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Terça-feira, 21 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Quando indignação é informação

Por Luiz Weis em 31/07/2006 | comentários

Domingo, enquanto rodavam o mundo as imagens do inferno que Israel fez descer sobre Qana – a segunda chacina de civis inocentes no mesmo povoado libanês em 10 anos –, o leitor da Folha podia se deparar com a seguinte passagem da coluna de Janio de Freitas, redigida obviamente na véspera ou antes:

”No Líbano, a estimativa da ONU é a de que um terço das mortes civis sejam crianças. (Ah, como é difícil escrever uma frase dessas com frieza “jornalística”).”

Hoje, o mesmo leitor encontrará na Folha a transcrição do artigo do calejado repórter inglês Robert Fisk, do Independent, contando o que viu em Qana, depois da atrocidade israelense que matou cerca de 60 pessoas, mais da metade delas crianças, que haviam deixado suas casas e se abrigavam no porão de um prediozinho, por medo e falta de dinheiro para fugir do vilarejo.

”Os pequenos corpos foram colocados sobre tapetes. Os cabelos tinham poeira, e havia sangue nos narizes”, relata Fisk. “É preciso um coração de pedra para não sentir a indignação dos que presenciaram a cena.”

Costuma-se criticar o caráter “inflamatório” do tratamento dado pela mídia árabe – em especial a TV – ao conflito israelense-palestino. [Eis, por sinal, uma expressão típica da frieza “jornalística” criticada por Janio.]

Mas há limites para o jornalismo objetivo. Diante de um crime de guerra como o de ontem, descrever os fatos é apenas uma parte da história. Essencial, sem dúvida. Não menos essencial, porém, é o senso de decência humana comum que deve perpassar o noticiário.

Porque esconder a indignação que deve assaltar numa hora dessas todo repórter e editor que não tenha coração de pedra beira a obscenidade. E porque, numa hora dessas, indignação é também informação.

***

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Todos os comentários

  1. Comentou em 01/08/2006 MANOEL PINTO

    Com absoluta convicção,jamais perguntarei onde está Deus? Questionarei, porém, sempre: ‘em que corações se encontra Deus em momentos assim?!’. Em fatos tão irracionais e covardes! Americanos e judeus não aprenderam simplesmente com os nazistas! Descobriram com muita perspicácia o poder de se locupletar na alegria de confrontar a Deus e na monstruosa covardia do prazer na dor alheia. O nazismo mudou de país, mudou de língua. Hoje, sua bandeira trocou as cores e seu linguajar fala hebraico e inglês! Infelizmente, para infortúnio e desgraça da humanidade, vamos ter que nos acostumarmos a viver indiferentemente com notícias do extermínio de crianças?!O poder de um Estado totalitário, absoluto, tirano e déspota foi sempre o alvo dos nazistas. Métodos os mais perversos foram empregados de maneira profundamente desumana! A mesquinhez e, consequentemente, a miséria humana com todos os sabores possíveis e impossíveis, alí se manifestou com grandioso júbilo! Finalmente, a ação sanguinária de Hitler, foi tão simplesmente a ação de um tresloucado, um vândalo, com cooperação de um bando de tarados e covardes ou aconteceu assim, num estalar de dedos simplesmente? Ou seria a própria natureza do homem tentando provar sua superioridade? Ou ainda, simplesmente, o terrível momento econômico que devastava a alemanha? Caramba!!! Não aprenderam? Ou aprenderam?!!! E ainda questionam Deus?!!!

  2. Comentou em 01/08/2006 MANOEL PINTO

  3. Comentou em 01/08/2006 Samuel Lima

    Sábias palavras, caro Weis. No começo do conflito mandei um mail para os editores do Jornal Nacional (TV Globo), criticando o ‘discurso jornalístico’ de um certo Marcos Losekann. O massacre em Qana desnuda a derradeira face de um Estado tipicamente terrorista, para o qual esse termo jamais é usado.
    Há, no discurso geral da mídia, salvo honrosas exceções como Jânio de Freitas, Mounir Safatli e Robert Fisk, um tom maniqueísta vulgar quase a nos julgar como imbecis, incapazes de perceber a manobra: de um lado, a ‘força de paz’ de Israel (sempre a ‘se defender’); de outro, os ‘terroristas arábes’, homens-bombas, ‘fundamentalistas’…
    Na outra ponta do processo, a imprensa também não consegue jogar luz sobre o jogo pusilânime da ONU. Após o massacre (crime hediondo contra a humanidade) de Qana, o máximo que a ONU conseguiu foi aprovar uma nota ‘lamentando’ o episódio. É de lascar!

  4. Comentou em 01/08/2006 mauro alvim dos Santos

    Os corpos destas crianças decreta o final moral do monoteísmo( judaísmo, Cristianismo e Islamismo). DEUS ESTÁ MORTO. Será que vale a pena salvar a terra? a humanidade definitivamente naõ.

  5. Comentou em 31/07/2006 jayme guedes guedes

    Dificil é entender os motivos que levam o povo do Líbano a hospedar terroristas que desenvolvem atividade hostil contra Israel e que usam crianças como escudo quando o agredido reage…

  6. Comentou em 31/07/2006 Dante callefi

    A Zero Hora de Pôrto Alegre,estampou na primeira página um título,que merece o prêmio ‘Escárnio 2006′.Uma sugestão turística.Um caderno de domingo.’ Como vivem os libaneses em tempo de guerra’.O fato do jornal ser de propriedade da família Sirotsky, agrava a manchete e o teor da reportagem.Lembra a pergunta do foca a mãe da vítima assassinada:’Como a senhora está sentindo essa perda?’

  7. Comentou em 31/07/2006 Ricardo Oliveira

    Caro Weis! Replico o comentário que fiz em ´O desafio de ser imparcial´ aqui no OI.:

    Enviado em 30/7/2006 às 10:24:46 PM

    O que mil razões e apelos tentaram produzir/construir, uma bomba fez sozinha. Independente do lado em que estivessem, se do lado do território israelense ou do lado do território libanês, 37 crianças, em holocausto anunciado colocam um cessar-fogo em pauta. Decretam o final de um capítulo. Sepultam todas as justificativas das agressões junto a seus corpos. Mas, acredito que somos insensíveis a tudo isso. Já nos maquinizamos tanto em jogos de videogames que nem distinguimos mais o que é real da realidade fática. Talvez, um dia, acordemos para uma nova chance.

  8. Comentou em 31/07/2006 Dimas Padua

    Nao resta a menor duvida,que os judeus aprenderam e muito com os nazistas.Nessa guerra suja quem perde é o genero humano,infelizmente.

  9. Comentou em 31/07/2006 Suhelen Cristina Almeida Silva

    Manter a objetividade da infomação é importantíssimo para o relato dos fatos, porém evitar de fazê-lo com emoção quando se refere a uma situação como essa, é provar uma identidade tão fria quanto a identidade dos que promovem a guerra.

  10. Comentou em 31/07/2006 Fabio de Oliveira Ribeiro

    Apoiado. Chega de alisar a brutalidade militarista à título de uma suposta necessidade de isenção jornalistoca. Neste caso, a isenção pode fomentar a escalada do conflito. Quando a guerra despedaça CRIANÇAS não se pode escrever sem indignação sob pena de se tornar conivente. Seu artito é ‘totalmente excelente’. E digo mais, está na hora dos jornalistas começarem a expor publicamente ao ridículo os INDUSTRIAIS que ESTÃO GANHANDO DINHEIRO com a destruição da infância no Líbano. Há um negócio bilionário sendo movimentado (http://pt.indymedia.org/ler.php?numero=90327&cidade=1 ), um NEGÓCIO DO ORIENTE MÉDIO, cuja lucratividade tem sido devastadora em termos humanitário. Um negócio muito pior do que o antigo NEGÓCIO DA CHINA, se é que comerciar ópio e fazer guerra por causa do ópio possa ser considerado moralmente justificável. Ingleses de outrora e americanos de hoje se equivalem… Tenho nauseas só de pensar que tem gente torcendo para um aumento da escalada da guerra no Oriente Médio de olho nos lucros a serem obtidos.

  11. Comentou em 31/07/2006 André Lux

    Engraçado. Onde estão agora os artigos de jornalistas como o sr. Alberto Dines, Luiz Weis e afins sobre a censura de um órgão de imprensa aqui no Brasil (A ‘Revista Brasil’)? Não são eles os super-imparciais, defensores ferrenhos da tal da ‘liberdade de impresa’ que tanto nos orgulha? Não vão se expressar, senhores? Por quê? Onde está a indignação que os senhores dirigem a outras questões também importantes (como o massacre dos civis no Líbano) agora que a censura foi reeditada no Brasil a pedido dos partidos e ideologias que apóiam (veladamente) em suas colunas? Cadê a vossa tão famosa (e auto-proclamada) imparcialidade e isenção? Só existe contra o PT e em casos óbvios como o massacre da Qana? Não são práticas como a censura da imprensa que levam ao declínio da democracia e à tragédias como às que assistimos durante a ditadura militar no Brasil e agora no Oriente Médio? Por sinal, não é culpa da própria imprensa, sempre pintando árabes, muçulmanos, palestinos e afins como ‘terroristas’ em sua ânsia de ser pró-Israel e pró-USA, que fatos como esses continuam acontecendo enquanto o mundo dá de ombros? Como sempre, o grito histérico de um lado e o silêncio absoluto do outro. Como sempre, dois pesos e duas medidas. Lamentável.

  12. Comentou em 31/07/2006 Fábio Carvalho

    Muito difícil cobrir a situação no Oriente Médio, sem dúvida. A mídia deveria centrar fogo em Condoleezza Rice, penso eu. Mas, para observar daqui do RS, sublinho que Zero Hora tem um correspondente em Jerusalém – Nahum Sirotsky, da família RBS – e enviou Rodrigo Lopes ao Líbano. Na edição desta segunda-feira, o título da capa foi o mais suave possível. ‘Erro em bombardeio de Isarael deixa mais de 50 civis mortos’ (a manchete de abre é a selvageria de torcedores no Gre-Nal). As crianças até aparecem na chamada de primeira página, mas a hierarquia é exatamente a oposta da Folha de São Paulo (‘Ataque de Israel mata 37 crianças’, com o total 56 civis mortos na chamada). Nas internas de ZH, sob o título ‘Erro provoca duras críticas’ lê-se que ‘para analistas internacionais, o grave erro de Isarael pode custar ao país [Israel] boa parte da simpatia mundial angariada no início da guerra – afinal, foi a milícia extremista Hezbollah que começou o confronto, ao seqüestrar dois soldados israelenses e matar outros oito’. Civis = militares? Na interna, o título principal, convém salientar, é ‘Indignação no Líbano’, mas ZH também poderia se indignar. Á página 6, sob o título ‘A hora do Hezbollah’, o lead de Sirotsky é ‘Recentemente, escrevi que o Hezbollah, guerrilha xiita, estava ganhando corações muçulmanos. Nas próximas horas, a milícia pode também ganhar corações mundiais’.

  13. Comentou em 31/07/2006 taciana oliveira

    Sem palavras. Só choro e ranger de dentes. Mais uma vez a pergunta:DEUS, ONDE ESTÁS? Porque a humanidade covarde, o imperialismo desenfreado, a cegueira étnica e religiosa e a ganância dos poderosos do momento, nós sabemos onde estão. Calaram-se os críticos dos holocaustos da história? Não há fornos de cremação, mas há bombas químicas contra populações. Bombardeios de resultados numa guerra de extermínio. Herodes deixará de ser o MAL? Não há espadas para atravessar criacinhas, mas há bombardeios sobre suas cabeças. Mudaram todos ou mudou até Deus?

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