Sexta-feira, 20 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Quando os jornais se lixam para o leitor

Por Luiz Weis em 07/05/2009 | comentários

Nem a Folha, nem o Globo, nem o Estado, para ficar nos três principais diários nacionais, se deram o trabalho de informar quem é o deputado Sérgio Moraes, que está na primeira página das suas edições desta quinta-feira, 7.


Ele fez por merecer. Relator, no Conselho de Ética da Câmara, do processo por quebra de decoro contra o colega Edmar Moreira – o dono do castelo de R$ 25 milhões suspeito de embolsar parte da verba indenizatória a que tem direito para reaver gastos autorizados –, Moraes sustenta que Edmar não fez nada de errado.


E pôs para fora o que provavelmente uma ampla maioria dos parlamentares brasileiros pensa mas não diz:


“Estou me lixando para a opinião pública.”


Foi assim que respondeu à pergunta de um jornalista se não temia que pegasse mal para ele a absolvição prévia que concedeu ao deputado-castelão que apresentava notas de despesas com serviços de segurança pessoal prestados por firmas de sua propriedade.


Moraes fez mais do que se lixar. Explicou por que:


“Parte da opinião pública não acredita no que vocês [jornalistas] escrevem.” E produziu uma frase em que jornalistas, cientistas políticos e eleitores deviam prestar muita atenção:


“Vocês batem, mas a gente se reelege.”

Pouco antes, na abertura da sessão do conselho, ele já havia soltado os cachorros na imprensa:


“Podem me atirar no fogo que não tenho medo. Tenho sete mandatos e seis filhos [sic], minha mulher é prefeita. Não é pouca vergonha eu estar aqui. Pouca vergonha são aqueles que nunca concorreram a nada se intitularem patronos da ética e da moral, é um jornal que não recolhe impostos, é bater no trabalho infantil e usar crianças em novelas.”


Pouca vergonha é o leitor não ser informado de quem se trata o nobre parlamentar. Folha e Estado, burocráticos a mais não poder, só lhe acrescentaram ao nome as siglas inevitáveis que designam o partido e o Estado de um parlamentar. No caso, PTB e RS.


O Globo ainda deu que, no ano passado, Moraes defendeu o fechamento do Conselho de Ética; que a sua mulher, Kelly, é prefeita no interior do Rio Grande do Sul – onde, onde? –; que o casal tem problemas com a Justiça, “inclusive investigação sobre suposto envolvimento com uma casa de prostituição”; e que tramitam oito processos contra ele no Supremo Tribunal Federal.


Mas o que interessa é a sua trajetória, os sete mandatos que o credenciam a dizer que “vocês batem, mas a gente se reelege”.


De fato, ele se reelegeu vereador em Santa Cruz do Sul, na região do Vale do Rio Pardo, em 1988, deputado estadual em 1994 e prefeito da mesma cidade em 2000. Em 2006, chegou à Câmara federal com 86 mil votos.


Com a folha corrida que tem [lveja o que diz o Projeto Excelências] ele pode servir de exemplo do alcance frequentemente limitado do escarcéu da imprensa sobre as baixarias dos políticos para as frondosas carreiras de tantos deles.


Mais uma razão para, como diria o deputado, bater nos jornais de hoje por não terem contado a história do sucesso dessa triste figura.

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