Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Prefeito: mídia critica pouco o consumo de drogas

Por Mauro Malin em 20/02/2006 | comentários

O prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia, disse hoje ao Observatório da Imprensa que a cobertura de acontecimentos como o recente conflito entre bandidos na Rocinha tem geralmente o defeito de não explicitar que o ponto de partida é o consumo de drogas. “Se, hipoteticamente, não se tivesse esse tipo de consumo naquela região, não se teria a Rocinha tão conflagrada”, afirmou.


Maia relatou sem dar nomes um caso recente de extorsão de um empresário do Rio de Janeiro e criticou a discrição com que esse tipo de corrupção é tratado. Cobrou da mídia: “Esse é um ponto que tem que ser esclarecido, até para colocá-los em dúvida. Será que vale a pena continuar? Gerar riscos para essa gente que parece que tem a certeza da impunidade por conta da sua posição social, econômica muito forte”.


Eis trechos sobre os recentes acontecimentos na Rocinha de uma entrevista mais ampla feita hoje com o prefeito Cesar Maia.


Esse conflito continuado… A seu ver quais são os piores defeitos da cobertura? Porque a cobertura tem a ver com a falta de eficácia do Estado para enfrentar os problemas.


Maia – A cobertura tem, em geral, não sempre, um vetor de desvio, que é não explicar por que existe tanto interesse em torno da boca-de-fumo da Rocinha. A boca-de-fumo da Rocinha, segundo os setores de inteligência da polícia, corresponde a 35% do varejo de drogas no Rio de Janeiro. São 50 bocas-de-fumo dentro da Rocinha. E atende o consumo da classe média, principalmente da área da Zona Sul e Barra, inclusive com serviço de “delivery” através dos motoboys, que levam a cocaína em casa, levam a maconha em casa. E pessoas que vão e têm acesso à comunidade. Se, hipoteticamente, não se tivesse esse tipo de consumo naquela região, não se teria a Rocinha tão conflagrada. Conflagração para controlar um ponto de vendas que, pela sua localização geográfica, dá uma enorme vantagem no varejo de drogas. Essa é a grande questão. A notícia tem que explicar por que existe esse conflito.


Do outro lado, a crítica à Polícia é verdadeira. Se se tem uma área como a Rocinha, onde falam de 35%, uma área como a Maré, onde falam de 30%, a Polícia tinha que ter essas duas áreas ocupadas, porque obrigatoriamente isso geraria uma dispersão. E uma dispersão é mais fácil de ser combatida do que essa concentração que se tem na Rocinha.


O senhor acha que algum combate a consumidores, não querendo transformá-los em bode expiatório da história, mas uma certa publicidade funcionaria como dissuasão? Há editores que acham isso.


Maia – Acho que falta informação para que se possa ter também uma visão negativa daqueles que consomem droga, e também não criminalizar a Rocinha como se o fato de ser favela, o fato de concentrar pessoas pobres, gerasse uma posição forte dos traficantes.


A posição forte dos traficantes, e a disputa da boca-de-fumo, é por ser um amplo varejo de distribuição de drogas no Rio de Janeiro. É só chegar ali e ver os carros que chegam, as filas que entram. É tanta gente demandando demandando droga ali, diretamente, não apenas [via] delivery, que eles não podem ter uma boca-de-fumo, eles têm que ter 50 bocas-de-fumo para um atendimento disperso ali e não gerar concentração.


Um editor disse: “Tem que costurar o nariz das pessoas”…



Maia – Vou te dar uma informação. O policial vai fazer uma “mineira”, vai “mineirar”, vai extorquir o traficante. Diz: Não vou te prender, mas eu quero dez mil reais, o valor que seja. Essa é uma situação, para o policial, incômoda. A situação cômoda para o policial não é fazer esse tipo de extorsão. É fazer extorsão contra um consumidor de classe média alta. Há um caso, não vou dizer nomes, porque não posso, de um empresário importante do Rio de Janeiro é surpreendido pela Polícia através de gravações com uma quantidade importante de cocaína, que não caracterizava consumo pessoal. E pagou 300 mil reais para não vir o flagrante. Ora, isso é muito mais cômodo para o policial do que o achaque em cima do traficante. Isso acontece com muito maior freqüência do que a “mineira” em cima do traficante. Acontece em cima de um jovem consumidor de classe média que o pai chega, desesperado, e paga dez mil reais, cinco mil reais; é o que paga uma “mineira” numa boca-de-fumo dessas. E essa situação fica protegida, porque se protegem aqueles cuja exposição, numa situação dessas, é alguma coisa que afeta segmentos que são consumidores sociais, ou dependentes de droga nas áreas de classe média mais alta.


Esse é um ponto que tem que ser esclarecido, até para colocá-los em dúvida. O que eu faço? Para onde eu vou? Será que vale a pena continuar, ou não continuar? Gerar riscos para essa gente que parece que tem a certeza da impunidade por conta da sua posição social, econômica muito forte.


Ver também ‘O Kuwait carioca da cocaína‘.


Todos os comentários

  1. Comentou em 21/03/2006 Rosângela Ribeiro

    Aqui em Santos acompanhamos com preocupação também a questão das drogas. O problema não está apenas no Rio de Janeiro. Está em toda a parte. Na escola. No clube. Na esquina de casa (e mesmo dentro de casa). Na praia. Nos nossos passeios. O problema voltou (?) com tudo com a exibição do vídeo ‘Falcão – meninos do tráfico’, pelo programa Fantástico, da Rede Globo de Televisão, no dia 19 de março. Todos ficamos surpresos? Com quê? Será que não sabemos que a sociedade está ‘doente’ não apenas por causa dos que vendem a droga, mas, principalmente, por quem a consome. Pesquisando alguns sites sobre o assunto encontrei um, chamado http://www.adeusdrogas.com.br, com uma visão diferenciada. Com uma abordagem que até agora não vi ser colocada, que é a de tratar o assunto tocando na ‘ferida’: por que as pessoas querem se drogar? Por mágoas? Por falta de atenção? Por falta de amor? Por falta de diálogo? Pois é, muito ainda temos de conversar sobre o tema para não ficarmos ‘sobressaltados’ com vídeos como o do rappper MV Bill.

  2. Comentou em 21/03/2006 Newton Güenaga

    a questâo das drogas é mais séria do que se pensa. um problema que está se tornando comum seria as clinicas de recuperação. Parece chique. mas quando volta para o seu ambiente os problemas com droga voltam. precisamos recuperar as pessoas no seu ambiente. Entrei no site http://www.adeusdrogas.com.br e pude conhecer uma nova abordagem do assunto. buscar as mágoas que as pessoas tem e vão parar nas drogas e a recuperação é no seu ambiente, sem isola-lo ou interná-lo. além disso ajuda ao drogado temos o problema de suporte que necessitam so familiares para superar essa fase muito ruim da vida.

  3. Comentou em 20/02/2006 Paulo de Tarso Neves Junior

    ‘Há um caso, não vou dizer nomes, porque não posso, de um empresário importante do Rio de Janeiro é surpreendido pela Polícia através de gravações com uma quantidade importante de cocaína, que não caracterizava consumo pessoal. E pagou 300 mil reais para não vir o flagrante.’ Como não vai citar nomes? Por que o prefeito não cita nomes? Por que esse traficante pilantra não está preso? Só porque é empresário? Está explicado o poder do tráfico no Rio.

  4. Comentou em 20/02/2006 Luis Lopes

    Pelo menos nisso, o Cézar Maia tem razão, foi duro de assistir neste Domingo, a Cristiane Torloni fazer o seu apelo contra a violência na Rocinha, em pleno Faustão, sem fazer uma menção sequer aos grandes impulssionadores deste mercado, os consumidores.
    Outro ponto que eu nunca vi ninguém abordar na mídia: Como as quadrilhas rivais conseguem invadir e tomar o controle do morro com no máximo 20 traficantes soldados se a polícia alega que, para a polícia, esta missão é impossível por causa do relevo, do acesso e etc…?

  5. Comentou em 20/02/2006 sergio verta

    Pela primeira vez ,estou com o Prefeito. Não é só a Mídia que não comenta (e combate) o uso de drogas. Nosso Parlamento tambem, quando entram nesse campo, é somente para abrandar as penas dos (dependentes) ,(entendam como quiserem.)

  6. Comentou em 20/02/2006 Alexandre cardoso

    Por favor, vamos entrar na realidade, o consumo de droga neste país está liberado, não oficialmente, mas os consumidores andam por aí dia e noite acendendo seus baseados, cheirando pó e etc… Em plena luz do dia muito cômodos e alheio a qualquer lei, pois não existe mesmo. Tudo isso porque são vistos como doentes, meu Deus! Onde chegamos enquanto tratarmos com se fossem vítimas não chegaremos a lugar nenhum, o Estado tem que fazer entender que não é permitido em hipótese nenhuma usar drogas.Mas infelizmente é a política que manda, e os bandidos se aproveitam disso. Parabéns, Brasil, estamos nos tornando um dos países que mais consome drogas no mundo… Deus nos ajude.

  7. Comentou em 20/02/2006 JOÃO ALMEIDA DE SOUZA

    Pois é, e tudo começou com uma brincadeira. Festa na cidade maravilhosa sem o pó branco era festa careta. Agora, a própria sociedade legitima esse comportamento pós-moderno. Quem deveria dar exemplo, como os chamados intelectuais, artistas, e a gente VIP que se apresenta nos meios de comunicação de cara cínia a falar de moralidade, são os primeiros a cair na farra dos tóxicos. E nós acreditando que eles são sérios, sem agravar a todos, é claro. Qual é o setor da imprensa que vai dizer o quanto rolou de drogas no show dos Rolling Stones? Vieram pra cá, espalharam as sua maldições, e os brasileiros que se lixem. Eles já foram embora com os bolsos cheios de dinheiro. E nós temos que arcar com os grandes prejuízos de aids, futuras mães solteiras e filhos órfãos de pais, etc. Quem vai falar mal do U2 em São Paulo? Todo mundo rindo, achando uma beleza, e a nossa juventude se acabando na anarquia. Quem vai consolar os pais que fizeram de tudo para educar os seus filhos, vendo-os escravizados de uma mentalidade alternativa? Quem vai ter coragem de fazer uma operação como foi feita na Itália para prender os principais do tráfico? Assim, não tem governante que dê jeito, enquanto a elite continuar financiando e promovendo os vícios e a jogatina. A solução está em eliminar as causas, e não em resolver paliativamente as conseqüências. Deus tenha misericórdia de nós!

  8. Comentou em 20/02/2006 eric menezes

    Precisamos deixar de ser hipócritas. Não se conseguirá combater o tráfico perseguindo usuários e viciados. O problema da violência gerada pelo tráfico é a lei que proíbe as drogas, esta lei é que mata inocentes, porque ela não respeita outra lei ainda mais forte: a da oferta e da procura, principalmente se o monopólio da oferta está na mão dos miseráveis. ´Quem quer morrer tem preferência. Milhões de inocentes já morreram porque acham importante impedir o playboy de cheirar pó. Nunca ninguém morreu alvejado por um papelote de cocaína perdido. Prefeito, essa declaração sua é simplória, e mostra que temos um miserável intelectual na prefeitura.

  9. Comentou em 20/02/2006 Vagner Augusto

    A incompetência da Prefeitura do Rio em relação a Rocinha também chega a ser impressionante. Aqui em Porto Alegre foi feito um trabalho interessante em relação ao combate ao trafico. Foi urbanizado os maiores pontos de venda permitindo que a policia adentrasse esses lugares a qualquer hora e rapidamente. Esses dias estive no Rio e foi chocante ver que em 3/4 da favela da Rocinha só se entra a pé. Absurdo. Pra mim é a facilidade em se esconder e de fugir que faz da Rocinha um ponto interessante pra se vender drogas. Pelo que percebo o que vai ter que acontecer é o governo federal ocupar durante um longo tempo a Rocinha, desapropriar alguns barracos e contruir algumas avenidas alí dentro porque se depender dos prefeitos cariocas, eles vão sempre jogar a culpa em todo mundo e nunca assumir a suas responsabilidades e mesmo assim vão sendo eleitos, e quanto ao governo do Estado do Rio de Janeiro, aparentemente no momento ele não existe.

  10. Comentou em 20/02/2006 luiz carlos tessima

    Tambem concordo com o prefeito para com o modelode cobertuta jornalistica em que atacam a parte dos usuarios de drogas nas camadas da sociedade de alto poder aquisitivo. Todos sabemos que quem consome mais drogas sao as camadas de alto poder aquisitivo.

  11. Comentou em 20/02/2006 alisson quaresma

    Não adianta criticar consumo. O que tem que ser feito é o Governo tomar conta da plantação, produção e distruição de drogas, gerando impostos, empregos e controles para o governo. somente com esta corajosa ação o governo acaba de uma vez por todas com todo o tráfico de drogas. Por que não fazer uma área, um lugar em que a venda é permitida, controlada e com arrecadação de impostos ?
    NÂO existe meio de controlar a VONTADE das pessoas. COm a atual política de combate as drogas, o governo vai continuar enxugando gelo…

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