Terça-feira, 22 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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CÓDIGO ABERTO > Desativado

Primeiro, clarear a balbúrdia

Por Luiz Weis em 11/07/2008 | comentários

O artigo de Eliane Cantanhêde na Folha de hoje, “O homem que racha o poder”, faz um apanhado da polêmica que corre solta no Judiciário, no Congresso e na imprensa, sobre os métodos da Polícia Federal na Operação Satiagraha, cujo alvo principal, Daniel Dantas, a senadora petista Ideli Salvatti, citada favoravelmente na coluna, define como “o maior corruptor da história”.


Mas seria mortal para a mídia deixar no ar qualquer sombra de suspeita de que isso pode ter parte com as motivações dos críticos da PF e com o conflito aberto entre o juiz federal Fausto de Sanctis que autorizou as prisões de Dantas e de tutti quanti, e o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, que mandou soltá-lo com base em um pedido de habeas-corpus anterior à detenção – e pediu abertura de sindicância contra de Sanctis, depois que este repetiu a ordem de prisão.


Por enquanto, ao menos, o que a imprensa deve ao leitor é um esforço concentrado para dar um mínimo de clareza ao que o jurista Carlos Ari Sundfeld, numa entrevista a Gabriel Manzano Filho, no Estado de hoje, chama de “instabilidade” – a balbúrdia das decisões judiciais que se contradizem um dia depois do outro, deixando o público perplexo.


Com toda a probabilidade, entre o juiz que prende e o juiz que solta, a opinião pública fecha com o primeiro. E fecha também com a idéia de que, no combate ao crime do colarinho branco, melhor a polícia errar por excesso do que por omissão. Mas o noticiário não pode se acomodar a isso.


Não é porque o Brasil é recordista em impunidade que a polícia está sempre certa nas já não tão raras vezes em que engaiola um figurão – principalmente da maneira como o faz, para aparecer na Globo mostrando serviço. Por outro lado, não é porque um é presidente do Supremo e outro é um juiz criminal conhecido por seu rigor que o primeiro defende melhor do que o segundo os fundamentos do Estado democrático de direito.


Enquanto não puderem demonstrar com todas as letras que A e B agem um na contramão do outro porque os seus respectivos interesses são antagônicos e esses interesses não são lá muito católicos, já farão muito os jornais se proporcionarem ao leitor a visão mais desanuviada possível dos argumentos em confronto.


Acrescentado às 09h52 de 12/7/08


Críticos do ministro Gilmar Mendes deveriam ser convidados pela imprensa para comentar os argumentos do segundo habeas-corpus que ele concedeu a Daniel Dantas; e críticos do juiz de Sanctis deveriam comentar os argumentos do abaixo-assinado de seus colegas contra Gilmar Mendes.


Isso ajudará o público a formar opinião sobre o conflito no Judiciário. Claro que o plano técnico não é tudo. Mas sem ter uma idéia minimamente consistente do que, afinal, os dois lados estão falando, o leitor fica refém dos jogos de interesses que se infiltram no noticiário da imprensa – e não são poucos.


Acrescentado às 14h09 de 12/7/08


Ou muitíssimo me engano, ou nenhum jornal fez qualquer coisa com a informação que se lê no 10º parágrafo da matéria ‘Dantas falou com Braz sobre a investigação’, de Juliano Basile, no Valor de ontem.


A informação tem nada a ver nem com Dantas, nem com Braz – e sim com o mais importante político brasileiro citado nos trechos já vazados do relatório da Operação Satiagraha. Seguinte:


‘Ao falar de Naji Nahas, a Polícia Federal mostra-se impressionada com a habilidade do investidor no mercado financeiro. As gravações entre Nahas e doleiros revelariam, segundo a PF, que o investidor teria importantes informações privilegiadas. Em 5 de novembro de 2007, Nahas fala com um doleiro que a Cesp seria privatizada e monta operação para ganhar R$ 80 milhões, segundo a PF. O investidor diz na gravação que a privatização fora informada a ele pelo próprio ‘Serra’ (governador de São Paulo, José Serra).


Por escassa que seja a credibilidade do especulador – ele diz ter sabido com antecedência da decisão do Fed, o banco central americano, de aumentar os juros – o mínimo a esperar dos jornais de hoje seria um comentário de Serra a respeito (ou o seu eventual silêncio, se essa fosse a sua reação, caso procurado).


O que não pode é esse silêncio da mídia.

Todos os comentários

  1. Comentou em 09/08/2008 João Drummond

    Para se falar em abuso de autoridade temos que falar tambem na do Supremo, que atropelando todas as instancias profere habeas corpus em tempo recorde à corruptos contumazes. Ao cidadão comum, farto com tanta desenvoltura de criminosos engravatados e tanta impunidade à corruptos ricos estes tecnicismos legais causam asco e repulsa. Um Estado que sofre de corrupção cronica e dá asas a impunidade tem como doença coadjuvante o denuncismo, a boataria e a antecipação de culpa. Bom não é mas pior a a doença principal.

  2. Comentou em 14/07/2008 oswaldo jorge baldo

    Dalmo Dalari criticou fortemente a nomeação por FHC de Gilmar Mendes para o supremo em 2002, dizendo que FHC colocava-o para manter proteção e poder em governos futuros, mais ainda descretitava a condição de idoniedade do mesmo. Já era sabido à muito a que e a quem serve esse protetor de corruptos.

  3. Comentou em 13/07/2008 Henry Henriques

    Quem diria o Serra hein!!! Com aquele discursinho de sempre, de bom moço, é um lobo revestido de cordeiro sempre fugindo da responsabilidade. Deixa SP se transformar num caos e ainda tem proteção da mídia golpista!

    Este Serra nunca me enganou, e agora ainda fica mais clara toda minha ojeriza contra os tucanos e demos!!!

    São bandidos de mão cheia, cheia da grana roubada dos cofres públicos e dos esquemas de privatizações fraudulentas com tráfico de influências, informações privilegiadas e desvios de dinheiro público!!! Essa gente, estes partidos (PSDB/DEM) não respeitam o povo brasileiro!!!

  4. Comentou em 13/07/2008 carlos alberto

    Em 8 de maio de 2002, quando GIlmar Mendes estava para ser nomeado por FHC para o STF, o jurista e professor Dalmo de Abreu Dallari foi profético, em artigo escrito na Folha de São Paulo:

    SUBSTITUIÇÃO NO STF

    Degradação do Judiciário

    Nenhum Estado moderno pode ser considerado democrático e civilizado se não tiver um Poder Judiciário independente e imparcial, que tome por parâmetro máximo a Constituição e que tenha condições efetivas para impedir arbitrariedades e corrupção, assegurando, desse modo, os direitos consagrados nos dispositivos constitucionais.

    Sem o respeito aos direitos e aos órgãos e instituições encarregados de protegê-los, o que resta é a lei do mais forte, do mais atrevido, do mais astucioso, do mais oportunista, do mais demagogo, do mais distanciado da ética.

    Essas considerações, que apenas reproduzem e sintetizam o que tem sido afirmado e reafirmado por todos os teóricos do Estado democrático de Direito, são necessárias e oportunas em face da notícia de que o presidente da República, com afoiteza e imprudência muito estranhas, encaminhou ao Senado uma indicação para membro do Supremo Tribunal Federal, que pode ser considerada verdadeira declaração de guerra do Poder Executivo federal ao Poder Judiciário, ao Ministério Público, à Ordem dos Advogados do Brasil e a toda a comunidade jurídica.

    Se essa indicação vier a ser aprovada pelo Senado, nã

  5. Comentou em 13/07/2008 henrique rodrigues

    Faltou dizer que a mídia também não pode silenciar sobre a ‘confissão’ dos investigados de que teriam facilidades no STJ e no STF. Ou isso não é motivo de investigação jornalística? Curioso. Na grande imprensa, o ‘caso Dantas’ virou agora o ‘caso Polícia Federal’. Curiosamente, debate-se mais o procedimento da polícia que os procedimentos de Dantas, o (suposto) excesso da PF que os ‘excessos’ do banqueiro. Qual excesso da polícia? O das algemas e o do televisionamento, só permitidos, aparentemente, para operações contra pobres e pretos. Aliás, nessa mesma semana, continuei vendo na mídia várias reportagens sobre supostos criminosos sendo presos e ‘apresentados’ para a sociedade, algemados, filmados e fotografados. Nenhum debate sobre isso, nenhuma manifestação contra. Não, não acho que a PF deva agir como justiceira dos fracos e oprimidos. Mas também não acho que parte da mídia deva agir como justiceira dos ricos e famosos, ecoando (com suposta isenção jornalística)aqueles que apontam suas armas contra a PF. O debate sobre as algemas é ridículo. Querem algemar é a democracia – uma democracia ‘controlada’ é o velho sonho de Oliveira Viana e de Golbery do Couto e Silva, inflamando ainda a imaginação de muito brasileiro.

  6. Comentou em 13/07/2008 Jose de Almeida Bispo

    Esse moço, o Gilmar Mendes… será que está ele à altura de uma Suprema Corte de Justiça (de qualquer país)?

  7. Comentou em 13/07/2008 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Elementar meu caro Weis! É preciso saber quem tem dinheiros nas mãos do Nahas e nas mãos do Dantas para saber quem possui motivos duvidosos para denfendê-los e libertá-los, inclusive na mídia. A sacanagem da cobertura exclusiva da Globo é evidente. Fica paredendo que o Brasil é um ator global sobre o qual a empresa pode exigir exclusividade e não o ente público que lhe concedeu a exploração da difusão televisiva. Alguém na PF levou bola… um montão de bola, penso.

  8. Comentou em 13/07/2008 Fábio José Cavalcanti de Queiroz

    Sr. Weis:

    A ‘bancarada’ e seus acólitos, decerto, o agradecem por seus inestimáveis préstimos. Essa prudência excessiva – acompanhada do inevitável equilíbrio analítico – não é acionada quando a repressão é desencadeada contra os desapossados da vida: sem-terra, sem-teto, falevados etc. O senhor cumpre o seu papel na condição de membro de uma imprensa oficial que não se furta de defender ‘os seus’: brancos, ricos e saudáveis. De feito, a lei deve ser aplicada vigorosamente contra negros, pobres e trabalhadores. Lendo-o, não há como não chegar a essa ilação. Em suma, é isso: a justiça tem olhos de classe. O Juiz Mendes não me deixa mentir. E a imprensa?

  9. Comentou em 13/07/2008 José Carlos dos Santos

    Caro Weiss, há um bom tempo não comentava em seu blog, mas continuo a lê-lo, e escrevo agora para apoiar a sua cobrança sobre o silêncio da mídia, não só sobre esse assunto, mas também sobre indiciamento, pela PF de jornalistas ligados a Dantas, a mídia brasileira está com um débito monstro com os seus leitores.

  10. Comentou em 13/07/2008 Eduardo Panda

    Isso de algemar tinha que estar culturalmente estabelecido no país. Tem que algemar, sim! Principalmente esses que roubam milhões e deixam outros tantos (só que pessoas) desamparadas ou prejudicadas, pela falta de assistência do Estado. Algemar é pedagógico, é a antítese da impunidade que reina neste país, esta sim a verdadeira balbúrdia, e que tanto nos atrasa. Cadeia nesses safados!

  11. Comentou em 13/07/2008 João Drummond

    O Presidente do Supremo Tribunal Federal está colocando o Supremo em suspeição ao emitir pareceres tão urgentes, favoráveis à corruptos contumazes e conhecidos, contra a ação eficiente da Policia Federal, que numa prisão em flagrante com provas ostensivas, escancara os intestinos da criminalidade de colarinho branco.
    Está sinalizando ao País que mais uma vez que,quem tem dinheiro tudo pode.
    Porque o Supremo tem que se expor desta forma em simples caso de policia?
    O que teme o Ministro?
    Porque milhares de criminosos de baixo cacife não estão recebendo este mesmo tratamento, já que aos olhos da Lei todos são iguais?

  12. Comentou em 13/07/2008 Marco Antônio Leite

    Na habitação tosca do pobre a polícia não pede licença, muito menos mantém contato com a rede Globo para filmar a derrubada da porta do barraco a ponta pés. Todavia, tem jornalista que esta com dó do Daniel Dantas, Celso Pitta e congêneres só porque esses bandidos de terno e gravata foram presos em suas maravilhosos mansões pela polícia Federal, foram encaminhados para a PF algemados. Será que estamos vivendo em dois sistemas políticos, um o democrático, o qual só entra aqueles que têm muito dinheiro e participa da corrupção ativa e passiva. O outro é a ditadura que enquadra e põem na cadeia os bandidos do colarinho sujo sem dó nem piedade, basta verificar as masmorras que estão lotadas de jovens pobres por todos os lados. Caro escriba, democracia é governo do povo, para o povo e, pelo que eu saiba você também faz parte do povo, ou tu pertences e freqüentas o clube dos endinheirados.

  13. Comentou em 13/07/2008 Luciano Prado

    Aliás, os jornais andam tangenciando e passando ao largo do que relmente interessa. Por exemplo: os quase UR$ 3 bi que Dantas mandou para paraísos fiscais. Ao contrário disso é possível que tentem pautar a população com assuntos como algemas e grampos. E óbvio, tentar desqualificar o juiz De Sanctis e a PF.

  14. Comentou em 13/07/2008 Jose Eduardo Santos

    Houve supressao de instancia, entao o Ministro deve arcar pelo desrespeito da lei, ser decretado impedido, no mais, a midia esta em silencio, dizem que ha um relatorio da PF exclusivo para relaçao do investigado e a imprensa (blog do Nassif) o que justifica o silencio.

  15. Comentou em 12/07/2008 marina chaves

    meu deus! na verdade o que a rede globo mostrou em primera mão foi apenas a ponta de um vastissimo iceberg, isso sim…. tá me lembrando o fime titanic… a investigaçao da policia federal parece que não perdoará ninguem…. poderiamos passar um final de semana sem esse barulho todo! mas uma coisa é certa: se ninguem tomar uma providencia agora, perderemos uma oportunidade de ‘passar esse pais a limpo’ como diz o jornalista boris casoy…. e esses esquemas continuarão, para o prejuizo do pais!

  16. Comentou em 12/07/2008 Evandro Henrique

    Dantas tem jornalistas no bolso para plantar notícias que depois serão usadas pra sustentar os argumentos dos advogados, na planilha que cita a propina ele esclarece isso, e com isso não demoraria muito a mídia começar a se virar contra a PF. Se não fossem as algumas seria alguma outra coisa, sem dúvida conseguiriam argumentos pra desqualificar a operação.
    Com relação à Gilmar Mendes só basta lembrar que nem os advogados de defesa foram tão enfáticos na proteção à Dantas. Suspeito, muito suspeito…

  17. Comentou em 12/07/2008 Luciano Prado

    Há muito a sociedade brasileira, através de inúmeros meios de comunicação, vem mostrando sua indignação com a imprensa brasileira. Mas nada tem sido feito. No caso concreto, a imprensa continua escondendo Daniel Dantas e seus jornalistas amestrados.

  18. Comentou em 12/07/2008 Tiago Ferraz

    Caro Luiz, até onde eu li (especialmente a notícia da Folha Online), a decisão do Min. Gilmar Mendes de pedir a abertura de sindicância contra o juiz De Sanctis foi por causa da autorização concedida à PF para monitorar o gabinete do ministro, não por causa da segunda ordem de prisão. Não entro no mérito se o ministro está certo ou errado, mas o fato é que sua coluna, assim como reportagem do Jornal Hoje da Rede Globo, dá a entender que o ministro estaria retaliando uma suposta discordância de seu julgamento, o que não me parece necessariamente verdade.

  19. Comentou em 12/07/2008 Marco Lima

    Prezado comentarista. O trabalho com a guilhotina é bastante moroso, um por vez. Sugiro o paredón. Bem menos trabalhoso.

  20. Comentou em 12/07/2008 Marco Vitis

    Todos recebem do Estado.
    A Polícia Federal, os promotores e o Juiz Federal de SP trabalharam em favor da sociedade brasileira.
    De outro lado, Gilmar Mendes faz plantão e, de forma devotada e célere, opera para a libertação do banqueiro criminoso.
    A imprensa deve divulgar os 89 nomes que constam do Disco Rígido do Banco Opportunity e os que fazem parte da organização criminosa e que estão documentados nas gravações autorizadas.
    Este é um momento histórico propício para o Brasil dar um salto de qualidade. E deve começar por Gilmar Mendes, antes de voltar a prender Daniel Dantas. Ou então, que se abram os portões das penitenciárias e coloquem o Marcola do PCC no STF.

  21. Comentou em 12/07/2008 Marco Davis

    Caro Sr. Luiz Weis, ou o senhor é inocente ou está usando de fina ironia. Imaginar que a tacanha imprensa nacional vai destacar o fato de que Serra está envolvido até o último fio de cabelo (ele ainda tem)
    na quadrilha de Dantas (que o diga a sua filha Verônica), só mesmo para causar risos. Daqui a pouco o Sr. vai querer que a imprensa destaque o fato de que Dantas se tornou bilionário durante a privataria de FHC (ao melhor estilo russo). Pode esquecer.

  22. Comentou em 11/07/2008 Alexandre Carlos Aguiar

    Eu gostaria, imensamente, que alguém me esclarecesse o porquê de tamanha celeuma na prisão destes bandidos (de colarinhos, por sinal, bem encardidos)? Reclama-se que o Brasil é campeão de impunidade, que nessa ‘terra brasilis’ só vai pra cadeia preto e pobre, que quando um rico cai só fica um dia, etc, etc. E aí, numa ação espetacular, a brava gente da PF põe em cana alguns dos maiores figurões da República e do crime organizado, cuja prisão todos (aqueles de boa índole) clamam. ‘Ah, mas assim não pode. Com algemas, não’. Eu tenho vergonha é do Brasil que prende coitados que roubam potes de margarina em supermercado. Quando a polícia prende esses cabras, me orgulho em ser brasileiro. Pena que a guilhotina tenha sido aposentada.

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