Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Por que precisamos dos ‘atravessadores’

Por Luiz Weis em 21/03/2008 | comentários

A sutileza deve estar escapado ao interlocutor do presidente Lula. Num evento, depois de ouvir o governador do Paraná, Roberto Requião, desancar a mídia – que ele ama odiar -, Lula como que o aconselhou a deixar por menos. [Sabem os próximos do presidente o que ele acha do rombudo governador.]


‘Não vale a pena ter azia por ter lido alguma coisa em alguma coluna’, ensinou. ‘Eu acho que você não tem de perder tempo brigando.’


Mas aí o presidente resolveu voltar a um tema que ventilou não poucas vezes no primeiro mandato, como resposta às críticas que recebia daqueles que o reportariado costuma, ou costumava, chamar ‘jornalistas com redação própria’ – os que assinam artigos em que não se sabe exatamente onde termina a análise e onde começam os juízos de valor.


Segundo a Folha, Lula comentou:


‘Teve um tempo no Brasil que se achava que tinha formadores de opinião que falavam pelo povo. É como se fossem um atravessador, um intermediário. Hoje o povo está mais esperto, diz: ´Não preciso de tradutor´.’


Errado. Todos precisamos de tradutores que nos ajudem a entender o complexo mundo em que vivemos – e os jornalistas são apenas alguns deles.


O problema parece ser outro.


Jornalistas ou não, de caso pensado ou por insuficiente conhecimento de causa, tradutores, como dizem os italianos, traem – traduttore, tradittore. Isto é, ou para passar gato por lebre ao próximo, ou porque eles mesmos não sabem distinguir uma coisa da outra, os atravessadores de que falou Lula podem ser propagadores de verdades de pé quebrado ou de mentiras inteiras.


Nas sociedades plurais, os efeitos disso são atenuados, ou compensados, pela própria pluralidade de percepções e idéias a que, em tese, todos temos acesso. Há, ao nosso alcance, mais de um colunista, mais de um jornal, mais de uma emissora, mais de um parente, colega, vizinho, professor, sacerdote ou seja lá quem respeitemos e a quem atribuamos suficiente autoridade em relação a esse ou aquele assunto para prestarmos atenção no que afirmam.


Como sabemos das coisas? Como formamos nossas opiniões sobre elas? A experiência própria dá cada vez menos conta das respostas.


Por exemplo, em geral sabemos quando a nossa vida melhora (ou piora):ninguém nos convencerá do contrário, em cada situação, porque os fatos concretos que nos levam a dizer ‘melhorou’, ou ‘piorou’ podem mais que os argumentos.


Mas não podemos, por nós mesmos, saber se a vida melhorou, ou piorou, para a imensa massa que não está ao alcance das nossas vistas.


Simplificando brutalmente a questão, alguém tem de nos dizer: 1) o que está acontecendo com a vida dos outros; 2) por que; 3) e daí.


A instituição mídia é esse alguém. Só ela reúne a cada jornada uma legião de pessoas que, à parte os seus próprios coletores de informação e articuladores de opinião, oferecem respostas às indagações predominantes.


As pessoas escolhidas podem, ou não, ser as mais indicadas, ou as mais confiáveis. As suas respostas podem, ou não, ser bastante boas para descrever e interpretar a realidade.


E, como diz o presidente, se ficamos mais ‘espertos’ – mais instruídos e mais experientes talvez fosse melhor – tanto maiores são as nossas condições de julgar os relatos e as reflexões que nos são oferecidos e de achar se os seus autores ‘falam pelo povo’.


Mas o ponto é que não existe essa coisa de dispensar atravessadores, intermediários, tradutores. E quantos mais deles houver e mais diversos forem, tanto melhor.


Mesmo porque se lhes dermos as costas, como sugeriu Lula, a única verdade que teremos à nossa frente será a verdade oficial, o monopólio dos formadores chapa-branca de opinião.

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