Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Síndrome de pânico em SP

Por Luiz Weis em 15/05/2006 | comentários

Os fatos dão razão ao comandante geral da Polícia Militar paulista quando ele diz que esta segunda-feira foi o dia menos violento desde que começou, na sexta-feira, a guerra declarada pelo PCC ao Estado em represália pela transferência de mais de 700 presos, quase todos ligados à organização, para a penitenciária de segurança máxima de Presidente Venceslau.


E não obstante, como apontou o oficial com outras palavras, foi o dia em que São Paulo teve um ataque de síndrome de pânico provavelmente sem precedentes.


A responsabilidade da mídia eletrônica por esse surto que parou a cidade – já não bastasse o sumiço dos ônibus das ruas, depois dos incêndios de dezenas de veículos ao longo da madrugada – não pode ser subestimada.


Emissoras sensacionalistas de rádio e TV, que vivem do quanto pior, melhor, criaram um clima alarmista, repetindo fatos e imagens passados, como se tivessem acabado de acontecer e disseminando boatos, facilmente críveis, dado o compreensível estado de espírito ouriçado da população.


E, como se sabe, nem fogo em floresta ressecada se espalha tão depressa como um rumor. Não só se espalha, mas a cada volta do parafuso fica mais assustador.


Da internet, então, nem falar. Às 16h15 desta tarde, a repórter Juliana Carpanez, da Folha Online, levou ao ar esta matéria reveladora:


A onda de ataques realizada pela facção criminosa PCC […] virou também assunto na internet, ganhando espaço em e-mails, mensagens de comunicadores instantâneos e também em sites de relacionamento.

Enquanto diversas pessoas comentam os ataques e demonstram na internet sua indignação, outros – geralmente de maneira involuntária – servem como propagadores de notícias falsas, prejudicando o trabalho da polícia e também da imprensa.

Os boatos virtuais, também conhecidos como ‘hoax’
[a rigor, hoaxes, no plural], assustam divulgando ataques que não aconteceram e também ações de enormes proporções ‘marcadas para as próximas horas’. Com o intuito de apavorar ainda mais os internautas, estes textos são todos escritos em letras maiúsculas e ‘devem ser encaminhados com urgência’.


‘Antes de repassar estas mensagens para sua lista de contato, os usuários devem encaminhá-las a empresas de antivírus, que poderão confirmar se são verdadeiras’, afirma Patrícia Ammirabile, executiva da empresa de segurança McAfee (virus_research@avertlabs.com).

Além disso, as pessoas devem sempre dar preferência a fontes confiáveis de informação, e não a e-mails, para se manter informadas. Nesta hora, vale o bom senso: dificilmente um internauta teria acesso a um dado de extrema importância – como aqueles divulgados em e-mails ‘histéricos’- que ainda não foi divulgado por nenhum veículo de comunicação
.’

A matéria – um autêntico serviço de utilidade pública – termina com um exemplo colhido na internet:


ISSO É URGENTE!! > >HOJE ÀS 18HS HAVERÁ UM ATAQUE DE VIOLENCIA NA CIDADE…. POR FAVOR, ESTEJAM >EM SUA CASA ÀS 18HS!!! > > AS 18 HS, VAI TER UMA AÇÃO DE VIOLÊNCIA NA CIDADE, A DIRETORIA DE UMA > GRANDE EMPRESA RECEBEU UMA CARTA DA POLÍCIA ÀS 10H DE HOJE AVISANDO A > RESPEITO DISSO…. > > TODOS OS FUNCIONÁRIOS VÃO SER DISPENSADOS A PARTIR DAS 16HS > QUE NÃO ERA PRA NINGUÉM FICAR NAS RUAS > OS ÓRGÃOS PUBLICOS TÃO REPASSANDO ESSA CARTA ÁS EMPRESAS LIGADAS AO > GOVERNO, COMO NO CASO DA DIRETORA DA EMPRESA QUE RECEBI ESTA INFORMAÇÃO. > > POR FAVOR, AVISE O MÁXIMO POSSÍVEL DE PESSOAS QUE VOCÊ CONHECE!!! > > ATENÇÃO, ISSO NÃO É TROTE, É SERIO….. POR FAVOR, AVISEM TODOS QUE VOCÊ > CONHECE!!! >’


Coisa de espírito-de-porco? Pode ser. Mas deve ser coisa de bandido. O PCC maneja a tecnologia da informação com invejável competência profissional. O retrospecto está aí à vista de todos.


Também ficou mais evidente do que nunca que enfrentar hoje em dia o crime organizado – e ponha-se organizado nisso – é também enfrentar o que no tempo da ditadura se chamava ‘guerra psicológica adversa’. Nesse departamento, as forças da lei não parecem ser páreo para os criminosos.


Agora, se a internet é um território impossível de policiar nas sociedades democráticas – e na soma algébrica de prós e contras, antes assim – as emissoras de rádio e TV que são concessões do poder público podem e devem ser enquadradas quando servem objetivamente à bandidagem, ao deixar os habitantes de uma megalópole como São Paulo à beira de um ataque de nervos.


***


Os comentários serão selecionados para publicação. Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas, que contenham termos de baixo calão, incitem à violência e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos. 

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