Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Por que só agora Denise falou?

Por Luiz Weis em 06/06/2008 | comentários

Jornalista que acha que notícia é muito mais do que o trivial variado do “Fulano de Tal disse ontem que” – o jornalismo declaratório, na depreciativa expressão de Alberto Dines –, decerto achará também que quanto mais importante for o dito, pela autoria ou pelo conteúdo, mais urgente é tentar apurar o porquê da coisa: os motivos que levaram o(a) eventualmente ilustre declarante a dizer o que disse, nas circunstâncias em que o disse.


O gancho para essa observação trivial, mas que nem por isso se traduz em procedimentos rotineiros nas redações, é evidentemente a entrevista exclusiva ao Estado de S.Paulo da ex-diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), o órgão regulatório do setor, Denise Abreu.


Ele acusou a ministra da Casa Civil Dilma Rousseff, e a sua sub Erenice Guerra de a pressionarem para que não criasse obstáculos potenciais à venda da Varig para a sua antiga subsidiária VarigLog, em julho de 2006. Toda a mídia que conta ecoou.


Meio ano antes, quando a porta-bandeira da aviação comercial brasileira já entrara em parafuso, sob o peso de R$ 7 bilhões de dívidas impagáveis, a VarigLog foi comprada por um fundo americano de investimentos, o Matlin Patterson, em parceria com três brasileiros.


Havia fortes suspeitas – até hoje não esclarecidas – de que os brasileiros poderiam ser apenas laranjas ou testas-de-ferro do fundo, representado pelo executivo Lap Chan.


Eles seriam uma espécie de figurantes em cena para que não se dissesse que era externo todo o capital da empresa que se criou no Brasil para comprar a VarigLog, chamada Volo. Pela lei, investidores estrangeiros não podem ter mais de 20% de uma companhia aérea nacional.


Pois bem. O que Denise e outros diretores da Anac – mas não o seu presidente Milton Zanuazzi – queriam era exigir dos três brasileiros prova de origem do dinheiro com que entraram na sociedade. Sem isso, a agência reguladora não poderia aprovar a venda da VarigLog para o fundo americano, nem autorizar a compra da Varig pela VarigLog.


Denise Abreu contou ao Estado que Dilma como que mandou deixar para lá. A ministra teria argumentado que não é função da Anac, mas do Banco Central e da Receita Federal, apurar se o dinheiro da trinca era legítimo. Teria argumentado também que, de mais a mais, isso poderia dar em nada “porque era muito comum as pessoas no Brasil sonegarem imposto”, segundo a citação de Denise.


A sua acusação foi corroborada por dois outros ex-diretores da Anac. Numa entrevista, Dilma negou repetidamente a versão de Denise.


[Da série “Vejam como são as coisas”. Segundo a matéria da Folha foram oito desmentidos. Segundo a do Estado foram seis. Editorial deste último, no entanto, falou em sete, o que lhe permitiu dizer adiante que sete é “o número do mentiroso”.]


Não há a menor dúvida de que o governo queria que a Varig fosse vendida o quanto antes naquele ano de eleições nacionais e Copa do Mundo. E são veementes, como se diz nos tribunais, os indícios de que o governo usou de seus recursos de poder para conseguir o que queria – do modo como fosse possível.


Para o Estado, tamanho interesse vinha do fato de que o advogado dos três brasileiros era o compadre e velho amigo do presidente Lula, Roberto Teixeira. Um desses sócios disse ao jornal que pagou a Teixeira US$ 5 milhões “para trazer resultados” e acrescentou: “Sua influência foi 100% decisiva”. O advogado negou ter recebido essa bolada toda e anunciou que iria processar o ex-cliente [e a ex-diretora Denise, que também o mencionou]


Hoje, enfim, o Blog do Josias informa que o presidente Lula se disse “intrigado” com a entrevista de Denise. Ele teria dito também que acha “curioso” que acusações à ministra Dilma, em testes para ser a candidata do governo à sucessão, partam, invariavelmente, “de pessoas ligadas ao PT”.


Denise foi, ou ainda é, ligada ao ex-ministro José Dirceu, com quem trabalhou na Casa Civil antes de se tornar diretora da Anac.


Com isso, volta-se ao ponto de partida: o que a levou a falar o que falou – verdades, meias-verdades ou mentiras, nesse ponto tanto faz – na hora em que falou e ao jornal a que falou?


Como qualquer órgão de mídia nas mesmas circunstâncias, o Estado tem o direito de não contar os bastidores da entrevista. [Mas todos eles deviam pensar duas vezes antes de falar em “transparência”]. O leitor, portanto, não tem como saber quem ligou o ventilador: foi Denise quem ofereceu a entrevista ao jornal, ou foi o jornal – tendo tido motivos para desconfiar que há algo no ar, além dos aviões de carreira – que a procurou?


Em qualquer hipótese, os entrevistadores tinham o dever de lhe perguntar por que ela não disse o que estava dizendo em agosto do ano passado, quando depôs na CPI do Apagão Aéreo e a palavra Dilma em nenhum momento aflorou aos seus lábios [com perdão pelo pedantismo].


Feita a pergunta, ela poderia ter “desconversado”, como se lê a toda hora nos jornais quando alguém tira o corpo de uma questão desconfortável. Ainda assim, fosse qual fosse a resposta, o leitor teria sido implicitamente alertado para o “aí tem” dessa história. E “aí tem”, por sinal, na esmagadora maioria das histórias que mexem com poder, prestígio e riqueza.


Mas ainda é tempo. Se não o Estado, outro jornal, site ou blog noticioso pode fazer a pergunta até aqui, digamos, esquecida.

Todos os comentários

  1. Comentou em 07/06/2008 Ivan Moraes

    ‘Dinheiro depositado aonde? No exterior? Em que banco, qual o titular da conta, onde foi que ele viu algum documento que sustente a tal ‘prova’, segundo ele…’: excelente pergunta, Sid! Pros brasileros que ainda teem esperanca no Brasil, por favor tirem o cavalinho da chuva: O tal de ‘Liechtenstein’ do qual o Brasil ouviu em primeira mao da Revista Veja esta sendo investigado nos EUA e seus 20.000 clientes americanos sao suspeitos de desviarem ums 20 bi de dolares daqui. Vai sobrar pro Brasil. Pode esperar na porta do cemiterio porque vai sobrar… eh improvavel que o Imposto de Renda dos EUA faca ‘leak’ seletivo so dos petistas e salve os tucanos e seus amigos, sabe como eh? O que vai sobrar de amigo tucano catando cavaco pelas ruas do Brasil nao esta no jibi. Ainda. Que pena, mal posso esperar! Nem assim o dinheiro vai voltar, obvio -o Brasil nao tem judiciario- mas que vai ser uma delicia saber quem sao os nomes dos brasileiros la, vai sim.

  2. Comentou em 07/06/2008 cid elias

    Os dois últimos braZileiros que comentaram logo abaixo merecem uma resposta educada. 1- sra marina chaves, o governo É sério. Salvar, com o nosso dinheiro, uma empresa que quebrou por má administração? Tais brincando? Por que o fhc não salvou a Transbrasil, quando perdi 5 passagens Fortaleza-Poa-Fortaleza? E a Vasp? Além do quê, caso desconheças quem levou a Varig de vez pro buraco, eu te digo: david zilbersztajn, o mesmo que no governículo anterior ocupou o cargo de Dir. Geral da Ag. Nacional de Petróleo, nomeado pelo SOGRO, o privateiro-mor fhc. O ex-genro, ao assumir a Varig, tratou logo de se cercar de vários tucanos de alta plumagem, deu no que deu. Veja o caso e nome deles aqui: http://www.terra.com.br/istoedinheiro/401/negocios/tucanos_varig.htm <> 2- já o dotô emanuel rego lima, que supostamente é advogado, deveria esclarecer as tais ‘provas’ que citou: -onde ele viu MALAS DE DINHEIRO, exceto àquelas que estavam com os deputados do pfl PRESOS ao tentar embarcar num jatinho com R$ 10.000.000,00? -Enriquecimento relâmpago de QUEM? O dotô tem que dar nomes e dizer o porquê da acusação, trazer dados da tal ‘prova’, segundo ele… -Dinheiro depositado aonde? No exterior? Em que banco, qual o titular da conta, onde foi que ele viu algum documento que sustente a tal ‘prova’, segundo ele…Vamos lá, dotô emanuel, a palavra é sua(favor não citar matérias da vejaQmentira).

  3. Comentou em 07/06/2008 marina chaves

    se esse governo fosse serio, teria trabalhado para salvar a varig…

  4. Comentou em 06/06/2008 emanuel rego lima

    A queixa ( e dúvida) do waldomiro me faz lembrar a historia do sujeito que segui a mulher, acompánhada de um jovem bonitão, até quando eles entraram num motel.
    Suspirou o pobre homem: ‘ Essa duvida é que me mata….’

    Provas?
    Malas de dinheiro servem como provas?

    Enriquecimentos relampagos servem? ( Ah, sei… pode ter sido no estilo Jão ‘deus me ajudou’ Alves…).

    Dinheiro depositados em contas no Exterior, nada provam?

  5. Comentou em 06/06/2008 cid elias

    Em relação à pergunta-título do artigo, até o mundo mineral(*Mino) sabe a resposta: ela abriu o bico grande só agora, porque só agora os envolvidos no ALSTOMDUTOCANO, os éticos de sempre, aqueles do ‘choque de gestão’, necessitavam desesperadamente de algo que abafasse o escândalo das polpudas propinas por eles embolsadas. Então, em comum acordo com os cúmplices do imprensalão, fabricaram uma nova CORTINA DE FUMAÇA – aqui aproveito pra rimar e complementar a resposta – UMA DENISE DESTAS, NÃO SAI DE GRAÇA! O autor nem precisava se esmerar tanto, até porque, mesmo gastando 19 parágrafos com o assunto, ele esqueceu de mencionar quem seriam os únicos interessados nesta atitude esdrúxula da tal denise, não é mesmo? E pra quem não sabe, ela foi chefe de gabinete da Sec.Saúde do governo Covas-psdb, depois foi sei lá o que na Febem deste mesmo governo tucano, informações IMPORTANTES, mas que o autor também ‘esqueceu’ de incluir no artigo. Desviando, em parte, do assunto denise, alerto para o ‘monumental’ desinteresse do sr weis e do sr dines pelo escândalo Alstom-propinoduto tucano. Sugiro ao sr weis que escreva algo sobre o duto europeu, ou sobre as revelações feitas pelo Paulinho ‘da Força’ na entrevista publicada ontem pelo Correio Brasiliense, a qual pode ser resumida nesta frase do próprio ‘Se eu abrir a boca, CAI a república de São Paulo’, e então?

  6. Comentou em 06/06/2008 Christian Silva

    Por que abriram a boca só agora? Por que a ‘Mulher Melancia’ não fazia sucesso antes do Créu? A resposta na verdade é simples: está na roda, todos buscam informação sobre. Há oportunistas? É claro que há. No entanto não basta dizer que ‘é intriga da oposição’. É preciso se defender com mais que isso, assim como quem acusa tem de mostrar provas ou indícios que justifiquem investigação.

  7. Comentou em 06/06/2008 gersier lima

    Querem saber como age o PIG?Por favor,visitem o link
    http://www.paulohenriqueamorim.com.br/forum/Post.aspx?id=238

  8. Comentou em 06/06/2008 Marco Antônio Leite

    Tudo indica que a dona Denise é tucana com muito batom no bico e da melhor qualidade, e que reside no ninho da ave piciforme. As eleições estão se avizinhando nada melhor que dar uma bela bicada no concorrente maior, com certeza, além de acertar em cheio no peito do petismo, o feriu mortalmente, a ponto de deixá-lo estendido no chão aguardando uma mão amiga para transportá-lo até o PSPP (pronto socorro dos partidos políticos). Em ano eleitoral tudo vale inclusive falar mal dos ex-barbudos e xingar a mãe do adversário?

  9. Comentou em 06/06/2008 jonatas rosa

    Realmente é bastante estranho como as coisas funcionam nesse país. É estranho como as pessoas agem de acordo com o que é conveniente, nos momentos certos, nas ocasiões exatas.
    E, o pior, o jornalismo se presta ao papel de auxiliar nesses absurdos, age como que ingenuamente, como se tivesse deixado passar, por descuido, uma pergunta pertinente….uma interrogação que poderia mudar o rumo da prosa.
    Ainda bem que existem pessoas capazes de falar o que os demais deixam pra lá, ainda que esses poucos fiquem restritos aos realmentes interessados na verdade.

  10. Comentou em 06/06/2008 Carlos Esteves

    Denise só falou agora porque a CPI da tapioca deu em nada e era preciso criar uma nova crise. Este ano já tivemos epidemia de febre amarela, crise dos cartões corporativos (só os do governo federal, não dos governos estaduais), o ‘dossiê’ do álvaro, CPI da Tapioca. Tamnbém era preciso criar forte cortina de fumaça em relação ao caso ALSTON. A mídia deve ter um verdadeiro estoque de coisas que podem virar escandalos, desde que contra o governo federal. Era preciso manter a Ministra Dilma sob ataque. Se Denise quis falar ou foi procurada para falar, não importa. Isto faz parte da estratégia da mídia para desgastar a candidatura daquela que se mostra forte candidata a impedir que o candidato dos sonhos da mídia chegue ao PLanalto em 2010. Hoje, a oposição é realizada pela mídia; os políticos do psdb e pfl são apenas atores dirigidos pelos barões.

  11. Comentou em 06/06/2008 Antonio Lyra Filho

    Causa surpresa Denize Abreu só agora ter levando o assunto. Obvio que o governo tinha interesse na venda da Varig, pois ela é estratergica
    na avião nacional. Deize esteve na CPI e nada disse, agora vem com esta. O que parece ser coisa mandada para atrapalhar o desempenho da ministra Dilma.

  12. Comentou em 06/06/2008 dante caleffi

    Palavras da propria Denise:’ Não consigo trabalho desde que me afastei…’ Essa dureza e/ou desemprego,podem ter influenciado,nessa ‘crise de consciência’. Coincide com o fracasso da ‘escandalização do nada’,conhecida como dos’cartões corporativos’.Sem dúvida, há um testador de hipóteses,por trás disso, e não é o ‘cientista levantino’ dos
    marinhos´s brothers.

  13. Comentou em 06/06/2008 Waldomiro Pereira da Silva

    Cansei de disse me disse….

    A partir de um determinado momento a gente precisa acreditar em PROVAS MAIÚSCULAS (documento escrito, gravações…) já não dá pra ficar acreditando em qualquer um que por capricho, revolta ou motivos quaisquer, abram a boca para denegrir a Ministra Dilma.

    Se existirem provas, apresentem, se não existirem, que fiquem na insignificância do seu silêncio.

  14. Comentou em 06/06/2008 Ivan Moraes

    ‘entrevistadores tinham o dever de lhe perguntar por que ela não disse o que estava dizendo em agosto do ano passado, quando depôs na CPI do Apagão Aéreo e a palavra Dilma em nenhum momento aflorou aos seus lábios’: porque politicos e seus apadrinhados teem garantia visivel e invisivel de impunidade, tanto em CPIs como fora delas. O nome eh ‘espionagem paralegalizada’.

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