Quarta-feira, 21 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1014
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PT, dinheiro e um homem em linha reta

Por Luiz Weis em 09/11/2005 | comentários

O artigo “Um novo PT” do economista e petista histórico Paul Singer, na Folha de S.Paulo de hoje, é a proverbial leitura obrigatória – para petistas, antipetistas e todos quantos tenham um mínimo de interesse em ir além da superfície da crise do mensalão, caixa 2, ou como se queira chamá-la.

O texto é valioso por diversas razões, entre elas a proposta do autor para o que denomina, com a seriedade e o realismo que o caracterizam, “os primeiros passos do que promete ser uma longa jornada” – “cortar os laços de dependência do partido em relação ao dinheiro”.

É uma idéia ousada, para não dizer revolucionária, na era da videopolítica, conforme o estudioso italiano Giovanni Sartori.

No mundo inteiro, partidos de todas as orientações se transformaram em máquinas eleitorais, reconhece o próprio Singer. Ou seja, movidas necessariamente a dinheiro. Administrado por profissionais.

Dinheiro pode não ser tudo numa eleição, mas quanto menos se o tem mais difícil se torna ganhá-la e, a partir daí, ganhar mais dinheiro também – num círculo que poderá ser virtuoso ou vicioso, dependendo de como se ganha e se gasta o dinheiro.

As outras razões por que considero valioso o escrito de Singer têm a ver com duas pessoas. A primeira é ele mesmo.

Conheço gente tão íntegra, no sentido ético, intelectual e político, como Paul Singer. Mais, acho que não.

Fundador do PT – e abençoado com um temperamento tolerante e aberto a divergência, como não é comum encontrar nem no PT nem em outros partidos -, Singer tem ainda uma autoridade moral testada e aprovada numa dura e famosa (ou infame) circunstância.

Junto com o jurista Hélio Bicudo e o atual deputado federal José Eduardo Cardozo, ele integrou a comissão de sindicância do partido formada nos anos 90 para investigar o companheiro Paulo de Tarso Venceslau.

Secretário do governo de São José dos Campos, na gestão da hoje deputada Angela Guadagnin [que deu o único voto contra a cassação de José Dirceu na comissão de ética da Câmara], Venceslau havia denunciado a existência, na prefeitura, de um esquema de favorecimento do homem de negócios Roberto Teixeira, amigo, padrinho e senhorio do imóvel onde Lula morava de favor em São Bernardo do Campo.

A comissão concluiu que Venceslau não transgrediu nenhuma norma do partido. Mas Lula mandou expulsá-lo.

Não é de hoje, portanto, que Singer luta por um PT limpo, ou por “um novo PT”, como diz o já citado título do seu artigo.

“Auto-reformulação profunda e radical”

A segunda pessoa que torna valioso esse texto é quem escreveu as palavras que Singer reproduz na sua abertura – e eu transcrevo aqui:

“Hoje, o PT perdeu muito do seu charme original e de seu carisma inicial. O PT, paladino da luta contra a corrupção, infelizmente não conseguiu evitar inteiramente que essa praga manchasse suas próprias fronteiras. O partido deixou que paulatinamente começasse a grassar no interior de alguns de seus organismos uma certa permissividade, um certo afrouxamento moral. Não foi capaz de impedir, no nascedouro, com rigor e presteza, práticas incorretas do ponto de vista da legalidade ou da legitimidade. Ou toma a iniciativa da autodissolução deliberada, antes que as circunstâncias da vida o fragmentem, dissolvam, esfacelem e liquefaçam sob mil formas vis. Ou, alternativa mais difícil, promove uma auto-reformulação profunda e radical, na forma e no conteúdo.”

São palavras de 1995. Repito: 1995.

O seu autor, que morreria no ano seguinte, é Perseu Abramo [a fundação de estudos do PT leva o seu nome].

Para quem talvez não saiba de quem se tratava, lá vai:

Fernando Pessoa, sob o heterônimo Álvaro de Campos, escreveu um “Poema em linha reta”. Perseu foi um homem em linha reta. No jornalismo, na universidade, no sindicato, na política e no PT.

A leitura do trecho de um profético artigo dele, no primeiro parágrafo do não menos corajoso artigo desse outro homem em linha reta, Paul Singer, pode provocar, pelo menos, uma de duas reações.

A primeira: já não se fazem petistas como antigamente.

A segunda: enquanto petistas da estatura moral de Singer continuarem querendo levar adiante as idéias de petistas da retidão de Perseu, a “auto-reformulação profunda e radical, na forma e no conteúdo” do partido, de que este falava, terá alguma chance – uma pequena chance – de não ser apenas mais uma utopia fadada ao fracasso.

***

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