Quarta-feira, 22 de Janeiro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1071
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Projeto Katine mostra que é possível um jornalismo diferente

Por Carlos Castilho em 29/01/2010 | comentários

Entrou em seu terceiro e último ano de existência um projeto informativo lançado pelo jornal inglês The Guardian cujo ambicioso objetivo é cobrir o dia-a-dia de uma aldeia do interior de Uganda, na África, no seu esforço para superar os efeitos de 20 anos de guerra civil, fome, seca e corrupção.


 


Ao completar dois anos, o projeto Katine surpreendeu até os mais céticos editores do Guardian que não acreditavam na possibilidade de resultados jornalísticos concretos neste esforço humanitário patrocinado também pelo Barclay’s Bank, pela organização não governamental African Medical and Research Foundation (AMREF), criada há 50 anos por três médicos africanos e que hoje presta serviços em seis países; e pela Farm África, voltada para a assistência rural.


 


Os quatro parceiros do projeto juntaram o equivalente a 7,4 milhões de reais, metade dos quais fornecidos pelo Barclay’,s, um dos maiores bancos ingleses, e o resto recolhido pelo jornal numa campanha de donativos entre seus leitores.  


 


O editor-chefe do Guardian, Alan Rusbridger, assumiu pessoalmente a coordenação editorial do projeto desde o seu lançamento, em 2007, com dois objetivos em vista: despertar, entre os leitores ingleses, o interesse pela luta contra a miséria em Uganda; e formar, em Katine, um núcleo de jornalistas locais capaz de produzir um jornal e um programa de rádio, além de escrever matérias para o exterior.


 


O dia-a-dia da aldeia foi documentado pelo jornal usando Redação do jornal da aldeia (foto Guardian)inicialmente mais material produzido por enviados especiais e por free lancers africanos, mas desde o início de 2009 repórteres formados localmente (foto ao lado) começaram a produzir reportagens e programas radiofônicos. Tudo isto está no site do projeto, em relatórios mensais, ano após ano.


 


O que chama a atenção no projeto Katine é o fato de um grande jornal de um país rico ter decidido apostar num tipo de jornalismo que até agora era visto como militante, ativista, engajado e vários outros adjetivos. Cobrir o esforço de uma aldeia longínqua para sair da miséria é um tema que dificilmente entra na agenda da grande imprensa mundial.


 


O The Guardian não é um jornal de esquerda e nem os seus editores são militantes socialistas ou ativistas de causas terceiro-mundistas. É no máximo liberal e sua versão dominical, The Observer, é tida pelos ingleses como mais conservadora do que as edições dos dias úteis.


 


A experiência africana do jornal inglês não vai gerar resultados espetaculares porque a miséria em Uganda é muito mais complexa. Mas uma coisa o projeto já provou: é possível fugir da agenda convencional da imprensa e buscar temas novos, despertando a atenção mesmo de leitores europeus pouco interessados na África.


 


O Haiti oferece agora uma oportunidade parecida para a grande imprensa brasileira mostrar que é possível diversificar a nossa agenda informativa monopolizada pela política partidária e eleitoral, obcecada com a luta pelo poder e também pelos escândalos, violência e tragédias.


 


A cobertura do esforço de recuperação do Haiti pode ser um tema de interesse para brasileiros depois de todo o nosso envolvimento com missões de paz e ajuda humanitária. Nós não vamos salvar o Haiti, mas podemos pelo menos ensinar algo de jornalismo a eles e tornar menos maçante e repetitivo o menu informativo dos nossos jornalões.

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