Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Por que o editor dos cartuns está errado

Por Luiz Weis em 21/02/2006 | comentários

Quem não assina o Estado e portanto não terá acesso na internet ao artigo nele publicado hoje, de autoria de Flemming Rose, o editor de Cultura do Jyllands-Posten que publicou as charges que revoltaram os muçulmanos [veja neste blog o texto anterior, “A crise das charges e a negação do Holocausto], pode ler no Observatório da Imprensa um alentado resumo do texto em questão.


Com isso, posso ir direto aos pontos do artigo que me parecem discutíveis.


Minhas idéias a respeito neste blog estão nos textos ‘A pior ofensa do cartum do profeta-bomba’ e ‘Europeus advertem: a mídia não pode tudo’.


Ponto número 1: O fato de Rose ter encomendado e publicado as charges como protesto pela autocensura a que, segundo informa, se submetem jornalistas e cartunistas europeus quando o assunto é religião, especialmente islamismo, explica, mas não justifica, a meu ver, o equívoco da decisão.


Porque o resultado foi outra coisa – uma expressão de islamofobia em um país onde essa praga cresce a olhos vistos, segundo depoimento de um jornalista dinamarquês citado no meu artigo “Europeus advertem:…”.


Ponto número 2: mesmo que os cartuns tivessem tido a intenção de fazer irreverências com uma religião, e apenas assim tivessem sido interpretados, e mesmo que o temor reverencial diante do islamismo fosse maior do que diante do cristianismo [a julgar pelo caso do comediante dinamarquês que ele cita] surpreende que um editor de Cultura do maior jornal de seu país ignore:


a) que a sensibilidade dos adeptos de uma religião pode ser maior do que a dos de outra – a espessura da pele dos fiéis de crenças diversas varia conforme uma infinidade de valores;


b) que além de serem em geral mais arrebatadamente respeitosos dos seus dogmas e tabus do que, por exemplo, os cristãos europeus, os muçulmanos tendem a creditar que o Ocidente quer secularizá-los na marra – uma coisa e outra gerando intensas reações emocionais defensivas.


Ponto número 3: mesmo que a intenção dos cartunistas fosse tratar os muçulmanos como os fiéis das demais religiões, como quem diz “vocês são parte de nossa sociedade, e não estranhos, e portanto, “as charges incluem, e não excluem os muçulmanos” [aspas no original], o editor aparentemente não levou em conta que:


a) os “incluíveis”, por motivos culturais, podiam entender a mensagem de outra maneira – como dizemos nós, inspirados na genial observação de Garrincha ao técnico Vicente Feola, na Copa de 58, “faltou combinar com os russos”;


b) além disso, se eles são tratados quase sempre, na Dinamarca e na Europa em geral, como “o outro”, e isso não raro lhes é esfregado na cara, por que diabos deveriam entender as charges como uma espécie de convite para serem admitidos no acolhedor clube da cultura democrática e igualitária dinamarquesa, que lhes parece tratar bem só os brancos, sem distinções religiosas?


Ponto número 4: pode ser que o cartum mais incendiário, o de Maomé com um turbante em forma de bomba, tivesse a intenção de criticar não o Islã, mas os islâmicos que invocam Alá e o seu profeta para cometer atos terroristas. Mas o que fez o cartunista ou o editor imaginar que o desenho seria recebido assim – e não como uma acusação indiscriminada a todos os muçulmanos por serem seguidores de uma religião inerentemente violenta e intolerante?


Ponto número 5: se é falso que o jornal dinamarquês adota um duplo padrão quando se recusa a publicar sátiras a Jesus e publica o equivalente a Maomé, por que isso aconteceu – com um intervalo de poucos meses entre uma coisa e outra?


Ponto número 6: a afirmação de que na Dinamarca secular os muçulmanos podem ter tudo o que é proibido e punido aos cristãos na fanática Arábia Saudita – templos, cemitérios, escolas e emissoras – não confere com o que escreveu no New York Times o jornalista dinamarquês citado no meu texto “Europeus advertem:…”


Segundo ele, até 20 anos atrás os muçulmanos não tinham licença para erguer mesquitas em Copenhage e ainda hoje são obrigados a despachar os seus mortos para que tenham enterros religiosos nos seus países de origem, à falta de cemitários islâmicos na Dinamarca. Não sei quem diz a verdade. Sei porém que o New York Times checa os fatos que constam até de artigos de opinião, assinados, antes de publicá-los.


Ponto número 7: pode ser que o editor Flemming Rose não esperasse, muito menos desejasse, as violências que os cartuns provocaram no mundo árabe-muçulmano. Mas essa reação feroz, primitiva e até repulsiva não legitima, a posteriori, o que fez o jornal, nem legitima a cruzada (com perdão da palavra) pela liberdade de imprensa em setores do pensamento e do jornalismo europeu.


Se no Islã tudo que não for expressamente permitido é proibido, na Europa secular que diz adotar os valores do respeito às diferenças humanas, herdados do Iluminismo, tudo que não for expressamente proibido é permitido. Tanto melhor para os europeus e para a civilização humana.


Mas repito o que outros e eu já escrevemos: não é porque a livre expressão seja expressamente permitida – e encorajada e aplaudida – isso autoriza usá-la para ofender, disseminar o ódio, a violência e o racismo.


É em nome do compromisso dos valores ocidentais seculares com a decência e a dignidade nas relações humanas – e não em nome desse ou daquele deus, desse ou daquele profeta – que a liberdade de imprensa deve terminar onde começa tudo o que nós, ocidentais, leigos e democratas, mais abominamos.


***

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Todos os comentários

  1. Comentou em 24/02/2006 Hider Albuquerque

    Gostaria de parabenizá-lo pelas observações feitas sobre esta questão ética jornalística, concordo inteiramente. Afinal, quando é que a Europa vai parar de achar que são os donos da verdade (eurocentrismo). Convivemos diariamente com a submição desta palavra, dos valores, da moral e do entendimento unilateral de sermos também os ‘outros’.
    E ainda falam de democracia.

  2. Comentou em 23/02/2006 Celso Chino

    O problema da violência e da intolerância não está na Religião,como muitos laicos radicais pensam,e sim na maneira como as pessoas A entendem e vivem, sobretudo as multidões de ignorantes dos países onde nunca houve liberdade individual.A intolerância fanática(todos somos um pouco intolerantes)e violenta contra os que pensam e vivem de forma não ortodoxa não é privilégio dos religiosos,que o digam os comunistas(mais de 100 milhões de mortos para se construir o ‘novo homem’!) e os nazistas.A questão central neste debate,a meu ver,é a da liberdade individual,seus limites e sua relação com o coletivo(o editor dinmarquês afrontou uma coletividade onde a liberdade individual nada vale),pelo menos é central para quem vive em regimes democráticos.Este debate é ‘intra muros’,interno à nossa civilização,a única que se auto-critica à exaustão.

  3. Comentou em 23/02/2006 Orlando Fogaça Filho

    Sou contra qualquer tipo de censura e de auto-censura neste caso em que os caricaturados se arvoram no direito de matar quem os tenha porventura tripudiado.
    Acho que a liberdade de expressão inclui sim (e deve), críticas a qualquer religião, ocidental ou oriental, assim como a qualquer país ou povo, pois, acredito que só se ofende aquele que não tem certeza de sua opinião ou crença. Para crentes de fato, que fazem da fé um motivo de vida, estes cartuns seriam simplesmente ignorados, pois não poderiam abalar nenhum sentimento íntegro.
    O Islã não respeita as diferenças e quer impor ao ocidente através do terror e de ameaças (que costumam concretizar oferecendo prêmios para assassinos de aluguel)seu único deus e seu profeta Maomé. Imagine, eu que não creio, se morasse lá, já seria defunto.
    Sou contra também, os judeus, utilizarem-se de seu poder econômico para tentar impor a sua verdade e censurar filmes como Paradise Now, que desmascara a atrocidade dos campos de concentração a que estão submetidos os palestinos.
    Religião é uma coisa que muitos têm necessidade de ter e isso eu respeito, mas nenhuma tem o direito de tentar se impor a ninguém e a nada.

  4. Comentou em 23/02/2006 wagner nogueira

    É impressionante a condescedência com que boa parte dos jornalistas brasileiros, incluindo você, trata o assunto, como se tudo fosse meramente uma questão de liberdade de imprensa ou respeito. O que interessa realmente nessa história é a existência de uma horda de boçais espalhada pelo mundo pronta a incendiar e matar em nome de um deus qualquer. É como transformar a discussão sobre a Inquisição (outra horda de boçais também disposta a tudo) no direito de Lutero traduzir ou não a Bíblia, por exemplo.
    Religião é realmente a mais completa tradução da mediocridade humana.

  5. Comentou em 22/02/2006 Carlos MUSSKOPF

    Parabéns sr. Weis. Concordo com as suas ponderações. Acrescento um ponto apesar dele estar implícito em suas considerações: a enorme arrogancia com que o sr. Rose se refere às outras culturas. Como se a cultura ocidental fosse superior e a única alternativa de aproximação entre as culturas é que os ‘outros’ adotem nossos padrões e valores.

  6. Comentou em 21/02/2006 Paulo César da Rosa Romão Romão

    Eu diria Sr. Celso Chino, os intelectuais ocidentais de esquerda, principalmente. Eles disfarçadamente sempre adoraram regimezinhos totalitários de qualquer origem ou natureza.
    A propósito, o único erro do Sr. Flemming Rose foi ter pedido desculpas.

  7. Comentou em 21/02/2006 Celso Chino

    É inacreditável a dificuldade(ideológica?) de tantos intelectuais ocidentais em ver o brutal crescimento no mundo,sobretudo nos países muçulmanos(onde os cristão são frequentemente massacrados ou violentamente oprimidos),dos sentimentos de inveja(por tudo o que a nossa civilização já fez) e ódio anti-ocidental.Será que boa parte de nossa intelectualidade é masoquista e vai se curvar à chantagem islâmica?Em que pais islâmico há um pingo da liberdade em geral que há na Europa?

  8. Comentou em 21/02/2006 Chaya Gilburt

    Se fosse feito um protesto igualmente violento para cada cartoon anti-Cristao ou anti-Semita ja publicada na imprensa Arabe, o mundo inteiro ja teria pego fogo. Veja bem quem esta reclamando destes cartoons. Veja o que eles mesmo fazem…

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