. Saem mal todos os governos. Todos os poderes.


Leia a seguir a entrevista de Antonio Carlos Biscaia e as respostas dadas por Luiz Eduardo Soares.



Todos os comentários

  1. Comentou em 29/05/2006 Radamés A. P. Silva

    A mídia poderia ajudar, deveria denunciar os contrastes. Fatos que ocorrem com agentes policiais com bens não compatíveis com sua renda ficam despercebidos, e conflito de interesses não são analisados, por exemplo, o fato do marido de uma advogada do PCC ser delegado não causa estranheza. Não há cobrança pela mídia de ações das corregedorias de polícia; tão grave quanto as “pizzas” do congresso, são as “pizzas” dos órgãos que apuram desvios na atividade policial e no sistema penitenciário. A Polícia Federal tem tido sucesso porque além de cortar na própria carne, utiliza intensamente o serviço de inteligência, e em suas ações, utiliza pessoal de outras regiões, totalmente alheios aos interesses da região em que ocorre a ação. Seria possível que nas polícias estaduais ocorresse o mesmo?

  2. Comentou em 29/05/2006 Edinéa Moreira da Silva

    -Que inteligência rara! Foi preciso chegar a tanto para reconhecer a degradação dos poderes? Há mais ou menos trinta anos eu já escrevia cartas para apresentadores. Lembro que ao assistir um apresentador fazendo propaganda de chave tetra (era novidade!), mandei-lhe uma carta dizendo a ele que fizesse melhor uso de sua imagem , pois, um dia ele e todos nós ficaríamos presos e os marginais assumiriam o comando. Provavelmente aquela carta nunca nem foi lida!. Os Biscaias e a imprensa sabem muito bem de suas culpas e omissões! O governo Lula é o menos culpado de todos, muito pelo contrário! Cordialmente, Edinéa.

  3. Comentou em 29/05/2006 William Magalhaes

    Não precisa ser um secretário de estado para saber qual é a realidade do crime no Brasil, e ao contrário do que diz o nosso excelentissimo presidente, que tudo isso acontece por falta de educação, os criminosos têm é muita instrução. Instrução suficiente para se organizar politicamente, desenvolver estratégias de ação, estudando os pontos fortes e fracos da ‘insegurança pública’. Eles chegaram à seguinte conclusão: o governo investe mal em segurança, o nosso sucesso depende em investir bem em insegurança, basta desenvolver um rede de comunicação, distribuição, educação, etc… Em resumo, fazer pela insegurança o que o governo não faz pela segurança. Enquanto tudo isso acontece nessa arena, politicos, comentaristas, imprensa atribuem culpas e atos de cumplicidade ao crime, uns aos outros, quando na realidade a culpa de tudo está em todos nós. Nós, politicos, jornalistas, órgãos do governo, órgãos de imprensa e cidadãos do Brasil deveríamos levantar uma frente, falando a mesma língua e assumindo nossas culpas, que os cidadãos de bem devem governar este país e que se investirmos recursos e ações todos juntos tiraremos o país dessa lama. Senão bote a culpa no Lula, no FHC, no Hugo Chaves, na Globo, no ministro, naquela revista ou jornal, no celular ou internet,……

  4. Comentou em 28/05/2006 Marco Antônio Leite Costa

    Dr. delegado Jorge, eventualmente a polícia mata pobre é puro sofisma. A polícia só mata pobre seja ele culpado ou inocente. Abraços -Marco

  5. Comentou em 28/05/2006 jorge xavier

    Não se trata de desqualificar o autor da idéia, por falta de argumentos para desqualificara a própria idéia. Contudo, nenhuma das elocubrações do sr. Luiz Eduardo Soares pode ser divulgada sem antes se prestar a informação de que ele foi posto fora do goverrno depois de acusado de haver entregue em pagamento – sem licitação – para esposa e ex-esposa (se não me engano) alguns milhares de reais pela apresentação de um tal programe de segurança pública – como se no Brasil só o ex-secretário ou quem quem com ele dividiu o leito nupcial em alguma época fosse capaz de escrever sobre segurança pública. Ademais, não se pode fugir da discussão: por qual razão sociólogos, antropólogos e outros acadêmicos são encarregados de formular políticas de segurança em níveis estratégico e tático, quando tais profissionais desconhecem totalmente a vida dos policiais e dos pobres que eventualmente são vítimas dos abusos da polícia ?

  6. Comentou em 28/05/2006 RICARDO MINZÉ MINZÉ

    A QUEM A IMPRENSA ESTÁ SERVINDO ?

    CREIO QUE O PAPEL DA IMPRENSA NÃO SE RESTRINGE SOMENTE
    A DIVULGAÇÃO DO QUE ACONTECE EM NOSSA VOLTA,MAS TAMBÉM O
    DE AVALIAR DE FORMA PROFUNDA,CRITERIOSA E IMPARCIAL MATÉRIAS
    DE INTERESSE NACIONAL, ESCLARECENDO AO PÚBLICO O CONTEÚDO
    DELAS.A IMPRENSA BRASILEIRA PRECISA TER UMA IDENTIDADE PRO-
    PRIA E AGIR COM ISENÇÃO E QUALIDADE JORNALÍSTICA.O PAÍS TEM
    EXCELENTES PROFISSIONAIS DE VISÃO E CONHECIMENTO, PREPARADOS
    PARA OFERECER O MELHOR POSSÍVEL.PORÉM, NO MEU ENTENDER,SINTO
    QUE A PREOCUPAÇÃO COM A CONCORRÊNCIA, A FALTA DE FIDELIDADE
    COM A SOCIEDADE,A CONDUTA NAS AÇÕES TEM PREJUDICADO MUITO
    O PAPEL DESSE ÓRGÃO TÃO IMPORTANTE DA NAÇÃO.

  7. Comentou em 28/05/2006 MCostaSantos Santos

    Em primeiro lugar a Imprensa mal ou bem tem feito seu papel e o povo só conta com o apoio dela. O Deputado Biscaia pode ter suas razões que são óbvias, mas se esqueceu de dizer que o Congresso do nosso país é o grande culpado por esta situação que vivemos hoje. Que êle abra as gavetas do Congresso e verifique o que está adormecido há décadas para ser votado que possa melhorar a vida do povo. Há décadas que os PODERES CONSTITUIDOS deste país usurpam os direitos civis da população como: habitação, educação, saúde, remédios, acesso à justiça, saneamento básico, água potável etc. Agora, sabem desengavetar e rápido o CORPORATIVISMO e o PROTECIONISMO covarde. Como todos, é hipócrita e burguês, mas chegará um dia que não poderá esticar seu tapete vermelho no chão das cidades fedidas de tanta miséria.

  8. Comentou em 27/05/2006 Marca Antônio Leite da Costa Costa

    Ocorreu um equivoco na divulgação do meu comentário. O que escrevi é completamente o oposto do que foi dito no texto anterior. Continuo sendo solidário com tudo que a imprensa escreve, pois trata-se de um órgão que esta a serviço único e exclusivamente do leitor. Abraços – Marco

  9. Comentou em 27/05/2006 jose ambrosio

    O duro hoje em dia é reconhecer que a mídia perdeu o posto de quarto poder pros bandidos de pequena envergadura, pois os bandidos grandes ou graúdos desfilam de carrões e moram nas melhores mansões do país, e são traficantes de armas, drogas e ladrões de dinheiro público, pois nenhum bandido de colarinho branco vai preso neste país, ninguém com um mínimo de recursos cumpre sua pena, isto se for condenado (Pimenta, Suzane, Lalau etc…). Temos bandiods em todas as classes sociais, em todos os poderes constituídos. Em resumo, pra melhorar só se fechar e começar tudo de novo.

  10. Comentou em 27/05/2006 Marco Antônio Leite da Costa Costa

    Sr. Malin, o senhor sabe muito bem que os leitores, telespectadores, etc. não têm autoridade para fiscalizar coisa alguma, a começar pelas cartas, e-mails, etc. que são sistematicamente omitidas, não publicadas, censuradas, quando criticam ou discordam da opinião da mídia. Tinha de ter sim uma instituição com autoridade para vigiar os vigias, fiscalizar os fiscalizadores. Do jeito que está é pura hipocrisia falar que o público seria suficiente para fiscalizar a mídia.

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