Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Serra mira e vira alvo

Por Luiz Weis em 17/05/2007 | comentários

Peço licença para voltar ao assunto que motivou a nota intitulada ‘De que servem os jornais’, publicada na última segunda-feira, 14. [Leia aqui.]


Trata-se do fato de a mídia impressa se valer muito pouco do instrumento de que precisa – e está a seu alcance – para enfrentar a barragem de informações instantâneas proporcionada pelas novas tecnologias de informação, em portais, sites, blogues e similares.


E peço licença para repetir o truísmo: nunca antes como hoje, nem mesmo quando a televisão se tornou para zilhões de pessoas a fonte primária de conhecimento do dia a dia em inumeráveis setores da vida, o jornal tem que bater o escanteio e correr para cabecear na área.


Isso significa noticiar e dar a perspectiva da notícia no corpo da própria matéria ou ao lado – sem deixar o trabalho para os comentaristas, colunistas e editorialistas. Porque não é a mesma coisa. Dar profundidade à informação não é, ou não é necessariamente, sinônimo de análise, opinião pessoal e tomada de partido.


Digo mais: minoritárias ou mesmo raras são as notícias de interesse que não possam ser levadas ao leitor com foco aberto. Não precisam ser daquelas de parar as máquinas ou ir para o trono da manchete de primeira página.


Na nota referida, usei o caso de duas noticietas que o jornal que as publicou perdeu a oportunidade de relacionar: uma previsão de definhamento do ex-PFL, porque o principal interesse que representa – o agronegócio – tende a se achegar ao governo por causa dos programas de biocombustível, e o dado sobre o crescimento das bancadas ruralistas no Congresso Nacional.


Hoje meu exemplo tampouco é de um fato arrasa-quarteirão. Mas que só um jornal teve a iniciativa, embora com um dia de atraso, de nele infundir dois dedos de reflexão.


Ontem, Estado e Folha, esta na primeira página, publicaram uma foto do governador paulista José Serra brincando de atirar com um senhor fuzil – o FN 762, de fabricação belga – usado pelos atiradores de elite da PM em casos de seqüestro.


Serra empunhou a arma como quem mira o alvo numa homenagem aos PMs mobilizados para acabar com um espetáculo recente do gênero, em Campinas, que durou 56 horas, fez a festa do sensacionalismo disfarçado de jornalismo da televisão – e teve final feliz.


Trecho da cobertura do Estado: ‘Ao ver a repórter fotográfica Vivi Zanatta, da Agência Estado, o governador brincou. Apontou o fuzil na direção dela e simulou tiros: pá, pá, pá. Depois explicou: ‘Nunca segurei uma arma de fogo e nunca disparei um tiro.’


Para o jornalismo de baixa criatividade, a história termina aí. Fotos estampadas, situação descrita, aspas acrescidas – página virada. Algo como ‘a cada dia a sua atribulação’.


De mais a mais, que importância pode ter uma brincadeirinha do governador que enfrenta problemas estes sim sérios? Uma peleja por causa do novo previdenciário estadual e está atolado até o pescoço por ter metido os pés pelas mãos no caso da autonomia financeira das universidades paulistas – o que só serviu para deixar os reitores em estado de guerra e exumar o esquerdismo radical de alunos e funcionários no câmpus da USP.


Sendo o que é, porém, a violência marginal e policial no Brasil de hoje, a simulação armada a que o governador se entregou decerto sem pensar duas vezes, não seria o caso de mirar mais fundo no factóide?


Foi o que fez hoje a Folha, na matéria ‘Imagem de Serra com arma provoca polêmica’. Com a ressalva que a polêmica não nasceu da imagem, mas da [acertada] decisão do jornal de ouvir quem de direito a respeito – o presidente do Movimento Viva Brasil, o diretor do Instituto Sou da Paz, o vice-presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, um pesquisador do Ilanud [órgão das Nações Unidas para a prevenção da violência e tratamento do delinqüente] e uma pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP.


Importa menos o que cada um disse do que a decisão jornalística de procurá-los para ventilar o problema – para ‘repercutir’ a notícia, desta vez no bom sentido da palavra.


A sensibilidade do jornal consistiu em ligar o nome à p´ssoa ou conectar os pontos – expressões que usei no meu outro texto. A Folha perguntou-se, implicitamente, se a foto é significativa. Chegou à conclusão que era. E foi apurar que significados ela poderia ter para os estudiosos da violência e os militantes das organizações surgidas para combatê-la.


Quando sustento que esse tipo de approach profissional deve balizar o trabalho de repórteres e editores, mesmo em caso de notícias aparentemente menores, e não ser terceirizada a colunistas, quero chamar a atenção para a diferença entre aprofundar informações e entregá-las ao opinionismo dos colunistas.


A prova de que a segunda abordagem não pode substituir a primeira está, por sinal, na própria Folha de hoje. No alto da nobre página 5 do caderno Brasil, território de caça do veterano Janio de Freitas, ele põe num mesmo saco Fernando Collor, Luiz Inácio Lula da Silva e José Serra.


Para ele, a coletiva do presidente foi um espetáculo collorido, em que o entrevistado exibiu auto-suficiência e falta de pudor para tanto elogio oco de si mesmo.


A encenação de Serra também: ‘Uma sujeição ao marquetismo leviano de Collor, da qual ninguém o suporia capaz, até alguns anos.’


Cada leitor que julgue as associações assacadas contra o presidente e o governador. Para mim, soam como correlações espúrias – mas minha opinião vale tanto quanto a de qualquer um. O ponto que interessa ao crítico de mídia é outro: como ficaria o jornal se a coluna de Janio fosse o único lugar na edição de hoje onde se comentaria o polêmico ato de Serra?


***


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Todos os comentários

  1. Comentou em 21/05/2007 Marco Costa Costa

    Caro Carvalho, deixo bem claro que não sou contra o Lulla, sou radicalmente contra a forma como elle governa o país. Durante todo esse período só tem sofismado para a população de baixa renda, bem como para manter essa gente quieta distribui fartamente bolsas esmolas com o nosso dinheiro. O senhor não defende um sistema político ideológico, mas sim uma pessoa pôr ser fã do seu discurso direitista. Acorda, antes que a corda quebre seu pescoço. Em suma, o sapo barbudo governa para os banqueiros e seus asseclas.

  2. Comentou em 20/05/2007 Silvano Carvalho

    Marco Costa Costa, T.P.A. (São Caetano do Sul/SP), é lamentável que pessoas que são contra o Lula, atacam de qualquer maneira o mesmo, no citado caso ( um homem público com uma arma apontando não se sabe prá qual lugar ou prá quem), ainda assim serve de pretexto para se falar mal do presidente que ganhou a eleição com 61% dos votos(DS VOTOS, ENTENDEU?).
    Abraços.

  3. Comentou em 19/05/2007 Washington Ferreira

    À pouca atenção dada pela imprensa ao Judiciário, caro Weis, soma-se a seletividade do noticiário em geral, e dos ‘colunistas políticos’ em particular, na cobertura e análise das falcatruas. O texto de Merval Pereira é exemplo clássico, quando cita nominalmente apenas o ministro do PT comom envolvido no escândalo das ambulâncias, e tem a cara de pau de afirmar que o dossiê foi uma tentavia de envolver Serra no escândalo.

    Esta última afirmativa de Merval é respaldada, ainda, pelo fato da imprensa não ter dado divulgação ao conteúdo do dossiê, preferindo divulgar ‘ad nauseum’ as fotos do dinheiro que comprou o dossiê. As cenas filmadas de Serra entregando ambulâncias no Mato Grosso, cercado de sanguessugas por todos os lados, mereceria ter sido passada no JN, não acha? Ou será que você não viu o filme, que está até no You Tube?

    O fato é que a imprensa dedica-se, desde maio de 2005, em repercutir ao infinito os escândalos perpretados por gente ligada ao PT, escamoteando o que peessedebistas e ex-pefelistas fazem. Se esse é o critério ‘justo da cobertura jornalística, exigir o quê de um Judiciário corrupto e ineficiente como o nosso?

  4. Comentou em 18/05/2007 FELIPE GUERRA

    Luiz, sou um admirador das suas análises, porém, gostaria que explicasse melhor a passagem que cita ‘o esquerdismo radical’, porque o sr. classifica dessa maneira o ato dos universitários que ocupam a reitoria?
    Nesse país a combatividade é encarada dessa maneira como foi colocada?
    Bom mesmo é escrever a respeito do assunto para mobilizar a sociedade…sou universitário, e fico surpreso toda vez que vejo uma matéria falando sobre as lutas da gente que estuda em faculdades públicas, muitos foram alunos dessas, porém, venderam a alma para o mercado e esqueceram das dificuldades que enfrentamos todos os dias por falta de verbas, falta de professores, falta de tudo…tomara que quando eu estiver velho, não encare as lutas justas como ‘esquerdismo radical’.

  5. Comentou em 17/05/2007 marina chaves

    eu vi a foto do governador de sao paulo com a referida arma…. eu prefir acreditr que apenas se tratava d uma brincadeira de mau gosto… nao podia ser serio o que eu via…

  6. Comentou em 17/05/2007 Paulo Bandarra

    Serra mostrou o que não se deve fazer com uma arma que não é brinquedo! Mostrou imaturidade com a mesma, a criança que tem dentro de si, quando sonha em ser polícia ou ser bombeiro. Perigo no ato ainda mais confessando que nunca pegou em uma ou mesmo tenha dado um tiro! Pessoa contra-indicada para apontar ou pegar a mesma, que requer prudência e proficiência em manejá-la, nem mesmo que seja de brincadeira! Foi um gesto sem necessidade e sem sentido!

  7. Comentou em 17/05/2007 Marco Costa Costa

    Como já havia dito anteriormente, o craque (imprensa) perna de pau levantou a bola para o mister Lulla fazer um gol de bicicleta. Na situação vexatória do Serra, Serra, Serra o papo do vovô, a foto em si mostra um governador despreparado para o cargo que ocupa, bem como incita a civilizada polícia a enfrentar o crime de fuzil(FN-762) em punho, matando culpados e inocentes que atravessam o seu caminho. Vale dizer, não dá para confiar no Lulla, Serra e muito menos na polícia paulista, pois todos são capim do mesmo pasto e, não acertam um tiro no “álvaro”.

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