Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Redação do Meio & Mensagem faz greve

Por Mauro Malin em 08/05/2007 | comentários

A redação do jornal Meio & Mensagem decidiu fazer greve em protesto contra a demissão do editor adjunto Costábile Nicoletta (na prática, o editor do jornal). Ele publicou na edição de ontem, 7 de maio, o obituário de Octavio Frias Filho, escrito por Edgar Olímpio de Souza, onde um box, chamado ‘Nem tão liberal assim’, recapitula críticas de Mino Carta à posição pró-golpe de 1964 da Folha de S. Paulo. Entre outras críticas, há, por exemplo, o parágrafo abaixo:


O liberal Frias teve, de fato, uma história controversa em suas posições políticas. Logo ao comprar a Folha, teria feito do jornal um instrumeento a serviço da conspiração golpista. Estampava manchetes sensacionalistas contra o ´perigo comunista´ e assinava editoriais contra ´a corrupção e a subversão´. Na fase mais aguda da ditadura militar, por exemplo, a Folha da Tarde, também do grupo, divulgava a ´morte de terroristas em emboscadas policiais´quando estes ainda estavam na prisão‘.


Em resposta à demissão de Nicoletta, seus ex-colegas esvaziaram hoje a redação e divulgaram a seguinte carta aberta:


‘São Paulo, 8 de maio de 2007


Os jornalistas do Meio & Mensagem decidiram paralisar suas atividades por 24 horas em protesto pela demissão do editor-adjunto Costábile Nicoletta, que consideramos arbitrária e repugnante.


Nicoletta cometeu o erro de fazer jornalismo. Os motivos de sua dispensa precisam ser esclarecidos publicamente pelo jornal, sob risco de a credibilidade construída ao longo de 29 anos pelo veículo ser arruinada. 


Nosso objetivo é abrir o diálogo com a direção da empresa, para que se estabeleça a partir de agora uma relação profissional transparente. 


Precisamos de garantias de que os princípios de independência jornalística serão respeitados e de que situações dessa gravidade não voltarão a ocorrer. 


A redação.’


Movimentos em defesa da integridade do trabalho jornalístico tornaram-se raríssimos nos últimos anos e não deixa de chamar a atenção o fato de esse ocorrer em veículo dirigido ao meio publicitário.


Nesta manhã, o programa de rádio do Observatório da Imprensa ouviu Costábile Nicoletta. Segue-se o tópico.


Foi demitido ontem do jornal Meio & Mensagem, depois de cinco anos de trabalho, o editor adjunto Costábile Nicoletta. Ele foi responsável pela edição do noticiário sobre a morte de Octavio Frias de Oliveira, publisher da Folha de S. Paulo. O material continha um box, escrito pelo colaborador Edgar Olímpio de Souza, que fazia referência às relações das Folha com a ditadura militar antes da abertura promovida pelo general Ernesto Geisel a partir de 1975.
 
Nicoletta narrou agora há pouco o que aconteceu:
 
– Ontem, segunda-feira 17, fui chamado a uma pequena reunião com a diretoria de redação do jornal, a Regina Augusto, que me comunicou que estava sendo demitido porque a direção do jornal não tinha gostado do box de uma matéria que a gente fez sobre o falecimento do Octavio Frias, dono da Folha. Quis saber do que a direção não tinha gostado e ela me disse que havia um box dessa matéria, a exemplo do que todos os demais meios de comunicação fizeram: discorreram sobre as qualidades do Octavio Frias e também sobre a participação da Folha durante o regime militar. E esse box destacava da matéria exatamente esse período da Folha. A diretora de redação do jornal me disse que a direção não havia gostado daquilo, que o Meio & Mensagem é um jornal do trade e que não deveria se prestar a isso. O fato de ser um jornal do trade, eu disse a ela, não quer dizer que nós devamos ser subservientes aos anunciantes; a gente tem que mostrar a história como todo mundo mostra. Ainda perguntei a ela se aquilo tinha sido alguma queixa da Folha ou algo desse gênero e ela disse que não sabia, que era uma determinação da direção do jornal. Falei: Bom. O que mais eu posso fazer, não é? Peguei minhas coisas e fui embora. E a redação, depois, os demais companheiros de redação tiveram uma reunião com ela para saber o que tinha acontecido e suponho que ela tenha exposto as mesmas razões que ela expôs para mim.


Mauro:
 
– Costábile Nicoletta é jornalista há 23 anos, com passagens pelo Estado de S. Paulo, pela Gazeta Mercantil, pelo Valor Econômico e pelo Estado de Minas. O Observatório da Imprensa procurará ouvir os dirigentes do Meio & Mensagem sobre a demissão de Nicoletta.


[Assim como o portal Comunique-se, o Observatório da Imprensa não teve sucesso na tentativa de ouvir a diretora de redação Regina Augusto.]


[Adendo às 22h20. O leitor Fábio Carvalho questiona por que não apoiar a idéia do Conselho Nacional de Jornalismo. Eis a resposta.


A maior sanção que pode haver é a perda de credibilidade. Mas para que ela ocorra é preciso que alguém, a cada mentira, a cada injustiça, a cada ataque à liberdade de imprensa, se mexa. O que acontece raramente. Abaixo indico algumas explicações possíveis.


O caso da redação do Meio & Mensagem (que, com seu movimento, já obteve da direção do jornal a promessa de uma reunião amanhã, quarta-feira, dia 9, para explicações a respeito da demissão de Costábile Nicoletta) é notável porque destoa da corrente geral de conformismo e submissão a ‘razões superiores’.


Se olharmos para trás, entenderemos que houve um período, nos anos finais da ditadura, em que jornalistas e patrões foram aliados pela conquista das liberdades democráticas. O início da Nova República foi provisório e precário (Sarney mesmo dá testemunho de sua fraqueza). Quando Collor se lançou candidato contra Lula e Brizola (ou Brizola e Lula, que era a ordem mais provável na época), os donos de meios de comunicação apoiaram Collor. Houve um divórcio com as redações. Apontou-se (não sem razão) o ‘petismo das redações’. Mas o que vem depois? Todo o caso Collor, que vai novamente unir jornalistas e patrões.


O governo FHC é, nas suas raízes, governo de uma das vertentes da esquerda brasileira (FHC>MDB>PMDB>PSDB) aliada ao mingau de centro-direita (o mesmo ao qual se alia hoje Lula). Uma parte das redações está novamente colada aos patrões, entre outras razões porque o adversário de FHC é Lula com o discurso pré-Carta ao Povo Brasileiro. Outra parte se indigna com o apoio a FHC. As redações se dividem.


Vitória de Lula. Agora existe, em princípio, nova aliança entre jornalistas (petistas e esquerdistas de diferentes matizes que apoiaram a eleição de Lula) e patrões, satisfeitos com a linha macroeconômica de Lula-Palocci-Meirelles (na minha opinião, correta; mas quem sou eu para opinar?).


Depois de Waldomiro Diniz e, um ano depois, Jefferson-Marcos Valério-direção do PT-mensalão, jornalistas terão mais uma razão para aliar-se aos patrões da mídia: o comportamento do governo procura – ontem mesmo Lula declarou algo assim para uma emissora de rádio católica – desmoralizar o trabalho da imprensa, dizer que ela inventou o mensalão, que houve uma conspiração da mídia e outras desculpas esfarrapadas para passar a mão na cabeça de gente que é acusada pelo procurador-geral da República de ter delinqüido.


Compreende-se, portanto, que haja uma certa anestesia ao relatar o passado da imprensa.


O que não se compreende, a lacuna tremenda da mídia no Brasil é que não existe, com algumas exceções, uma imprensa de oposição, divergente dos veículos que, digamos, estão unidos nas manifestações da ANJ (Associação Nacional de Jornais). Por que o PT abdicou de ter imprensa própria? Por que não existem mais jornais vinculados a correntes políticas, embora as eleições sejam canalizadas por partidos políticos?


Se todos os meios convergem numa espécie de mainstream, fica difícil a manifestação do pensamento crítico, divergente. Hoje ele existe, mas em jornais e revistas que apóiam o governo e, em alguns casos, aceitam favores dele. Isso não é oposição, não é independência, não resolve o problema.


Assim como a nova TV pública não vai resolver esse problema. Problema político, bem entendido. Mas convém lembrar que a mídia está no centro da política. Não existe no mundo de hoje nada mais central na política do que a mídia. A não ser a vontade dos poderosos, dos que têm caneta para nomear, demitir e liberar verbas. E as verbas – caixas dois incluídas – que lhes permitem chegar ao poder.]

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