Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Procurando briga com o Google

Por Luiz Weis em 15/04/2009 | comentários

O Google está no olho de um furacão que começou a se formar nos Estados Unidos e deve se espalhar pelo resto do mundo.


Como você sabe, a não ser que tenha acabado de desembarcar de Marte, o mais poderoso site de busca da internet é daquelas criações que fazem as pessoas se perguntar: como é que a gente conseguia viver sem ela?


Antigamente, havia em São Paulo um jornal chamado Gazeta Esportiva. Tinha um slogan: se a Gazeta não deu, ninguém sabe que aconteceu.


O Google é mais ou menos isso levado à enésima potência: se você não achar ali o que procura, é porque, com toda a probabilidade, o que você procura não existe.

Sem falar nessa maravilha absoluta chamada Google Earth, com suas imagens e mapas. Depois dele, ficou muito difícil, quase impossível, perder-se neste mundo.


O Google não cessa de se expandir, determinado a negar o Postulado de Friedman – alusão ao economista americano Milton Friedman [1912-2006] que dizia que “na economia, não existe almoço grátis”, ou seja, tudo tem um custo, que alguém sempre terá de pagar.


Para zilhões de usuários, o Google não é um almoço grátis. É um celestial banquete grátis. Os custos, ou parte deles, são bancados pelos anúncios – os “links patrocinados” que aparecem nas páginas que o sistema abre quando acionado por uma consulta.


Os motores do Google funcionam tão bem que os anúncios são cada vez mais sob medida para o internauta-consulente. O Google, portanto, não apenas sabe o que você procura, mas também sabe quem você é.


“O Google prescruta nossas casas, nossos oceanos, nossas fraquezas, nossos movimentos e nossos gostos”, escreve no New York Times de quarta-feira, 15, a colunista Maureen Dowd, a propósito de sua visita à sede do Grande Irmão, em Mountain View, California, e de sua conversa – não é propriamente uma entrevista – com o chefão do negócio, Eric Schmidt.


O que a levou até ali foi justamente o furacão que ameaça – ou poderá vir a ameaçar, para ser mais prudente – o modelo Google de dois lados: um, a sua apropriação e oferta de conteúdos presumivelmente protegidos pelo direito autoral; outro, a devassa que os seus motores de busca fazem na intimidade alheia.


Firmas como o Google, atesta a colunista, sequestraram o jornalismo, “fazendo nos sentir tão modernos como a réplica do Tyrannosaurus rex que fica no seu campus”.


Maureen: “Schmidt, de 53 anos e fala mansa, exibe a calma do terapeuta que sabe das coisas quando explica por que a privacidade já era e porque jornais que já eram não vão arrancar dinheiro do Google para se salvar’.


Querem “arrancar” dinheiro do Google, para usar o verbo agressivo do seu criador, o megamagnata das comunicações Rupert Murdoch (que diz que ‘os grandes jornais não devem deixar o Google roubar nossos direitos autorais’) e Robert Thomson, editor-chefe do Wall Street Journal, um dos jornais de Murdoch, (que compara sites como o Google a parasitas intestinais, tênias e solitárias).


Outro que está de olho nos dólares de Schmidt é a agência de notícias Associated Press. [Leia neste blog, a propósito, o artigo “Jornalismo de banda estreita”, de 15/4, dez últimos parágrafos.]


A AP fala em processar o Google e outros agregadores de notícias que usam sem permissão, e sem pagar nada em troca, material jornalístico de agências e publicações.


Eles que tratem de se remunerar de outra forma, parece ser a resposta de Schmidt. “A melhor maneira de sair dessa é inventar um novo produto”, aconselha, sem entrar em detalhes, naturalmente. “É o jeito Google de pensar. Os instalados quase nunca inventam o futuro.”


E os anúncios sob medida? É o futuro da publicidade online. argumenta. “Os anúncios serão mais eficazes quanto mais personalizados e precisos forem.”


A privacidade, ora, a privacidade…


Mas Schmidt se apressa a lembrar que se alguém se queixar de aparecer numa foto constrangedora tirada pelas câmaras do Google View Street [que flagram cenas das ruas que figuram nos seus mapas], logo logo o queixoso terá o seu rosto apagado. O sistema que os bruxos do Google estão criando vai se chamar “o anonimizador” – soa tão feio em inglês como em português, mas é assim que essa gente fala.


O cara acha que os seus serviços de busca desmistificam. Dá um exemplo: como é que o Barack Obama se comportava no primário? Ah, sim, ‘tá aqui uma foto dele escarafunchando o nariz.


E pensar que o jornalismo de qualidade sempre consistiu em fazer escolhas editoriais entre o relevante, para ser publicado, e o irrelevante, ou invasivo, para ser engavetado.


Mas essas sutilezas, diz Schmidt à colunista, os computadores não conseguem reproduzir muito facilmente.


É o tal do admirável mundo novo.

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/04/2009 Mariana Zarb.

    Estou lendo este post por causa de uma pesquisa no google. Não me espanto com a opinião do jornalista, deve ser triste ver seu admirável mundo velho ultrapassado, não tratem o Google como um cavaleiro do apocalipse, sou de uma geração que em vez de tentar ‘boicotar’ o Google com certeza vai saber aproveitar melhor os seus recursos. Pra não ficar ridículo se adaptem por favor.

  2. Comentou em 17/04/2009 Darlan Feitosa

    Tem gente encomodada das informações chegarem a todos os brasileiros…
    O google não adianta notícias dos jornais ele simplismente guarda artigos publicados, o que os editores querem? quardar as informações para uma minoria que assina revistas é jornais? E quem mora distante dos grandes centros, terá de se informar apenas através da TV?… Essa choradeira é coisa da direita, que só pensa em lucro não se emportando com os demais.

  3. Comentou em 17/04/2009 Henrique Magalhães

    Acho que esse pessoal da indústria da informação que se sente roubada pelo google deveria pedir pros responsáveis pelos seus sites lerem isto aqui, que existe há anos (e evita até o google, caso queiram): http://www.robotstxt.org/

    Mas acho que evitar a indexação do google não seria um bom negócio… afinal como eu chegaria aqui neste site, se não tivesse antes pesquisado alguma coisa relacionada a esta notícia no google? 😉

    Abs e bom findi.

  4. Comentou em 16/04/2009 Rodrigo Gomes da Paixão

    Os coronéis da comunicação (famílias Sarney, Margalhães, Collor de Melo, Barbalho, dentres outras tantas Brasil – e mundo – a fora) agradecem à incansável batalha de meia-dúzia de agências de notícias que controlam a informação mundial (as mesmas que encamparam a ‘Guerra contra o terror’ de George W. Bush) contra o Google. O Google democratizou demais o acesso à informação. E isso, é claro, incomoda.

  5. Comentou em 16/04/2009 Ivan Moraes

    Ja dei meu chilique a respeito em ingles, ja nao tenho mais o que adicionar: http://www.physorg.com/news158396207.html … eles sao incapazes de descobrir quem sao as lombrigas das quais o mundo esta se livrando. Sao eles. Todos eles, numa incrivel coincidencia galatica, branquelos, conservadores rabidos, e direitistas lunaticos. Eh so os bancos se enfraquecerem que todo o sistema de corrupcao extrema-direita que eles negam que sustentam atravez do mundo entra em colapso. Adoraria ver um bc desaparecendo, entao… seria o maximo! Dez vezes melhor! Que pena que a crise foi tao pequena.

  6. Comentou em 16/04/2009 Rafael Alencar Rodrigues

    Parabenizo Luiz Weis pelo artigo em questão, contudo, registro minha discordância quando ao comentário de Thomas Turbano. Meu caro, se não cabe aos jornalistas julgar o que é ou não relevante, cabe a quem? Não consigo vislumbrar outro profissional senão os bacharéis em jornalismo atuando desta maneira. Percebo que desconhece toda a importância que a teoria democrática credita ao jornalismo. A internet é uma plataforma a facilitar a troca de informação – concordo -, mas ela não se auto-nutre. É preciso alguém que forneça-a conteúdo de qualidade ou não e cabe a nós, como em outros meios de comunicação, saber filtrar (seleção individual) e o que fazer com as possibilidades disponíveis na rede. Sei que para outras profissões liberais ou não é difícil assumir que o jornalismo é responsável pela seleção de temáticas a serem discutidas na esfera pública, entendo! De forma descentralizada – também concordo –, os jornalistas continuam a selecionar o saber. Só de termos lido este artigo que poderia ter sido escrito sobre n temas e de n formas, somos vítimas da seleção jornalística, felizmente ou infelizmente. Fico com o felizmente.

  7. Comentou em 16/04/2009 Thomas Turbano

    ‘E pensar que o jornalismo de qualidade sempre consistiu em fazer escolhas editoriais entre o relevante, para ser publicado, e o irrelevante, ou invasivo, para ser engavetado.’
    Ora meu caro, eis aí o problema: achar que cabe a vocês, jornalistas, homens de bem, julgar o que é ou não relevante aos leitores!

    Senhores dinossauros, a Internet tem por objeto facilitar a troca de informação, tudo isso de forma descentralizada. E é isto, que ferramentas, tais como o Google e o Altavista, proporcionam aos internautas. Se o leitor for bem atento, perceberá que o que vem incomodando aos jornais não é a mera reprodução de seus conteúdos… mas o proveito de que estas ferramentas tiram com os anúncios.

    Maldita crise… já se veem os desesperados.

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