Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Promotor diz que jornalistas colaboraram com bandidos

Por Mauro Malin em 21/05/2006 | comentários

Bom trabalho fez a Caros Amigos em sua edição extra sobre o PCC que foi na sexta-feira (19/5) para as bancas. Baseada quase toda em trabalho que o repórter João de Barros preparava há meses, põe foco na gênese e na trajetória da chamada “facção”.


Muita coisa a anotar.


Fico nas menções à mídia. Em entrevista, o promotor Márcio Christino faz uma denúncia gravíssima: “Nunca um jornalista foi interceptado, mas eles ligavam para o telefone do preso que estava interceptado, perguntavam, respondiam, davam informações disso, daquilo. Às vezes o preso pedia a ele para fazer uma coisa e o jornalista fazia”.


A seguir, trechos em que a mídia é mencionada ou avaliada:


Chefões prestigiados


O que se pode dizer com segurança a respeito deles [os patrões do tráfico] é que ´possuem negócios legais de médio ou grande porte, capazes de lhes conferir poder econômico – fazendas, hotéis, restaurantes finos, bingos e até aeroclubes –, têm atividades políticas ou boas relações com pessoas que exercem cargos públicos eletivos ou não, e poder nos meios de comunicação´ [descrição do delegado Cosmo Stikovicz Filho, do Departamento de Narcóticos, Denarc]”. (Pág. 4.)


Rebelião vira espetáculo


A respeito da rebelião conjunta de 29 prisões em 2001: “Para a televisão, a rebelião virou espetáculo. Ao vivo. As câmaras focavam lençóis e bandeiras pichados com os nomes PCC – Primeiro Comando da Capital –, o número 15.3.3 e as palavras de ordem do partido do crime, ´Paz, Justiça e Liberdade´.” (Pág. 11.)


Em entrevista, o secretário da Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa, reforça: “Essa rebelião teve um tamanho maior do que deveria porque as emissoras de televisão – era um domingo – começaram a transmitir imagens ao vivo, e muitas unidades prisionais acabaram aderindo graças [sic] às imagens da televisão” (pág. 14).


De costas para os fatos


Entrevista do promotor Márcio Christino: “Isso [o chamado Domingo Sangrento na Casa de Detenção, anterior à desativação do Carandiru] foi antes de 2000 e não foi sequer noticiado pela imprensa porque, para ela, o PCC não existia e também porque na época se procurava não dar destaque a isso. Aliás, antes da megarrebelião ninguém queria saber de PCC” (pág. 19).


Ou seja: a princípio, ignorar uma realidade. Depois, explorar o que “vende jornal”, ou dá audiência. Agora, o susto.


Felizmente a imprensa não aceitou o banho de sangue como suposta solução e cobra das autoridades a informação mínima, o nome dos mortos (ver “A mídia e os mortos”, por Luiz Weis).


A serviço dos presos


Adiante, o mesmo promotor faz acusações gravíssimas: “E aí [depois que policiais e promotores descobriram que o PCC tinha não apenas uma, mas 36 centrais telefônicas] apareceram outras facetas: o papel dos advogados como correios, a imprensa que muitas vezes ficava numa zona cinzenta entre liberdade de imprensa e a colaboração criminosa. Nunca um jornalista foi interceptado, mas eles ligavam para o telefone do preso que estava interceptado, perguntavam, respondiam, davam informações disso, daquilo. Às vezes o preso pedia a ele para fazer uma coisa e o jornalista fazia”.


“Fruto do tucanato”


Na reportagem inicial de João de Barros uma derrapagem partidarizadora atribui a gênese do PCC ao PSDB: “O PCC é fruto do tucanato”. O próprio Barros relata em detalhes como o PCC surgiu em Taubaté em 1993, durante o governo de Luiz Antônio Fleury Filho, então no PMDB, hoje no PTB, mas seria ainda uma ilusão complacente achar que a origem disso tudo é tão recente, em termos históricos.


O tucanato não está com essa bola toda. As prisões estão piorando ao longo dos anos: antes do PMDB de Orestes Quércia e Fleury, houve Paulo Maluf, Paulo Egídio, Laudo Natel, Abreu Sodré…


(Ver, acima, “Na Ilha Anchieta, em 1952, o maior massacre”.)

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  1. Comentou em 21/05/2006 RICARDO MINZE MINZE

    ESTAMOS VIVENDO UMA CRISE TERRÍVEL DE IDENTIDADE E CARÁTER. ALGUNS SEGMENTOS DA SOCIEDADE,EM BUSCA DE ALCANÇAR SEUS OBJETIVOS LUCRATIVOS E DE PODER, NÃO MEDEM ESFORÇOS NO USO DE MECÂNISMOS MALIGNOS E PERNICIOSOS. OS FINS NÃO JUSTIFICAM OS MEIOS JAMAIS.SERÁ QUE NESTE PAÍS NÃO EXISTE AUTORIDADE COMPROMETIDA COM O IMPÉRIO DA LEI PARA PUNIR DE FORMA EXEMPLAR,TODOS ÀQUELES QUE ESTÃO DEGRADANDO A SOCIEDADE.

  2. Comentou em 21/05/2006 Alexandre Marques

    Sinto-me prejudicado para comentar os jornalistas. Esta deveria ser uma profissão protegida, como as carreiras de Estado. Pois se não, como exigir destes coitados isenção? Os heróis são raros e estes formadores de opinião, assim como juízes, delegados, etc. têm filhos e/ou contas a pagar. Será que falei bobagem? Vejamos: No Brasil, a constituição protegeu as atividades consideradas de imprescindível importância para o funcionamento da sociedade, estatuindo as CARREIRAS DE ESTADO. Está claro que a democracia moderna não pode prescindir de jornalistas: somente muito depois de Gutemberg e Grahan Bell (ou seria um chinês e Landell de Moura), nesta grande era do mercantilismo globalizado, é que percebemos o poder das mídias de massa e do poder econômico sobre elas. O que é importante deve ser protegido, valorizado e vigiado para que se diminuam as chances de medíocres e venais exercerem estas atividades. Para tanto há que se estabelecer o equilíbrio e os agentes do 4º poder estão muito por baixo se comparados aos outros poderes. Para os que ainda não me entenderam só vou citar um exemplo: qual a relação entre 40% do PIB em impostos, R$155 bilhões a.a. para remunerar investidores via SELIC por R$1 trilhão de dívida pública, real valorizado, exportação e empregos em baixa, crescimento nanico, educação e polícia sem qualidade, hospitais e presídios superlotados e o PCC?FALEM!

  3. Comentou em 21/05/2006 Jose de Almeida Bispo

    Como a história é longa vou abusar mais uma vez do espaço postando duas vezes PRIMEIRA PARTE O promotor Márcio Christino sabe do que fala. Os jornalistas sabem também do que falam. Não há ninguém sem conhecimento de causa nessa história em que supostos homens probos – os da mídia – vendem o sangue alheio for a few dollars more. UMA HISTORIETA: Ao final dos anos 70, em minha cidade e na emissora de rádio em que estrearia logo a seguir como discotecário, depois redator etc., etc,… um repórter fez um contrato de publicidade com uma renovadora de pneus e cujo foco – gancho para a propaganda – seria o informe policial, feito pelo dito repórter. Ocorre que o município todo tinha menos de 70 mil habitantes e até mesmo roubo de galinhas não era assim tão comum. Nada que justificasse as, no mínimo, quatro intervenções diárias “em nome da Renovadora X”. Havia um homem de reputação duvidosa na cidade, lambanceiro – adorava uma briga em festas, destas que a turma do deixa disso chega sempre a tempo – e o tal homem, se dizia, costumava viver “de pequenos golpes”. ….CONTINUA.

  4. Comentou em 21/05/2006 Jose de Almeida Bispo

    SEGUNDA PARTE
    Muito bem, nosso repórter, meu colega de rádio, encarnou no falso bandido dia sim outro também. Adalberto fez isso; Adalberto fez aquilo… O homem passou a ser temido mais que Lampião. E ele gostava disso. A encenação durou por perto de anos com algumas prisões do nosso bandido de vitrine até que ele acreditou piamente que realmente era um bandido. Foi o seu fim. O repórter, então, já havia brigado com a direção da emissora por motivos outros e se fora. E o pobre bandido de vitrine caiu crivado de balas num entroncamento de Feira de Santana (BA), bem distante de casa.

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