Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Repórter diz que autoridades e mídia ocultaram PCC

Por Mauro Malin em 12/01/2007 | comentários

A repórter da Rede Record Fátima Souza foi a primeira pessoa a falar no PCC, em 1997, quando era da TV Bandeirantes. Ela não foi ouvida. O governo fez questão de desmenti-la publicamente. Fátima faz, a esse respeito, críticas severas ao velho conluio da mídia com autoridades. E explica a razão prática disso:


“Você saber que existe alguma coisa errada, mas fingir que não vê para conseguir manter sua fonte e ter as informações em primeira mão. Nesse sentido, você vê pouca matéria contra a polícia, mostrando a realidade da polícia, o envolvimento da polícia com os bandidos, o que é uma coisa pouco questionada em São Paulo e no Rio, como se fosse normal. São poucos os repórteres que fazem matéria de polícia e não para a polícia”.


Fátima diz que o Fantástico da Rede Globo, ao fazer sua primeira reportagem sobre o PCC, apresentou o assunto como inédito, sem dar o devido crédito à Bandeirantes. São momentos em que o marketing desbanca a consciência profissional e intelectual.


Num período em que os dois lados, novo governo do estado e bandidos, se estudam – nenhum preso paulista foi enviado para presídio federal e até esta sexta-feira, 12 de janeiro, não houve novas ondas de ataques como os de maio, julho e agosto de 2006 –, Fátima diz que o problema maior pode estar não dentro, mas fora das cadeias:


“Hoje, você tem uma coisa muito alarmante do PCC, mais do que o PCC na cadeia, é o PCC aqui do lado de fora. Nós tivemos ataques aqui em maio, na maior cidade do país e, de repente, você via brotar PCCs de todos os cantos. Camicases saindo às ruas das favelas, dos bairros, de todos os pontos de São Paulo, dispostos a atacar e a seguir uma liderança”.


Fátima Souza lançará em março o livro PCC, A Facção. Ela é jornalista formada pela Fiam. Começou na TV Gazeta, passou para o SBT, depois foi da TV Cultura. Trabalhou durante 13 anos na Band, onde fez as principais matérias sobre o PCC. Ficou alguns meses no Diário de S. Paulo, depois passou seis meses dedicada ao livro. Agora está na Record.

Eis a entrevista.


Na literatura sobre o PCC existem, para simplificar, duas linhas que se contrapõem. Uma coloca a ênfase na responsabilidade do Estado, que não cumpre suas obrigações legais nas prisões, transformando-as em masmorras infernais, e suas obrigações relativas ao funcionamento do Judiciário. Outra faz basicamente o discurso de “lei e ordem”, supõe que os problemas estejam na fraqueza da autoridade diante do criminoso, ou até cumplicidade criminosa com ele. Qual é sua visão?


Fátima Souza – Virou um sonho escrever esse livro, porque eu acho que essa história do crime organizado tem que ser registrada, contada, escrita e divulgada. O que estava acontecendo em São Paulo era uma coisa atípica, não existia antes. Existia uma organização no crime, mas não o crime organizado. Era diferente.


Tinha lá os Serpentes Negras, que ameaçaram fazer isso. Erroneamente, algumas pessoas escreveram que o PCC vem da idéia dos Serpentes Negras. Não é verdade. Os integrantes que fundaram o PCC nem sequer conheciam os Serpentes Negras. Então, o PCC nasceu dentro da prisão em parte por aquilo que você acabou de falar: “Bota os caras lá, e daí?”


Só que eles, malandramente, num dado momento, viram que aquilo tinha dado a eles uma plataforma…


F.S. – Malandramente eles viram que aquela massa estava na mão deles mais fácil do que eles imaginaram. Então, passaram daquela bandeira inicial de lutar pelos direitos dos detentos, o que eles mesmos fazem, ninguém faz. E, de repente, passaram dessa união para ter melhores condições nas cadeias para ter melhor tráfico de drogas, para matar os desafetos, para montar uma organização inicialmente dentro da cadeia, com o domínio deles.


Eu decidi escrever esse livro porque eu fui a primeira repórter a denunciar a existência do PCC, em 1997.


Quando ele tinha quatro anos de idade…


F.S. – Sim, quando ele tinha quatro anos de idade e ainda não era de conhecimento público.


Nunca tinha sido escrita nenhuma linha no jornal sobre isso?


F.S. – Nunca tinha sido escrita uma linha sobre o PCC em nenhum lugar. Nem jornal, nem TV, nem revista.


Mas ele não tinha lançado o manifesto de fundação, em 1993?


F.S. – Não, o manifesto eu lancei na TV, pela primeira vez, na Band. O manifesto só veio depois da minha primeira reportagem.


Explique como foi, por favor.


F.S. – Eu recebi o manifesto pelo correio. Quando eu coloquei a primeira reportagem no ar, mostrando que existia atrás das grades uma organização, isso aconteceu depois de uma rebelião em Sorocaba, no interior de São Paulo, numa época em que as chefias ainda mandavam cobrir rebelião porque não era tão comum ter. Rebelião era matéria, eu fui cobrir essa rebelião e vi que tinha uma coisa diferente. Tinha um preso que era articulado, ele comandava essa rebelião, dava ordens e os presos obedeciam de uma forma completamente diferente das rebeliões confusas que eu já tinha visto. ‘Aí tem’, eu pensei. “Quem é esse cara?”, perguntei para um agente penitenciário, e ele me respondeu: “É o Macalé”.


Passou um tempo e eu pedi uma autorização para um juiz, dizendo que queria fazer uma matéria sobre a vida dos presidiários e, claro, escolhi o Macalé para ser meu personagem. Eu queria saber o que tinha acontecido naquela rebelião. Então, o Macalé, em 1995, foi o cara que me deu a dica.


Quando fui entrevistá-lo, ele me disse que havia uma organização atrás dos presídios que, se quisesse, poderia paralisar os outros presídios. Eu saí de lá achando que ele estava contando uma coisa legal, porque era uma organização que ninguém conhecia. Ele não me deu o nome, eu perguntei a ele e ele disse: “Não estou autorizado ainda a falar esse nome, em breve vocês vão saber”. É claro que, como repórter, aquilo me aguçou e eu fui atrás. Comecei a perguntar para os parentes, para outros presos, tudo quanto é preso já tinha celular na época.


Depois que eu entrevistei o Macalé, procurei a minha chefia na redação e falei: “Está acontecendo isto: aquele preso que eu falei para vocês me disse que tem uma organização por trás dos presídios, que eles estão absolutamente organizados, que se eles quiserem eles param os presídios, não quis me dar o nome dessa suposta facção e eu nem posso garantir para vocês que existe, porque às vezes o cara inventa, conta lorota, quer crescer demais em frente à câmera, mas eu quero a liberdade de vocês para ir atrás dessa história”. E meus chefes deram.


Então, entre as matérias do dia e os acontecimentos da cidade, eu continuei investindo nisso. Em 1996, eu já tinha material suficiente para colocar a matéria no ar dizendo que existia uma facção criminosa, já com o nome PCC, porque com essas pesquisas que eu fui fazendo, dessas conversas com mulheres de presos, agentes penitenciários, diretores de presídios, outros detentos, a palavra PCC apareceu para mim em um papelzinho que era, na verdade, uma ameaça de morte. Esse papel foi interceptado dentro do Carandiru e o cara escreveu para o outro: “Você vai morrer”, e embaixo vinha “PCC”. Um agente penitenciário me chamou, entregou esse bilhete e falou: “Olha, acho que é essa facção aí que você está caçando”.


Eu fiz uma matéria robusta, de oito minutos, e a gente colocou no ar na Band. Pela primeira vez a palavra PCC apareceu no cenário. O governo negou, obviamente. O secretário da administração penitenciária, Benedicto Marques, chegou a dar uma entrevista na Jovem Pan dizendo que eu estava inventando notícia para ter ibope, que o que eu tinha falado era uma ficção e não uma facção. Isso me deixou muito brava. Os próprios colegas do mercado tiraram o maior barato da minha cara: “E aí, cadê o PCC, tá inventando notícia agora?”


Na época, o único colega da imprensa que levou a sério isso e decidiu ir atrás foi o Josmar [Jozino], que sabia como eu trabalhava e que não estava inventando uma história.


Nesse episódio nós podemos ver com clareza como a mídia tende a acompanhar o discurso da autoridade…


F.S. – Aquele foi um momento muito decepcionante para mim, porque a gente não está falando só da mídia, a gente está falando de pessoas que me conheciam, conheciam o meu trabalho, sabiam como eu trabalhava e se curvaram à palavra do então secretário e depois do Mário Covas.


O governador entrou ao vivo com o Zé Paulo de Andrade, porque a Rádio Bandeirantes abraçou também e eu passei a fazer matéria para a TV e para o rádio. O Zé Paulo mandou ligar no meu celular e a gente fez uma conversa a três no ar e o Mario Covas foi gentil, dizendo que eu era uma grande repórter, que ele gostava muito das minhas matérias, mas que, no caso, alguém me teria levado ao engano. Não foi tão grosso como o Secretário, mas ele disse: “Alguém te levou ao engano. Essa facção não existe. Eu já falei com o meu secretário, com diretores de cadeia, então a população pode ficar sossegada que isso é uma invenção”. Eu me lembro de ter dito: “Governador, o tempo vai dizer. Eu acharia mais sensato o senhor ir atrás dessa história e acabar com ela enquanto é pequena do que fingir que não existe”. Ficou até um bate-boca entre mim e o Covas lá na rádio, mas eu tinha certeza do que estava falando. A partir daí, eu passei a fazer várias matérias. Passadas duas semanas dessa reportagem que eu coloquei no ar, me chegou via Sedex, sem remetente…


Como é que pode chegar Sedex sem remetente?


F.S. – Você pode pôr remetente falso, como era o caso. Não existia aquele remetente, não era verdadeiro. Então eu recebi aquele material e era o estatuto do PCC, aquele primeiro, escrito a mão.


Mas ele veio escrito a mão?


F.S. – Escrito a mão.


Copiado na cadeia por alguém.


F.S. – Não, acho que foi o estatuto inicial. Era ainda o primeiro estatuto que foi feito e distribuído entre eles, com a letra do Geléia, na época.


Mas o mesmo papel? Aquele papel de 1993 estava circulando ainda e foi mandado…


F.S. – Estava circulando numa folha de papel almaço que era xerocada e distribuída. Eles dizem que até hoje existe o original disso.


Pensei que a senhora estava com o original.


F.S. – Não, o original ainda estaria com algum detento ligado à primeira chefia do PCC. E junto [ao Sedex], uma carta. Escrita a mão, canetinha Bic, explicando o que era o PCC, que era uma organização que tinha a intenção de defender os direitos dos presos.


Passados dois dias que esse material chegou, me ligaram na redação e eu fui atender. Era uma mulher que se identificou como mulher de um dos presos líderes do PCC na época e falou que o marido dela é que tinha me enviado o material, que o remetente não era o verdadeiro.


Eu não pus logo de saída o material no ar. Eu queria buscar mais para ver até onde aquilo era verdade, se era um trote, quem tinha mandado, e aconteceu da mulher me ligar. Ela disse que o marido tinha mandado, que era o estatuto original feito no presídio de segurança máxima de Taubaté, onde o PCC nasceu, e a gente colocou no ar. A partir daí, acho que eu fiz mais umas duas mil matérias sobre o assunto e outras pessoas começaram a fazer também.


Eu me lembro de um episódio muito legal que eu coloco no livro, muito divertido. Passado um ano da minha insistência em dizer que o PCC existia, teve uma outra rebelião, não no presídio de segurança máxima, no outro, de Hortolândia, e eu fui cobrir essa rebelião. Pela primeira vez, o PCC mostrou o nome dele publicamente depois das minhas reportagens. Pegaram um lençol e escreveram “PCC” e hastearam no topo da cadeia, no exato momento em que o mesmo secretário da Administração Penitenciária, João Benedicto de Azevedo Marques, chegava com seus seguranças para tentar negociar o controle da rebelião.


Quando o secretário chegou todo mundo foi para cima dele e os caras hastearam a bandeira. Então eu perguntei: “Secretário, aquilo lá também é invenção minha?” Ele olhou e respondeu, gravando, inclusive: “Minha filha, bandeira existe até em escola de samba”. Eu acho que esse episódio retrata muito o descaso do governo com o que estava acontecendo nas cadeias.


Nessa altura do campeonato, a mídia, seus colegas, estavam…


F.S. – Foi nesse dia, com a bandeira hasteada do PCC, que os colegas deram matéria sobre a facção.


A senhora se lembra em que dia ou ano foi isso?


F.S. – Já era 1997. Foi a primeira vez que a mídia acreditou no que eu estava falando e começou a falar de PCC, do que seria o PCC. Depois dessa bandeira, o Fantástico fez uma matéria, acho que um ano e meio depois da minha denúncia, viu que eu não estava mentindo, foi atrás e fizeram num tom de “O Fantástico descobre”, como se fosse uma total novidade, como é comum da Globo, não aceitar que tomou furo de ninguém. Eles fizeram a matéria como se fosse uma coisa absolutamente nova, que ninguém houvesse falado, como se a TV Bandeirantes não existisse, durante um ano, colocando matérias no ar.


Como a senhora analisa a atitude da imprensa, da mídia? O Observatório da Imprensa tem dito sistematicamente: uma coisa não existe desligada da outra, nem bandido, nem autoridade, nem nada. A mídia é um tecido que liga tudo isso. Não tem nem como não ser assim. Como a senhora analisa a atitude da mídia em face dos bandidos e das autoridades?


F.S. – Na verdade, eu também faço parte da mídia e, em alguns momentos, mesmo sem querer, a gente acaba errando. Eu acho que o maior problema é quando você, por querer, acaba errando.


O que isso significa?


F.S. – Significa você, de alguma forma, compactuar com as autoridades. Você saber que existe alguma coisa errada, mas fingir que não vê para conseguir manter sua fonte e ter as informações em primeira mão. Nesse sentido, você vê pouca matéria contra a polícia, mostrando a realidade da polícia, o envolvimento da polícia com os bandidos, o que é uma coisa pouco questionada em São Paulo e no Rio, como se fosse normal. São poucos os repórteres que fazem matéria de polícia e não para a polícia.


No episódio do PCC, é até deselegante para mim, que também faço parte da mídia e também já errei, o que a mídia fez foi cometer um grande erro. Não é “super”-ego, não, mas acho que se eu tivesse sido ouvida naquele momento, se o resto da mídia tivesse dado essa força para que o PCC estivesse rapidamente em todos os jornais, revistas e rádios, o governo teria se mexido, teria trabalhado com mais empenho, não teria fingido que era simplesmente um problema que não existia. Tenho certeza absoluta que se o PCC tivesse sido combatido naquele momento, em que ele tinha 700 homens, ele não chegaria a ter 130 mil.


A senhora acha que ele tem 130 mil?


F.S. – Absoluta certeza.


A informação que eu tenho não é essa. É de que ele tem um certo número sob controle, até compulsório, em casos em que a pessoa, se não obedecer, pode sofrer represálias, mas não existe essa coisa de ter um exército de 130 mil homens.


F.S. – O Estado tem tão pouco domínio sobre o PCC hoje como tinha no início dele, quando desprestigiou a realidade. Hoje, você tem uma coisa muito alarmante do PCC, mais do que o PCC na cadeia, é o PCC aqui do lado de fora. Nós tivemos ataques aqui em maio, na maior cidade do país e, de repente, você via brotar PCCs de todos os cantos. Camicases saindo às ruas das favelas, dos bairros, de todos os pontos de São Paulo, dispostos a atacar e a seguir uma liderança. Isso me parece mais organizado que o Estado, que não tem liderança sobre sua própria polícia. Não há essa organização dentro da polícia, mas há entre os bandidos.


O próprio Estado, após os ataques, demorou a reagir. No 17° ataque [em 2002, não em 2006, esclarece Fátima Souza em mensagem eletrônica recebida em 21 de janeiro de 2006], eu estava na porta do DEIC e o diretor do DEIC, Godofredo Bittencourt, olhou para minha cara e disse: “Não há nada que comprove que há relação dos ataques com o PCC”.


Isso é não enxergar absolutamente nada ou fazer um jogo sujo, como fizeram quando morreram 111 e anunciaram que eram 11 até às cinco da tarde, quando terminou a eleição [refere-se ao massacre do Carandiru, em 2 de outubro de 1992]. O diretor do DEIC, que é o departamento responsável pela investigação do PCC, dizendo sobre o 17° ataque na cidade de São Paulo, que já começava a ficar assustada, que não havia prova nenhuma de que era o PCC ou, muito menos, que houvesse relação entre os ataques, que poderiam ser coisas isoladas, é, no mínimo, uma piada.


Existe aí a famosa “dissonância cognitiva”, um personagem é o Godofredo Bittencourt, na porta do DEIC, dizendo para a repórter que não tem nada disso e o outro, no Congresso Nacional, dizendo que é isso mesmo e pior até. O que acha disso?


F.S. – Para dar um exemplo, jornalisticamente falando, se você mandar um jornalista ir fazer uma matéria, o cara pode trazer um grande resultado, se empenhar, ir lá, fuçar e trazer uma boa matéria, ou pode ir e fazer o trivial: ouvir autoridade, passar em frente à delegacia, fechar o material dele e sair cedo da redação.


No caso do Godofredo Bittencourt, ele fez uma materiazinha e saiu cedo da polícia. Ele não fez uma grande investigação sobre o PCC. Então, a [Delegacia de] Roubo a Banco investigou e quando eles levaram a sério, e durou, custou muito, porque o PCC só foi levado a sério pelo Estado e investigado pelo Deic em 2002, quando aconteceu a megarrebelião.


De 1997, quando eu detectei a facção, a 2002, faça as contas para ver quanto tempo passou para que realmente eles falassem: “Agora vamos criar uma delegacia para cuidar do PCC”, “O PCC parou 30 presídios, então agora não dá mais pra dizer que ele não existe”. Só que, quando eles disseram “Agora vai ser sério”, eles tiveram sete anos mais os dois em que eles já existiam para se articular, crescer, ter liderança, telefone na cadeia. Na megarrebelião, eu fiquei online com o César em um celular e com o Geléia, no outro, me passando informações: “Caiu cadeia tal. Agora nós vamos derrubar tal cadeia. Conta dez minutos que está rebelada”. E, em 10 minutos, estava rebelada. O PCC já era grande, tinha celulares, caixa, rifa, tudo o que agora todo mundo fala.


A polícia demorou para se tocar da existência. Em 2002, montou essa delegacia e passou a trabalhar, catalogar, saber quem era quem, quem eram os líderes. Houve um espaço de tempo muito grande para que isso acontecesse. Quando eu digo que eles investigaram de forma não total, é exatamente isso. Ali já era tarde, já tinha uma facção grande, um domínio grande dos presos, o PCC já era grandíssimo aqui na rua, com mais de três mil homens. A batalha foi mais difícil.


A senhora concorda com a visão de que existe um grupo de jornalistas que se aplicam, se empenham em mostrar que o problema existe, é grande, tem que ser encarado? Eu noto algumas matérias que têm esse sentido. Por exemplo, outro dia saiu uma matéria que dizia “PCC já treina esquadrão feminino”.


F.S. – Eu fiz essa matéria do esquadrão feminino do PCC em 2003. Em 2003, o PCC começou a dominar as cadeias femininas de São Paulo, a ter representantes femininas. A Maria do Pó se aliou ao PCC, a Loira se aliou ao PCC. Começou a ter nomes de bandidas famosas que se aliaram ao PCC e a ala feminina começou a crescer muito. Hoje, nas cadeias, você tem as rebeliões femininas exatamente como as masculinas, com o PCC nas bandeiras, pintado no chão, mas ainda são subordinadas ao comando masculino, porque só tem homens na chefia do PCC. Hoje não existe mais essa distinção. Não é mais novidade as mulheres serem do PCC.


As mulheres, aliás, têm grande importância para o PCC. Tem um capítulo do meu livro que fala sobre isso, a importância que elas tiveram no leva e traz, as mulheres dos presos levando e trazendo informação.


E o Ministério Público? Teve a mesma atitude que a polícia?


F.S. – O Ministério Público, tão logo eu fiz a denúncia da existência dessa facção, me procurou através do Dr. Gabriel Inela, pedindo todos os detalhes possíveis da situação. Eu entreguei para ele cópia de tudo, o dossiê que eu tinha com mais de quinhentas páginas e ele foi adiante, visitou as cadeias, se certificou da existência da facção e enviou a um juiz, pedindo abertura de inquérito, e o juiz, que disseram ser amigo do governador, mandou arquivar o material. Então, ele até tentou, mas a Justiça também não acreditou e o material foi arquivado.


Depois disso o Ministério Público ficou parado?


F.S. – O Ministério Público tentou de novo, foi arquivado novamente e o que eles fizeram depois foi dar o meu dossiê para a Globo para eles fazerem a matéria no Fantástico.


Que matéria?


F.S. – Aquela inicial de que eu falei. Então, só em 2002 o Ministério Público entra de novo no cenário com o Dr. Marcos Christino, Roberto Porto, que começam junto com a Polícia a investigar o PCC.


E como está hoje a imprensa? Está mais alerta, mais lúcida?


F.S. – Em relação ao PCC, está, sim. Mais alerta, mais lúcida. Ainda tem alguns repórteres que continuam sabendo que é importante a gente bater esse martelo, já alguns não. Eu acho um absurdo, por exemplo, a Rede Globo, a maior emissora do país, com o maior ibope, proibir dentro da redação a palavra PCC. Eles não colocam mais essa palavra no ar. Eles tratam de “quadrilha que atua nos presídios”, como se isso fosse resolver o problema.


Isso é uma coisa controvertida. Eu fiz um debate agora no Rio [a ser publicado nos próximos dias no Observatório] e uma das pessoas, o ex-secretário do Sistema Prisional de lá [Astério Pereira dos Santos], que é veterano, disse que para ele era bom isso, mas ele estava falando do Rio. Disse que os bandidos do Rio são tão carentes, tão miseráveis que eles precisam desse reconhecimento de facções até para crescer um pouco.


F.S. – Eu acho isso um discurso furado de um governo que quer esconder a realidade. Tanto faz São Paulo, Rio de Janeiro. Há quanto tempo existe o Comando Vermelho?


Há trinta anos ou mais.


F.S. – Pois é, se você falar ou não falar deles na mídia, eles vão continuar existindo, trabalhando na calada, nos morros. Sabe aquela história “Quando alguém for seqüestrado nós não vamos dar a notícia”? Você quer coisa mais cômoda para o governo do que se Silvio Santos for seqüestrado a gente não der a notícia? Quer melhor presente para o governo do que esse? Por que não? Porque coloca em risco a vida do homem? Tudo bem, você pode não dar notícias da negociação, para não colocar em risco a vida de quem está seqüestrado. Agora, fingir que não há um seqüestro, omitir da população? […Referência suprimida a um seqüestro em andamento...] O que a gente ganha com isso? Vamos deixar a população ignorante porque essa sempre foi a função do Estado? Então, eu pergunto: a Globo tratar o PCC como “uma quadrilha dentro dos presídios” ajudou em quê, em resultados práticos? O que a gente conseguiu não falando o nome deles? Não é melhor a gente falar, mostrar para o público que existe, deixar a sociedade saber da verdade?


E cobrar das autoridades…


F.S. – Para as autoridades é absolutamente cômodo. Não se fala mais em PCC, a população pensa que já não existe mais, que ele está fraco, quietinho dentro da cadeia. E você sabe como é a classe média, se estiver na cadeia, se estiver morrendo só lá dentro, tudo bem. O problema é quando sai aqui para fora. Então, se o Estado fingir que essa facção está dominada, que está só lá dentro dos presídios matando um ao outro, é cômodo para eles que enganam a população aqui fora.


Em maio, quando o PCC atacou, todo mundo dizia: “Óóó”. Caiu a ficha. O PCC existia há tantos anos e ainda não tinha caído a ficha da população, porque era coisa de preso, eles que se matem lá e nós não temos nada a ver com isso. Para o governo é interessante continuar fazendo essa falsa imagem. Não faz nem um ano que nós tivemos aqueles atentados terroristas aqui em São Paulo e o PCC tem capacidade para fazer de novo a hora que quiser.


Eu tenho certeza que o que houve foi uma negociação que está em vigência até agora.


F.S. – Com certeza.


Inclusive esse casamento do Marcola, que é controvertido, porque tem gente que diz que é normal, tem gente que diz que é anormal, mas para mim sinaliza acordo, contemporização.


F.S. – É verdade que já se casaram outras pessoas dentro do presídio e o próprio Marcola, é o segundo casamento dele preso. No primeiro, ele estava preso em Araraquara e casou com Ana Maria Olivatto, que também era advogada [ela foi assassinada].


Tudo é uma questão de postura, de ter mão firme ou não. Se eu sou o governo do estado, poderia agir de duas maneiras: deixar o Marcola casar com propagandas nos jornais, deixar a noiva entrar vestida de noiva e dar beijinho na boca, trocar aliança, ou dizer: “Você quer casar, você casa no cartório. Assina o papel e ponto. Isso aqui não é sua casa”. Pode até ser normal, mas nós estamos falando de um líder de uma facção que pôs o dedo na cara do delegado da [Delegacia de] Roubo a Bancos [Ruy Ferraz]. O Marcola falou para o Godofredo Bittencourt, dentro do Deic, quando o Bittencourt foi pedir “Marcola, pelo amor de Deus, vamos parar com esses ataques”: “Sinto muito, doutor, agora não dá mais para voltar atrás”. É desse cara que nós estamos falando.


O argumento que eu ouvi e que me parece muito sério é que pode até ser normal que haja casamentos no sistema prisional, mas que isso não andou saindo nos jornais, como no caso de Marcola.


F.S. – Você lembra de ter visto algum outro casamento nos jornais?


Eu não me lembro.


F.S. – No meu livro, eu conto alguns casamentos, do Geléia, que casou dentro da Casa de Custódia de Taubaté, trocou alianças, mas não era o chefe de uma facção criminosa. Era o Geléia, preso comum e não saiu em nenhum jornal.


Pelo fato de eu ter sido a primeira a denunciar e a colocar no ar, eu passei a ser procurada pelos integrantes do PCC. Durante muitos anos eu falei com vários deles pelo telefone, que é a coisa mais fácil dentro da cadeia. Eu conto esses fatos curiosos, os episódios engraçados, tristes, mas sempre com realidade, nome, data. Só posso te garantir uma coisa: no meu livro, não tem absolutamente nada daquela ficção inicial do secretário. Tudo o que está lá é absolutamente verdadeiro, é absolutamente o que aconteceu, o que acontece. Ele é atual, vai até os ataques de maio. Aliás, até os ataques de maio, julho e agosto do ano passado. Já estou escrevendo o segundo, porque o PCC, como eu previa, continua investindo. E tem material para o segundo livro.


(Transcrição de Raiana Araújo Ribeiro.)

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