Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Relato de incidente lembra o que não se pode esquecer

Por Luiz Weis em 25/01/2006 | comentários

Pode não parecer, mas a atividade parlamentar a portas abertas, como na tomada de depoimentos em CPIs, é altamente coreografada – devido à presença da mídia.


Raras, nessas situações, são as manifestações verdadeiramente espontâneas dos políticos. Lembram-se de quando o senador petista Eduardo Suplicy foi à tribuna anunciar bombasticamente o seu apoio à CPI dos Correios? Eram 7 da noite, a tempo, portanto, de entrar no Jornal Nacional de logo mais.


À falta de um instrumento para medir objetivamente o oportunismo dos políticos quando se manifestam ou se exibem no Congresso, a imprensa não tem outro remédio a não ser registrar o que lhe é dado ver, e o leitor ou espectador que julgue por si.


Isso não quer dizer que não aconteçam no dia-a-dia do Legislativo fatos fora do script. Mas, por serem geralmente tidos como irrelevantes, não entram para a história.


É onde a mídia erra: irrelevante pode ser o fato em si, mas não o que eventualmente revela sobre o caráter do político que o protagonizou – ou confirma o que se sabe sobre.


Palmas para a Folha, portanto, por não ter “deletado” da edição de hoje o incidente entre o senador Antonio Carlos Magalhães e uma senhora, desempregada, cujo pai, segundo ela, foi torturado e morto pela ditadura.


Embora errasse ao colocar no mesmo saco o incidente da véspera e o bate-boca de cinco dias atrás entre ACM e o senador petista Aloizio Mercadante – porque este é da vida política e aquele é vida real –, só a Folha, entre os três grandes, noticiou que “senador xinga mulher que o acusa de ter apoiado a ditadura”.


Na sessão da CPI dos Bingos em que foram exibidas imagens do corpo do assassinado prefeito de Santo André, Celso Daniel, com marcas de tortura, ACM pediu um replay para depois deixar o senador Suplicy numa saia justa.


O PT sustenta que Daniel foi vítima de crime comum. A tortura indica o contrário. Exibidas as fotos, ACM voltou-se para Suplicy, perguntando-lhe se ele achava que o prefeito havia sido torturado. O petista disse acreditar que sim.


Depois, no momento em que saía da sala, ACM foi abordado por Rosa Cimiana dos Santos, de 46 anos. “Você não tem moral para falar em tortura porque você fez parte e apoiou a ditadura responsável pela morte e tortura de muitos brasileiros”, acusou-o Rosa, segundo a Folha.


ACM pode ter sido a favor ou contra a tortura. O certo é que, salvo prova em contrário, nunca a condenou enquanto era prática corrente no regime do qual era um dos baluartes civis.


A reação de ACM, de 78 anos, conforme registrada na matéria da Folha: “Venha conversar comigo aqui [fora da sala], sua p…’ [no jornal o palavrão está por extenso].


Alguém poderá dizer que do quase octogenário político baiano não se poderia esperar outra coisa. Ainda assim, a Folha fez a coisa certa ao descrever o episódio, contar quem é a acusadora e fechar a matéria com estas irrefutáveis palavras:


“Fiquei espantada com a posição do senador ACM, que disse ter ficado chocado com as imagens das torturas sofridas pelo prefeito Celso Daniel. Se ele e outros senadores quiserem saber o que é tortura, bastam cinco minutos de conversa com integrantes de famílias que tiveram parentes desaparecidos durante a ditadura.”


É também um alento quando um grande jornal, pela voz da protagonista de um episódio aparentemente sem importância, traz a valor presente as dívidas dos políticos que contribuíram para um passado cujos horrores não se podem esquecer.


***

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