Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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Por que o editor dos cartuns está errado

Por Luiz Weis em 21/02/2006 | comentários

Quem não assina o Estado e portanto não terá acesso na internet ao artigo nele publicado hoje, de autoria de Flemming Rose, o editor de Cultura do Jyllands-Posten que publicou as charges que revoltaram os muçulmanos [veja neste blog o texto anterior, “A crise das charges e a negação do Holocausto], pode ler no Observatório da Imprensa um alentado resumo do texto em questão.


Com isso, posso ir direto aos pontos do artigo que me parecem discutíveis.


Minhas idéias a respeito neste blog estão nos textos ‘A pior ofensa do cartum do profeta-bomba’ e ‘Europeus advertem: a mídia não pode tudo’.


Ponto número 1: O fato de Rose ter encomendado e publicado as charges como protesto pela autocensura a que, segundo informa, se submetem jornalistas e cartunistas europeus quando o assunto é religião, especialmente islamismo, explica, mas não justifica, a meu ver, o equívoco da decisão.


Porque o resultado foi outra coisa – uma expressão de islamofobia em um país onde essa praga cresce a olhos vistos, segundo depoimento de um jornalista dinamarquês citado no meu artigo “Europeus advertem:…”.


Ponto número 2: mesmo que os cartuns tivessem tido a intenção de fazer irreverências com uma religião, e apenas assim tivessem sido interpretados, e mesmo que o temor reverencial diante do islamismo fosse maior do que diante do cristianismo [a julgar pelo caso do comediante dinamarquês que ele cita] surpreende que um editor de Cultura do maior jornal de seu país ignore:


a) que a sensibilidade dos adeptos de uma religião pode ser maior do que a dos de outra – a espessura da pele dos fiéis de crenças diversas varia conforme uma infinidade de valores;


b) que além de serem em geral mais arrebatadamente respeitosos dos seus dogmas e tabus do que, por exemplo, os cristãos europeus, os muçulmanos tendem a creditar que o Ocidente quer secularizá-los na marra – uma coisa e outra gerando intensas reações emocionais defensivas.


Ponto número 3: mesmo que a intenção dos cartunistas fosse tratar os muçulmanos como os fiéis das demais religiões, como quem diz “vocês são parte de nossa sociedade, e não estranhos, e portanto, “as charges incluem, e não excluem os muçulmanos” [aspas no original], o editor aparentemente não levou em conta que:


a) os “incluíveis”, por motivos culturais, podiam entender a mensagem de outra maneira – como dizemos nós, inspirados na genial observação de Garrincha ao técnico Vicente Feola, na Copa de 58, “faltou combinar com os russos”;


b) além disso, se eles são tratados quase sempre, na Dinamarca e na Europa em geral, como “o outro”, e isso não raro lhes é esfregado na cara, por que diabos deveriam entender as charges como uma espécie de convite para serem admitidos no acolhedor clube da cultura democrática e igualitária dinamarquesa, que lhes parece tratar bem só os brancos, sem distinções religiosas?


Ponto número 4: pode ser que o cartum mais incendiário, o de Maomé com um turbante em forma de bomba, tivesse a intenção de criticar não o Islã, mas os islâmicos que invocam Alá e o seu profeta para cometer atos terroristas. Mas o que fez o cartunista ou o editor imaginar que o desenho seria recebido assim – e não como uma acusação indiscriminada a todos os muçulmanos por serem seguidores de uma religião inerentemente violenta e intolerante?


Ponto número 5: se é falso que o jornal dinamarquês adota um duplo padrão quando se recusa a publicar sátiras a Jesus e publica o equivalente a Maomé, por que isso aconteceu – com um intervalo de poucos meses entre uma coisa e outra?


Ponto número 6: a afirmação de que na Dinamarca secular os muçulmanos podem ter tudo o que é proibido e punido aos cristãos na fanática Arábia Saudita – templos, cemitérios, escolas e emissoras – não confere com o que escreveu no New York Times o jornalista dinamarquês citado no meu texto “Europeus advertem:…”


Segundo ele, até 20 anos atrás os muçulmanos não tinham licença para erguer mesquitas em Copenhage e ainda hoje são obrigados a despachar os seus mortos para que tenham enterros religiosos nos seus países de origem, à falta de cemitários islâmicos na Dinamarca. Não sei quem diz a verdade. Sei porém que o New York Times checa os fatos que constam até de artigos de opinião, assinados, antes de publicá-los.


Ponto número 7: pode ser que o editor Flemming Rose não esperasse, muito menos desejasse, as violências que os cartuns provocaram no mundo árabe-muçulmano. Mas essa reação feroz, primitiva e até repulsiva não legitima, a posteriori, o que fez o jornal, nem legitima a cruzada (com perdão da palavra) pela liberdade de imprensa em setores do pensamento e do jornalismo europeu.


Se no Islã tudo que não for expressamente permitido é proibido, na Europa secular que diz adotar os valores do respeito às diferenças humanas, herdados do Iluminismo, tudo que não for expressamente proibido é permitido. Tanto melhor para os europeus e para a civilização humana.


Mas repito o que outros e eu já escrevemos: não é porque a livre expressão seja expressamente permitida – e encorajada e aplaudida – isso autoriza usá-la para ofender, disseminar o ódio, a violência e o racismo.


É em nome do compromisso dos valores ocidentais seculares com a decência e a dignidade nas relações humanas – e não em nome desse ou daquele deus, desse ou daquele profeta – que a liberdade de imprensa deve terminar onde começa tudo o que nós, ocidentais, leigos e democratas, mais abominamos.


***

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