Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Quando a mídia não tem certeza

Por Luiz Weis em 30/05/2009 | comentários

Numa decisão saudada como um marco na defesa da liberdade de informar, até por ser a primeira depois da extinção da Lei de Imprensa, o Superior Tribunal de Justiça negou a indenização reclamada da TV Globo por um empresário apresentado no Fantástico de 5 de maio de 2002 como suspeito de envolvimento com a chamada “máfia das prefeituras” no Rio e Espírito Santo.

A suspeita não se confirmou.

A relatora do caso, a ministra Nancy Andrighi, opinou que a mídia pode divulgar informações sobre inquéritos em curso, mesmo que as informações sejam incompletas. Nesse caso, um órgão de imprensa só seria passível de punição se agisse de má fé, publicando uma notícia que soubesse estar errada.

Na passagem mais citada de seu relatório, ela escreveu:

“A elaboração de reportagens pode durar horas ou meses, dependendo de sua complexidade, mas não se pode exigir que a mídia só divulgue fatos após ter certeza plena de sua veracidade.” [Itálico acrescentado.]

Não se pode, realmente. O direito do público de ser informado de assuntos de seu efetivo interesse – casos de corrupção, por exemplo – impõe à imprensa o dever da apuração rápida e rigorosa das denúncias. O que, argumenta a relatora, “não se coaduna com rigorismos próprios de um procedimento judicial”.

Mas isso não encerra a questão. Apenas a abre.

Trata-se essencialmente do seguinte: na dúvida sobre publicar ou não um fato apurado, até que ponto pode ser menos do que plena a certeza de que ele é verdadeiro?

Portanto, ao contrário do que pensa a juíza, conforme as circunstâncias, não só se pode, mas se deve, em nome da ética, segurar uma informação se uma avaliação jornalística honesta indicar que ainda está insuficientemente perto da “certeza plena” sobre a sua procedência.

A avaliação será inevitavelmente subjetiva – ainda está para ser inventado um certezômetro para definir o que está pronto ou não a ser servido ao público. As verdades jornalísticas não se pretendem absolutas. São aquelas às quais os jornalistas conseguiram chegar, naquele momento, com os dados que puderam levantar depois de empregar nisso os recursos e os procedimentos indispensáveis.

Um critério fundamental para segurar ou soltar uma reportagem é a gravidade do que trata. Quanto mais grave, sempre do ângulo do interesse social, demandas contraditórias estarão em jogo: apuração tanto mais rigorosa e divulgação tanto mais célere – para preservar o bem público ameaçado.

Por outro lado – e nesse caso a expressão não é a muleta a que redatores recorrem, à falta de melhor, quando precisam mudar de assunto e não sabem como manter o ritmo do texto –, por outro lado, conforme a gravidade da acusação que a matéria estiver fazendo a alguém, todo cuidado será pouco. Jornalistas não são juízes, mas eles não podem esquecer do princípio de que a dúvida deve beneficiar o acusado.

Até aqui estamos no confortável terreno da teoria. Na prática, as coisas desandam. A concorrência, a gana de ser o primeiro com as últimas – condição congênita de todo jornalista que valha o seu sal –, um eventual clima de caça às bruxas na opinião pública, tudo isso pode estimular um editor a ligar o “f…-se”, como o blogueiro ouviu certa vez de um deles, para ver no que dá.

O primeiro mandamento do código de ética médica criado por Hipócrates é “não faça mal”. Devia valer para o jornalismo.

No seu parecer, a relatora Nancy Andrighi lembra que uma reportagem pode levar “horas ou meses”. Quando as pressões para publicar são irresistíveis, o grande perigo é ela ser terminada mais perto das primeiras do que dos segundos.

No mundo acadêmico americano, onde a competição é feroz, a regra é “publique ou pereça”. Se assim é nos rarefeitos gabinetes universitários, que dirá de uma redação? Ainda mais que a internet incentiva – ou melhor, praticamente obriga – tirar o pão do forno antes de estar assado por inteiro, reduzindo algumas vezes dramaticamente o grau de certeza sobre a qualidade da massa.

Tem mais. O órgão de mídia, tendo feito tudo que manda o manual, publica suspeitas ou acusações que amanhã poderão se revelar sem fundamento. Pois quantas emissoras, impressos e sites divulgarão esse fato com o mesmo destaque do anterior?

Na maioria absoluta dos casos, a imprensa ataca aos gritos e se retrata aos sussuros.

A propósito, o blogueiro ignora se o Fantástico divulgou – e como – que não foram comprovadas, afinal, as suspeitas contra o cidadão que abriu processo contra a Globo.

Em suma, tem muito chão entre as palavras da juíza – que se sustentam em termos gerais e abstratos – e as condições concretas em que opera a imprensa. E são elas que induzem a mídia a apontar o dedo para terceiros, mesmo a léguas da “certeza plena” de que eles o fizeram por merecer.

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/06/2009 calypso thereza escobar velloso

    não retirar o pionerismo de que para ouvir queixas do paciente tem que ser médico,para dar as notícias obtidas por meio de um Staff tem que ser um jornalista,para ser leitora desabusada tem que exercer uma análise do que o jornalista informa…há uma pressa,sim,afinal quem fica por último é o ‘padre’,depois o comentarista que se vista decentemente com seus dados ,ele será o autor punido e não alienado,é o espírito da época,vamos fazer para que o jornal impresso tenha seu valor e se libere de que está para acabar.Se há sujeira na área o jornalista não póde deixar-se comprar,preze mais sua profissão e conciência e o comentarista saiba o que fala e não pegue a rua na contra mão,grata calypso

  2. Comentou em 02/06/2009 Ivan Moraes

    ‘ministra Nancy Andrighi, opinou que a mídia pode divulgar informações sobre inquéritos em curso, mesmo que as informações sejam incompletas’: nao, senhores juizes. Pra isso existe o judiciario.

  3. Comentou em 01/06/2009 Julio Prático Souza

    Não deveria haver realmente uma legislação para controlar o chamado jornalismo ‘afoito’ (para não usar o termo aético?). Por que é tão terrível para a classe jornalísitca encarar o fato de que seu trabalho deve ser regulado por parâmetros definidos de comum acordo com a sociedade?
    O fantasma da ditadura nos imputa agora a ditadura da imprensa? Um governo ditatorial não é aquele que elimina opositores, procura calar as críticas e rechaça qualquer tipo de legislação que queira regulá-lo? Meus caros, a imprensa brasileira está seguindo o mesmo padrão!

  4. Comentou em 31/05/2009 Werner Piana

    Esse jornalismo AÉTICO e frequentemente BANDIDO e IMPUNE nos ENOJA.

    Espera-se assim a Justiça Divina, já que da atual justiça brasileira comendada por gilmar dantas, espera-se pouco – e sempre com resultados PODRES.

    Isso revolta aos injustiçados. É muita desigualdade, muita iniquidade…

    Lamentável!

  5. Comentou em 31/05/2009 Cristiana Castro

    Isso aí é o que todo mundo já esperava, agora é concentrar esforços na rede para que a população continue tendo voz e espaço. A informação, há muito, não se dissemina pelos meios conservadores, tanto assim que brasileiro algum esperava posição difernte do judiciário. Fiquemos por aqui até que a mídia compre o pacote de regulamentação da rede do tucano azeredo. Depois daí, determina-se que até para escrever na rede o internauta tenha que ser jornalista diplomado, e, no caso de descumprimento, esteja sujeito as penas da lei, que aí sim vão cair com o peso dos códigos da cabeça do cidadão comum. Ridícula a situação!

  6. Comentou em 31/05/2009 Ricardo Dias

    Falta pouco para instituírem de vez o foro privilegiado e todas as demais imunidades – por ora privilégio dos nossos políticos – também aos jornalistas. Vácuos de legislação não duram muito tempo. Há muita gente esperando por isso, ansiosamente.

  7. Comentou em 31/05/2009 Fernando Santiago de Andrade Maciel

    É por isso que jornalismo é de longe a profissão mais anti-ética de todas. Sem qualquer preocupação com a imparcialidade e a veracidade dos fatos, faz-se, fala-se e se escreve o que quiser sobre quem quiser, do jeito que quiser, afinal não existe qualquer responsabilidade do ‘profissional’ ou do grupo editorial por isso. Sem contar que qualquer mané pode ser jornalista… Se fosse um, teria vergonha todos os dias quando abrisse um jornal pra ler. Não é à toa que a credibilidade da profissão despenca a cada edição impressa ou televisiva. Dias ainda piores virão pra vcs…

  8. Comentou em 30/05/2009 Lúcio G.

    Porque não dar direito de resposta, na mesma edição, ao ‘acusado’? (de preferência com uma fotografia da escolha do mesmo.

  9. Comentou em 30/05/2009 maria regina muniz

    Esses conceitos de mercadoria-notícia, produto-notícia, etc, comprometem seriamente a real finalidade da informação.
    Aliás, enquanto o universo da mídia não estiver completamente consciente da sua responsabilidade ética, do seu poder formador de opiniões , cidadãos e mundo, o próprio conceito de ser humano, ou mesmo o ser humano, poderá ver-se frequentemente espelhado em inverdades, irresponsabilidades e inconsequencias vendidas pela senhora dos destinos, a Dna. Mídia.
    Acredito que todas as profissões são muito importantes, mas o mundo midiático é absolutamente determinante para um mundo melhor ou pior.
    Se numa profissão como esta a ética não estiver acima do mercado, no mínimo estaremos ( nós os da mídia) perdendo uma excelente oportunidade de construir um mundo melhor

  10. Comentou em 30/05/2009 Carlos de Morais

    Gostaria que a ilustre juiza fosse professora daquela escola que, tendo em vista a denuncia infundada da midia, foi fechada e, até agora, continua manchando varias familias e, especialmente, seus proprietarios. Acho que a juiza não lei esta noticia… ou não perde tempo em ler jornais…

Código Aberto

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem