Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Promotor diz que jornalistas colaboraram com bandidos

Por Mauro Malin em 21/05/2006 | comentários

Bom trabalho fez a Caros Amigos em sua edição extra sobre o PCC que foi na sexta-feira (19/5) para as bancas. Baseada quase toda em trabalho que o repórter João de Barros preparava há meses, põe foco na gênese e na trajetória da chamada “facção”.


Muita coisa a anotar.


Fico nas menções à mídia. Em entrevista, o promotor Márcio Christino faz uma denúncia gravíssima: “Nunca um jornalista foi interceptado, mas eles ligavam para o telefone do preso que estava interceptado, perguntavam, respondiam, davam informações disso, daquilo. Às vezes o preso pedia a ele para fazer uma coisa e o jornalista fazia”.


A seguir, trechos em que a mídia é mencionada ou avaliada:


Chefões prestigiados


O que se pode dizer com segurança a respeito deles [os patrões do tráfico] é que ´possuem negócios legais de médio ou grande porte, capazes de lhes conferir poder econômico – fazendas, hotéis, restaurantes finos, bingos e até aeroclubes –, têm atividades políticas ou boas relações com pessoas que exercem cargos públicos eletivos ou não, e poder nos meios de comunicação´ [descrição do delegado Cosmo Stikovicz Filho, do Departamento de Narcóticos, Denarc]”. (Pág. 4.)


Rebelião vira espetáculo


A respeito da rebelião conjunta de 29 prisões em 2001: “Para a televisão, a rebelião virou espetáculo. Ao vivo. As câmaras focavam lençóis e bandeiras pichados com os nomes PCC – Primeiro Comando da Capital –, o número 15.3.3 e as palavras de ordem do partido do crime, ´Paz, Justiça e Liberdade´.” (Pág. 11.)


Em entrevista, o secretário da Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa, reforça: “Essa rebelião teve um tamanho maior do que deveria porque as emissoras de televisão – era um domingo – começaram a transmitir imagens ao vivo, e muitas unidades prisionais acabaram aderindo graças [sic] às imagens da televisão” (pág. 14).


De costas para os fatos


Entrevista do promotor Márcio Christino: “Isso [o chamado Domingo Sangrento na Casa de Detenção, anterior à desativação do Carandiru] foi antes de 2000 e não foi sequer noticiado pela imprensa porque, para ela, o PCC não existia e também porque na época se procurava não dar destaque a isso. Aliás, antes da megarrebelião ninguém queria saber de PCC” (pág. 19).


Ou seja: a princípio, ignorar uma realidade. Depois, explorar o que “vende jornal”, ou dá audiência. Agora, o susto.


Felizmente a imprensa não aceitou o banho de sangue como suposta solução e cobra das autoridades a informação mínima, o nome dos mortos (ver “A mídia e os mortos”, por Luiz Weis).


A serviço dos presos


Adiante, o mesmo promotor faz acusações gravíssimas: “E aí [depois que policiais e promotores descobriram que o PCC tinha não apenas uma, mas 36 centrais telefônicas] apareceram outras facetas: o papel dos advogados como correios, a imprensa que muitas vezes ficava numa zona cinzenta entre liberdade de imprensa e a colaboração criminosa. Nunca um jornalista foi interceptado, mas eles ligavam para o telefone do preso que estava interceptado, perguntavam, respondiam, davam informações disso, daquilo. Às vezes o preso pedia a ele para fazer uma coisa e o jornalista fazia”.


“Fruto do tucanato”


Na reportagem inicial de João de Barros uma derrapagem partidarizadora atribui a gênese do PCC ao PSDB: “O PCC é fruto do tucanato”. O próprio Barros relata em detalhes como o PCC surgiu em Taubaté em 1993, durante o governo de Luiz Antônio Fleury Filho, então no PMDB, hoje no PTB, mas seria ainda uma ilusão complacente achar que a origem disso tudo é tão recente, em termos históricos.


O tucanato não está com essa bola toda. As prisões estão piorando ao longo dos anos: antes do PMDB de Orestes Quércia e Fleury, houve Paulo Maluf, Paulo Egídio, Laudo Natel, Abreu Sodré…


(Ver, acima, “Na Ilha Anchieta, em 1952, o maior massacre”.)

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