Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CÓDIGO ABERTO > Redes sociais no jornalismo

Redes sociais reacendem polêmica sobre a produção jornalística como uma “conversa” entre repórteres e fontes

Por Carlos Castilho em 31/05/2011 | comentários

Um seminário organizado há duas semanas pela BBC de Londres recolocou em evidencia a polêmica sobre as relações entre os jornalistas e o público, especialmente no que se refere à troca de informações. O dado novo no debate é o papel das chamadas redes sociais, vistas por alguns profissionais como meras câmaras de ressonância da agenda da imprensa, enquanto outros afirmam que a "conversa" entre jornalista e leitores é a essência da produção informativa.
 

Para o primeiro grupo, os jornalistas constroem a agenda e ela é depois debatida pela audiência tanto em jornais como em rádios, emissoras de TV e sites de notícias. As redações “fazem” a notícia para ela ser consumida e comentada pelo leitor partindo do princípio de que os profissionais, além de saberem o que o público precisa e quer, também conhecem melhor os temas tratados do que a audiência.
 

Para os críticos desta postura, depois do surgimento da internet, o público já não é mais um consumidor passivo de informações porque o seu cardápio noticioso se tornou muito variado e ele já não se contenta mais apenas com uma versão ou perspectiva dos fatos, dados e processos. O leitor, ouvinte, telespectador ou internauta seriam parceiros na produção noticiosa, o que bate de frente com a idéia de que os jornalistas sabem o que o público precisa ou deseja.
 

A questão da “conversa” ganhou uma nova atualidade por conta do uso cada vez maior das redes sociais e equipamentos da mídia móvel para incorporar testemunhas e fontes na produção de reportagens, especialmente sobre grandes acontecimentos. Os casos mais recentes são os das rebeliões populares em países árabes e na cobertura da onda de tornados na região central dos Estados Unidos.
 

Muitos repórteres começam a publicar informações do publico direto no site do jornal ou revista. Os correspondentes da rede árabe de TV, Al Jazeera ,entregam câmeras e gravadores para pessoas comuns e depois publicam o material, ficando a redação com o papel de interpretar e contextualizar o que foi divulgado. Os adeptos da “conversa” entre jornalista e público dizem que isto leva à produção de reportagens “militantes” , sem a necessária isenção e equilibrio.
 

Na verdade não se trata de discutir quem está certo e quem está equivocado. É uma questão de timing. Antes da internet, a grande concentração industrial no processo de produção de notícias, gerada , por exemplo, pela necessidade de muito dinheiro para criar um jornal, tornou inevitável o fato das redações concentrarem toda a atividade jornalística de verificar, editar e publicar. Os profissionais acabaram assumindo a função de “oráculos da verdade”, em torno da qual surgiu um conjunto de rotinas e valores corporativos cultivados até hoje.
 

Uma análise da polêmica entre adeptos e críticos da ideia do jornalismo como uma grande conversa mostra que ambos estão equivocados ao ver a questão como um tudo ou nada. Esta dicotomia é falsa porque são posicionamentos baseados em dois momentos históricos diferentes. Os adeptos do jornalismo como formador da agenda se apoiam numa realidade concreta que vigorou durante muitos anos e que ainda é marcante em várias partes do mundo. Em compensação, os defensores da conversa se inspiram numa nova conjuntura, não menos concreta e que se torna cada vez mais presente no mundo da comunicação.
 

Ninguém mais discute hoje que é impossível saber de tudo. Até o jornalista mais autossuficiente evita a arrogância da onisciência. Se alguém mais conhece o que eu não sei, e se eu for ou pretender ser jornalista, é uma obrigação ouvir esta pessoa. Ouvir, neste caso significa trocar, conversar, dando ao interlocutor o status de parceiro, porque do contrário seria um interrogatório ou apropriação indevida do conhecimento alheio para fins lucrativos.
 

A incorporação das redes sociais e das mídias móveis na produção jornalistica é um fato irreversível. Cabe aos jornalistas agora avaliar como lidar com elas e, principalmente, como relacionar-se com o público que fornece informações. Aqui está aberta uma grande oportunidade para os profissionais deixarem a “conversa” rolar na hora de recolher fatos, dados e notícias, para preocupar-se cada vez mais com a interpretação e contextualização do material publicado.

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