Segunda-feira, 16 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº995
Menu

CÓDIGO ABERTO > Código Aberto

‘Se a notícia é importante, ela virá até nós’

Por Carlos Castilho em 21/04/2008 | comentários

Pouca gente deu a devida importância a esta frase quando ela apareceu no relatório sobre novos hábitos informativos dos jovens norte-americanos, divulgado em janeiro de 2008, pelo Pew Research Center for the People and the Press.


 


O informe mostrou que 2/3 dos entrevistados com menos de 30 anos se informam por meio de grupos de discussão, mensagens de amigos, comunidades virtuais e páginas da chamada Web 2.0, ou Web Social, onde os conteúdos são produzidos pelos usuários.


 


Passados quase cinco meses, a frase virou um slogan na boca da maioria dos analistas da internet, a partir de um fenômeno que a imprensa mundial também deu pouca importância.


 


Cinco minutos depois de o pré-candidato a presidente dos Estados Unidos Barack Obama ter feito, no dia 18 de março, um pronunciamento sobre questões raciais num vídeo publicado pelo site You Tube, a mensagem já tinha sido visualizada por 1,3 milhão de internautas e foi reproduzida por 500 weblogs individuais. Hoje, o número de visualizações já ultrapassou os 4 milhões e não há mais como contar o número de blogs que passaram adiante o recado de Obama.


 


O fenômeno voltou às manchetes nos últimos dias porque os políticos envolvidos na campanha presidencial norte-americana começaram a perceber que toda a estratégia de marketing eleitoral por meio da mídia convencional simplesmente não está funcionando entre o eleitorado jovem.


 


Mais do que isto. Estava criando uma imagem falsa das tendências políticas porque o sistema de veiculação de informações e de formação de opiniões entre os jovens, com menos de 30 anos, simplesmente caiu fora do controle dos grandes marqueteiros eleitorais.


 


E está fugindo também ao controle dos estrategistas editoriais de jornais, revistas, emissoras de televisão e rádio. Se estiver certa a tese do Se a noticia é importante, ela virá até mim,  o modelo editorial da imprensa terá que ser revisado porque ficará flagrante o seu anacronismo para a geração com menos de 30 anos — e que será a grande consumidora de notícias daqui a 20 anos.


 


As últimas pesquisas indicam que o caminho da notícia já mudou de sentido. Está ganhando cada vez mais intensidade o hábito de as pessoas sugerirem notícias a amigos e parentes. Há dois anos, eu tinha uns dois ou três amigos que faziam isso. Hoje meu correio eletrônico fica entulhado com recomendações de mais de 20 parceiros virtuais regulares e já não tenho tempo de ler tudo que me mandam.


 


Estão se multiplicando as comunidades de informação nas quais as pessoas trocam informações entre si. Mas, 80% dessas notícias ainda têm origem na grande imprensa e o restante em blogs e veículos alternativos.


 


Isto mostra que os jornais, revistas e emissoras de TV continuam sendo os grandes produtores de notícias jornalísticas, mas perdem rapidamente a capacidade de contextualizar a informação, elemento que foi, durante muito tempo, a sua principal ferramenta para incidir sobre o processo de formação da opinião pública.


 


Os amigos começam a substituir os jornalistas e editores como referência em matéria de relevância de notícias. Outra mudança não menos importante: a declaração de 30 segundos na TV, que os americanos chamam de “sound bite” , está trocada pelos vídeos mais longos, na preferência dos eleitores jovens nos Estados Unidos, como é o caso do discurso de Obama, com 37 minutos de duração.


 


Por outro lado, a presença cada vez maior dos jovens na Web está criando uma nova ferramenta eleitoral, o entretenimento-político. A música Yes We Can, gravada pelo cantor rapper Will.I.Am (um jogo de palavras que significa Eu Sou Will) em apoio a Barack Obama, já foi ouvida, em suas várias versões, por mais de 20 milhões de jovens norte-americanos no site You Tube. Will.I.Am integra o grupo Black Eyed Peas.


 


Jeff Jarvis, um bem-sucedido blogueiro e consultor em Web, cunhou a expressão press-sphere (midiasfera) para definir um ambiente informativo onde a imprensa não tem mais o monopólio da filtragem das notícias. A possibilidade de pular de uma fonte para outra usando os hiperlinks e a generalização das recomendações como ferramenta informativa estão transformando os leitores em editores de notícias.


 

Todos os comentários

  1. Comentou em 25/04/2008 Luiz Henrique Vitório

    Uma pergunta que vale um milhão: Como controlar o CONTEÚDO e a veiculação das informações publicitários?

  2. Comentou em 24/04/2008 ailton filho

    Sr. Castilho, acompanho constantemente seus textos nesse observatório e vejo seu interesse e preocupação com o ‘estado da mídia’. Me parece esse ser seu tema favorito atualmente. Bons textos aliás, que tem mostrada a potencialidade dessa nova mídia que a cada dia atinge mais e mais pessoas. Mas uma coisa me incomoda: o sr parece sempra partir do pressuposto de que a internet é livre e aberta a quem quiser. Posso estar enganado, mas já não é bem assim. Grandes conglomerados já controlam boa parte da circulação de todo esse conteúdo. Pode parecer por enquanto que a informação ainda circula livremente, mas eu pergunto: até quando? Aqui mesmo em nosso país, foi reformulado um contrato do governo com as TELES, onde elas ficam resposáveis, não mais pela instalação de postos telefônicos, mas sim pela implementação, distribuição e utilização majoritária da banda larga, abrindo pouco, ou nenhum espaço para a competição regional. Isso não pode num futuro breve se tornar um problema? Não podemos estar incorrendo no mesmo erro de centralizar, ai sim, não mais a informação em si, mas o modo como ela circula?

  3. Comentou em 22/04/2008 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Taí uma excelente notícia. Várias vezes ao comentar seus textos tenho enfatizado o potencial político da Internet. Uma nova Ágora está surgindo. Nela as regras da política tradicional monocromática, unidirecional e de massa não são aplicáveis. Os marketeiros não vão perder seus empregos, VÃO É SE TORNAR CADA VEZ MAIS DEPENDENTES DE BOLAS DE CRISTAL. No futuro, muitos políticos trocarão seus marketeiros por pitonisas, buenas-dichas, pais-de-santos e outros bruxos. Mas isto também não vai adiantar nada, porque na rede mundial qualquer pessoa também pode produzir adoráveis bruxarias. :o) Houve um tempo em que os políticos caçavam seus votos segundo as regras que definiam. No futuro os eleitores é que vão cassar e enterrar os políticos safados nos cemitérios virtuais. Já ajudei a abrir um deles :o)

  4. Comentou em 22/04/2008 Jose de Almeida Bispo

    2/3. Eis aí o motivo da campanha da mídia grande contra o atual presidente e seu partido ter muito mais eco no sul, grande São Paulo, principalmente. No caso de São Paulo é interessante. A cidade perdeu sua capacidade de sociabilidade desde que começou a inchar violentamente ainda pelos anos 40. Ninguém se conhece; todos se estranham. Fácil, fácil para esquemas montados nas redações criarem casos como a comoção Daniela. No restante do sul, de certa forma, o padrão se repete. No Rio, apesar das balas perdidas(?) ainda tem gente no barzinho e na calçada. E o Norte/Nordeste… Recife e galo da madrugada; Parintins e suas boiadas; Salvador e filhos de Gandhi explicam. Sem esquecer a mineirice. Dos mineiros, é claro.
    Só se emprenha pelos ouvidos e/ou visão quem não tem tempo de pensar nem de dialogar. Eis o lado obscuro do conhecimento: transformar seu receptador em um zumbi . Alguém que não tem alma própria, que não usa a informação para pensar. Que ‘desaprendeu a andar no céu’ (Herbert Vianna, Bisca Vida).

Código Aberto

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem