Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CÓDIGO ABERTO > Código Aberto

Produção colaborativa online de notícias cresce mas dilemas continuam

Por Carlos Castilho em 13/10/2007 | comentários

Nada menos que 63 responsáveis por sites de jornalismo colaborativo reuniram esta semana na City University of New York (CUNY) no primeiro grande evento destinado a avaliar os resultados das experiências recolhidas até agora nesta novíssima área da atividade jornalística na Web.


 


Jornalismo colaborativo é uma modalidade de jornalismo onde o público participa da coleta, processamento e publicação de notícias na Web. É uma modalidade que está provocando um apaixonado debate dentro das redações em todo mundo, porque altera alguns dos mais arraigados princípios do jornalismo convencional.


 


O encontro foi transmitido pela internet e por blogs de vários participantes, cujos depoimentos permitiram constatar que a modalidade está crescendo principalmente nas cidades médias e pequenas, bem como em bairros periféricos de grandes cidades.


 


O jornalismo colaborativo inclui também algumas experiências revolucionárias como o projeto da New York Public Radio (WNYC) que resolveu fazer um levantamento comparativo dos preços de alguns produtos como leite, alface e cerveja, usando informações fornecidas por 350 consumidores e publicadas pelo sistema mash-up, com base num mapa de Manhattan e bairros vizinhos.


 


O mapa permite saber onde estão sendo vendidos os produtos mais caros e os mais baratos. Clicando sobre a caixa de leite, garrafa de cerveja ou cabeça de alface pode se descobrir o nome da loja onde o produto é oferecido, o seu preço e comentários dos consumidores que participaram do trabalho. Sem a colaboração voluntária destes 350 participantes, o levantamento teria consumido muito mais tempo para ser feito.


 


Esta modalidade de jornalismo está ganhando adeptos em várias partes do mundo e já está na lista das prioridades de financiamento das principais fundações norte-americanas de apoio à pesquisas em comunicação. Só a Fundação Knight , dos Estados Unidos, separou US$ 5 milhões para projetos nesta área.


 


As iniciativas baseadas na colaboração de usuários na produção de conteúdos jornalísticos vão desde a cobertura de acidentes de trânsito em cidades pequenas até projetos mais ambiciosos como o NewsTrust, que procura avaliar a credibilidade de notícias com base no parecer de leitores, ou o NowPublic, que pretende ser uma agência de noticias com material fornecido por colaboradores voluntários.


 


Especialistas como o professor holandês Mark Deuze, da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, e autor do recém lançado livro Media Work (O Trabalho na Mídia) afirmam que o processo colaborativo vai se tornar obrigatório no jornalismo porque parece ser a grande alternativa para a participação dos leitores no processo de produção de notícias, bem como uma opção para os jornais oferecer noticiário local a custo baixo.


 


Esta possibilidade soa como música aos ouvidos dos executivos da grande imprensa, mas provoca arrepios nas redações porque muda os conceitos de certificação de credibilidade e acaba com o controle dos jornalistas profissionais sobre a agenda noticiosa e com a função de gatekeeper (porteiro da informação), responsável pela decisão do que será ou não publicado.


 


Como toda experiência nova, a participação do público gerou um grande fracasso e alguns resultados surpreendentes. O maior fiasco correu por conta do projeto BackFence, lançado em 2005 e que pretendia ser uma rede nacional de jornalismo participativo em 16 cidades norte-americanas mas que morreu na praia, no início de 2007, depois de queimar três milhões de dólares e instalar-se em apenas sete regiões metropolitanas, todas elas próximas à Washington D.C.


 


Em compensação, o projeto Baristanet é apontado como o grande caso de sucesso entre os sites de jornalismo local produzidos com a participação de leitores. Criado em maio de 2004, por um casal de ex-jornalistas, o site tem hoje uma media de cinco mil visitantes únicos diários e um faturamento de 100 mil dólares anuais.


 


Aqui no Brasil, a principal experiência de jornalismo participativo é o projeto Overmundo, criado em 2006 pelo antropólogo Hermano Vianna, também assessor informal do ministro Gilberto Gil. A iniciativa contou com um empurrão financeiro de dois milhões de reais fornecidos pela Petrobrás e se apresenta como um projeto participativo aberto a produtores culturais independentes.


 


A performance de Overmundo vem sendo monitorada com lupa para identificar se o site consegue sobreviver sem a ajuda governamental quando terminar o período de encubação de 18 meses, que acaba em novembro de 2007. A partir daí, o futuro do projeto depende do apoio que ele conseguir dos seus colaboradores.


 


Esta foi também a grande conclusão a que chegaram os participantes do workshop da CUNY, em Nova Iorque. Ficou claro que o processo colaborativo está reunindo um número crescente de adeptos (há quase 500 iniciativas listadas pelo Institute for Interactive Journalism nos EUA) mas todas elas estão longe de garantir o sustento total de seus organizadores.


 


Tudo indica que o êxito do processo de produção colaborativa de informações depende da capacidade do projeto conquistar a adesão dos participantes mais do que de financiamentos e receitas, segundo Jeff Jarvis, o organizador do workshop em Nova Iorque.


 


Aos leitores


Entre os dias 15 e 20 estarei fora do país para participar como convidado do III Congresso Latino-Americano e Caribenho da Organização Cristã de Comunicadores  (OCLAC), no Equador. Minha intervenção será sobre a observação da mídia no contexto da comunicação digital.

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/10/2007 Pedro Ivo Martins

    Concordo que o jornalismo sempre foi colaborativo, como comentou um leitor, mas não é apenas a perspectiva que mudou. A lógica também vem sendo alterada, não só porque as pessoas estão produzindo conteúdo, mas principalmente porque estamos descobrindo que a internet é um grande (e será o maior em pouco tempo) veículo de mídia. Muito mais abrangente potencialmente que todos os demais. Os arrepios nas redações são mais uma demonstração de que os próprios jornalistas não estão preparados para encarar os desafios dos novos tempos. Não vêem a grande oportunidade que têm para oferecer o produto de seu trabalho (informação) com qualidade, sem alguns ‘limites’ impostos pelas empresas de comunicação.

  2. Comentou em 15/10/2007 André João

    Só me digam uma coisa: desde quando o Jornalismo não é colaborativo? Desde quando o público não ‘participa da coleta, processamento e publicação de notícias’?
    Os próprios jornalistas se tratam como uma ENTIDADE, o que de certa forma justifica as baboseiras que lemos por aí em jornais e revistas.
    Daí, quando surge uma nova maneira de encarar a notícia – com a explosão dos blogs e tudo mais – inventam um cunho totalmente redundante para tratar do fenômeno.
    Jornalismo, se não for colaborativo, não é jornalismo. É literatura e ficção.

  3. Comentou em 14/10/2007 Ricardo Camargo

    A difusão deste meio tornaria qualquer pessoa, praticamente, um répórter, o que, talvez, conduzirsse s repensar a própria profissão de jornalista. Não há como negar que tal situaçao, ao mesmo tempo que pode atingir interesses corporativos, pode também trazer à discussão a prória necessidade ou não de um conhecimento técnico específico para o exercício da profissão de jornalista.

  4. Comentou em 14/10/2007 Ricardo Camargo

    A difusão deste meio tornaria qualquer pessoa, praticamente, um répórter, o que, talvez, conduzirsse s repensar a própria profissão de jornalista. Não há como negar que tal situaçao, ao mesmo tempo que pode atingir interesses corporativos, pode também trazer à discussão a prória necessidade ou não de um conhecimento técnico específico para o exercício da profissão de jornalista.

Código Aberto

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem