Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Se Bachelet fosse homem

Por Luiz Weis em 16/01/2006 | comentários

Receita fácil – e óbvia – para o prato feito que a mídia em geral começou a oferecer assim que ficou clara a vitória da candidata do governo no segundo turno da eleição presidencial chilena, Michelle Bachelet, ontem à noite:

No Chile, uma das mais machistas sociedades da ainda amplamente machista América Latina – onde, segundo uma lei de 1935, homens e mulheres têm de votar em locais diferentes –, chega à presidência uma mulher separada, mãe solteira do terceiro dos seus três filhos, e ainda por cima atéia, de esquerda e ex-exilada política, cujo pai, um general que se opôs ao golpe de Pinochet em 1973, morreu na prisão, onde foi torturado (assim como a mulher e a própria Michelle.

E mais: não sendo a primeira a assumir o poder pelo voto em um país latino-americano, é a primeira a fazê-lo sem ser viúva de algum líder político nacional, como, no caso mais notório, a argentina Isabelita Perón.

Por fim, é a décima mulher eleita para chefiar um governo em todo o globo [descontado o nome de Sirimavo Bandaranike, viúva de um primeiro-ministro assassinado, que governou o então Ceilão, cujo nome ela mudou para Sri Lanka, durante 12 anos, a contar de 1960, e ainda voltou ao governo nos anos 1990].

Nada contra destacar o ineditismo da eleição de Michelle, com toda a sua dramática biografia, no país dos 17 anos de Pinochet e nesta parte do mundo. Mas é como ela disse diante da indagação sobre quem poderia ser o futuro “primeiro-marido” do Chile: “Se eu fosse homem”, cortou Michelle de primeira, “você não me faria essa pergunta”.

Pois bem. Se o novo presidente chileno fosse um homem, a imprensa daria muito mais importância a dois reveladores fatos eleitorais que se entrelaçam e no mínimo rivalizam com a condição feminina do vencedor:

1) a Concertación, a coligação socialista/democrata-cristã que governa o Chile desde 1990, aumentou a sua vantagem sobre o bloco direitista de oposição – o atual presidente Ricardo Lagos foi eleito em 2000 com 51,2% dos votos, Michelle teve 53,5%. [Só o enviado especial do New York Times, Larry Rohter, baseado no Rio, chamou a atenção para esses números.] Além disso, pela primeira vez, a Concertación obteve a maioria nas duas casas do Congresso (65% das cadeiras na Câmara e 69% no Senado).

2) E, dentro da Concertación, a vantagem, em cadeiras, do Partido Socialista mais o Partido pela Democracia (criatura do PS) sobre os socialistas, na Câmara, aumentou de nove em 2000 para 16, agora; no Senado, onde a DC tinha sobre os parceiros da esquerda quatro assentos de vantagem, hoje tem cinco a menos.

Obcecada pela singularidade da vitória de Michelle, a mídia brasileira deixou de associar a “questão de gênero” ao movimento mais amplo do eleitorado chileno em direção à esquerda.

Pelo menos a Folha de domingo mostrou como era e como ficou a distribuição de cadeiras no parlamento chileno, e o Globo de hoje assinalou que a presidente eleita integra a corrente mais à esquerda no seu partido.

***

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Todos os comentários

  1. Comentou em 25/01/2006 antônio t m de carvalho

    Talvez a imprensa não tenha dado a cobertura que o jornalista entende como devida pelo fato dessa senhora ser tão socialista quanto o Maluf é progressista. Não pelo fato de ser mulher, dado irrelevante como positivo pois basta lembrar a ‘dama de ferro’ M. Tatcher, que fez tanta besteira quanto qualquer marmanjo.

  2. Comentou em 17/01/2006 wagner nogueira

    Não acho que a imprensa brasileira tenha dado destaque ao gênero de Bachelet pelo fato de achar esse fato mais importante que os demais, mas por julgar que essa é a única informação que merece notícia.
    O que acontece é que nós, brasileiros, não damos a mínima para o que se passa ao nosso lado, mas sabemos tudo sobre atentados no Iraque, sem falar naturalmente sobre o que se passa no mundo desenvolvido, em detalhes na maioria das vezes totalmente irrelevantes.
    Nossa imprensa, por facilidade e por economia, vai nessa onda. Os jornais dão páginas e páginas sobre eleições no Casaquistão ou coisas semelhantes, talvez porque são notícias mais facilmente compráveis em qualquer Agência, não precisa mandar nenhum jornalista para lá.
    Daí é óbvio que a única novidade na eleição do Chile é uma mulher, como na da Bolívia é um índio que não usa terno. Fora esses fatos não há realmente nada que nos interesse, porque temos uma visão absolutamente e absurdamente prepotente e superior em relação aos nossos vizinhos.

  3. Comentou em 16/01/2006 Lica Cintra

    Pois é, o Chile considerado conservador elegeu uma presidente mulher. Já no Brasil, um país com a autoimagem de ‘liberadinho’, as mulheres seguem muito longe do Planalto. A mídia está correta no destaque da questão de genêro dessa eleição.

  4. Comentou em 16/01/2006 Solange Monteiro

    – A observação de Larry Rohter sobre a diferença de pouco mais de 2% entre os votos recebidos por Bachelet e Lagos perde essa aclamada relevância se os contextos forem observados.
    Lagos herdou um último ano de governo de seu antecessor (Eduardo Frei) com forte crise econômica. Outro fator importante a destacar é que era o primeiro candidato socialista desde Allende o que, sim, provocou um acalorado debate à época.
    Em contrapartida, Bachelet chega de um governo com 75% de aprovação e uma situação macroeconômica que, essa sim, já virou chavão discutir sem analisar suas implicações. Sob esse ponto de vista, e pese um possível desgaste da Concertación, a diferença é até tímida.

    – Quanto à liderança feminina, acho que é um fato que vale destacar, sim. Pelo que pude pesquisar, na América do Sul a única presidenta efetivamente eleita antes nde Bachelet foi Janet Jagan, na esquecida Guiana, em 1997.

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