Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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Silêncio dos editoriais sobre manipulação de pesquisa constrange a mídia

Por Alceu Nader em 25/01/2006 | comentários

Amanhã completa uma semana que a Editora Três, que publica Istoé, deu um passa-moleque nos jornais com a ‘pesquisa’ de preferência eleitoral encomendada junto ao Ibope para insuflar a candidatura do ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho.

Amanhã, completam sete dias de silêncio nos editoriais dos jornais diante da manobra que teve como objetivo fortalecer o ex-governador do Rio de Janeiro na disputa interna do PMDB.


Quando a patranha foi descoberta, a empresa responsável pela revista fez publicar comunicado nos jornais jurando honestidade e correção em seu comportamento. Pena que seu passado recente diga o contrário em pelos menos dois casos altamente suspeitos. Um deles é o depóstio de R$ 300 mil que pingou na conta corrente do jornalista Gilberto Mansur, fiel escudeiro de Domingo Alzugaray, dono da editora, em negociação estranhíssima envolvendo a publicação da entrevista da ex-secretária de Marcos Valério. Outro, é o do telefonema interceptado pela Polícia Federal, no qual o diretor da cervejaria Schincariol, Adriano Schincariol, conversa com o empresário Luiz Lara, sócio da agência de publicidade Lew, Lara – uma das maiores do país. Corriam os últimos dias de 2004 e ambos versavam sobre a necessidade de ‘blindagem’ na imprensa. Na gravação, autorizada pela Justiça, Lara diz ao diretor da cervejaria, referindo-se a Alzugaray :


‘Se você der R$ 500 mil, R$ 1 milhão na mão dele, o dinheiro que for, agora. Nesta próxima semana, ele está com um problema de caixa seriíssimo, é gravíssimo… você pode contar com ele no ano que vem…’.


Mais explícito, impossível. Dois meses depois, com a imagem da cervejaria ainda no rés-do-chão por causa da prisão de parte de sua diretoria por sonegação fiscal e formação de qaudrilha, a Istoé Dinheiro, versão de Economia e Negócios da revista matriz, trouxe a reportagem de capa ‘A virada da Schin’. Tudo estava às mil maravilhas na empresa.


Esse e outros episódios ainda menos divulgados de passado recente na Editora Três mostram o nível a que podem chegar as negociações de reportagens pagas. Nelas, o leitor sempre compra gato por lebre.


O detalhamento deste fato ocorrido há mais de um ano é para refrescar a memória e mostrar como opera a proteção oferecida pelo ‘jornalismo de balcão’. Mais: serve também para lembrar que as demais editoras de jornais e revistas conhecem de sobra os procedimentos da Três. Sabem, portanto, da flexibilidade ética de Alzugaray. Apesar de conhecê-lo, ou porque o reconhece como um de seus pares, o dono da Editora Três foi preservado pelos jornais. A Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo foram que mais declaradamente se vexaram por terem caído no conto que teve Garotinho como vilão. Vários textos do Observatório da Imprensa também tratam do assunto, assim como meu vizinho de blog, Luiz Weiss, que hoje volta a manifestar sua indignação no Estado de hoje, com ‘Isto é fazer o leitor de bobo’.


Um muro separa as manifestações. Os jornais centraram fogo no pré-candidato do PMDB, Anthony Garotinho, o maior beneficiado pela manobra, ao passo que esse Observatório e outros críticos de mídia procuraram mostrar como o leitor está desprotegido diante de manobras que incluem veículos de imprensa na armação.


Além do sujeito objeto da crítica, outra diferença aprofunda-se com maior clareza à medida em que o tempo passa: nenhum jornal ou revista publicou editorial detratando o par que participou da negociata.


Qual a razão do silêncio? Por que os jornais embarcaram na história, transferindo aos seus leitores o engodo de que foram vítimas, mas não condenou a manobra editorial?


Ler também ‘Reportagem da Istoé Dinheiro sobre Schincariol cai na malha da Polícia Federal’, de 19/06/2006

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/01/2006 Haroldo M. Cunha

    Li sua coluna às 10:00 hs, não comentei, só entrei essa hora (01;30 do dia 27/01)para fazer número. Já que tens uns ‘concorrentes’ que devem julgar sua capacidade pelas respostas dos leitores.
    Tchau!

  2. Comentou em 26/01/2006 Jorge Washington Astigarraga

    Pesquisas encomendadas,resultados que são manipulados em favor de quem paga,omissão de orgãos da mídia,nada disto é mais novidade.Tenho sim,à grata surpresa de saber que pelo menos o O.I.,ainda é um dos poucos que demonstram seriedade e alguma isenção.Sou a favor de uma fiscalização do T.S.E. sobre estas pesquisas,já que quem deveria fiscalizar,se omite.É o mínimo que nós leitores merecemos.Grato.

  3. Comentou em 26/01/2006 Célio Mendes

    Não tem muito tempo houve uma polemica sobre a legislação sobre pesquisas eleitorais aqui no observatório, falou-se em direitos do eleitor e que a competição entre os institutos seria uma garantia de lisura no processo de pesquisas de opinião, o que este episódio torna claro é que a concorrencia não garante de forma nenhuma a autenticidade das pesquisas e que o direito do eleitor a informação passa longe do interesse dos divulgadores das pesquisas. Faz-se necessario com urgencia por uma lupa sobre esta caixa preta que são as pesquisas de opnião, quanto custam ? quem paga ? como são feitas ? todos os dados são divulgados ?

  4. Comentou em 25/01/2006 Cesar Pereira

    É o efeito Ricúpero! Trinta moedas fizeram o Alzugaray vender a consciência. Ele era mais digno quando galã de fotonovelas no final da década de 50 e início dos sessentas.

  5. Comentou em 25/01/2006 Paulo Roberto A. Nacaratti

    Prezado Alceu. Fico muito preocupado com isso tudo que a imprensa (ou seria impren$a) anda fazendo. Creio que elas se vendem, pois acho que a maioria dos brasileiros não têm dinhiero para comprar essas revistas (incluo a Veja e a Época) e também não entendem o que está escrito. Ficar bem informado, com isenção, está muito dificil. Até mais. Paulo

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