Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Prefeito: mídia critica pouco o consumo de drogas

Por Mauro Malin em 20/02/2006 | comentários

O prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia, disse hoje ao Observatório da Imprensa que a cobertura de acontecimentos como o recente conflito entre bandidos na Rocinha tem geralmente o defeito de não explicitar que o ponto de partida é o consumo de drogas. “Se, hipoteticamente, não se tivesse esse tipo de consumo naquela região, não se teria a Rocinha tão conflagrada”, afirmou.


Maia relatou sem dar nomes um caso recente de extorsão de um empresário do Rio de Janeiro e criticou a discrição com que esse tipo de corrupção é tratado. Cobrou da mídia: “Esse é um ponto que tem que ser esclarecido, até para colocá-los em dúvida. Será que vale a pena continuar? Gerar riscos para essa gente que parece que tem a certeza da impunidade por conta da sua posição social, econômica muito forte”.


Eis trechos sobre os recentes acontecimentos na Rocinha de uma entrevista mais ampla feita hoje com o prefeito Cesar Maia.


Esse conflito continuado… A seu ver quais são os piores defeitos da cobertura? Porque a cobertura tem a ver com a falta de eficácia do Estado para enfrentar os problemas.


Maia – A cobertura tem, em geral, não sempre, um vetor de desvio, que é não explicar por que existe tanto interesse em torno da boca-de-fumo da Rocinha. A boca-de-fumo da Rocinha, segundo os setores de inteligência da polícia, corresponde a 35% do varejo de drogas no Rio de Janeiro. São 50 bocas-de-fumo dentro da Rocinha. E atende o consumo da classe média, principalmente da área da Zona Sul e Barra, inclusive com serviço de “delivery” através dos motoboys, que levam a cocaína em casa, levam a maconha em casa. E pessoas que vão e têm acesso à comunidade. Se, hipoteticamente, não se tivesse esse tipo de consumo naquela região, não se teria a Rocinha tão conflagrada. Conflagração para controlar um ponto de vendas que, pela sua localização geográfica, dá uma enorme vantagem no varejo de drogas. Essa é a grande questão. A notícia tem que explicar por que existe esse conflito.


Do outro lado, a crítica à Polícia é verdadeira. Se se tem uma área como a Rocinha, onde falam de 35%, uma área como a Maré, onde falam de 30%, a Polícia tinha que ter essas duas áreas ocupadas, porque obrigatoriamente isso geraria uma dispersão. E uma dispersão é mais fácil de ser combatida do que essa concentração que se tem na Rocinha.


O senhor acha que algum combate a consumidores, não querendo transformá-los em bode expiatório da história, mas uma certa publicidade funcionaria como dissuasão? Há editores que acham isso.


Maia – Acho que falta informação para que se possa ter também uma visão negativa daqueles que consomem droga, e também não criminalizar a Rocinha como se o fato de ser favela, o fato de concentrar pessoas pobres, gerasse uma posição forte dos traficantes.


A posição forte dos traficantes, e a disputa da boca-de-fumo, é por ser um amplo varejo de distribuição de drogas no Rio de Janeiro. É só chegar ali e ver os carros que chegam, as filas que entram. É tanta gente demandando demandando droga ali, diretamente, não apenas [via] delivery, que eles não podem ter uma boca-de-fumo, eles têm que ter 50 bocas-de-fumo para um atendimento disperso ali e não gerar concentração.


Um editor disse: “Tem que costurar o nariz das pessoas”…



Maia – Vou te dar uma informação. O policial vai fazer uma “mineira”, vai “mineirar”, vai extorquir o traficante. Diz: Não vou te prender, mas eu quero dez mil reais, o valor que seja. Essa é uma situação, para o policial, incômoda. A situação cômoda para o policial não é fazer esse tipo de extorsão. É fazer extorsão contra um consumidor de classe média alta. Há um caso, não vou dizer nomes, porque não posso, de um empresário importante do Rio de Janeiro é surpreendido pela Polícia através de gravações com uma quantidade importante de cocaína, que não caracterizava consumo pessoal. E pagou 300 mil reais para não vir o flagrante. Ora, isso é muito mais cômodo para o policial do que o achaque em cima do traficante. Isso acontece com muito maior freqüência do que a “mineira” em cima do traficante. Acontece em cima de um jovem consumidor de classe média que o pai chega, desesperado, e paga dez mil reais, cinco mil reais; é o que paga uma “mineira” numa boca-de-fumo dessas. E essa situação fica protegida, porque se protegem aqueles cuja exposição, numa situação dessas, é alguma coisa que afeta segmentos que são consumidores sociais, ou dependentes de droga nas áreas de classe média mais alta.


Esse é um ponto que tem que ser esclarecido, até para colocá-los em dúvida. O que eu faço? Para onde eu vou? Será que vale a pena continuar, ou não continuar? Gerar riscos para essa gente que parece que tem a certeza da impunidade por conta da sua posição social, econômica muito forte.


Ver também ‘O Kuwait carioca da cocaína‘.


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