Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Por que a mídia poupa Alckmin

Por Mauro Malin em 17/05/2006 | comentários

A leitora Luciana Covolan escreve:


‘Concordo com tudo disse [no programa de rádio de 17 de maio], mas gostaria de te fazer algumas perguntas: – Por que a imprensa não comenta que o PSDB ficou oito anos no governo federal e 12 no estadual, durante o processo de cristalização do PCC? (salvo o Observatório). -Quando entrevistam o Alckmin, nenhum jornalista toca nesse assunto. Por quê? -Por que nenhum jornalista perguntou pro Alckmin o que está acontecendo, por que chegamos a esse ponto se ele, pessoalmente, foi o governador nos últimos seis anos? [Foram cinco anos e três meses.] -Por que não perguntam a ele como [quer] administrar um país, se ele não conseguiu cuidar de São Paulo?’


São boas perguntas. Eu não seria capaz de respondê-las sozinho, mas tenho algumas hipóteses.


Primeira, a dependência da mídia em relação ao poder. Antes de mais nada, para obter informações. Perguntas muito difíceis também não são feitas ao poder federal. Veja o caso do ‘mensalão’, do qual eu, que não estou na imprensa propriamente dita, já tinha ouvido falar antes de aparecer a denúncia do Jornal do Brasil, em setembro de 2004. Mas, além da dependência para obter informações, há outras dependências: publicidade oficial, cambalachos, dívidas não cobradas com a previdência social, obrigações trabalhistas negligenciadas e outras regalias.


Segunda, muitos jornalistas ficaram tão decepcionados com o governo Lula, justa ou injustamente (em alguns casos, o que os despontou foi a sensatez revelada em alguns campos pelo governo…), que tendem a tratar com mais leniência seus adversários. Isso decorre em boa medida da bipolarização política no plano federal. Ou Lula, ou Serra. Ou Lula, ou Alckmin. E o eleitor (leitor, jornalista, cidadão) fica com pouca margem de manobra. Instintivamente (quando não deliberadamente), ‘poupa’ um dos lados.


Terceira, existe um mito a respeito da competência das administrações do PSDB, alimentado pela incompetência maior de boa parte das administrações de seus adversários.


Quarta, o discurso da lei e da ordem magnetiza a mídia e a opinião pública. Abrir os olhos para a ineficácia, ou conivência, ou cumplicidade do aparelho estatal com o crime é um exercício penoso, porque rompe conceitualmente a moldura sociopolític. Chico Buarque sintetizou isso há 32 anos na canção Acorda, amor: ‘Chame o ladrão’. A ditadura foi derrotada politicamente mas num processo de transição/transação. A raiz do pensamento reacionário que a acompanhou está intacta e renovada. Em São Paulo, Jânio foi eleito em 85, Maluf em 92, Pitta em 96, Enéas recebeu a maior votação para deputado federal em 2002.

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  1. Comentou em 27/05/2006 Humberto Guimarães

    Achei brilhante o comentário de Celso Scodiero. Além disso, tenho apenas a acrescentar que, da construção textual da resposta de Malin (quando ele diz: ‘…mito a respeito da competência das administrações do PSDB, alimentado pela incompetência maior de boa parte das administrações de seus adversários.’), depreende-se que ele acredita no mito, pois afirma muito seguramente que o mito é sustentado pela incompetência maior de boa parte das administrações de seus adversários. Daí, provavelmente, para Mallin, o que falta, talvez, é o mito ser aprimorado. Depois de um choque de capitalismo(que não deu certo), se o mito (crível por tantos) utilizar, agora, um ‘choque de gestão’, deixaria (o mito) de ter pés de barro, de ser mito e remeteria para fora da arena política a incompetência maior de ‘boa parte das administrações dos adversários’ com seus choques de inclusão. Depois de tirar de cena esses incompententes, o mito brilharia como o sol da verdade e nós, de novo, estaríamos em plena felicidade…com doze milhões, ou quem sabe, mais, de desempregados, pois a racionalidade ,a competência, a boa gestão não pode se preocupar com essas questões menores.

  2. Comentou em 17/05/2006 Celso Scodiero

    MITO. No dicionário, MITO significa – 1.Interpretação primitiva e ingênua do mundo e de sua origem. 2. Enigma. 3. Utopia. 4. Pessoa ou coisa incompreensível. 5. Coisa inacreditável.
    Com uma só palavra, a sua terceira hipótese responde impecavelmente todas as perguntas da leitora Luciana – 1. A nossa imprensa é parcial porque interpreta primitiva e ingenuamente o mundo de que faz parte. 2. O enigma é saber o que fez a imprensa bombardear tanto o Lula e poupar tanto o Collor em 1989, quando o mito PSDB ainda nem existia, mas as falcatruas do Collor já rolavam livremente em Alagoas. Os significados 3, 4 e 5 exprimem impecavelmente o que noto em sua longa e emaranhada resposta.

  3. Comentou em 17/05/2006 Gustavo Azevedo

    Olá Mauro, isso é mais um feedback do que um comentário…como é a primeira vez em que entro neste site fiquei surpreso em ver que há um espaço para o debate aberto. Em apenas dois textos (neste e no que segue abaixo) conseguiu provocar reações semelhantes em pessoas com pensamentos, teóricamente, diferentes. Neste , a revolta da esquerda, e no abaixo, a revolta da direita. Ataques muito similares com ideologias ‘opostas’. Isso me faz lembra o que um professor meu dizia: ‘os extremos são como uma ferradura’.

  4. Comentou em 17/05/2006 eucimar oliveira

    Foram 250 ataques. DUZENTOS E CINQUENTA. E nenhum flagrante no jornal das oito. No Rio, qualquer escaramuça está no horario nobre. Cobre-se melhor o assunto aqui do que em Sao Paulo? Muito estranho isso. Estranho também sao os 93 autos de resistencia. Será que a pratica do Fininho, aquele policial ligado ao Fleury, esta de volta? Para quem defende os esquadroes da morte, uma lembrança: eles exterminam supostos malfeitores e também quem está por perto para eliminar possiveis testemunhas. Fazem jorrar igualmente o sangue dos inocentes. Finalmente, sobre o seu comentario de que a imprensa age em conluio com a policia em busca do espetáculo televisivo e fotográfico: sugiro( como bom pesquisador que voce é) refrescar a memoria dos leitores com dezenas e dezenas de casos em que só pela açao da imprensa dezenas e dezenas de maus policiais foram presos e condenados por sua atuaçao delinquente. Abrs.

  5. Comentou em 17/05/2006 douglas puodzius

    Caro sr. marlin,
    Ao tentar responder uma questão simples de uma leitora, creio que o sr. tenha buscado apoio em teses muito discutiveis do ponto de vista cientifico. Creio que, mesmo se apoiando em sua experiencia, não vejo melhor sorte de prevalecer tais hipoteses no universo amplo da midia, fato que ambos concordamos, segundo sua resposta.
    Realmente não me apetece discutir sobre teses formuladas a partir de dados pouco palpaveis.
    Admiro-o muito e tenho respeito por sua coluna, tanto que a leio regularmente. Se puder oferecer uma colaboração para elucidarmos, pelo menos em parte, tal comportamento. Sugiro que primeiro elucidemos como está estruturada a nossa midia e até que ponto esses donos dos veiculos estão alinhados com um pensamento neo liberal do qual representa atualmente o Ex- Governador e seu partido.
    Claro que se chegarmos a conclusão de que como me disse uma vez um Ombusdman de um conhecido jornal de são paulo, procurando defender materia nitidamente politqueira e planfletaria publicada contra uma prefeita de são paulo: ‘- O que voce quer? A Folha é capitalista, ela vai defender o capitalismo!’ . Obviamente estaremos no caminho certo.
    Ps. Se vc não gostou de meu estilo panfletario na primeira intervenção, desculpe. Tambem não gostei do seu.
    Isso serve só para este texto quanto aos outros: Parabéns.

  6. Comentou em 17/05/2006 Célio Mendes

    Até sexta-feira 12/05/2006 a política de segurança de SP era exemplar, fruto de uma administração eficiente e séria de um governador competente que em 8 anos de mandato mudou a face de SP, entre o dia 13 e 14 a mídia descobriu que um governo federal incompetente que não fez os repasses devidos de recursos levou a situação da segurança publica do estado a uma situação caótica. Faz algum sentido para vocês? Para mim é mais uma utilização do axioma de Ricupero, desta vez um pouco modificado: ‘O que é bom a gente fatura o que é ruim a gente joga na conta de outros’.

  7. Comentou em 17/05/2006 douglas puodzius

    ???????? Vejo que vc não consegue responder as perguntas da leitora, nem só e nem acompanhado. Primeiro, não há comparação entre o circo que foi armado pela imprensa em torno do mensalão e o silêncio sobre a irresponsabilidade tucana nesse estado de terror. Aliás, eu vi graficos históricos de recursos do gov. fed. para a segurança, começando, lógicamente de 2003 (ano em que o brasil e o mundo começaram a existir), foi de 275 milhões em 2003 e passou para 475 em 2004 (imagino o que era antes), não vi, sequer citação, sobre o gasto do gov. estadual, assim como não vi nosso prefeito, aquele que a gente nunkassabi, nem o serra que sumiu, como de hábito(vide enchentes). Segundo: jornalistas decepcionados com lula tratam Alckmin com mais leniência? Você está de brincadeira. Não sei se deveria comentar… Mas, levando-se em consideração que o DataMalin esteja correto, até eu que sou mais bobo, sei que o editor é quem manda pau. Ressalvo que não acredito no DataMalin. Alias, não gosto muito qdo alguem molha o dedo e mede o vento para dizer se vai chover, muito menos para justificar qualquer coisa. Terceira: DataMalin indentifica um mito depois de profundas sondagens com familiares e amigos de bar. Não vou comentar essa porque conheço um monte de gente que pensa justamente o contrario desse mito. Quarta. Se fosse verdade essa constatação não meteriam o pau em ninguém, nem no lula.

  8. Comentou em 17/05/2006 armando dias

    Já cansei de fazer teorias e mais teorias sobre o comportamento da mídia nestes ultimos doze meses em relação ao governo LULA.. Não cheguei a nenhuma conclusão racional. Assim como a mídia, apelei para a reação emocional. O ataque que toda a midia brasileira descarregou no LULA nestes doze meses é simplesmente um complô de DIREITA. Os motivos são vários.(Coloque o seu aqui). Entretanto enquanto a mídia perdia tempo em ataques mentirosos , LULA e sua equipe trabalhavam e trabalhavam muito. Agora estão colhendo os frutos deste serviço. Espero que até 3 de Outubro sua aprovação chegue a 80%, e que esta aprovação pessoal e de seu governoo se traduza em votos suficientes para reelege-lo no primeiro turno. E a mídia, poderá ou não, parar um pouquinho seus ataques e ver onde errou tanto. Se não fizer tal rflexão é capaz de continuar do mesmo modo e possibilitar , em 2010, a eleição de outro nome do PT para sucedê-lo.

  9. Comentou em 17/05/2006 Célio Mendes

    Fico imaginando se o que aconteceu faz parte do ‘Choque de Gestão’ que o Alckimin diz que deu em SP, se foi imaginem se for aplicado em escala nacional, ops! agora lembrei, ja vimos o efeito final do ‘Choque de Gestão’ tucano no fim dos 8 anos do reinado do principe dos sociólogos.

  10. Comentou em 17/05/2006 Wilson Oda

    Primeira: Não existe imprensa investigativa no Brasil? O repórter tem que se limitar às perguntas às autoridades? Quanto à previdência social, obrigações trabalhistas, etc são impostos federais, mas nem por isso a mídia poupa o Governo Lula.

    Segundo: o ex-governador Garotinho também faz oposição ao PT, mas nem porisso ele foi poupado pela mídia.

    Terceiro: O mito da competência das administrações do PSDB não
    seria exatamente o produto e não a causa do comportamento da mídia??

    Quarto: o pensamento conservador e reacionário é tão legítimo como o progressista e o liberal, mas o primeiro também não seria a consequência do comportamento de setores da mídia.

    Sinceramente, acredito que exista algo mais do que uma simpatia, ou margem de manobra para que a mídia se comporte dessa maneira.

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