Segunda-feira, 16 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº995
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Senador insiste no controle da Web indo na contramão do processo de inovação tecnológica

Por Carlos Castilho em 08/07/2008 | comentários

Bibliografia

BOURDIEU, Pierre; CHAMBOREDON, Claude e PASSERON, Jean-Claude. A profissão de sociólogo: preliminares epistemológicas. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

FERNANDES, Florestan. A condição de sociólogo. São Paulo: Hucitec, 1978.

GARCIA, Sylvia Gemignani. Destino ímpar: sobre a formação de Florestan Fernandes. São Paulo: USP, Curso de Pós-graduação em Sociologia: Editora 34, 2002.

MARTINS, José de Souza. Florestan: sociologia e consciência social no Brasil. São Paulo: Edusp/Fapesp, 1998.

OLIVEIRA, Marcos Marques. O 'Professor Florestan' e as lições que o PT esqueceu. Achegas, nº 22, março/abril de 2005. Disponível em .

SOARES, Eliane Veras. Florestan Fernandes: o militante solitário. São Paulo: Cortez, 1997.

O senador Eduardo Azeredo (PSDB –MG) transformou-se no cruzado do controle da internet ignorando, voluntária ou ingenuamente, que a liberdade de circulação e recombinação da informação está na base do processo de geração de conhecimento sobre o qual a nova economia digital.


 


Dito assim parece complicado e pretensioso, mas o fato é que a proposta do senador tucano, cujo nome está associado ao mensalão mineiro, revela uma teimosia em não informar-se sobre o que a internet representa no mundo atual. No ano passado, o político tucano esteve no centro de um debate sobre regulamentação da Web, que gerou muita informação sobre a rede mundial de computadores.


 


Mas ele aparentemente mostrou-se refratário aos novos conhecimentos, pois levou adiante o seu ímpeto regulatório. É claro que a internet não está imune ao crime e ao delito, porque obviamente ela não é e nunca será um colégio de freiras. O problema é que não se pode tentar regular um sistema novo usando regras e valores antigos.


 


Para criar um conjunto de condutas e valores capazes de coibir a delinqüência virtual (tipo pedofilia, roubo, difamação, chantagem, terrorismo etc) é necessário primeiro procurar entender a natureza do processo no qual estão inseridas a internet e a Web. Impor um modelo repressor idêntico ao usado para canais de comunicação como radio, televisão e cinema, é uma absurda perda de tempo e de energias, porque até os neófitos da rede sabem que será um fracasso.


 


Se eu fosse cínico recomendaria: aprovem o substitutivo Eduardo Azeredo porque não há a menor dúvida de que a lei será inócua e ficará enterrada nos porões do poder legislativo nacional. O problema é que agindo assim, estamos perdendo uma oportunidade única para ampliar a consciência das mudanças em curso no Brasil e no mundo.


 


A internet não é apenas um conjunto de computadores interligados entre si. Ela já é uma expressão do novo sistema de produção econômica e cultural gerado a partir de inovações tecnológicas como a computação e a digitalização, que por sua vez são o resultado de pressões dos agentes econômicos por processos mais rápidos e automatizdos, capazes de atender à demanda de uma população em crescimento acelerado.


 


Tentei nesta frase sintetizar grosseiramente todo o processo do qual a Web e a internet são parte. Neste processo, a rapidez de circulação e recombinação de informações é um componente essencial porque todos os sistemas usuais de regulamentação e certificação se mostram incapazes de acompanhar o ritmo frenético da digitalização.


 


As viagens espaciais teriam sido simplesmente inviáveis sem a computação porque as calculadoras analógicas não conseguiriam nunca processar dados na rapidez e volume necessário para operações, como por exemplo, a reentrada na atmosfera terrestre. Por outro lado, a indústria mundial teria entrado em colapso sem a automatização e robotização viabilizadas pela revolução digital.


 


O mundo moderno tornou-se complexo demais para que continuemos a usar sistemas e valores surgidos junto com a da revolução industrial. No contexto atual, a troca e conseqüente recombinação de informações, sejam elas em texto, áudio ou imagens precisa ser a mais ampla possível para que os conhecimentos sejam produzidos no ritmo exigido pela economia e pela sociedade contemporânea.


 


É por isto que a legislação vigente sobre direitos autorais e o próprio sistema de produção de leis tornam-se anacrônicos diante de sua incapacidade para acompanhar a inovação produzida por sistemas digitais em redes planetárias. Se não levarmos isto em conta, as propostas contidas no substitutivo em tramitação no congresso nacional serão tão inócuas como chover no molhado.


 


O debate sobre a regulamentação da internet necessita ser abordado noutras bases. A demanda regulatória existe e continuará a existir na sociedade do futuro. O que não dá, é tentarmos resolver um problema novo com ferramentas antigas. É o mesmo que usar o telégrafo na era do correio eletrônico.


 


Quando o ourives alemão Johannes Gutenberg inventou a impressão com tipos móveis em 1439 ele provocou um conjunto de mudanças que provocaram reações conservadoras muito parecidas com as embutidas no substitutivo do senador tucano[1].


 


P.S. Os professores André Lemos e Sergio Amadeu produziram uma petição ao Congresso Nacional para que o substitutivo do senador Eduardo Azeredo seja arquivado. Os interessados podem assinar o documento que contém uma contextualização ainda mais abrangente que a do post acima.






[1] Mais detalhes no  livro O Contexto Dinâmico da Informação, de Kevin McGarry, especialmente na bibliografia citada no capítulo III.

Todos os comentários

  1. Comentou em 11/07/2008 Jorge Cortás Sader Filho

    Castilho, como você deve saber muito bem, a Internet é incontrolável. Se Azeredo quer colocar freios, é um equivocado. Embora seja um dos meios de comunicação mais eficazes, senão a mais eficaz do mundo contemporâneo, aqui fazem ponto atividades ilícitas e criminosas, e não poderia ser de outra forma. As divulagações são livres e muitas vezes clandestinas. Controlar a internet como? Só proibindo o seu uso. Mas agora é tarde demais. E mesmo antes, poderia ser uma atitude nada denocráitca. É lastimável, mas a web pode ser uma divulgadora de atos ilícitos.

  2. Comentou em 11/07/2008 Eduardo Melo

    É a lei passou, resta saber agora até onde ela será aplicada por que como ela está todos nós que não atualizarmos nossos windowns etc nos tornaremos criminosos afinal, estamos alterando o software sem permissão do detentor….( usando uma adulterada frente a versão mais recente)

  3. Comentou em 10/07/2008 João Pederiva

    Concordo com a maior parte dos argumentos. Contudo, não acredito que uma lei dessas seja inócua. Essa lei, certamente, tumultuará o Judiciário, com o conflito entre liberdade de expressão e a intenção de controle. Além disso, a sua aprovação pelo Senado evidencia que não se trata apenas de um Senador, mas de uma idéia mais ampla sobre o tema. De qualquer maneira, agora, cabe a manifestação da Câmara.

  4. Comentou em 10/07/2008 Ivan Moraes

    Ele tem stock em qual compania de internet?

  5. Comentou em 10/07/2008 Clarice Bagrichevsky

    Esse paladino da mordaça não teria um certo e indisfaçável interesse pessoal / grupal nessa proposta um tanto anacrônica??

  6. Comentou em 10/07/2008 Fábio de Oliveira Ribeiro

    O legislativo brasileiro quer pagar o mesmo mico que seu congênere Francês? Que ótimo! Tenho certeza que muita gente gostará de sacanear a Lei do Azeredo e demonstrar quanto ele e seus colegas de congresso se tornaram IRRELEVANTES. Azeredo é o pior tipo de ludista que existe, porque os ludistas originais não tinham o poder que ele infelizmente tem. Como diria Voltaire: a Internet só será livre quanto o último ludista for enforcado nas tripas do último legislador ignorante.

  7. Comentou em 10/07/2008 Teo Ponciano

    O que Azeredo faz é defender o que pregam a maioria da direita brasleira: pensamento único (e óbvio que seja o deles).
    Neste serviço o PSDB é craque.

  8. Comentou em 09/07/2008 Maria Flores

    Hola, Dr Castilho!
    Que delícia ler um texto com tanta lucidez! Vou usar tudinho, mas com direito a citação de autor…rs…
    abraço

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