Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Pura provocação raivosa

Por Mauro Malin em 03/02/2006 | comentários

Do blog Montanha Russa, de Maria Fabriani, jornalista brasileira que vive na Suécia. O post foi publicado em 14 de janeiro:


Religião, política e provocação




Adoro quando meu jornal está interessante aos sábados ou domingos, quando tenho realmente tempo pra ler até tarde. Hoje teve artigo do Henrik Berggren, um dos meus jornalistas favoritos daqui, sobre a última imbecilidade extremista dinamarquesa. A história é a seguinte: o jornal Jyllands-Posten resolveu publicar charges mostrando Mohammed. Eu não sabia, mas o Corão proíbe a reprodução de imagens do profeta.


Berggren escreve (bem pra caramba) que devemos defender “os idiotas do Jyllands-Posten”, não pelo que fizeram, mas simplesmente pelo valor da liberdade de imprensa. Isso porque, diz o jornalista sueco, toda a coisa da charge foi orquestrada pela política de extrema-direita Pia Kjærsgaard, que, infelizmente, praticamente domina a política dinamarquesa. (Não coloco links pra Kjærsgaard porque, como já escrevi antes, sou contra as drogas.)


Aí é que está. Até onde vai liberdade de imprensa e quando começa a provocação pura e deliberada? O resultado das charges é que jornalistas do Jyllands-Posten foram ameaçados de morte e as comunidades islâmicas de várias partes do mundo condenam (mais uma vez) a Dinamarca pela sua linha dura no que diz respeito à crença da grande maioria dos imigrantes presentes em solo dinamarquês.


Eu, particularmente, concordo com Berggren. Defendo a liberdade dos jornalistas do Jyllands-Posten, mas condeno fortemente a necessidade de deliberadamente provocar pessoas de crença diferente ao realizar um ato tão flagrantemente contrário às leis religiosas islâmicas. Afinal, não estamos falando de arte, mas de jornalismo. O jornal não precisava publicar as charges para se expressar, não se tratava de notícias, de fato. Não existe contexto, não existe razão. A não ser a pura provocação raivosa dos intolerantes’.


[Nota acrescentada às 18h35:]


O blog de Alon Feuerwerker chamou a atenção, ontem, para um serviço sobre o caso das caricaturas postado na Wikipedia.


Em conversa telefônica, Maria Fabriani contou ao Observatório que nenhum jornal sueco republicou as caricaturas por considerar que o episódio todo teve finalidade de provocação política. Nesse sentido, os jornalistas do Jyllands-Posten não seriam exatamente ‘idiotas’, como escreveu o sueco Berggren, mas provocadores. Maria diz que é grande na Dinamarca a intolerância contra imigrantes do chamado Terceiro Mundo e ela está no poder atualmente.


Chama a atenção que o circuito de jornais europeus onde as caricaturas foram republicadas, em nome da defesa da liberdade de imprensa, reflete uma constelação de forças conservadoras. Ver em ‘Diários europeus confrontam muçulmanos‘.


Há informações de que jornais brasileiros vão dedicar espaço maior ao tema em suas edições de amanhã, sábado (4/2).

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/02/2006 Fernando Martini

    Acho que a imigração não pode ser colocada numa gamela só, a imigração do ‘Terceiro Mundo’. O crescimento dos árabes na Europa é vertiginoso, e apenas por isso já se tornaria diversa das de outros cantos. Há ainda temas relacionados à religião e costumes, que habitualmente causam muito mais choques e polêmicas quando envolvem os árabes na Europa. Particularmente, como não escrevo para nenhum jornal, posso dizer que isso já está passando dos limites (independente da intenção dos jornais que publicaram as charges). É bandeira pisoteada aqui, ameaça de bomba por todo canto (quando não a própria), manifestações violentas, e isso tudo sendo descrito pela imprensa brasileira de uma forma banal, como se fosse o livre exercício da ‘democracia árabe’. Eu não entendo do conflito, mas apenas acho estranho a imprensa brasileira não escrever nada a respeito (ou sem a mesma ênfase) quando há o direito de outras religiões atacadas, agredido de forma muito mais violenta e brutal, como acontece costumeiramente no Oriente Médio.

  2. Comentou em 04/02/2006 Armando Freitas Filho

    Autorizo a publicação do meu comentário. Armando Freitas Filho

  3. Comentou em 04/02/2006 Armando Freitas Filho

    Não é porque sou pai coruja de Maria Fabriani: mas é evidente que a nota de seu blog sobre a publicação das caricaturas de Maomé está muito bem feita, pelo seu equilíbrio. A imprensa é e deve ser livre sempre, inclusive para avaliar o que deve e o que não deve ser publicado.

  4. Comentou em 04/02/2006 Fernando Cima

    Defender a liberdade de imprensa virou uma coisa de ‘forças conservadoras’? Que triste fim para a esquerda. Um recado para a Maria Fabriani: ou você defende a liberdade de imprensa ou não. Sem nenhum ‘mas …’ por favor.

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