Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

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Publicidade estatal: O preço do silêncio

Por Carlos Castilho em 16/08/2008 | comentários

O que já era quase um lugar comum nas redações ganhou características de evidência irrefutável a partir da publicação do informe O Preço do Silêncio (em inglês e espanhol), com base numa pesquisa feita pela Associação de Direitos Civis da Argentina, com financiamento da Open Society, a ONG do megainvestidor George Soros.


 


O trabalho de quase 250 páginas investigou casos de uso da publicidade estatal para influenciar o noticiário da imprensa em sete países latino-americanos (Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Honduras, Peru e Uruguai) durante um período de três anos, a partir de 2004.


 


E os resultados são, no mínimo, preocupantes. Na Argentina, o governo de Nestor Kirchner aumentou em 600% a publicidade oficial em jornais das principais cidades do país. Na Costa Rica, as verbas públicas para defender a aprovação de um Tratado de Livre Comercio com os Estados Unidos geraram um escândalo que acabou levando à renúncia do vice-presidente Kevin Casas, em 2007.


 


O informe lista um rosário de casos em que o dinheiro dos contribuintes foi usado para influenciar o noticiário da imprensa. Os recursos variam desde o corte dos anúncios oficiais como forma de pressão econômica, o mais comum de todos os expedientes usados pelas autoridades, até o pagamento de suborno por meio dos famosos envelopes pardos, em Honduras, uma velha tradição neste país centro-americano.


 


Embora o Brasil não tenha sido investigado pelos autores do documento, nós também não escapamos desta sina, quase tão antiga quanto a história política do continente.  Aqui os gastos anuais do governo com publicidade ultrapassam 1 bilhão de reais, mantendo a tendência de alta iniciada na administração Fernando Henrique Cardoso, em 2001.


 


Cerca de 60% das verbas publicitárias do governo brasileiro são administradas por empresas estatais e a televisão leva a fatia mais gorda, com nada menos que 62% do total geral. A TV Globo fica com cerca de 390 milhões de reais por ano (60% da verba destinada às televisões).


 


O informe O Preço do Silêncio coloca sob a lupa num problema que geralmente é mantido na sombra e só aparece nas páginas dos jornais quando empresas jornalísticas se sentem afetadas ou discriminadas.


 


Não é novidade que os governos e empresas usam as verbas publicitárias para amansar ou domesticar a imprensa, há muito tempo. Mas também não é segredo que jornais e alguns jornalistas são cúmplices nesta operação, porque ela garante a sobrevivência de muitos veículos de comunicação.


 


No interior e em cidades pequenas, pode-se dizer que são raríssimos os casos em que jornais, rádios e emissoras de TV sobreviveriam mais que uma semana sem verbas de prefeituras e/ou governos estaduais.


 


Se a imprensa fosse mais transparente em sua contabilidade seria possível ter uma idéia real de sua dependência do governo de turno, não apenas em matéria de publicidade, mas também em dívidas com o INSS, Imposto de Renda e outros impostos e taxas oficiais.


 


Os jornais têm toda a razão ao protestar contra o uso de verbas publicitárias como arma de pressão dos governos, não importa a sua orientação ideológica ou política. Mas se o protesto é baseado em princípios éticos e morais, os jornais, rádios, emissoras de TV e agora também a internet deveriam abrir mão do dinheiro público, como sugeriu recentemente o ex-reporter e editor da Folha de S.Paulo, Alon Feuerwerker, no seu blog pessoal.


 

Mas até agora nenhum órgão da imprensa resolveu ir tão longe em seu compromisso com a independência editorial.

Todos os comentários

  1. Comentou em 31/10/2008 daisy oliveira

    Eu quero saber o nome das empresas que estão sendo investigadas na operação parasita

  2. Comentou em 19/08/2008 Flávio Henrique Nóbrega

    O que dizer do preço cobrado pelas empresas de mídia, a tal tabela cheia, que só é aplicada para os anúncios estatais? Os anunciantes privados têm quase sempre ‘descontos’ que podem chegar até a 500%… O MP deve requerer os contratos privados para compará-los àqueles oferecidos ao Estado.

  3. Comentou em 18/08/2008 Pedro pereira pereira

    Não é novidade que todo governo tem seu departamento de propaganda. Alguns , como o nazista já o fazia de forma exemplar e incontestavel quanto sua eficiencia.
    Qualquer governo tem obrigação de mostrar o trabalho que está sendo feito para sua populaçao. Longe disso, o que se vê é uma propaganda escancarada , não de resutados e sim de métodologia de trabalho. Como?
    Finaciando orgão de propaganda alinhados com seu pensamento, indo muito alem da simples e pura informaçao.
    Querer agregar opinioes e destrui valores com um objetivo predeterminado de adquirir apoio. Não respeita o princípio democrático de que se governa pra todos e não para um seleto grupo de eleitos.
    Um belo trabalho que mostra a mais pura realidade de que os governos da américa latina não querem informar e sim induzir o leitor a ter uma opinião alinhada e enganjada.
    Ao cúmulo de se comprar uma revista por metade do preço se vc se tornar afiliado a um partido politico. Nota-se claramente que as verbas desse hebdomadário tem quantia substancial do dinheiro publico.
    ONDE ESTÃO OS OBSERVADORES?
    Vendo estrelas? não, eclipsados pela senilidade de um mundo que há muito não existe mais

  4. Comentou em 18/08/2008 Arlindo Papal

    Quer dizer que estatal não pode anunciar? O Santander e o ABN Amro podem, já o Banco do Brasil e a Caixa não?
    A Shell pode já a Petrobras não? A DHL e a Fedex podem já os Correios, não pode anunciar?
    Investimentos privados podem competir no mercado ter lucros e envia-los para suas sedes, fora do país, mas investimento público brasileiro não pode competir as multinacionais?
    O principio da questão é válida, mas vamos analisar todos os lados da questão.

  5. Comentou em 18/08/2008 Zé da Silva Silva

    Na década de 70 foram feitas algumas experiências no Brasil com a chamada ‘Imprensa do Leitor’. Eram semanários que viviam exclusivamente de suas assinaturas e vendas em bancas. Não aceitavam nem mesmo pequenos anúncios. Não sobreviveram. A dependência de grandes anunciantes conspira contra a independência da imprensa. Alguns poucos e grandes anunciantes privados também podem realmente determinar os rumos de um jornal ou revista. No Brasil, os órgãos de imprensa mostram um grande pudor em revelar de onde vem o dinheiro que os sustenta. É um assunto proibído nas redações. É como se o maná estivesse caindo do céu… No entanto, para os leitores conscientes, seria interessante assistir um ‘striptease’ econômico-financeiro dos órgãos de imprensa. Qual a percentagem da receita oriunda das burras estatais, quais os anunciantes privados mais representativos, qual o percentual da receita oriundo dos pequenos anunciantes, etc. . Esses números seriam muito interessantes e reveladores…

  6. Comentou em 18/08/2008 Jonas Paulo Negreiros

    Descobriram a pólvora. Mas, às vezes, o contrário acontece.
    Durante o início do governo Franco Montoro (PMDB-SP), todos os anúncios estatais foram suspensos, para economizar gastos.
    Em decocorrência, o governo paulista foi alvo de sucessivos ataques de quase toda a mídia.
    Após o retorno de patrocínio do Banespa aos principais telejornais regionais, o ‘problema’ desapareceu.
    Dá pra acreditar no quarto poder?

  7. Comentou em 17/08/2008 Marcos Chaves

    Interessante esta pesquisa não ter incluído o maior país da América do Sul. Parece ser proposital. Outra observação é o flagrante comedimento do autor deste post em tratar a questão: muito tato é importante nessas horas, pois sabemos quantos são os nossos (seus) telhados de vidro. Agora um testemunho meu: quando ainda cursava o ensino médio, um ótimo professor de História ministrando aula sobre as coisas do Brasil e de grandes colonizadores disse que o domínio por parte de um governo sobre o outro bastaria tomar-lhes algumas posições estratégigas, dentre elas a de energia, de comunicações e principalmente a de informação. Como não poderia ser diferente nossos (nós) políticos de turno aprenderam e muito bem somente a última. Ter o domínio da informação é fundamental neste país continental, tanto é que se quer fomos citados na pesquisa levada a efeito na América ou seria mera coincidência. É o setor privado como parasita no corpo do ente público e o mais curioso disso tudo é que ainda se acham imparciais e representantes legítimos do povo. A dependência das verbas públicas é o padrão vigente nos órgão de informação, todos, sem distinção. LAMENTÁVEL CONSTATAÇÃO.

  8. Comentou em 17/08/2008 Ricardo Martini

    Não se deve fazer uma relação entre verbas estatais de publicidade e apoio ao governo. Da mesma forma, a publicidade não-estatal tbém pode influenciar o noticiário. Tanto uma coisa quanto outra dependem das intenções de cada uma das partes. Não há comprovação nesse mundo nebuloso, claro, mas algumas coisas vêm à mente. Anos atrás, as Organizações Globo negociavam uma dívida gigantesca com credores, com possibilidade de conseguir um empréstimo do BNDES…além disso, o governo estava para decidir o padrão da TV digital. Lembram-se do noticiário francamente favorável ao governo Lula? O presidente chegou, inclusive, a dar entrevistas exclusivas a jornalistas da Globo, em um período em que não falava com o restante da imprensa; até mesmo o atual ministro Franklin Martins foi contratado como comentarista na emissora. Agora, com a dívida renegociada e o padrão de TV Digital japonês aprovado (como a emissora carioca queria), a Globo afastou-se bem do governo, perdendo qualquer escrúpulo ao atacá-lo. Deve-se agora é prestar atenção na relação entre Record e o governo…algo acontece por ali, é certo.

  9. Comentou em 17/08/2008 José de Souza Castro

    Pessoas que estão hoje no governo repetem o que se passou durante a ditadura militar. No livro ‘Sucursal das Incertezas’ aponto uma das causas que levou o Jornal do Brasil a entrar em crise. Escrevi que em 1976 o chefe do Gabinete Militar da Presidência da República, general Hugo Abreu, montou um relatório confidencial sugerindo “medidas contra o Jornal do Brasil”, para reprimir “a sua ação contestadora e subversiva permanente”. Entre as sugestões, estavam a suspensão do crédito dos bancos oficiais e das publicidades do governo, inclusive os estaduais, e a pressão sobre os anunciantes privados para que deixassem de anunciar no jornal considerado inimigo do governo militar. Em setembro de 1978, o JB devolveu as concessões de TV para o Rio e São Paulo, um projeto que não chegou a implantar. ‘Com o corte de boa parte dos anúncios do governo, o jornal começava a ficar financeiramente sufocado. Ele havia investido pesadamente para construir a nova sede na Av. Brasil, 500, para onde se mudara em 1973. Além disso, a nova sede, um elefante branco que deveria abrigar também a TV JB, aumentara consideravelmente as despesas operacionais do jornal’. Naquele tempo, entre os considerados aliados do JB estava Tancredo Neves, um dos líderes da oposição ao regime militar. Realmente, o mundo dá voltas.

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