Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Polícia de costumes na internet

Por Luiz Weis em 12/01/2007 | comentários

George Orwell, o autor de “1984”, diria que o Grande Irmão que está de olho em você tem agora na internet uma infinidade de Pequenos Irmãos que o imitam.

Eles usam a web para vigiar e punir – à revelia das leis e agindo como se lhes tivesse sido concedido um poder de repressão paralelo ao do Estado.

O seu alvo não são as condutas que o todo-poderoso ditador do romance consideraria indesejáveis para o regime. Mas os comportamentos individuais que pareçam socialmente condenáveis a essa nova modalidade de vigilantes dos costumes. Às vezes os atos são mesmo condenáveis, mas isso não muda a gravidade do problema do uso da web para fazer justiça pelas próprias mãos.

A julgar por uma reportagem de Jennifer Saranow, do Wall Street Journal, que aparece hoje na página do diário americano que o Estado de S.Paulo reproduz, a internet está virando um vasto quartel de patrulheiros da vida alheia, ainda quando os patrulhados não são celebridades nem agentes públicos sustentados pela população.

Eis os principais trechos da reportagem [que, decerto por força de contrato entre o Estadão e o WSJ, não entra na edição online do jornal brasileiro]:

“Antigamente, um olhar raivoso era o pior que você podia esperar por um pequeno deslize em público. Agora […] as gafes mais triviais de pessoas comuns também entraram na mira. Nos Estados Unidos proliferam os novos sites dedicados a condenar as ofensas mais mundanas, de estacionar mal a lançar um olhar malicioso, jogar lixo na rua ou ser rude. […]

O que está ajudando a alimentar isso é uma nova geração de empreendedores com a esperança de vender publicidade e assinaturas. Um site dedicado a maus motoristas oferece um serviço mensal por US$ 5 para as pessoas registrarem a placa de seus carros e receberem avisos se forem citados por outros motoristas. […]

Para as pessoas denunciadas os sites podem representar uma forma perturbadora de justiça das ruas, sem processo legal. Christopher Roth que o diga. “Esse cara precisa ter a carteira revogada”, escreveu um usuário num site sobre maus motoristas, acusando-o de dar fechadas. […]

Roth descobriu as críticas […] no PlateWire, um dos muitos sites dedicados aos maus motoristas. Lá, um usuário havia colocado a placa do carro de Roth e reclamado do seu estilo irresponsável de dirigir. Visitantes posteriores descobriram e divulgaram seu nome completo, número de celular e link para a sua página no MySpace. […]

“Não há nenhuma responsabilidade. Você simplesmente pode entrar na internet e escrever o que quiser, verdade ou não”, diz Roth.” […]

Pode ser inequivocamente para o bem. Uma ONG de Los Angeles que vigia a conduta da policia “encoraja os usuários”, diz a matéria, “a mandar relatos e fotos sobre pessoas que foram agredidas ou assediadas por policiais, para divulgação na internet”.

Pode ser inequivocamente para o mal. Segundo o WSJ, “o governador do Texas planeja lançar um site que vai transmitir imagens ao vivo da fronteira, na esperança de que as pessoas assistam e denunciem imigrantes ilegais. Num teste em novembro, o site recebeu mais de 14 mil e-mails.”

***

Os comentários serão selecionados para publicação. Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas, que contenham termos de baixo calão, incitem à violência e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 16/01/2007 Patrícia Valiño

    Sim, é verdade, agora temos espaço para ir além de dar opiniões: na internet também podemos jogar nossas frustrações, incomodar e expor desafetos. Falso testemunho? Não é nada que já não fazíamos antes. A verdade é que agora deixamos tudo por escrito, o que pode ser muito útil, se você pensar em termos de processos judiciais.
    A mesma liberdade de expressão que persegue a cauda dos maus jornalistas que fazem matérias preguiçosas e mentirosas poderá e deverá ser usada como prova contra cada um de nós no tribunal, por todas as coisas indevidas que dissermos.

  2. Comentou em 15/01/2007 Giovanni Moscato Júnior

    Dizer o que? Como o próprio colunista frisou, há usos maléficos e benéficos. Eu creio que o problema em si não é a internet, mas o uso que dela se faz. Ou seja: a culpa, como sempre, é do homem. Cabe a todos boicotar os abutres e dar força aos que dela fazem bom uso. Nós temos todo o poder, basta saber usá-lo.

  3. Comentou em 15/01/2007 Marnei Fernando

    E quanto à denúncia do Ministério Público contra o ‘Chefe de quadrilha Raul Jungmann? ninguém mais fala nada? E quanto às implicações da esposa do Noblat em serviços publicitários superfaturados no esquema de desvio público de dinheiro montado pelo deputado inquisitor oposicionista? Ninguém da mídia tem nada a cobrar ou a dizer a respeito? O chefe de quadrilha deles é melhor que o chefe de quadrilha dos outros? Como sempre… a mída unida não sei a quem… acha que sim.

  4. Comentou em 15/01/2007 Márcio Pereira

    Seria a internet um novo grande irmão? ou a internet pode ‘driblar’ o grande irmão(seja ele quem for) na medida q pode disponibilizar informações, mesmo q seja na sua grande maioria apenas lixo?
    Gostaria que fosse a segunda opção. Nessa história de Cicarelli e sexo à beira-mar, o grande irmão é a modelo que acionou a justiça para impedir não somente seu vídeo ‘promocional’, mas como impedir o próprio Youtube de ir ao ar.
    Estou errado?

  5. Comentou em 15/01/2007 Marnei Fernando

    O jornalista Eduardo Guimarães faz um importante, esclarecedor e intrigante artigo sobre a manipulação da informação nas midias educativas… Escandalosamente infestada de tucanos e seus lambe botas… mas esse post você jamais verá na capa do Observatório da imprensa… pois esse veículo também faz parte dessa mesma organização paulista subservientes ao PSDB… http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?msg=ok&cod=415JDB004&

  6. Comentou em 15/01/2007 Marnei Fernando

    O jornalista Eduardo Guimarães faz um importante, esclarecedor e intrigante artigo sobre a manipulação da informação nas midias educativas… Escandalosamente infestada de tucanos e seus lambe botas… mas esse post você jamais verá na capa do Observatório da imprensa… pois esse veículo também faz parte dessa mesma organização paulista subservientes ao PSDB…
    http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?msg=ok&cod=415JDB004&

  7. Comentou em 15/01/2007 Hélcio Lunes

    É Luiz Weis pelo jeito você não gosta da liberdade da Internet. Primeiro chama de brinquedo, agora isso! A verdade é a seguinte: os Dinos da imprensa escrita sempre foram os donos da verdade, livres para fazer os juízos de valor que desejassem, desqualificando seus leitores que pensam diferente! Agora, as opiniões dos leitores são ‘narcisismo’. Por essa razão há blogs com maior e menor audiência. Aqueles conectados com a opinião pública informada são foruns importantes de discussão com milhares de entradas a cada dia. Já os donos da vedade, arrogantes semi deuses da informação, vão ficar restritos aos seua 10 comentariozinhos diários, sempre dos mesmos leitores. Esses, querem a censura e a reserva de mercado da Internet para sí. Jornalistas mal humorado, que não respeitam seus leitores, que os desqualificam, vão todos para o IG, minifúndio da arrogância e prepotência dos dinossauros donos da verdade e do saber.

  8. Comentou em 15/01/2007 Célio Mendes

    Em compensação podemos assistir ao vídeo do Serra entregando ambulâncias aos sanguessugas, matéria jornalística que foi ignorada pela mídia ‘tradicional’, lembro quando era adolescente de um panfleto apócrifo que circulava pelo bairro de quando em vez e que trazia injurias e fofocas sobre todos, seguindo a lógica do texto deveríamos pregar o controle sobre a venda de papel para evitar que o caluniador veicula-se as informações inverídicas, a primeira dificuldade seria evitar o acesso ao papel a segunda seria identificar o autor, qualquer meio de comunicação esta sujeito a má utilização, mas nem por isso se defende a censura prévia de revistas, jornais, radios e tvs, a sociedade sempre sofre um choque de adaptação quando surge uma nova tecnologia uns e outros demoram mais para se adaptar outros jamais se adaptam, de qualquer forma segue-se em frente, ainda bem, caso contrario ainda estaríamos esfregando pauzinhos para produzir fogo.

  9. Comentou em 14/01/2007 Ilda de Freitas

    Luciana diz que ‘o sistema de denúncias que vigorava antes da inquisição…’. Infelizmente Luciana, ele vigorou em vários lugares e em diversas fases da história. Por ex., na Rússia estalinista, aliás em toda a União Soviética. Na China de Mao e em todos os sistemas totalitários. Durante a segunda guerra mundial, muitos judeos e outros ‘inimigos do povo’ foram enviados aos campos de concentração graças às denúncias da população – e isso em todos os países envolvidos. Parece que denunciar faz parte da natureza humana. Talvez por ser um curto caminho para a vingança pessoal ou maneira simples de extravazar a violência que dorme no fundo de qualquer um. Dá ainda, a um frustrado qualquer, o poder de destruir o objeto da sua inveja. E isso sem sair de casa, sem precisar provar nada, sem correr qualquer risco. Salve-se quem puder!

  10. Comentou em 14/01/2007 Luis Neubern

    Weis, sobre seus últimos textos sobre a internet , ainda não entendi se você utiliza a mesma para fazer uma crítica aos valores da nossa sociedade, o que é muito bem vindo, ou o contrário, utiliza os valores da sociedade para criticar a viabilidade da internet. Qual é o ponto ?

  11. Comentou em 12/01/2007 Luciana S

    O sistema de denúncias que vigorava durante a inquisição, de volta em formato virtual. Os sites citados não deixam de guardar uma semente totalitária.

  12. Comentou em 12/01/2007 Apolonio Silva

    Não entendi o inequivocamente para o mal. Do ponto de vista de quem? O bem seria permitir ou estimular imigrantes ilegais? Ué, por quê???? No inequivocamente para o bem: não pode ocorrer de um traficante manipular uma cena e divulgar na internet? Inequivocamente o Weis anda totalmente equivocado quanto à internet…

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