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Terça-feira, 21 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Radiografia: como os principais jornais repercutiram a história do dinheiro cubano

Por Alceu Nader em 01/11/2005 | comentários

Passado o primeiro impacto da reportagem da Veja sobre o envio de US$ 3 milhões ou de US$ 1,4 milhão (as duas fontes vivas da revista discordam em 114%) que o governo cubano ou o Partido Comunista de Cuba enviou para a campanha de Lula, uma boa providência é comparar como cada um dos seis jornalões do eixo Rio-São Paulo – Folha de S.Paulo, Gazeta Mercantil, Jornal do Brasil, O Estado de S.Paulo, O Globo e Valor Econômico – repercutiram a denúncia.

Essa comparação inclui os espaços abertos na primeira página, a diagramação das páginas internas e, principalmente, o conteúdo em si dessas repercussões. Os dois principais jornais de Economia – Valor Econômico e Gazeta Mercantil – entraram tarde no assunto porque não têm edição aos domingos.

No domingo, um dia depois da revista ter chegado às bancas de São Paulo e do Rio de Janeiro e aos assinantes dessas duas cidades, todos os jornais registraram a suposta vinda do dinheiro na primeira página.

Domingo
Por ordem alfabética, a denúncia chegou aos jornais de domingo da seguinte maneira:

Folha de S.Paulo

Primeira PáginaSubmanchete, com título de uma coluna, que se divide na dobra da primeira: ‘Campanha de Lula não teve dinheiro de Cuba, diz PT’.

Caderno interno – Uma página e quatro títulos:

‘PT é acusado de receber dinheiro de Cuba’
‘Acusação é falsa, afirma Berzoini’
‘Em nota, governo cubano nega repasse’
‘Relação de petistas com a ilha é antiga’.

Jornal do Brasil

Primeira PáginaNão registrou o assunto na primeira (São Paulo, pelo menos), nem no Caderno interno.

O Estado de S.Paulo

Primeira Página – Manchete principal, com título de cinco colunas: ‘Denúncia de financiamento cubano agrava a crise’.

Caderno interno – duas páginas e seis títulos:

Na primeira, abrindo com foto que traz Luiz Inácio Lula da Silva e Fidel Castro em diálogo amistoso:

‘Cuba enviou US$ 3 milhões para campanha de Lula, afirma revista’
‘Relações entre Fidel e PT sempre foram intensas’
‘Gilberto Carvalho diz que denúncia é absurda’

Na segunda, abrindo com foto do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, em primeiro plano:

‘Oposição quer devassa nas contas de campanha de Lula’
‘PFL divulga nota e ameaça ir à Justiça’
‘Serra diz que história é ‘parece verossímil’’

O Globo
Primeira Página – Submanchete, com título de uma coluna, ocupando o canto inferior direito : ‘Oposição pede nova investigação contra o PT’

Caderno interno – uma página, sem foto, dividindo com publicidade que ocupa ¾ da área total, e dois títulos:

‘Campanha der Lula teria recebido dólares de Cuba’
‘Petistas reagem com ironia e indignação’

Observação importante: dos textos de primeira página, apenas a Folha de S.Paulo registra a diferença de quantias entre as duas fontes vivas da revista. O Estado de S.Paulo e O Globo optaram pela maior: US$ 3 milhões.

Segunda-feira


Folha de S.Paulo
Submanchete, com título de uma coluna, ocupando a mesma localização da primeira página do dia anterior:

‘Lula planeja ‘guerra’ caso oposição use nova suspeita’

Caderno interno – 1/3 da página A4, dividindo a área com a coluna ‘Painel da Folha’, com o título

‘Planalto esboça plano para guerra ‘contra’ oposição’

mais 1/3 da página A6

‘Oposição quer que CPI apure remessa de Cuba’

Gazeta Mercantil
Primeira Página – chamada de abertura da seção ‘Primeiro Plano’, com resumos de assuntos secundários que merecem destaque:

‘Cuba desmente’

Caderno interno – 1/8 de página, abrindo a seção Internacional, com o título:

‘Embaixada de Cuba desmente financiamento à campanha de Lula’

Jornal do Brasil
Chamada de apoio à manchete principal, com uma coluna e o seguinte texto: ‘Comércio sob suspeita – Dobra venda a paraíso fiscal’, com o texto: ‘Disposto a evitar que a denúncia de financiamento à campanha de 2002 alimente a estratégia da oposição para encurtar seu mandato, o presidente Lula articula reação do Planalto. Estudiosos dão a receita de combate à corrupção’

Caderno interno – Uma páginas e três títulos, dividindo espaço com a coluna ‘Coisas da Política’:

‘Planalto articula reação a denúncia sobre ajuda de Cuba’
‘Embaixador fala em ‘manobra’’
‘Trânsito livre na esquerda’

O Estado de S.Paulo
Primeira Página – duas submanchetes: a primeira, com duas colunas; a segunda, com uma:

‘Oposição quer devassa nas contas de Lula’
‘Cuba nega denúncia ‘injuriosa’’

Caderno interno – Uma página e quatro títulos

‘Devassa na campanha de Lula vai começar por pagamentos a Duda’
‘Senador insiste em investigar denúncia sobre as Farc’
‘Planalto já não crê em diálogo com a oposição’
‘Cuba nega doação e ataca ‘planos do imperialismo’’

O Globo
Primeira Página – submanchete na metade inferior da primeira página, com duas colunas:

‘Lula diz que denúncia sobre Cuba é armação’

Caderno Interno – um título e dois quadros de apoio, ocupando, no total, cerca de 1/3 de página:

‘Dinheiro de Cuba é fantasia, diz Lula a assessores’
‘Para Cuba, há ‘manobra propagandista’’
‘O que diz a denúncia’


Valor Econômico
Primeira Página – Denúncia abre a seção ‘Destaques’, área para assuntos secundários que mereceram destaque na primeira, com o seguinte título e resumo:

‘Financiamento de Campanha’
‘A nova denúncia de que o PT teria recebido recursos de Cuba para financiar campanha eleitoral parece estratégia da oposição, quer quer manter o presidente na defensiva durante 2006’

Caderno Interno – ¼ de página, com o título

‘Denúncia favorece estratégia da oposição’

Terça-feira


Folha de S.Paulo
Manchete principal – ‘Oposição adota cautela sobre caso Cuba’

Editorial – ‘Confronto aberto’

A opinião do jornal vai expressa no primeiro parágrafo, que diz o seguinte:

‘São inquietantes as notícias dando conta de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estaria disposto a se mirar no exemplo de seu colega venezuelano Hugo Chávez caso a oposição invista numa ofensiva pró-impeachment ou explore politicamente reportagem publicada pela revista ‘Veja’, na qual dois antigos assessores do atual ministro da Fazenda, Antonio Palocci, mencionam uma doação em dinheiro, provinda de Cuba, para a campanha de 2002′.

Considera que ‘não faz nenhum sentido’ responsabilizar a mídia pela crise que o governo atravessa, e aconselha:

‘É preciso, porém, que as lideranças oposicionistas atuem com sensatez. O impeachment do presidente da República, sobre o qual se voltou a falar, não é um mecanismo sumário e indolor, que dependa simplesmente da vontade de partidos oposicionistas para se materializar. Trata-se de um processo com graves implicações políticas – e possivelmente econômicas-, que precisa ser endossado por dois terços da Câmara e resultar, no Senado, numa condenação por crime de responsabilidade.
Se os adversários do governo consideram que há motivo suficiente para depor Lula, e se acreditam reunir condições políticas para tanto, que tomem a decisão com a necessária maturidade. Caso contrário, é aconselhável -como, aliás, se observava ontem- evitar bravatas e decisões irrefletidas que contribuam para exaltar os ânimos e insuflar um clima de descontrole e confronto aberto.’

Caderno interno – Dentro do contexto da ‘guerra política’, a denúncia aparece nas seguintes reportagens:

‘Oposição modera ataques, poupa Lula e pede apuração’
‘A Operação Cuba’
‘Planalto escala PT para isolar Lula da crise’
‘O que pesa contra Lula’
‘Dono de carro venceu licitação polêmica’
‘Palocci diz duvidar de ‘conexão Cuba’’

Jornal do Brasil
Primeira Página – subtítulo de apoio à manchete principal, ‘Legislativo ataca Judiciário’, com a chamada ‘Na Mira- PSDB e PFL têm estratégia para faturar com denúncia de dinheiro de Cuba’

Caderno interno – Uma páginas e dois títulos, dividindo espaço com a coluna ‘Coisas da Política’:

‘PSDB e PFL traçam plano para faturar com denúncia’
‘Lula afasta Planalto, mas manda PT reagir’

O Estado de S.Paulo
Primeira página – Título com duas colunas:

‘Lula ordena ofensiva contra oposição’


Caderno interno – Editorial principal e quatro títulos ocupando cerca de ¾ de página:

Três reportagens ocupando uma página, com os títulos:

‘Lula pede que PT reaja se oposição insistir em dinheiro vindo de Cuba’
‘Presidente do partido diz que vai processa revista’
‘Garcia classifica denúncia como ‘fabulação absoluta’’
‘Cubano deixa País e dificulta convocação’

No editorial, com o título ‘A nova denúncia’, o jornal critica a reação do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, qualificando a reportagem da revista de ‘fantasiosa’.

Em seguida, pondera:
‘Entre aceitar a reportagem pelo seu valor de face e negar, liminarmente, que tenha qualquer fundo de verdade, está o acidentado terreno pelo qual os políticos (e as agências de investigação a que vierem recorrer) devem transitar em busca dos fatos. O terreno é duplamente acidentado. Primeiro, porque essa busca poderá não chegar a parte alguma. O protagonista central do alegado episódio, Ralf Barquete, outro ex-colaborador de Palocci, faleceu no ano passado. Além disso, sem a materialidade do apontado delito, ficará a palavra de uns (Buratti e Poleto), por verossímeis que possam parecer os seus depoimentos, contra a palavra de outros (o ministro, dirigentes do PT e, eventualmente, o próprio presidente da República).
Em segundo lugar, porque a história entra em cena quando as relações entre governo e oposição estão no seu pior momento desde que irrompeu a crise da corrupção, há quase meio ano. O que define essencialmente essa piora é o fim do tabu do impeachment: na semana passada, no crescendo de ações e reações recíprocas, pela primeira vez a hipótese de abertura de processo contra o presidente da República por crime de responsabilidade passou a fazer parte da retórica estridente de um confronto cujo horizonte é, sem dúvida, a sucessão presidencial de 2006.’
(…)

O Globo
Primeira Página – Manchete secundária de uma coluna, com o título

‘Denúncia de Cuba vai para a CPI dos Bingos’


Caderno interno – Editorial e meia página de reportagem, com o título ‘CPI investiga denúncia de suposta doação cubana’.

No editorial, ‘Casos a esclarecer’, texto chama a atenção para o momento do aparecimento da denúncia:

‘Justo no momento em que tucanos e petistas começam a escalar na radicalização, surgem denúncias que podem tornar ainda mais duro o embate. O PT segue a tática de que a melhor defesa é o ataque e aproveita o caixa dois valeriano do ex-presidente do PSDB Eduardo Azeredo para subir o tom de voz e tentar encobrir as mazelas em que está envolvido. Já o PSDB, depois do programa do PT repleto de críticas ao governo FH, ficou mais sensível às exortações beligerantes que há tempos o PFL lhe faz.’

Valor Econômico
Primeira Página: nada
Caderno Interno – O assunto não merece título em separado, mas permeia as quatro reportagens da página que ocupam, no total, cerca de ¾ de página:

‘Governo evita confronto com oposição’
‘PFL e PSDB amenizam críticas e negam impeachment’
‘PT diz que denúncia está esvaziada’
‘’É o conflito político que se acirra’, diz Palocci’




Essa apresentação dos espaços e destaques abertos para a denúncia trazida pela revista Veja tem o propósito de auxiliar o leitor a identificar quais meios optaram pela cautela, e quais renderam-se ao espalhafato.

Todos os comentários

  1. Comentou em 03/11/2005 Iorgeon Heinkel

    Os descaminhos do jornalismo no Brasil.Muitos veículos de comunicação, hoje neste país, se acham donos da ‘verdade’, preferem ‘investigar’ fábulas, claramente montadas para desqualificar o Presidente da república,enquanto fatos verídicos,como o da Bahiatursa,são tratados com notinhas por um Blog,não merecendo uma atenção maior pelos jornais e telejornais do país. Enquanto isso, para desviar a atenção,um menino metido a gente grande(ACMinho)e um Arrogante senador(que não soube dar educação a seu próprio filho),tentam desviar a atenção acusando o governo de grampo e mais,falando em dar surra no Lula.Um desrespeito toatal a figura do presidente. Será que ninguém mais se lembra dos grampos feitos pelo ACM na Bahia?Aqueles foram comprovados.Será que ACMinho fez este contra-ataque prevendo que seria investigado pela PF pelos desvios? Com essa ameaça ele tentaria imobilizar o Ministro da Justiça, não é? Outra coisa,uma amiga americana me disse que se um presidente dos Estados Unidos fosse tratado pelos repórteres como o fazem com Lula,já teriam sido processados e impedidos de trabalhar.Aqui, repórter vira polícia e juíz. E neste momento,parece que a justiça está favorecendo apenas um dos lados. Juro que não tô gostando de nada do que estou vendo.

  2. Comentou em 02/11/2005 Antonio de Paiva Moura

    Os Magalhães da Bahia já mostram sinais de desespero. ACM Neto disse ontem que está sendo investigado pela ABIN e por isso vai se juntar ao lider do PSDB, deputado Artur Virgílio, para dar uma surra em Lula. O ódio é tanto que eles já estão se descontrolando.

  3. Comentou em 02/11/2005 Célio Mendes

    Alceu, realmente o caso da Bahia esta ‘passando em branco’, mas isso não causa estranheza pois quando se trata da familia Magalhães vale na midia a ‘lei do silêncio’ tão tristemente praticada nos bolsões de pobreza de nosso pais, mais ao contrario de lá no caso baiano não é o medo que impede que se divulge o crime mas sim a cumplicidade dos grandes grupos de mídia. Achei muito apropriada sua referencia ao ‘Ano zero’ da corrupção, nos ultimos tempos quando leio os jornais é exatamente esta a sensação que tenho.

  4. Comentou em 01/11/2005 renata silva

    Alceu Nader, por que a denúncia de corrupção envolvendo Antonio Carlos Magalhães, na Bahia, publicada na Carta Capital, não mereceu também espaço em outros veículos de comunicação (inclusive neste blog)? Em termos de argumentos e provas, a matéria de Carta Capital é muito mais consistente (pelo menos não depende de um ‘defunto’ para comprová-la). Discutir corrupção só vale se envolver o PT e o governo Lula? Ou só a Veja tem poder suficiente para ditar a pauta dos jornais na semana? E como essa revista tem definido o que os jornais vão publicar em termos de política, não? Estranho comportamento da mídia que se diz objetiva e imparcial. Estranho silêncio da mídia. Pobres de nós, leitores.

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