Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Por que as pessoas desconfiam tanto da Wikipédia?

Por Carlos Castilho em 24/11/2007 | comentários

E não é só a enciclopédia virtual que está na berlinda em matéria de credibilidade em produtos informativos na internet. Quase todos os projetos baseados na produção coletiva de informações também são questionados fortemente, alimentando uma polêmica que em alguns momentos chega a ser passional.


 


É que os novos sistemas digitais mexem com valores e com atitudes relacionadas à forma como as pessoas decidem no que vão acreditar. As pessoas sentem-se incomodadas na discussão sobre credibilidade da Wikipédia porque a veracidade, confiança e exatidão das informações publicadas pela enciclopédia virtual obedecem ao que os especialistas chamam de lógica probabilística, baseada em cálculos estatísticos.


 


Esta lógica não estabelece o que é certo ou errado, mas o que pode estar mais próximo ou mais longe da verdade, sem nunca chegar até ela. A probabilidade é apenas um cálculo que nos permite identificar possibilidades dentro da avalancha informativa gerada pela internet.


 


A massa de dados disponíveis hoje na Web ultrapassou em muito a capacidade processadora dos cérebros humanos. O progresso impôs o uso do cálculo eletrônico como única alternativa, provocando uma mudança radical de paradigmas.


 


Por gerações e gerações nossa sociedade foi educada para acreditar numa certificação de credibilidade conferida por pessoas de notório saber ou por instituições como a Igreja, as bibliotecas, os intelectuais e as universidades, tidas como guardiãs do conhecimento universal.


 


Esta mudança de modelo de certificação trouxe como conseqüência uma situação em que as leis da probabilidade sacrificam a exatidão em escala micro para otimizar os macro-resultados. Trocando em miúdos e pensando na Wikipédia, isto significa que hoje sabemos muito mais sobre muitas coisas, mas quando examinamos com lupa cada informação, é possível que muitas apresentem erros.


 


É o preço que pagamos para ter a nossa disposição quase 1 milhão de textos na Wikipédia enquanto a Enciclopédia Britânica mal chega aos 100 mil. O mesmo processo acontece nos weblogs. No seu conjunto eles publicam um volume de notícias e informações superior ao da imprensa convencional.


 


Vistos globalmente, eles apresentam um índice de exatidão, atualidade, diversidade e contextualização muito maior do que o dos jornais e a televisão, por exemplo. Mas se formos examinar individualmente os blogs, as frustrações e desilusões informativas podem ser grandes.


 


Até agora, a Britânica e as publicações acadêmicas eram a parada final na busca por informações confiáveis. Hoje, os hábitos informativos estão mudando rapidamente, pois tanto a Wikipédia e como os blogs são considerados apenas o primeiro passo. Cada vez mais se consolida a procura da diversificação de fontes como a melhor receita para evitar o erro.


 


Os sistemas baseados em probabilidade estatística não são novos. A economia capitalista os utiliza intensivamente, desde que Adam Smith escreveu sobre o comportamento dos mercados consumidores. Charles Darwin também usou a probabilidade para estudar a evolução das espécies.


 


As bolsas de valores e a indústria cinematográfica de Hollywood adotam a lógica probabilística dos chamados mercados de previsão para antecipar tendências. Todos os sistemas de loterias apóiam-se na estatística e os advogados usam a fórmula probabilística do Teorema de Condorcet para prever o comportamento dos membros do júri em tribunais.


A informação está entrando também na era da probabilidade.


Conversa com os leitores
Alguns leitores comentaram e vou acrescentar uma coisa que esqueci na hora de redigir o post. Na verdade o que mais perturba as pessoas é o fato de que estamos saindo de uma era onde acreditávamos ter certezas absolutas para outra onde predominam as verdades relativas. Isto nos transmite uma sensação de insegurança, que é bastante incômoda e exige um esforço de adaptação. É desconfortável acostumar-se a saber que sempre existe margem para dúvida, até mesmo em questões físicas, como o ponto de ebulição da água. Quanto mais quando se trata de informação jornalística.

Todos os comentários

  1. Comentou em 26/11/2007 Paulo Roberto de Mello Corrêa

    O artigo não deixa de ter suas razões, embora suas críticas devam ser restringidas a alguns segmentos que fornecem informações para a Wikipédia, um caso é o esforço de grande parte de idealistas religiosos que a estão utilizando para criar opinião em matéria de fé.

  2. Comentou em 26/11/2007 Ana Maria Sampaio

    Concordo com Fábio Lopes: não precisamos ‘de probabilidade alguma para concluir que a grande imprensa brasileira não mnerece nenhuma credibilidade’.
    São saudáveis as inovações que, como diz Castilho, ‘mexem com valores e com atitudes relacionadas à forma como as pessoas decidem no que vão acreditar’, e que provoquem mudanças numa sociedade ‘educada para acreditar numa certificação de credibilidade conferida por pessoas de notório saber ou por instituições como a Igreja, as bibliotecas, os intelectuais e as universidades, tidas como guardiãs do conhecimento universal´

  3. Comentou em 26/11/2007 fabio lopes

    Quando não foi assim no caso da informação jornalística? talvez na época em que apenas alguns orgãos tinham o monopólio da informação e o que diziam era tido com ‘a verdade’. A internet, eu não sei, talvez realmente dependa da propabilidade para confiarmos nas informações que aparecem nela, mas uma coisa é certa, não preciso de probabilidade alguma para concluir que a grande imprensa brasileira não mnerece nenhuma credibilidade.

  4. Comentou em 25/11/2007 Ramón Alves Portal

    Qual a dúvida existente quanto ao ponto de ebulição da água? Ora esse um fato completamente previsível e nada tem de incerto.

    Por outro lado, mesmo antes da web. o conhecimento sempre demandou pesquisas em diversas fontes. Só ingênuos criam piamente na voz única de um professor, de um padre ou mesmo enciclopédia.

    Penso que hoje, com a profusão de informações, quem tem bom senso e tirocínio pode ter mais chances para robustecer certezas, do que para alimentar dúvidas.

    A desconfiança que se generaliza, vejo-a mais conectada à incultura e superficialidade; campo fértil das teorias conspiratórias e dos relativismos, tão em moda.

  5. Comentou em 25/11/2007 Leonardo Custódio

    Eu pensei justamente sobre essa questão essa semana, qdo concluia meu artigo pra um curso aqui da universidade. Meu tema é sobre WebJornalismo entre países periféricos (baseado em estudos da unesco). Um dos problemas q vi foi esse: como fazer um jornalismo diferente e vencer a falta de credibilidade que assola a wikipedia e os blogs, por exemplo? E é justamente nesse ponto que quero dedicar minha carreira acadêmica. Assim, fquei mto feliz qdo vi seu post hj. Voltando ao tema específico da Wikipedia, ela é sempre minha primeira referência. Organizo minhas idéias por ela, e depois parto pra busca de mais informacões. O problema é que mta gente tem preguica, e quer tudo pronto. Aí, num dá. 🙂 Abracos.

  6. Comentou em 25/11/2007 Yuri Almeida

    Acho que está em jogo também a ampliação do campo (Bourdieu) dos produtores de conteúdo.
    Essa dúvida ou ruptura com a certeza, é típica do pós-modernismo. A credibilidade da Wikipedia é a materialização desse momento, marcado pela revisão conceitual do que é mundo.

  7. Comentou em 24/11/2007 Carlos N Mendes

    Quando Michael Faraday apresentou suas descobertas sobre eletricidade na Royal Academy, algum gaiato perguntou a ele ‘mas, afinal, para que serve isto?’. Faraday respondeu : ‘caro senhor, para que serve uma criança ?’. A Wikipedia e sua metodologia de criação é algo muito novo, e como tudo criado por nós antes, acabaremos por aprender a usar.

  8. Comentou em 24/11/2007 Octavio Tostes

    Excelente, Castilho.
    Sou usuário assíduo da Wikipédia e é sempre possível ‘cruzar’ alguma informação de que se suspeite com outras fontes para se aproximar da verdade.
    Para a primeira informação, básica, e sobretudo para o contexto, a Wikipédia tem me servido com muita eficiência. É muito interessante notar a organização da informação na enciclipédia da Internet, feita em níveis. No primeiro, vc tem algo básico, essencial. Depois o tema vai sendo detalhado. A estrutura do texto é muito clara e ‘lógica’.
    Grande abraço, rapaz.

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