Sexta-feira, 24 de Janeiro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1071
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Repórter do Estadão quebra tabu e sobe morro no Rio

Por Mauro Malin em 03/07/2007 | comentários

O repórter do Estado de S. Paulo Bruno Paes Manso fez na sexta-feira passada (28/6) algo de que os repórteres do Rio de Janeiro há tempos abdicaram, ou que foram proibidos de fazer: entrou no morro para ouvir os moradores sobre a operação bélica feita pela polícia em favelas do Alemão. Por intermédio de dirigentes da ONG AfroReggae, ele teve permissão dos traficantes para circular.


Existe uma doutrina de que jornalistas não devem pedir licença a traficantes para circular em nenhuma área. Foi manifestada no programa de rádio do Observatório da Imprensa (9/11/2006) por André Luiz Azevedo, repórter da Rede Globo, nos seguintes termos: “A gente tomou uma decisão, uma decisão radical, em muitas redações, isso foi feito a partir da morte do Tim [Lopes], foi feita discussão no Sindicato, na ABI (Associação Brasileira de Imprensa), de não nos submetermos mais ao jugo dos traficantes, de não pedir autorização, permissão para entrar em nenhuma área. É importante levar os pleitos de toda a população, mas sem que a gente se submeta a nenhuma forma de negociação espúria”.


Bruno Paes Manso não negociou com traficantes, mas com integrantes do AfroReggae que obtiveram uma espécie de “permissão” dos traficantes. Seu objetivo era ouvir moradores, as pessoas que ficam no meio dos tiroteios entre policiais e bandidos ou entre quadrilhas. Ele conseguiu relatos muito relevantes. Isso marcou uma diferença entre a cobertura da Folha e do Estadão e a cobertura dos jornais do Rio, o Globo, Extra e o Dia, calcada, como a da Época e a da Veja, no discurso oficial. Chegou-se a inventar um “Rambo” que declara ter como sonho supremo combater no Iraque, o que só leva água para o moinho dos que vêem os moradores das favelas como “população civil do exército inimigo” (conceito usado por Jailson de Souza e Silva, do Observatório de Favelas do Rio de Janeiro).


Globo reaviva provincianamente rixa com São Paulo


O Globo editorializou o tema na página 2 da edição do dia 29/6, mesma data em que o Estadão publicou o primeiro relato de Paes Manso: “Há uma longa polêmica nas redações de jornal do país sobre os motivos que fazem da violência do Rio um assunto tão atrativo para os jornais paulistas, que usualmente dedicam mais espaço ao tema do que para os próprios fatos ligados à criminalidade em São Paulo, que não é menor do que a do Rio”.


É lamentável que o Globo se queixe de interesse jornalístico, seja ele paulista ou de qualquer outra procedência, pelos problemas da violência no Rio. Parece aquele tipo de tara: “Só eu posso falar mal”. Parece, mas não é. O Globo tenta encobrir seu enésimo mergulho no governismo à outrance. E é uma pena, porque a trajetória histórica do jornalismo do Globo, especialmente da cobertura de crime e violência, é ascendente.


O jornal teve a coragem de iniciar a denúncia contra as “milícias” (embora tenha tido a infelicidade de usar essa palavra para designar grupos de extermínio formados por policiais e ex-policiais). Teve a coragem de publicar sozinho notícias como a da votação recebida por deputados federais (Rodrigo Maia, Marcelo Itagiba, Marina Maggessi, entre outros) e estaduais (Álvaro Lins, notoriamente) em áreas dominadas por esses grupos.


É lamentável que essa divisão tenha sido tratada no Globo como assunto relevante, como se se tratasse de dois países diferentes. Como se o próprio Globo não tivesse publicado, dois domingos antes, em 17 de junho, uma reportagem de capa de sua Revista com o seguinte título – “Amor de ponte aérea. O novo aeroporto Santos Dumont é a evidência que faltava: Rio e São Paulo deixam a rivalidade de lado e entram na era das megacidades”.


É lamentável que os autores do tópico da página 2 do Globo leiam tão mal os jornais de São Paulo. (Que ninguém venha me acusar de bairrismo paulista. Sou carioca e só trabalhei em redações do Rio de Janeiro: Tribuna da Imprensa, Jornal do Brasil, O Globo, Última Hora. Mas minhas tarefas de leitor exigem uma atenção grande para o que publicam os principais jornais sobre os assuntos que me parecem mais relevantes.)


Estadão e Folha desconfiaram da retórica oficial


Na cobertura da mais recente operação no Alemão, o Estado e a Folha acertaram na avaliação da política pública, desconfiaram da retórica oficial. Deram a palavra aos que contestaram o discurso sobre a morte de “bandidos” (o Globo nem se dá ao trabalho de escrever que, “segundo a polícia”, tratava-se de “bandidos”). Nos últimos dias, o próprio Globo abre espaço para ressalvas e dúvidas. No Jornal Nacional desta noite se noticiaram críticas da Anistia Internacional à condução da operação.


Alguns conflitos jornalísticos entre Rio e São Paulo são antigos. Vejam-se, no final deste tópico, trechos de artigo publicado pelo então ombudsman da Folha, Marcelo Leite, em 6 de novembro de 1994. Não por coincidência, o assunto era um massacre na… Nova Brasília, uma das favelas do chamado Complexo do Alemão.


Repórteres desistiram de subir o morro


A mesma Nova Brasília em que passou alguns dias o então repórter do Jornal do Brasil Francisco Luiz Noel, em junho de 1990. Foi quando seis repórteres do Jornal do Brasil moraram em barracos alugados em três favelas do Rio. Disso resultou o livro A Violência que Oculta a Favela, hoje esgotado.


Quem apresenta o trabalho é Rosental Calmon Alves, que era editor de Cidade do JB. Rosental escreveu: “O resultado desse mergulho é surpreendente. Ele destrói a visão estereotipada de habitantes do asfalto, inclusive autoridades, que costumam se referir a esses bairros pobres como amontoados de bandidos, desocupados e gente ignorante. (….) O asfalto não tem outra alternativa exceto a de absorver as favelas. O outro mundo, que as reportagens revelam, é, na verdade, parte inseparável do mesmo mundo chamado Rio de Janeiro”.


Desde então houve um grande retrocesso. Há anos os jornalistas do Rio começaram a se sentir expulsos de favelas e bairros pobres onde agem quadrilhas armadas. Isso se agravou com o assassinato de Tim Lopes, da Rede Globo, há cinco anos. Repórteres passaram a usar coletes à prova de bala e a ficar atrás da polícia. Em todos os sentidos. Fisicamente, durante os tiroteios – o que não deixa de ser uma temeridade –, e jornalisticamente, porque lhes faltam outras fontes de informação.


No mesmo Globo, morador do Alemão fala da ‘guerra’


Mas o próprio Globo achou uma maneira de ouvir moradores do Alemão. Está no Megazine de hoje, em reportagem assinada por William Helal Filho: “Notícias de uma guerra particular”. Um rapaz que mora num dos principais acessos do Morro do Alemão, Maycom Brum, escreveu um diário de sete dias, entre 18 e 24 de junho, sobre o cotidiano em meio ao cerco policial. Escreveu no computador e enviou para o Globo por correio eletrônico. Só não pôde ser fotografado: ficou retido em casa pelo tiroteio.


Em entrevista ao Observatório da Imprensa, Bruno Paes Manso conta como foi sua ida ao Complexo do Alemão e que reflexões fez a respeito. Ele não concorda com o tom do comentário feito pelo Globo sobre a diferença entre jornais do Rio e de São Paulo na cobertura da segurança pública, embora concorde com a visão de que em São Paulo se dá menos importância ao assunto. Bruno manifesta um otimismo a respeito da política de segurança pública paulista que não é compartilhado por outros jornalistas de São Paulo. [Ver abaixo comentário enviado em 4/7 por Bruno Paes Manso.]


Fica um ponto de difícil entendimento. O AfroReggae, por intermédio de seu criador, José Júnior, declara seguidamente que disputa com o tráfico rapazes para que não sejam conduzidos à criminalidade. Se existe tal rivalidade, existe um conflito latente e não é muito evidente que possa haver algum tipo de convívio minimamente civilizado. Em recente bate-papo com Marcelo Tas no Universo Online (11 de junho), José Junior disse, em resposta a uma internauta:


As pessoas generalizam e dizem que os policiais são corruptos. A atual cúpula do governo estadual do Rio de Janeiro são pessoas sérias e íntegras e talvez por isso o conflito tenha se acirrado. Antigamente havia uma ética no tráfico, nas favelas. Agora há um genocídio tanto do traficante quanto dos policiais. A ética do bandido se deteriorou, eles eram muito melhores, isso sem sermos hipócritas. Havia um pacto, era uma outra época”.


Uma explicação é dada por Paes Manso na continuação de sua reportagem no Alemão, publicada no domingo, 1 de julho, no Estadão:


O ambiente de injustiça parece ter acirrado os estereótipos em ambos os lados. Entre os moradores, há revolta ainda com os jornalistas, criticados por darem pouca atenção ao que dizem. No Rio, em muitos locais traficantes consideram profissionais da imprensa ´alvos´, o que dificulta a tomada de depoimentos. O resultado é que apenas um lado tem voz e o outro fica mudo.


O AfroReggae, organização não-governamental que atua no Alemão, tenta fazer a ponte entre os dois lados para enfraquecer preconceitos. Em um dos shows do grupo, policiais se apresentam fardados, tocando jazz.


Ativistas do grupo disseram que a ida do Estado ao Alemão na sexta-feira era importante para que a sociedade tivesse acesso à versão dos moradores. Apesar da violência, pessoas ligadas à ONG acreditam na boa-fé do governo estadual. O desafio é evitar que moradores e autoridades do Estado continuem a se ver como inimigos”.


Eis a entrevista dada por Bruno Paes Manso ao Observatório da Imprensa ontem (2/7).


A cobertura difícil das operações policiais


Existe uma evidente diferença na cobertura dos últimos acontecimentos no Rio. Por favor, dê sua visão.


Bruno Paes Manso – A discussão jornalística dessa matéria é superdelicada, porque eu fui de São Paulo, de fora, com outro olhar sobre o problema, e lá no Rio é uma coisa muito traumática, mesmo, a cobertura que eles fazem, de terem que ficar atrás da polícia, participarem de tiroteios, terem de ir com colete à prova de bala, estarem, realmente, sujeitos a tomar tiro. Você tem o caso do Tim Lopes em 2002, no Complexo do Alemão, que foi um marco, e acabou levando a um pacto de que não se sobe em favela, porque é muito arriscado para o jornalista, que passou inclusive a ser chamado de alvo pelos traficantes, e eles ficam nessa posição, no dia-a-dia, no cotidiano de cobertura, nessa posição completamente exposta, o que eu acho muito perigoso. Você ficar atrás da polícia, na mira de traficantes, que ficam observando de cima e que vêem jornalista com certa hostilidade também porque está ao lado do inimigo.


Ao mesmo tempo, a avaliação que a gente fez aqui no Estadão, a análise um pouco fria de que daria para entrar, foi um mérito nessa história. O mérito da matéria é que uma coisa é você fazer esse papel da cobertura cotidiana sofrida, que cria um trauma e um discurso de “Olha, não se entra mais”, e outra coisa foi esse excesso, 1.350 homens entrando, e essa desordem que foi, essa anarquia, esse “esculacho”, como dizem os moradores. Eles querem falar, querem contar. “Isso não aconteceu assim como estão falando”.


Pessoas revoltadas com a polícia queriam falar


Quando nós entramos em contato com o pessoal do AfroReggae, tinha muita gente a fim de contar o que aconteceu. Um pessoal revoltado, indignado com os excessos, achando que a cobertura da imprensa era parcial. E, se bem negociado, bem articulado, como foi o caso – desde que, de alguma forma, o pessoal do tráfico soubesse que alguém ia chegar, porque o maior risco é justamente você ser confundido com um X-9, como eles chamam, um delator, ou integrante da polícia.


A partir do momento em que eles sabem que um jornalista vai entrar e está disposto a tentar entender o que aconteceu, entender um pouco como foi a operação… Eu circulei durante cinco horas sem nenhum tipo de problema, com absoluta tranqüilidade. Mesmo porque a pessoa com quem eu circulei conhecia todo mundo na comunidade e era muito respeitada.


Havia espaço para entrar e era necessário entrar. Esse discurso de que não se entra em favela é quase uma autocensura. Se compra muito fácil uma versão e realmente se comprou muito essa versão do governo. Enfraquecer o QG do Comando Vermelho no Complexo do Alemão é necessário, só que ao mesmo tempo você tem o risco de deixar 300 mil pessoas revoltadas com o Estado, e isso a médio e longo prazo é um problema muito maior, de essas pessoas se sentirem inimigas do Estado. Para a democracia, para a cidadania, é péssimo para o Brasil.


Minha impressão foi um pouco esta: o próprio governo não sabia o que aconteceu lá. Você tinha 1.350 homens, num mundo, como o Complexo do Alemão, em grupos de dez, homens que durante 50 dias ficaram expostos a riscos, que vêem a população como conivente com o tráfico, que têm uma visão estereotipada.


Além do estigma – “A população aqui é conivente” –, e com essa sede de vingança, quando você vai em grupo de dez, quinze, soltos, e já relativamente aliviados, depois que eles dominam a parte de cima do morro é uma vitória estratégica para a polícia, porque eles começam a ter a vista dos traficantes tanto de cima com da parte de baixo, eles encurralam os traficantes, e têm essa folga, a operação já está relativamente avançada, e calma, e bem-sucedida, eles começam uma barbárie absurda, um sadismo, uma desordem, um “esculacho” geral que é descabido, desnecessário.


Grau raramente visto de adesão ao discurso do governo


Vamos partir da lógica que é apresentada pelo governo: é preciso reconquistar o território. Ninguém discorda de que o território de algum lugar do Brasil esteja submetido às leis do Estado brasileiro, da nação brasileira. Mas há vários pontos que é preciso examinar. Primeiro, eles não reconquistaram o território, ainda.


B.P.M. – Não.


Ponto dois. Eles dizem que essa ação foi planejada e ela não foi planejada. Foi uma reação. Mataram dois PMs que faziam patrulha no local onde foi assassinado o menininho João Hélio, aparentemente duas pessoas que eram da Vila Cruzeiro e se esconderam lá, e a polícia foi atrás. Sérgio Cabral Filho fez campanha falando em não usar o Caveirão e começou o governo falando em descriminalização de drogas. Não tinha esse discurso belicista.


B.P.M. – Também acho que tem esse componente do João Hélio…


Mas não foi o João Hélio. Tão ruim quanto a morte do João Hélio foi queimar um ônibus com sete pessoas dentro, inclusive uma criança de colo e a mãe. Aquilo antecedeu de alguns dias a chegada ao governo de Sérgio Cabral Filho. E foi um grupo dali, daquele local. O que o governo fez em relação a isso, naquele momento inicial do Sérgio Cabral Filho? Rigorosamente nada. E então há o episódio do menino, que é fortuito. Ninguém planejou arrastar o menino pelo cinto de segurança. É o grau de barbárie que vigora no país que comporta esse tipo de coisa. Como o nazismo comportou coisas terríveis, e assim por diante. Já tinha acontecido no Brasil algo semelhante: uma mulher, funcionária pública, em Belo Horizonte, foi morta durante um assalto ao ser arrastada presa ao cinto de segurança.


Naquele momento, do assassinato do menino, as autoridades não cercaram a Vila Cruzeiro. Vão fazer isso quando dois PMs são assassinados, o que normalmente desencadeia uma operação de matança, represália. Hoje já se montou todo um discurso, que já chegou, do ponto de vista jornalístico, ao absurdo de inventarem um Rambo, um sujeito que quer ir lutar no Iraque, que sinaliza toda essa concepção. O que me chama muito a atenção é como a mídia do Rio entrou nisso, mas não só do Rio, porque a Veja também entrou, a Época pertence a uma empresa do Rio mas é feita em São Paulo, e também entrou nisso. É um escândalo.


B.P.M. – Eu fiquei impressionado, também, com o grau de adesão à versão do governo, como poucas vezes eu vi. Não costuma ser assim. No caso do PCC, isso até foi alvo de crítica durante um tempo, porque a gente falou uma, duas semanas de PCC, depois se falou muito do massacre que a polícia fez aqui em São Paulo, ficou-se durante duas semanas, depois, discutindo a vingança da polícia aqui na cidade, houve até uma certa crítica: “E o PCC? Esqueceram? Não é importante discutir a força do PCC? Não se esvaziou um pouco essa discussão? Será que é o caso da gente começar a acusar a polícia paulista da forma como vem sendo acusada?”


A imprensa em São Paulo tem essa tradição. É um assunto recorrente aqui essa cobertura dos excessos da Polícia Militar. E é coisa de que jornalista gosta, esse tipo de assunto, denúncia relacionada à polícia, toca os colegas e é uma pauta que, vira e mexe, aparece. Isso me causou estranheza.


Eu não senti no Rio de Janeiro a vontade de apurar, de descobrir, que me parece natural, depois de uma megaoperação como essa. Não quero de forma alguma dizer com isso que seja conivência dos jornalistas que trabalham lá. De forma alguma. Talvez se eu trabalhasse no Rio de Janeiro a minha atitude fosse parecida.


Isso não funciona muito porque os jornalistas da sucursal da Folha de S. Paulo, por exemplo, trabalham lá a vida inteira, os que cobriram esse episódio, são do Rio, e não fizeram isso. Nem os do Estadão.


B.P.M. – Mas eu digo você viver durante os últimos dois, três anos, esse trauma de ser alvo de traficante. Esse medo, essa dificuldade, de você quase morrer numa cobertura. Que acontece, mesmo. Tanto que você tem que ter colete à prova de balas para fazer esse tipo de cobertura. Todas as sucursais têm colete à prova de bala. Houve aqui no Estadão uma discussão sobre violência da Associação Nacional dos Jornais e veio muita gente do Globo. E houve essa discussão: “Olha, a gente lá não entra em favela. Vocês aqui ainda conseguem entrar”. Houve um certo discurso consolidado, um certo pacto, até, no sentido de que “Não vamos expor nossas vidas, porque está diferente do que foi”. Acho que tem esse histórico de trauma.


Estadão avaliou que era preciso entrar no morro


Avaliando aqui de São Paulo a gente pensou: se aconteceu aparentemente abuso, tem algumas pessoas falando, tem uma comunidade de 100 mil pessoas, não é uma quebrada com dez barracos e 50 traficantes dominando. Não, é um bairro grande, como tem aqui em São Paulo. Se a gente conversar com algumas lideranças, respaldados por essas lideranças, a gente circula lá com alguma tranqüilidade. Claro, existem os riscos. Mas existe, pelo que a gente avaliou, acima de tudo um mito de que não se entra mais em comunidade lá. Talvez o mais importante dessa matéria é um pouco enfraquecer esse mito, ou até, de certa forma, fica cômodo se falar que não se entra em favela no Rio e não se busca entrar. Se fosse no Iraque, por exemplo, você conhecer os dois lados e mandar um jornalista aqui do Brasil para cobrir o Iraque, você expõe a vida do jornalista. Faz parte da profissão você incluir um certo grau de risco quando você vai fazer uma cobertura dessa. Agora, uma guerra em seu país, que diz respeito a um problema seu, da sua realidade, você se omitir dessa forma e simplesmente deixar de cobrir um lado, e fechar com apenas um dos lados eu acho uma opção que tem que ser revista. Não adianta simplesmente dizer: “Ah, nós estamos muito expostos e vamos fechar um pacto aqui de que não vamos expor a vida dos jornalistas porque não dá, porque os traficantes estão muito abusados, imprevisíveis”…


Risco existe em todas as coberturas de guerra e eu acho que há um certo exagero. Quando você entra com um certo objetivo, de tentar compreender, mesmo, tomando os cuidados necessários – e no Rio você tem lideranças muito legitimadas, que são respeitadas tanto por policiais como por traficantes; lá você tem realmente pessoas surpreendentes, muito bem articuladas e muito cientes desse papel delas, de intermediar conflitos, de fazer esse canal, a fim de ajudar, que compreendem a necessidade de trazer outras coisas à tona –… simplesmente se omitir de entrar eu acho que é um erro da imprensa que a gente não pode deixar passar batido. Isso tem que ser discutido. Tem riscos. Mas eu acho que o desafio é conseguir entrar e ouvir, porque tem um problema do tráfico gravíssimo que tem que ser combatido, mas você tem 100 mil pessoas morando lá, também. É um mundo.


Comentário do Globo pareceu despeitado


O Globo fez um tópico na página 2 estabelecendo um conflito entre jornais de São Paulo e jornais do Rio. Como isso repercutiu entre jornalistas daqui?


B.P.M. – Existe um quê de razão. Eu também acho que a violência no Rio repercute mais do que aqui em São Paulo. Eu concordo que, pelo fato de a violência aqui ser mais afastada, e ser na periferia, está todo mundo pouco se lixando, o descaso com a violência aqui é maior, mas eu achei um pouco despeitado, ao mesmo tempo. Eu acho que essa megaoperação foi um marco. Foi um fato importante e fundamental para a discussão nacional de política e de polícia. A forma como foi feito, o fato de ser o Rio de Janeiro, principal pólo turístico do Brasil, que tem uma importância política fundamental, a cidade de que todo mundo gosta, eu adoro o Rio de Janeiro, fico chateado quando acontece isso, mas é importante que saia no jornal. Não dá para reclamar quando está saindo. O problema é quando não sai, como se nada de grave estivesse acontecendo. A gente vê páginas e páginas com discussão idiota no Congresso, que não interessa em nada, sobre o detalhe do detalhe da articulação para salvar… São dez páginas por dia. Quando a gente abre quatro páginas para uma operação importante como essa o pessoal reclama, e lá no Rio deram três, ou duas, eu acho que eles erraram, subdimensionaram. E não acho aquele caso do assassinato de duas pessoas, assistido pelo filho de 7 anos, foi mais importante. Claro que é trágico, claro que é horrível, mas foi uma operação com 19 mortos, você tem uma importância política fundamental, uma decisão de governo, uma estratégia de governo que vai permanecer, que deve ser discutida, a questão importante de segurança pública é essa, e acho que eles subdimensionaram. Achei despeitado [o texto do Globo], uma rixa idiota. Concordo com alguns pontos. Concordo que em São Paulo se cobre mal, que aqui se liga muito menos para o que acontece nas periferias.


Só que eles também não colocaram uma outra coisa, que é fundamental, é que São Paulo tem lidado bem com a criminalidade. Em São Paulo você diminuiu em 60% os homicídios em cinco anos. É um caso paradigmático, que serve de exemplo, serve para a discussão, o sucesso de São Paulo na queda dos homicídios, é algo por que eu me bato aqui, para a gente entrar, e já virei até o chato que tenta falar desse assunto. Eu acho que São Paulo também tem história de sucesso. Em São Paulo diminuiu 40% o roubo de carro. Eu não acho que isso é questão de governo. É questão de amadurecimento da sociedade. São Paulo vive uma fase histórica diferente. Tem sabido administrar melhor o problema histórico de violência, que o Rio de Janeiro não consegue hoje. Não digo isso de forma alguma querendo fazer rixinha de Rio e São Paulo. É observar de forma distanciada o que está acontecendo. Achei que foi uma postura despeitada e desnecessária.


[Adendo de Bruno Paes Manso em 4/7: A discussão ficou bem legal. Só quero ratificar um comentário. Não tenho uma visão otimista sobre a política de segurança pública. Afinal, vemos problemas históricos de corrupção na polícia civil e de violência da PM que permanecem iguais. Temos dado diariamente aqui no jornal. Acho apenas que vivemos uma fase diferente: reduziram-se os crimes comuns (roubo, roubo de carro, homicídios), enquanto se fortaleceu o crime organizado, como o PCC. Portanto, creio apenas que vivemos um novo estágio. Talvez mais difícil de resolver. Agora, o que eu vejo com otimismo aqui na cidade são mudanças na forma como centro e periferia passaram a se relacionar. O fosso ainda é profundo, mas incomparável com 15, 20 anos. O hip-hop, as igrejas, o skate, o grafite hoje bombam em São Paulo e tudo isso me parece uma reação dos jovens desses bairros como forma de resgatar a autoestima e iniciar um outro tipo de relação com a cidade. Hoje as pessoas falam que são da periferia com orgulho. Isso diminui a tensão de nossa guerra, aqui em SP. Acho que vivemos nos últimos dez anos uma revolução nas periferias, essa sim foi pouco coberta pela imprensa. Existe algo do tipo: ‘antes e depois Racionais MCs’. Enfim, achei que era melhor eu me explicar.]


* * *


Ombudsman da Folha fala de chacina em 1994


MARCELO LEITE, ombudsman da Folha de S. Paulo, 6 de novembro de 1994:

“A histeria com a violência no Rio, desencadeada por uma chacina, representa oportunidade única para refletir sobre a responsabilidade de meios de comunicação e governantes.


Com o ar compungido que cabe portar em face da tragédia súbita e artificialmente notória, todos eles concordam em que ´é preciso fazer alguma coisa´. E deram início a uma das mais revoltantes exibições públicas de oportunismo de que se tem notícia no Brasil, traficando com a segurança e o destino de centenas de milhares de habitantes dos temidos morros.


Parece até que antes do assassinato de 13 pobres diabos – traficantes, talvez, mas nascidos e mortos pobres diabos – na favela de Nova Brasília não havia problemas no Rio. Ou, melhor dizendo, antes de a eleição para governador encaminhar-se a um segundo turno em que um candidato da ordem henriquista enfrenta um representante da barbárie pedetista mais uma de tantas mistificações que despolitizam esta eleição, confinando-a a um jogo de imagens vazias, como a suposta guerra religiosa em São Paulo.


Para o bem e para o mal, a imprensa é o teatro em que se encena esse drama macabro.


A melhor indicação de que a matança daquele 18 de outubro foi somente um pretexto para pôr o Urutu em marcha é que ninguém mais se lembra dela. A sociedade nada sabe, e aparentemente nada quer saber, sobre as responsabilidades por aquele crime bárbaro.


Quando muito, fica a memória confusa daquela fileira de corpos jovens e mulatos enfileirados, sob a inscrição ´Obrigado, Senhor, por mais um dia´. Mais uma imagem que se funde na penumbra de tantas primeiras páginas, em que já não se distingue Carandiru de Vigário Geral, Candelária de Francisco Morato.

Posso até cometer alguma injustiça, mas não me lembro de algum jornal ter noticiado as conclusões da investigação. Não há sequer um responsável preso ou indiciado. O público desconhece se foram realizadas autópsias nos 13 mortos, providência elementar quando se suspeita de que policiais tenham executado os jovens a sangue frio; se feitas, que resultados tiveram.

Nenhum jornal se preocupou ainda, passadas quase três semanas, em informar seus leitores sobre isso.

Em contrapartida, avolumam-se informações descartáveis, como a espessura do muro construído na delegacia atacada antes da chacina. Atenta-se para os mínimos detalhes das reuniões em que Itamar Franco planeja o Vietnã que vai legar a seu sucessor, com o mesmo afinco com que se persegue a identidade da namorada de ocasião daquele que já não parece mais enxergar-se como presidente da República, se é que algum dia o fez.

De informação, que é bom, muito pouco. A revista
Veja levantou a pista, domingo passado, de que na origem da mirabolante idéia de uma intervenção federal no Rio estava um famigerado amigo presidencial, José de Castro, hoje instalado na Telerj. Estranhamente, os jornais não foram atrás.

Antes disso, tinha chegado a elogiar a
Folha por sua postura equilibrada em relação às mortes na favela Nova Brasília. Na crítica interna que circula diariamente na Redação, referente à edição de 19 de outubro, anotei que o jornal se destacava dos outros ´no tratamento mais distanciado das informações da polícia, na caracterização inequívoca da invasão como uma represália e na publicação de um editorial duro, o único do dia dedicado ao acontecimento´.

Não basta, porém, marcar posição. Um grande jornal é capaz de converter convicções editoriais em pautas audaciosas para reportagens e em ímpeto investigativo, seja nos morros do Rio, seja nos gabinetes de Brasília. Neste aspecto, a
Folha começava a ficar para trás.


Os dois jornais de maior prestígio no Rio, O Globo e Jornal do Brasil, punham lenha na fogueira da intervenção federal. E isso depois de terem publicado registros bem mais discretos que os diários de São Paulo sobre a matança em Nova Brasília. Com a perspectiva de ver batalhões de soldados expostos à mira dos traficantes entrincheirados, parece que se assanharam.

Partiram então para manchetes enviesadas como a de
O Globo em 25 de outubro, ´Itamar tenta apoio de Nilo contra o crime´ (ou seja, subentende-se que o governador fluminense não estaria propenso a dá-lo). A única explicação plausível para tal comportamento é devastadora para um órgão de informação pública: dificultar a vida do governador e, por tabela, a do candidato de seu partido, Anthony Garotinho (PDT) no segundo turno.

Paralelamente,
O Estado de S.Paulo, concorrente direto da Folha até em uma posição mais favorável à intervenção, mantinha seu noticiário relativamente imune. Publicava reportagens informativas, de um modo geral bem mais interessantes e detalhadas do que as da Folha. Esta permanecia presa de uma letargia que não se sabia se provinha de falta de informação ou de espaço (o jornal saía de uma crise de fornecimento de papel que mutilara seus cadernos).

Assim seguiu até a última quarta-feira, um dia dos mortos em que poucos se lembraram dos 13 de Nova Brasília. Foi quando a
Folha resolveu injetar um pouco de adrenalina na cobertura do recém-assinado convênio Itamar/Nilo – e meteu os pés pelas mãos, com a manchete ´Nilo quer limitar ação do Exército´.

Supostamente a sustentá-la havia uma boa entrevista da Sucursal do Rio, em que Nilo se escudava em raciocínios formalistas e constitucionais para tentar mostrar, muito na defensiva, que sua autoridade não havia sido arranhada. Mas a primeira página da
Folha o apresentava como um homem de bravatas: ´Governador diz que manda na segurança do Rio´, dizia o subtítulo (ou linha-fina, no jargão dos jornalistas).

Na edição seguinte, de quinta-feira, o jornal reencontrou o caminho da sobriedade e do melhor jornalismo. Publicou cinco páginas de reportagens, trouxe textos críticos e investigativos até de dois diretores de sucursal (Rio e Brasília). Anotei porém na crítica interna da edição que o
Estado, mesmo ficando para trás no aspecto interpretativo, ainda apresentava desempenho melhor na quantidade de informações.

Os próximos dias e semanas dirão quem sairá vencedor dessa guerra (porque da outra, a que já come solta há muito tempo nos morros do Rio, tenho certeza de que sairão derrotados os pobres diabos de sempre). Mas tomo a liberdade de reproduzir aqui o fecho de minhas observações dirigidas à Redação na última quarta-feira, pois acho que se aplicam bem a toda a imprensa:


´Se me alongo nestes comentários, é porque não quero ver a Folha acusada de apostar no fracasso da tentativa de pôr ordem no Rio apenas para obter manchetes mais vibrantes.´

Mesmo se recusando a lembrar os 13 de Nova Brasília, é o mínimo de respeito que os jornais lhes devem. E aos que estão por vir.”

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