Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Projeto sobre jornais não lucrativos amplia debate sobre imprensa comunitária

Por Carlos Castilho em 08/04/2009 | comentários

Em janeiro deste ano, publiquei aqui no Código um post sobre o início da discussão em torno da idéia do jornalismo sem fins lucrativos. O debate chegou agora à grande imprensa e abre um a nova perspectiva, a do papel da imprensa regional e local dentro do processo de circulação de informações.


 


A questão do jornalismo sem fins lucrativos havia sido levantada em janeiro por dois economistas norte-americanos e foi agora retomada pelo senador democrata Benjamin Cardin num projeto que oferece facilidades financeiras à jornais regionais e locais que optarem por um modelo semelhante ao de emissoras públicas como a BBC inglesa, o PBS (Public Broadcasting System) americano ou a TV Cultura, no Brasil.


 


Embora a questão esteja sendo enfocada pela imprensa dentro do contexto da polêmica sobre a salvação dos grandes jornais, o projeto do senador Cardin abre as portas para um debate ainda mais relevante, o do papel da imprensa regional e local na vida comunitária e na reorganização das formas de convivência social, na era digital  [ver ‘Um projeto para salvar a imprensa livre‘].


 


Todo mundo sabe que a imprensa começou local e foi neste ambiente que ela cresceu, amparada na integração com a comunidade. Depois ela se transformou num grande negócio e passou a ser orientada por interesses econômicos ou políticos. A crise deste modelo está forçando uma reinserção comunitária da imprensa em geral, o que gera uma série de indagações.


 


Pode um jornal sobreviver sem o apoio da comunidade? Pode uma comunidade sobreviver sem um jornal? Qual o papel que os poderes Executivo e Legislativo têm na definição dessas questões?


 


A busca de respostas não é um exercício de academicismo, mas uma necessidade provocada pela mudança da ecologia informativa contemporânea, na qual as pessoas estão tendo que aprender a conviver com a avalancha informativa e suas consequências.


 


Nós já estamos vivendo num ambiente de caos e complexidade informativa, só que ainda não nos acostumamos com isto. É um aprendizado difícil porque as velhas regras já não funcionam mais e as novas ainda não estão consolidadas. Segundo o sociólogo italiano Alberto Mellucci, a única coisa segura que os cidadãos digitais encontram é o convívio comunitário, onde ele pode compartilhar suas dúvidas e necessidades.


 


A grande ferramenta para viabilizar este compartilhamento é a mídia local — seja ela impressa, online, por rádio ou TV. A dinâmica dessa nova sociabilidade levará inevitavelmente ao surgimento de canais comunitários de comunicação, mas esse processo pode levar tempo porque dependerá de um consenso local, nem sempre fácil de alcançar.


 


É aí que o Estado pode entrar como agente facilitador ao criar instrumentos jurídicos e financeiros capazes de ajudar as comunidades a desenvolver veículos de comunicação sem fins lucrativos e de utilidade pública para incrementar a interatividade local e, por conseqüência, novos conceitos de cidadania.


 


Este talvez seja o grande mérito do debate mundial gerado pelo projeto do senador Cardin. Se a discussão se resumir à salvação de empresas jornalísticas endividadas por maus negócios e especulação financeira, nós todos estaremos perdendo uma chance valiosa de ajudar a criar um novo relacionamento entre imprensa e comunidades.  

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/04/2009 Lucas Facco

    Dificilmente essa discussão terá a produção de uma mídia
    democrática e os verdadeiros beneficiados serão os grandes
    complexos de informação.

  2. Comentou em 11/04/2009 marcus mota

    creio que fomentar a mídia local seja um dos caminhos para quebrar o monopólio das empresas jornalísticas. Mas sempre esbarramos no custeio. Também não acredito que o Estado deva bancar (corrupção et cetera). Sendo assim, entendo a mídia comunitária de forma autônoma e sustentável por meio de cooperação mútua. Zines, blogs, jornais de poste et cetera são formas baratas de se transmitir conteúdo jornalístico. Odeia a mídia? Seja a mídia.

  3. Comentou em 11/04/2009 Ivan Moraes

    1–‘dois problemas muito sérios para essa proposta de uma mídia local. A primeira é colocar esperanças em um Estado facilitador’: esse eh o golpe. Igreja eh isenta por essa razao mesmo, ficar sem impostos, porem do lado da direita em qualquer situacao. 2–‘De mais a mais enxergo aí mais uma portinha prá corrupção’: com a media tendo interesse financeiro em estar do lado do governo, todo mundo vira pastor de igreja. Legaliza se a influencia da direita dentro da media –ja que nao existe caso mundial de infiltracao organizada da media por esquerdas e nunca existiu.

  4. Comentou em 10/04/2009 pabblo monteiro

    A busca dos tópicos

    ‘O papel da imprensa no jornalismo sem fins lucrativos é a reorganização das formas de convivência social
    na ecologia informativa contemporânea. Uma nova sociabilidade agindo como facilitadora do debate mundial’

    … sempre é o Estado?

    Descole(mo)(nos) dessa de superorganismos. Que ser multidimensional é esse que ainda po(l)voa a imagética pública?
    Um estado de espírito sem o espírito da coisa?

    Tudo bem que o cara que é funcionário público acabe por acreditar que vá sobrar pra ele
    O Estado não intervém, ele simplesmente está em todos os lugares qdo observado com essa configuração.

  5. Comentou em 10/04/2009 Edilson Sousa

    Sempre o Estado…

  6. Comentou em 09/04/2009 Ibsen Marques

    Eu vejo logo de cara dois problemas muito sérios para essa proposta de uma mídia local. A primeira é colocar esperanças em um Estado facilitador. Duvido muito que o Estado tenha estrutura e vontade política para facilitar essa proposta. De mais a mais enxergo aí mais uma portinha prá corrupção, justamente porque envolve uma segunda dificuldade que é definir o que é mídia local e ou comunitária e como isso (ou essa verba) será administrado e concedido. Vamos tomar como exemplo uma cidade como São Paulo. O que seria para você uma mídia local/comunitária. Acho que as únicas que deram relativamente certo foram as rádios comunitárias que, via de regra, concentram-se nas favelas. Como essa mídia atingiria as pessoas, pela localização geográfica ou por outras áreas de interesse? Acho tudo isso muito irrealizável pensando no Brasil e sua diversidade. Na Europa os interesses coletivos e individuais me parecem mais próximos, as pessoas já conquistaram certa equiparação econômico-social-intelectual e isso tenderia a facilitar essa comunicação via comunidade local. Aqui temos um Morumbi com uma população enorme de pessoas abastadas cercadas de favelas por todos os lados. Como se estabeleceria um interesse e uma linguagem comuns?

  7. Comentou em 09/04/2009 Jefferson Delbem

    Acho totalmente pertinente essa discussão sobre jornalismo comunitário. Como morador de uma capital, sinto falta de informacão e dos acontecimentos que cercam o meu bairro e toda sua região, quando há algum fato que se torne notícia em um grande veículo, esse quase sempre é violento, trágico ou similar. Atë mesmo antes da publicacão desse artigo, já conversava com colegas de faculdade e com moradores do meu bairro sobre isso, seria ótimo para a comunidade ter um veículo mais próximo, e na minha opinião, trabalhar mais perto da comunidade é mais atraente.

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