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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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‘Prozacs’ sob suspeita, só num jornal

Por Luiz Weis em 26/02/2008 | comentários

O Globo e o Estado, dos três principais jornais brasileiros, estão hoje em companhia do New York Times.

Má companhia.

Nenhum deles deu uma linha sobre a notícia mais quente do dia na área da saúde:

”Um dos maiores estudos já feitos sobre os antidepressivos modernos concluiu que eles têm efeito clínico limitado. Os resultados da pesquisa, feita nos EUA, mostraram que as drogas só serviram em pacientes gravemente deprimidos.”

O texto está entre aspas porque é transcrição do parágrafo incial da chamada de primeira página da Folha, remetendo o leitor à matéria “Estudo aponta que antidepressivos têm baixa eficácia”, no caderno Cotidiano, traduzida do londrino Independent.

A chamada contém um erro. A pesquisa não foi feita nos Estados Unidos, mas na Inglaterra. E a matéria devia estar na página de ciência do primeiro caderno, parte da qual, aliás, está ocupada com a notícia incomparavelmente menos importante de que “análise química do cabelo pode indicar o paradeiro das pessoas”.

Mas o essencial é que a Folha, destacando a matéria dos antidepressivos sob suspeita, mostrou-se mais sensível que a concorrência ao interesse do leitor por assuntos que o tocam de perto. Justiça lhe seja feita, não é a primeira vez.

Faltou abrasileirar o texto do jornal inglês, acrescentando-lhe um box com o que se sabe sobre o consumo de antidepressivos no Brasil – até para dar aos leitores que não recorrem às chamadas “pílulas da felicidade”, a dimensão da coisa.

Dados da indústria farmacêuticas, decerto já superados, falam em 356 milhões de comprimidos vendidos no país em 2002.

No mundo inteiro, informa hoje o Guardian, de Londres, já na abertura da matéria escolhida para render a manchete do dia, 40 milhões de pessoas tomam Prozac. Isso para dizer em seguida que nem esse, nem outros medicamentos do mesmo tipo “funcionam”.

O estranho, no caso do New York Times, é que terça-feira é dia do seu alentado (8 páginas) caderno de ciência. Alguém ali ate a fly, seria o caso de apontar, se também os povos de fala inglesa usassem o nosso “comeu mosca”.

Só garimpando na edição online do jornalão, o leitor descobrirá um despacho da agência Reuters, recebido às 2h19 de hoje, anunciando que um estudo duvida da eficácia dos antidepressivos.

Eis a matéria que em boa hora a Folha sacou do Independent:

“Eles estão entre as drogas mais vendidas de todos os tempos – são ‘pílulas da felicidade’, que supostamente levantam o ânimo daqueles que sofrem de depressão -, mas um dos maiores estudos sobre os antidepressivos modernos concluiu que eles não têm efeito clínico significativo.

O achado deve abalar médicos e pacientes e levanta questões sérias sobre a regulamentação das empresas farmacêuticas multinacionais, que foram acusadas ontem de esconder dados sobre essas drogas.

A popularidade da atual geração de antidepressivos, conhecidos como inibidores seletivos de recaptação de serotonina – entre os quais estão algumas das drogas mais vendidas do mundo, como o Prozac e o Serotax – decolou depois de seu lançamento, nos anos 1980.

Eles foram pesadamente promovidos como medicamentos mais seguros e com menos efeitos colaterais do que os velhos antidepressivos tricíclicos.

No novo estudo, cientistas conduziram uma metaanálise de 47 testes clínicos de medicamentos, publicados e não-publicados, submetidos à FDA (agência que regulamenta drogas e alimentos nos Estados Unidos), feitos para subsidiar pedidos de licença para seis dos principais antidepressivos, incluindo o Prozac, o Serotax e o Efexor.

Os resultados mostraram que as drogas só serviram em um grupo pequeno de pacientes, os gravemente deprimidos.

Irving Kirsch, da Universidade de Hull, que liderou o estudo, publicado on-line na revista ‘PLoS Medicine’, afirma que os dados submetidos à FDA teriam passado ainda por autoridades de saúde da Europa.

Eles mostraram que os medicamentos produzem melhora ‘muito pequena’ em comparação com placebo: só 2 dos 51 pontos da escala de depressão de Hamilton.

Isso bastou para que a licença fosse concedida, mas ficou aquém do mínimo de três pontos requeridos pelo Instituto Nacional de Excelência Clínica do Reino Unido para estabelecer ‘significância clínica’.

Mesmo assim, o instituto aprovou as drogas para uso no Reino Unido porque apenas teve acesso aos testes publicados, que mostravam um efeito maior dos medicamentos.

‘Diante desses resultados, parece haver pouca razão para prescrever antidepressivos a quaisquer pacientes, exceto os mais deprimidos, a menos que tratamentos alternativos tenham falhado’, disse o líder do estudo. Segundo ele, as farmacêuticas seguraram dados disponíveis a autoridades de saúde, de modo que médicos e pacientes não entendiam a verdadeira eficácia das drogas.

A GlaxoSmithKline, fabricante do Serotax, disse que os autores do estudo ‘falharam em reconhecer’ os benefícios dos antidepressivos e suas conclusões ‘conflitam com a prática clínica’. A Eli Lilly, que fabrica o Prozac, declarou em nota: ‘Experiências médicas e científicas extensas demonstraram que a fluoxetina é um antidepressivo eficaz’. A Wyeth, que faz o Efexor, diz que reconhece ‘a necessidade de tratamentos farmacológicos e não-farmacológicos para a depressão’. “

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/02/2008 Claudia Maria Luiz dos Santos

    Na verdade quero pedir um espaço no Blog para colocar uma informação muito importante que merece a atenção de toda a Imprensa. Na semana passada o irmão de um radialista foi raptado no centro de Nova Iguaçu por dois homens. Eles o ameaçaram com armas e disseram para que desse o recado ao seu irmão: ‘deixe o prefeito Lindberg em paz ou sua família vai sofrer’. O radialista é Gabriel Barbosa que comanda o Perfil da Baixada na Rádio Tropical Solimões. Ele faz duras críticas ao governo Lindberg e já sofreu várias ameaças. Dessa vez eles foram mais longe. É preciso denunciar. Se houver interesse é favor entrar em contato.

  2. Comentou em 27/02/2008 CELIO LEVYMAN

    Questão interessantíssima.Quando a serotonina passou a ser considerada um neurotransmissor muito importante no sistema nervoso central,ainda na década de 1960,inúmeros trabalhos começaram a mostrar a eficácia da inibição da recaptação da substância com bons resultados na depressão,enxaqueca,distúrbios do sono,etc.Mais tarde,nos 1980,apareceram os inibidores seletivos de serotonina,mais indicados para quadros depressivos.E o mais importante é que é difícil mesmo quantificar sintomas,seja dor,seja depressão.A escala de Hamilton,por exemplo,é útil para dar números para uso estatístico,mas representa a verdade dos fatos ?Não é possível imaginar que uma depressão melhore apenas farmacológicamente,apenas nos casos únicamente biológicos,a minoria.Há efeito placebo,viés e,claro,interesse da indústria farmacêutica.Devem ser usados nos deprimidos ?Certamente,analisando-se caso a caso,e em geral associando-se outras formas de tratamento.Estudos apenas laboratoriais mostram mesmo inibição da recaptação de serotonina,mas e na clínica ?Caso fossem assim maravilhosos,não teríamos mais uma série de doenças.A história da publicidade do Prozac é escandalosa (no Brasil,até a Brastemp processou o laboratório por conta de publicidade cruzada…).Mais uma mostra da importância da medicina baseada em evidências.Um reparo;o trabalho fez a metanálise de poucos outros.Mas é por aí.

  3. Comentou em 27/02/2008 cid elias

    É…complementando o Vanvan que mandou bem, lembrei do fantástico cidadão americano (pensavam que não existia?mas existe!) Patch Adams, médico de verdade. Estava eu assistindo este ser humano fora de série no programa Roda-viva, quando uma repórter resolveu fazer um comentário sobre a indústria farmacêutica, mencionando que laboratórios buscavam a cura. Patch, educadamente, interrompeu-a e disse algo como ‘laboratórios jamais buscam a cura, eles buscam o LUCRO…’

  4. Comentou em 27/02/2008 Carlos N Mendes

    E eu gastando uma fortuna em Prozac… como se diz, tá nelvoso? Vai pescar!

  5. Comentou em 27/02/2008 Mauro Berti

    O artigo saiu no jornal La Nacion edição impressa na longinqua data de 18 de janeiro de 2008.
    Viernes 18 de enero de 2008
    Noticias | Buscador | Nota

    Nueva investigación

    Ocultan que los antidepresivos no son tan eficaces

    Por Benedict Carey
    De The New York Times

    Aqui no Brasil quem ocultoiu por mais de 39 dias?????????

    http://buscador.lanacion.com.ar/Nota.asp?nota_id=979801

  6. Comentou em 27/02/2008 Mauro Berti

    Este assunto já foi divulgado pelo jornal argentino La Nacion, há mais de um mes, através de reprodução de um artigo do jornal The New York Times, elementar meu caro Watson. Aqui temos a pior imprensa do mundo alguém ainda duvida ?

  7. Comentou em 26/02/2008 Ivan Moraes

    Tou estranhando porque demorou tanto tempo pra alguem ver o obvio! Qualquer pessoa que conhece alguem com problema mental sabe que esses remedios NAO sao e NUNCA foram o que prometem. Alguns dos antipsicoticos funcionam ‘bem’, isso eh, em um grupo de sintomas muito especificos eles **ajudam**, e somente isso: **ajudam**. Antidepressivos tambem **ajudam**. Eles nao sao ‘cura’ de nada.

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