Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Por que o vexame não é novidade

Por Luiz Weis em 20/09/2007 | comentários

Excelente, infelizmente, a coluna de hoje na Folha, ‘Qual é a novidade?’, do historiador britânico Kenneth Maxwell, radicado nos Estados Unidos e um dos mais lúcidos brasilianistas da atualidade.

Vejam por que:

Fui convidado a um pequeno almoço privado na City de Londres, no começo do escândalo do mensalão. Cinco ou seis dos maiores fundos de hedge do mundo estavam representados à mesa, e uma decisão coletiva daqueles homens e mulheres quanto a abandonar os ativos brasileiros poderia ter sido um desastre para o Brasil -então e até mesmo agora. Todos estavam muito bem informados sobre o que andava acontecendo em Brasília. Quando estávamos de saída, um deles me disse: ‘Qual é a novidade?’

Em outras palavras, as coisas continuavam como sempre. Corrupção como sempre. O velho Brasil de sempre. Sem dúvida, na semana passada, eles deram coletivamente de ombros quanto às trapalhadas no Senado brasileiro. Afinal, era mais um exemplo de políticos brasileiros fazendo aquilo que fazem melhor, por assim dizer: uma espécie de trejeito coletivo dirigido ao público, à maneira de Marco Aurélio Garcia. E nada disso teve impacto sobre a economia do país, sobre os ‘fundamentos’, como os economistas gostam de dizer.

Mas a questão importa. Por quê?

Os meios da corrupção são bastante conhecidos: pagamentos privados, clandestinos e indiretos, vinculados a transações dúbias e realizados por empresários que se alimentam das verbas públicas. Esse é o cerne do caso contra o senador Renan Calheiros. Mas o objetivo do governo Lula em todo o episódio era político: como no caso do mensalão, a meta era aprovar legislação fiscal e econômica no Congresso.

No entanto esse tipo de barganha envolve vender a alma ao diabo. E por quê? Porque metodologias antigas e comprovadas como essas esvaziam uma reforma política real. E essa é também uma história brasileira muito antiga; uma espécie de perverso gênio brasileiro que antecipa as mudanças e, no processo, as impede; por isso, faltam à histórias brasileira verdadeiras rupturas e ela é caracterizada por múltiplas contra-revoluções bem-sucedidas. É uma característica que, com certeza, garante uma forma de continuidade e de estabilidade morosa. Mas serve também para perpetuar estruturas arcaicas e bloquear o surgimento de um senso coletivo de cidadania responsável, especialmente entre os políticos desprovidos de vergonha.

Fernando Henrique Cardoso se deixou apanhar nessa armadilha ao negociar para obter um segundo mandato. A emasculação, corrupção e cooptação do PT no governo é o mais recente capítulo da trama.

Infelizmente, a administradora de fundo de hedge tinha razão ao sair apressada do almoço naquela tarde londrina a fim de cuidar dos bilhões que tem ‘sob administração’. Qual é a novidade?

***

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Todos os comentários

  1. Comentou em 24/09/2007 Carlos N Mendes

    Nada como tomar distância para enxergar as coisas mais claramente. Você tem razão, Weis, falta ruptura. São os mesmos, desde sempre. O único contraponto que destaco é algo que esses posts aqui geralmente não deixam claro : a grande indignação aqui não á a impunidade dos de sempre, mas o fato das pessoas de sempre só terem ficado indignadas agora. Isso sim é novidade. Patética e engraçada, mas reveladora e inútil : mostrou realmente quem são esses ‘arautos da democracia’, mas efetivamente não favorece nenhuma solução.

  2. Comentou em 23/09/2007 Antoniop Carlos Silva

    Esta indiferença explicita dos estrangeiros estudiosos da situação histórica brasileira, não será porque os personagens mudam mas os acontecimentos invariavelmente se repetem ? Governos alinhados com os mais pobres e nacionalistas x elite entreguista e fascista ( Ex : Governos Getúlio, J.K., Jango versus Lacerda, Roberto Marinho, ACM, Golbery, Mesquita, Frias etc… e atualmente Governo Lula versus Artur Virgílio, Marinho Filhos, Mesquita Filho, ACM neto, Civita etc…) . Quanto aos escândalos ?, Os conservadores sempre os utilizam quando se veem afastados dos cofres do tesouro nacional .

  3. Comentou em 22/09/2007 JOSE ORAIR Silva

    Meu caro Cacalo, você está com toda razão. É melhor deixar o homem para lá, do que trazer para cá, pois sendo ladrão muito rico, haverá de se observar o rito e ao fim da demanda processual, não se julgará um grande mal que o distinto sejo solto e então, retornará ao mercado, talvez, roubando mais um bilhão e começando tudo outra vez…

  4. Comentou em 20/09/2007 Raul Gonçalves

    Nossos homens e livros

    ‘Um país se faz com homens e livros” Monteiro Lobato, escritor brasileiro (1882-1948).

    O grande José Bento Renato Monteiro Lobato nasceu em Tatuapé no interior de São Paulo em 1882. Monteiro Lobato foi um dos escritores brasileiros mais influentes do século XX. Conhecido pelo conjunto educativo de sua obra de livros infantis, que representa praticamente metade de sua produção literária.

    Contudo, quero aqui direcionar o foco deste artigo, não no conjunto da obra desse extraordinário escritor brasileiro, mas numa célebre frase de Monteiro Lobato: ‘Um país se faz com homens e livros”. Uma frase que deveria ser obrigatória em toda e qualquer sala de aula no Brasil, seja de instituição do ensino público ou privado, seja nas salas de maternal das pequenas escolas, ou nas salas de doutorado nas grandes universidades.

    É triste comprovar que 125 anos depois do nascimento de Monteiro Lobato, o Brasil insiste em não colocar em prática o magnífico – e ao mesmo tempo simples – pensamento de um dos mais ilustres brasileiros de todos os tempos.

    Exatos 125 anos depois do nascimento do escritor Monteiro Lobato, o que nos mostra a construção do Brasil em termos de homens e livros?…

    LEIA o artigo na íntegra no blog Atitude Empreendedora no link:

    http://www.brunobezerra.blogspot.com

  5. Comentou em 20/09/2007 Ivan Moraes

    ‘O PSDB continua másculo, incorruptível e independente, apenas caiu numa armadilha e ‘negociou’ a reeleição. Já o PT…’:: aplausos calorosos, R.! ate corrupcao de direita eh mais limpa que corrupcao de esquerda no Brasil. A ‘verdadeira ruptura’ da qual Weis sente falta eh a que ele nao faz! Weis, voce foi infeliz, deprimido, ou deixou escapar essa batata doce?

  6. Comentou em 20/09/2007 cacalo kfouri

    pode ficar pior. já pensou se o cacciola é extraditado e o marco aurélio solta ele de novo? ele já disse que não se arrepende do que fez, na primeira vez que o soltou, que o cacciola tem o direito de fugir. e tudo com aquela cara de empáfia que deus lhe deu. ia esquecendo: o mesmo marco aurélio mandou soltar anteontem todos os ‘santos’ presos na operação furacão, gente de reputação tãoo ilibada quanto a do renan…

  7. Comentou em 20/09/2007 cacalo kfouri

    pode ficar pior. já pensou se o cacciola é extraditado e o marco aurélio solta ele de novo? ele já disse que não se arrepende do que fez, na primeira vez que o soltou, que o cacciola tem o direito de fugir. e tudo com aquela cara de empáfia que deus lhe deu. ia esquecendo: o mesmo marco aurélio mandou soltar anteontem todos os ‘santos’ presos na operação furacão, gente de reputação tãoo ilibada quanto a do renan…

  8. Comentou em 20/09/2007 Marco Antônio Leite

    Receita para se fazer uma excelente vitamina, a qual trará mais disposição aos nobres parlamentares, os quais vivem famintos pôr um bom menu. Então mãos na massa, a receita para se fazer um vitamina de qualidade, vamos usar os partidos políticos, pata tanto, se faz necessário, juntar duas toneladas de PT, mistura uma tonelada de PSDB+DEM. Para reforçar ainda mais essa vitamina coloquemos vários quilos de PMDB, agregar os outros partidos de menor expressão, colocá-los num liqüidificador e deixar bater pôr alguns minutos. Após essa operação, colocá-lo em várias jarras, levar a geladeira e, em seguida servir bem gelado para os corruptos de plantão. Essa vitamina vai fortalecer mais ainda a volúpia em esvaziar os cofres públicos e, também, receber muita propina de empresários inescrupolosos. Quanto ao povo, este ficará com o pandulho vazio, em conseqüência, no máximo que pode conseguir, é uma doença incurável, justamente pôr falta de uma alimentação adequada. O que é pior, estará assinando seu atestado de óbito num desses hospitais sem nenhuma infra-estrutura para o bom atendimento da população pobre.

  9. Comentou em 20/09/2007 Marco Aurélio Vigario

    Incrível como tudo em política se transforma na guerra de um partido contra outro, oposição contra situação. Acho que Maxwell está falando de algo muito anterior e além, minha gente. Não importa se é PT ou PSDB. O que importa é o ciclo vicioso instaurado na política brasileira. O que importa é que, em matéria de combate à corrupção, nenhum partido no poder consegue ser novidade. É isso.

  10. Comentou em 20/09/2007 Procópio Silva

    Kenneth Maxwell não disse nada demais – precisaria dizer mais. Ficar no ‘mensalão do PT’, no ‘Renangate’ e atribuir a FHC o papel de vítima das circunstâncias – isto é muito pouco para um historiador, que estudou História do Brasil e se considera autorizado a nos dar lições de moral. É risível até que ele acredite que os fundos de hedge, jogadores financeiros, estivessem mesmo enojados com a corrupção brasileira. Acho que queriam apenas dicas de como agir em caso de acontecer o desejado golpe antilula, na esteira do julgamento do mensalão…
    O brasilianista, em sua análise, esqueceu a era de ouro dos negócios escusos – as privatizações desnacionalizantes da era FHC, que tanto beneficiaram grupos europeus, inclusive bancos ingleses… Poderia ter perguntado se Renan Calheiros não se inspirou no caso do alto personagem tucano que manteve o filho e a mãe desse filho, por acaso também uma jornalista, em dourado e silencioso exílio europeu… Como terá sido paga a manutenção dessa família secreta? E tem ainda a Feira de Hannover (19 milhões de dólares), e os esquemas das ambulâncias e da fidelização de partidos, que vieram explodir sob o governo do PT…
    O brasilianista esqueceu as teias corruptoras de um sistema mundial que se mantém pela ‘domesticação’ de elites ‘flexíveis’ nos países periféricos. Quem quer mudar, os ‘éticos’ do Norte sempre derrubaram…

  11. Comentou em 20/09/2007 Rogério Ferraz Alencar

    É isso. O PSDB continua másculo, incorruptível e independente, apenas caiu numa armadilha e ‘negociou’ a reeleição. Já o PT…

  12. Comentou em 20/09/2007 Sandra Sabella

    Muda-se para continuar rigorosamente igual. Essa é a idéia que circula entre nós, qualquer pessoa, letrada ou não. Ao invés do tipo dos aquedutos persas, por exemplo, temos os valeriodutos e as toupeiras do Consórcio da Linha Amarela do metrô paulista. Parodiando Shakespeare, muito dinheiro por nada.

  13. Comentou em 20/09/2007 Nilton Andrade Bergamini

    Muito bom o texto embora não concorde plenamente, mas ainda assim concordo.
    Só gostaria de saber porque culpar a um e generalizar a outros.
    Vou citar melhor:

    ‘Fernando Henrique Cardoso se deixou apanhar nessa armadilha…’
    ‘A emasculação, corrupção e cooptação do PT no governo…’

    Está comprovado que tanto em um caso como em outro existiram a presença do outros partidos e pessoas, no caso do FHC o PSDB e o PFL tiveram papel importante nessa armadilha. No caso do PT, não se resumiu ao PT em si mas a alguns poucos de seus filiados no governo bem como envolveram outras pessoas de outros partidos também.

    Concordo com você que há corrupção (e deve ser combatida). Mas támbem acho que essa forma de dar noticia e opinião tende a levar o leitor para um lado, o que não é errado de certa forma, mas sim anti-ético quando não se deixa claro de que lado está.

    Abraços !!!

  14. Comentou em 20/09/2007 Dante Caleffi

    Não seria mais honesta, a contrução inversa do parágrafo?
    ‘Emasculação,corrupção e cooptação de Fernando Henrique e o ínclito PSDB,e a armadilha montada para o Governo do PT?

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