Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Que tipo de imprensa Chávez
quer cercear?

Por Alceu Nader em 15/04/2005 | comentários


Mary Clentícia Stelling de Macareño, nome verdadeiro de Maryclen Stelling, citada como ‘fonte independente’ pelo O Estado de S.Paulo de 14 de abril passado, na reportagem Chávez instala sua força de reserva, escreveu recentemente no site Red Voltaire, dedicado à liberdade de expressão, que ‘o poder alcançado pelos meios de informação na área política é um fenômeno que se apresenta como inegável crise do sistema representativo venezuelano’.


Ela aparece na reportagem do O Estado como autora de uma rara opinião neutra sobre a Venezuela de Hugo Chávez nos grandes jornais brasileiros. O Estado apresenta Mary Clentícia, professora de Sociologia Política, como ‘analista política independente’. Na verdade, ela integra o Observatório de Médios, organização não-governamental venezuelana que tem como ‘propósito fundamental exercer, por meio da análise rigorosa e responsável, a observação permanente da informação oferecida pelos meios de comunicação social venezuelanos’.

Em seus artigos, Mary Clentícia manifesta desaprovação ao tipo de jornalismo praticado em seu país, assim como a concentração dos meios de comunicação nas mãos de poucos e poderosos grupos empresariais, e, sempre que pode, condena o uso político dos donos dos meios de informação venezuelanos, principais promotores do fracassado golpe de estado contra Hugo Chávez de abril de 2002. ‘A comunicação e a informação política foram transformadas em reféns desse espaço político capturado pelos meios de informação’, escreveu no artigo para a Red Voltaire.

No golpe fracassado contra Chávez, todos os jornais brasileiros trouxeram fotos de ‘chavistas’ de arma em punho atirando contra uma passeata de supostos manifestantes da oposição. A verdade era a ordem inversa. O desmonte da farsa está no documentário ‘Chávez – o Filme, A Revolução Não Será Transmitida’, dos irlandeses Kim Bartley & Donnacha O’Briain, que recebeu 23 prêmios e menções honrosas nos Estados Unidos, Europa, África do Sul e América Latina. O documentário foi apresentado mais de uma vez no Brasil, pela TV Câmara, da Câmara dos Deputados. Mas, consciente ou inconscientemente, nenhum dos grandes jornais brasileiros destacou o documentário que comprova que foram enganados por seus pares venezuelanos. Quem teve a oportunidade de assistir, surpreendeu-se com revelações como essa – e que apenas reforçam a premissa de que se deve desconfiar de tudo que se lê ou vê nos meios de informação. Principalmente quando o tema é a Venezuela de Hugo Chávez.


Uma das passagens do filme traz Pedro Carmona, presidente da Fedecámaras, a Fiesp local, escolhido pelos golpistas para ocupar a Presidência da República, em entrevista por telefone à CNN. Ele conta, ‘ao vivo’, que a derrubada de Chávez fora um sucesso e que restavam apenas ‘alguns pontos isolados de resistência’. Era tudo mentira: Carmona já se encontrava na condição de fugitivo – ele reside hoje em Miami -, e Chávez já havia sido reempossado.


O filme também mostra que, das três redes venezuelanas de televisão, apenas as duas privadas continuaram no ar. O sinal da rede pública havia sido derrubado e a sede da emissora ocupada pelos golpistas. Enquanto isso, as redes privadas informavam que Chávez já se refugiara em Cuba. O golpe fracassado da mídia revelou a falha estrutural do sistema de comunicação do governo venezuelano – e é justamente essa deficiência que explica o empenho de Hugo Chávez em apressar a inauguração da Telesur, a rede de tevês estatais do Brasil, Argentina, Uruguai e da própria Venezuela. O Estado, também trata da rede, na mesma edição de 14/04/05, na reportagem ‘Jornalista é condenada a 6 meses por difamar’. O jornal trouxe que o propósito da Telesur ‘`é romper com a conspiração das tevês´, segundo políticos chavistas’.

A propósito da condenação de Patrícia Poleo, filha de Rafael Poleo, dono do jornal El Nuevo País, tanto O Estado quanto O Globo afirmam que sua condenação é uma nova ameaça à liberdade de imprensa. É verdade. O problema é que o jornal, como diz a observadora Mary Clentícia Stelling de Macareño, opera como parlamentar de oposição e sacrifica a verdade dos fatos em nome de seus objetivos políticos. Nem sempre foi assim. Patrícia ganhou o Premio Rey de España de 2001, com a série de reportagens que investigou a prisão de Vladimiro Montesinos, ex-assessor do ex-presidente do Peru, Alberto Fujimori. Conforme ela comprovou, Montesinos contava com a proteção de Hugo Chávez em seu esconderijo venezuelano. Um ano depois, o engajamento político anti-Chávez já se refletia em seu trabalho. A seção ‘Entre Aspas’, do Observatório da Imprensa de 12 de junho de 2002, trouxe reportagem da Folha de S.Paulo do dia 6 daquele mês, na qual Patrícia se defendia da acusação de ter produzido um vídeo no qual seis ‘militares encapuzados’ ameaçavam novo golpe de Estado contra Chávez, seguindo o roteiro de várias quarteladas latino-americanas. Sua primeira versão foi de que o vídeo chegara às suas mãos por intermédio de ‘informantes militares’. Quando a farsa foi derrubada, Patrícia Poleo disse que se tratava ‘de uma peça de teatro que estava preparando’.

Sobre a condenação propriamente dita que os jornais brasileiros trouxeram dias 14 e 15 de abril passados, Patrícia Poleo foi condenada pela Justiça a seis meses de prisão pelo crime de difamação. Motivo: ela publicou em sua coluna, em novembro do ano passado, uma foto supostamente tirada em novembro de 1992, durante tentativa de golpe fracassado – desta vez liderado por Hugo Chávez -, na qual identifica o atual ministro do Interior e da Justiça, Jesse Chacón, como um homem que aparece, de cócoras, ao lado de dois cadáveres. Não era o ministro. Ele pediu correção e retratação, mas ela concordou apenas em reparar o erro. Chacón decidiu, então, processá-la porque a imagem, na sua opinião, afeta sua reputação.  


Todos os movimentos de Chávez contra os meios de informação venezuelanos agridem a liberdade de imprensa, é verdade, mas há um oceano de diferença entre o jornalismo que se pratica na Venezuela e o que se exerce no Brasil – e é aí que mora o perigo. Ao não fazer essa distinção, os jornais brasileiros correm o risco de, novamente, passar informações falsas aos leitores, como aconteceu há três anos. Falta esclarecer que tipo de imprensa Chávez quer cercear.

Links


Red Voltaire
Observatorio de Medios
Entre aspas – Observatório da Imprensa – 12/06/2002
Chávez, The Film – The Revolution Will Not Be Televisioned

Todos os comentários

  1. Comentou em 31/05/2005 antonio barbosa filho

    Não dá para acreditar que as distorções divulgadas no Brasil sobre a realidade venezuelana sejam involuntárias. Na melhor das hipóteses é preguiça. Até eu, um mero reporterzinho de aldeia, recorro a amigos de lá que conheci nos Foruns Sociais Mundiais e consigo ver os dois lados da questão. O sr. Carmona, da fedecámaras e os donos das TVs privadas agem abertamente pela luta armada contra o presidente eleito, reeleito e aprovado em referenduns. Talvez seja o presidente mais votado na América Latina desde 1998. Mas colegas como Boris Casoy e tantos outros ainda o chamam de ditador. A TV local chegou a suspender as novelas brasileiras, no golpe de 2002, para convocar o povo à invadir o palácio. Onde isso seria admitido como liberdade de imprensa? Imagine se alguém tentar fazer isso nos EUA? Será preso como membro da Al Qaida, no mínimo…
    não sou defensor de tudo que Chávez faz, mas a verdade é que os pobres, camponeses e indígenas, explorados há séculos por uma elite predadora da rica Venezuela, estão sendo atendidos nas suas necessidades mínimas, como habitação, educação e saúde. Como sempre,tudo que se faz pelos pobres na AL é logo taxado de populismo.
    Nós que atuamos, em maior ou menor escala, nos meios de informação, precisamos ser mais corretos: não podemos colocar nossos preconceitos, ideologias pessoais e vocação neoliberal a serviço da desinformação de nossos públicos. Tem colegas confundindo (gratuitamente?) notícia com propaganda ideológica. É gente que detesta a idéia de um Conselho Nacional dos Jornalistas…

  2. Comentou em 25/04/2005 Patrick

    Heitor, instale algum programa de troca de arquivos P2P (eMule, por exemplo) e procure pelo arquivo ‘La revolucion no sera transmitida’ (versão em espanhol). Infelizmente, essa dica só é útil se você tiver acesso à Internet através de banda larga.

  3. Comentou em 23/04/2005 Heitor Augusto de Sousa

    Despertou-me grande interesse o documentário citado por Nader no artigo. Como eu poderia assisti-lo? Conhecem alguma fonte disponível? Grato, Heitor Augusto

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