Segunda-feira, 26 de Junho de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº946

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Sociólogo critica reação de mídia e academia à violência

Por Mauro Malin em 28/02/2007 | comentários

O professor emérito da UFMG Fábio Wanderley Reis não acredita em soluções rápidas, de natureza policial ou jurídica, para a onda de criminalidade violenta que o país atravessa. Ele critica a maneira como a mídia e a academia se entrosam num coro que tem muita vocalização de descontentamento e indignação, mas pouco estudo sério.


O cientista político é pessimista quanto ao quadro de criminalidade violenta que o país vive. Em artigo publicado segunda-feira (26/2) no jornal Valor, do qual se tornou colunista semanal em janeiro, ele escreveu:


(….) As condições sociais que produzem a expansão da criminalidade e da violência estão aí para ficar, ligadas como se acham à ruptura acelerada – num Brasil de repente urbano e mobilizado, mas ainda inaceitavelmente desigual – da psicologia própria à estrutura de ´castas´ de nossa sociedade tradicional e escravista. Qualquer projeção lúcida da situação atual não pode deixar de ser pessimista, e, com tudo o que se mostre imperioso no plano da eficiência policial ou do código penal, não há alternativa à ação política empenhada em reduzir o fosso social longamente construído”.


Eis a entrevista que ele deu ontem ao Observatório da Imprensa.


A confusão entre denúncia e política pública


Numa entrevista dada ao Jornal da Unicamp em dezembro de 2004 [clique aqui para ler] o senhor disse o seguinte:


Há alguns anos, ao examinar um programa de pós-graduação em ciência política de uma de nossas grandes universidades, constatei que os alunos de doutorado não sabiam reagir de maneira minimamente inteligente diante da pergunta sobre como é que os trabalhos que estavam fazendo se diferenciava do trabalho que algum jornalista pudesse fazer sobre o mesmo tema. Eles ficaram perplexos. Isso é clara indicação de que há alguma coisa errada. (….) Com muita freqüência, os especialistas acabam não fazendo mais do que vocalizar as preocupações do leigo, do cidadão. JU – O que ocorre também no caso da mídia. Fábio Wanderley Reis – Sim, mas no caso dos jornais, em alguma medida, isso é justificável. O jornal pretende ser o veículo, entre outras coisas, que canaliza as preocupações do cidadão. Do cientista social, porém, se espera algo mais do que a denúncia da fome dos famintos… É preciso que haja uma contribuição específica na condição de analista. Quando vejo um trabalho de um instituto acadêmico relacionado com o tema da violência, o que quero, antes de mais nada, é análise. É a informação factual envolta na análise adequada, que enriqueça a compreensão do fenômeno, e não, por exemplo, a mera manifestação de indignação”.


O senhor concorda com a idéia de que no processo de saída da ditadura o simples fato de denunciar foi confundido com ação em relação àquilo que se denunciava? Ou seja, que a denúncia já era entendida como parte da solução?


Fábio Wanderley Reis – Eu acho que isso sem dúvida é parte da coisa. Sobretudo num certo casamento negativo, por aspectos importantes, entre o que se faz na academia e a mídia, acaba-se tendo na mera manifestação da indignação, que ressoa publicamente, algo que supostamente justifica o prestígio acadêmico.


No limite, acaba-se tendo o prestígio acadêmico determinado por até que ponto se aparece na imprensa ou não. E para aparecer na imprensa, o que, com muita freqüência, se espera? Ou, pelo menos, o leitor espera que você xingue, que você mostre a indignação, que você denuncie a fome dos famintos, a violência dos violentos, etc.


Muito furor, pouco estudo


Estudo mesmo acaba vindo pouco. Há pouca sociologia consistente da coisa, o que há é esse furor. E eu não tenho a menor dúvida de que há esse equívoco, no plano acadêmico, sem a menor dúvida. Quer dizer, você cria um instituto de estudos da violência e em cada evento que é objeto de notícias a respeito da violência, você é entrevistado e o que você faz é xingar a violência.


Obviamente, tem-se que esperar que o acadêmico dedicado ao tema possa produzir mais do que isso, possa produzir análises que possam servir de fundamento ao diagnóstico adequado da situação e, eventualmente, a receitas, a prescrições sobre o que fazer, como agir. E, nesse lado, nós estamos claramente devendo.


A academia está devendo e acho que esse acoplamento perverso com a imprensa tem um efeito negativo. A imprensa procura a academia a respeito e, com muita freqüência, o que ela encontra é simplesmente uma certa ressonância do ânimo de denúncia, do ânimo de indignação que popularmente se encontra.


Uma certa santificação da opinião pública


A imprensa, falando uma linguagem popular, se tivesse mais juízo cobraria um patamar diferente de produção de material pela academia. Há vinte e tantos anos, na Política do Jornal do Brasil, chegamos a pedir que fosse proibido mandar da fotografia determinadas fotos – isso ainda era feito fisicamente –, para que não fossem ouvidos sobre todos os acontecimentos os mesmos seis ou sete personagens de sempre. Ainda hoje, se Fulano, celebridade do mundo do espetáculo, começar a falar sobre violência, será procurado durante dez anos para falar disso, diga ele coisas sérias ou não. Não falta na imprensa exigir um padrão diferenciado de produção universitária? A imprensa tem prestígio, tanto que amolda intervenções…


F.W.R – Acho que sim, sem dúvida, ela molda e acho que o que há de especialmente negativo é que ela tende a se amoldar àquilo que ela percebe como sendo o que é desejado, o que é, digamos, a opinião pública, o que é, afinal de contas, o mercado para o qual ela vende.


Um exemplo que me ocorre: o tom que caracteriza boa parte das matérias da Veja. Eu me lembro de uma matéria na Veja em que se tratava de noticiar uma briga entre deputados, que se xingaram, os dois se chamaram por apelidos pejorativos, que desqualificavam. A Veja começava a matéria informando sobre esses apelidos e dali para a frente se referia aos personagens envolvidos pelos apelidos pejorativos, o que é característico da revista, mas uma coisa impensável numa imprensa mais séria, que daria a informação objetivamente, ao invés de introduzir, já ali, digamos, a zombaria que ela percebe como sendo a zombaria que o leitor típico faria.


Há uma certa santificação da opinião pública que tem claramente efeitos negativos, deletérios, e, sem dúvida em relação especificamente à crítica que nós estamos fazendo, acho que seria, sim, possível esperar que houvesse maior seriedade, inclusive na relação com a academia: cobrar ou se interessar por coisas que significassem aportar algo de mais efetivo ao entendimento dos assuntos e tentar sair dessa coisa de repercutir simplesmente na base, com muita freqüência, do berreiro da opinião pública que, com freqüência, é um berreiro torto, um berreiro que produz fenômenos que correspondem a patologias claras, o politicamente correto, etc.


O movimento que tivemos recentemente e que continua posto, de certa maneira, pelo voto aberto no Congresso, significa o quê? Que nós queremos que o deputado se amolde àquilo que se espera dele, no voto dele? A opinião pública tem que ser unânime? E se houver mais de uma opinião? Como é que ele vai confrontar o que se percebe como sendo o grosso da opinião pública com o que quer que seja que o curral eleitoral dele, eventualmente, prefere?


Patologias que vão do politicamente correto ao linchamento moral


O que é legítimo? Há certamente muita distorção que eu tenho a impressão de que a imprensa não só favorece, mas ajuda a criar, inclusive. É claro que a imprensa tem um papel importante na produção da opinião pública. Mas se, por um lado, a opinião pública é uma parte autêntica e crucial de uma dinâmica democrática, por outro lado ela é fator de patologias várias, que podem assumir a forma mais branda do politicamente correto e podem assumir a forma do linchamento moral, com conseqüências que podem ser claramente antidemocráticas. Que, aliás, são manipuladas com muita freqüência por governos ditatoriais, autoritários, criando um clima no qual se impede a comunicação adequada e se cria a impressão de que determinada posição favorável ao governo, ou o que seja, é a posição dominante, quando, na verdade, nem isso é.


O que aconteceu com os regimes socialistas há algum tempo atrás? Eu me lembro de participar de reuniões acadêmicas nos Estados Unidos com gente da Europa, especialistas nas questões da Europa Oriental, do socialismo, que não viam a menor possibilidade – isso ainda em 1983 – de que o Estado socialista viesse a abrir ou a ruir e a nem existir, e, no entanto, a coisa estava minada, principalmente o que permitiu que aquilo caísse como um castelo de cartas foi exatamente a percepção de que, ao invés do consenso a favor que se imaginava, o que havia – e isso ficou evidente, de repente, para o conjunto dos cidadãos – era uma maioria contra, eventualmente quase uma unanimidade contra.


A ignorância pluralística


Estou apenas explorando uma conexão que é um pouco mais complicada do que o tema específico de que estamos falando e que tem conexões, me parecem, importantes com ele, a conexão entre aquilo que uma certa literatura de Psicologia Social costuma designar como fenômeno da ignorância pluralística. Por um lado, o fato de que, com freqüência, com as pessoas não sabem o que as outras pensam e a possibilidade de produzir em cima disso uma suposta opinião pública que, na verdade, não se sabe direito opinião de quem é e acaba tendo impactos negativos.


Poderíamos dar como exemplo, também, o apoio que Adolf Hitler teve na opinião pública.


F.W.R – Ele chegou por eleição. Eu costumo ter o exemplo do Hitler presente em alguns debates com Simon Schwartzman [sociólogo, ex-presidente do IBGE], a respeito da distinção que ele fazia há tempos entre representação e cooptação, um contraste entre uma representação que supostamente se teria em São Paulo, uma coisa mais democrática, mais autêntica, e a cooptação do que ele chama de eixo Minas-Rio e do resto do Brasil, que seria um sistema autoritário, em última análise, lembrando precisamente que Hitler seria um caso de representação, nesse sentido. Afinal de contas, ele foi eleito. Chegou lá.


Claro que ele empregou métodos violentos. Eliminou fisicamente boa parte da oposição. Mas teve apoio popular. Mussolini teve apoio popular. Ficou 23 anos no poder. Voltando ao tema da ligação entre mídia e academia: pode-se dizer que contribuiu para o fracasso das políticas públicas na área da segurança uma certa relação entre jornalistas e academia, no sentido de que a academia falhou no diagnóstico da criminalidade no Brasil e esse é um dos fatores que fazem com que a mídia tenha falhado também? O senhor concorda com essa hipótese?


Séculos de sociedade escravista


F.W.R – No fundamental eu concordo, com uma reserva de que, em certo sentido, estávamos fadados a falhar, quer dizer, talvez não seja uma questão pura e simplesmente de diagnóstico adequado, seja por parte da mídia, seja onde a responsabilidade seria maior – por parte dos cientistas sociais, supostos especialistas no assunto ou em assuntos correlatos.


Na minha avaliação, há precisamente um processo de maior alcance com o qual dificilmente poderíamos ter lidado com mais eficiência nesse período recente em que a violência se intensificou – que, afinal de contas, é o período de uma geração, de um quarto de século, aproximadamente, em que tivemos essa intensificação dramática da criminalidade, da violência.


O que eu estou querendo sugerir com isso é, na verdade, aquela questão social que eu toco no artigo que chamou sua atenção ontem no Valor, se mantém, ela foi produzida ao longo de vários séculos em que construímos uma sociedade escravista, uma sociedade extremamente desigual e depois nós temos um século e pouco em que mal e mal fizemos outra coisa, caminhou numa direção diferente.


Permanece a desigualdade, muda a psicologia social


Com isso produzimos uma situação onde temos uma uma sociedade extremamente desigual, por outro lado, um processo mais recente, do último século, onde a psicologia coletiva associada secularmente com isso – que é uma psicologia conformista, uma psicologia de casta, uma psicologia de escravo – é alterada com a urbanização do país, com a exposição aos meios de comunicação de massa, e se passa a ter na população destituída, crescentemente, a presença de um ânimo reivindicante, de um ânimo de frustração.


Se se combina isso com a economia da droga, por exemplo – que é, evidentemente, um componente importantíssimo, que vem um pouco de fora, um pouco excrescente –, tem-se um caldo de cultura onde, me parece, floresce mais ou menos forçosamente o que temos visto.


O que seria preciso para que não vivêssemos? Seria preciso que tivéssemos feito, de certa maneira, o que a Argentina fez. A Argentina, no final do século XIX, tinha resolvido o problema do analfabetismo. O Brasil está às voltas com o analfabetismo até hoje. Nós nunca chegamos a atacar a sério o desafio do investimento educacional, e eu tenho a impressão que isso tem muito a ver com a desigualdade e com o fato de que, na verdade, a elite brasileira, durante muito tempo, não percebia a população ex-escrava, que veio do escravismo, como parte real da população brasileira, do povo brasileiro.


Duas categorias de cidadãos – e de notícias


Era “essa gente”. “Educar essa gente?”. Eu tenho usado essa expressão. Essa coisa do “essa gente” é muito freqüentemente aplicado à parte pobre da população, à parte negra, o que indica claramente uma atitude que, como eu digo, tem a ver com casta, é um pouco se tratar de outro mundo, que me parece explicar um aspecto, no qual eu toco de passagem no artigo, que é a diferença do impacto que tem a violência e a criminalidade nas populações de cidadãos de segunda classe, de segunda categoria nas periferias das grandes cidades, das chacinas banais, por um lado, e o impacto efetivo que tem quando as vítimas são de classe média ou para cima.


Aí é um drama, não só a imprensa repercute de forma muito mais dramática, como a resposta da opinião pública é também muito mais dramática. Então, eu acho que o fundamental nessa coisa está na divisão que subsiste e, na minha aposta, olhando para o futuro o que dá para dizer é que isso vai piorar. Não vejo como nós vamos conseguir agir com eficácia no sentido de mitigar a violência, em um futuro que dá para ver.


Mais expectativas frustradas


Até porque as ações destinadas a melhorar, as pequenas melhoras que é possível introduzir de maneira rápida, num prazo mais ou menos curto, tendem a agravar a disposição reivindicante, o sentido de frustração. As pessoas são expostas mais intensamente a aspirações e expectativas que não podem ser atendidas de maneira rápida. Então, o que vamos ter, na minha avaliação, é a piora do problema relacionado com criminalidade e violência.


A respeito dessa coisa eu sou muito pessimista. Acho que é possível fazer, topicamente, vários tipos de coisas, agir na faixa da educação, agir no plano legal, agir no que se refere à repressão mais eficiente, em diversos outros aspectos. Mas a ação mais efetiva é a que envolve um amadurecimento a longo prazo, inclusive educacional, envolve um amadurecimento no período de mais longo prazo, de algumas décadas, pelos menos. E, enquanto isso, eu acho que o que nós temos pela frente é um vale sombrio. Na minha avaliação, a coisa é tão ruim quanto isso.


Desastre no tempo de uma geração


Na mesma edição do Valor em que foi publicado seu artigo, ontem, há uma importante entrevista do procurador Marco Vinicio Petrelluzzi, ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo, em que ele menciona queda dos índices de violência. Diz mesmo que a ‘violência urbana crescente é um mito’.


F.W.R. – Esses dados de que ele fala são os dados que envolvem de 2001 para cá, 2001, 2002, isso é outro dia. Mas isso prova que é possível, sim, obter alguns resultados positivos no plano da ação policial, da ação legislativa. Numa perspectiva de prazo mais longo, numa perspectiva de geração, se comparamos o que acontece na última geração, dos últimos 25 anos com o Brasil anterior a isso, não há dúvidas de que as coisas pioraram, e pioraram dramaticamente.


A projeção que cabe fazer, as razões sociológicas mais consistentes justificariam que se projetasse o ruim nessa coisa. Eu acho que a tendência é que se tenha o agravamento das tensões pela combinação da manutenção da desigualdade radical com um elemento novo, que é um elemento da alteração da psicologia associada a essa desigualdade radical.


Estamos vivendo num país que é urbano, mobilizado, atento, onde todo mundo quer calçar o tênis da moda, para usar uma frase do traficante num documentário do Moreira Sales, “Eu também quero meu Nike” [Notícias de uma guerra particular; a frase é dita por Marcinho V.P., assassinado posteriormente num presídio de Bangu], que é expressivo da postura geral.


Droga acirra a crueldade


Pode-se pensar que uma parte dessa violência é uma leitura feita pelo bandido, pelo fora-da-lei, do arbítrio estabelecido durante a ditadura, quando o Estado executava pessoas sem julgamento…


F.W.R – E se tem, além disso, o componente da economia da droga. Eu tenho impressão de que boa parte da crueldade, do destempero, da falta de qualquer contemplação, que leva a coisas como o incêndio dos ônibus, provavelmente está associado com o fato de que as pessoas consomem drogas e que, em muitos casos, crimes como esse são cometidos sob o efeito de drogas.


Além disso, essa economia leva à criminalidade de uma maneira mais intensa, mais ampla. Não estou querendo negar que você possa ter razão ao chamar a atenção para a experiência da ditadura, da violência da ditadura e da própria tecnologia que ela produziu. Acho que acabamos tendo um acúmulo de fatores negativos.


Nem ‘fazer tudo’, nem cair no ‘ativismo legalista’


A questão social, a atenuação da desigualdade, seria para o senhor uma espécie de pré-condição para que nós tivéssemos uma redução dos níveis de criminalidade?


F.W.R. – Eu formularia de uma maneira um pouco diferente. Obviamente, não se trata de adotar nenhuma daquelas duas posições extremadas que eu enuncio logo no começo do artigo. [“Com todos os equívocos a que possam prestar-se, as ligações da violência com a ´questão social´ brasileira são reais e complicadas. Elas impõem o desafio de equilíbrio entre dois extremos: de um lado, à esquerda ou à direita, certa postura maximalista que insiste, a propósito do empenho de se fazer qualquer coisa, na necessidade de se fazer ´tudo´, ou muito mais (o que é sempre certo, ai de nós); e, de outro lado, um artificialismo ou ativismo legalista pouco atento às complicações do problema”.]. Ou seja, no primeiro caso, a posição, muito freqüente, de que é preciso fazer tudo para fazer qualquer coisa, o que, evidentemente, é inaceitável. “Nós temos que fazer a revolução”, como diz a esquerda, ou então, para falar a linguagem de alguns jornais da grande imprensa, “Bolsa Família + Creche + Emprego + isso + aquilo”, enfim, tudo o que supõe a política social executada com êxito, os problemas resolvidos. E o outro extremo, do ativismo legalista.


Não dá para cair em nenhum desses dois extremos. O foco ali é simplesmente de dizer: “Olha, nós estamos com um problema muito mais sério, temos que estar prevenidos para o fato de que a solução é muito difícil, temos que estar atentos para o vale sombrio que temos pela frente e agir com o olhar posto num futuro um pouco mais longínquo”.


Há razões para pessimismo


Acho que é ilusão pretender que possamos, efetivamente, resolver o problema da violência nas circunstâncias que estão criadas. Há muitas boas razões para pessimismo. A projeção do que há de mais consistente, o longo, pesado legado da sociedade escravista, o abraço do cadáver de séculos de construção de uma sociedade escravista com, agora, a erosão da psicologia associada com isso e, portanto, a criação do sentimento mais reivindicante, do ânimo de frustração, na sociedade urbana, mobilizada, e tudo mais, esse caldo de cultura, ainda mais com o elemento excrescente, que vem de fora e se associa a isso, que é a dinâmica da economia da droga, acho que cria um quadro que não vamos resolver, seja com a alteração do Código Penal, seja com alteração na idade em que as pessoas se tornam imputáveis, seja com Força de Segurança Nacional. Não se trata de dizer que nós não vamos adotar as medidas que são necessárias nessa faixa, é claro que sim. Mas é bobagem pensar que com isso nós vamos estar resolvendo.


Eu acho que, como disse, pela frente o que dá para enxergar é essa coisa piorando. Ainda que possa haver êxitos tópicos, como os apontados na entrevista do Petrelluzzi, e certamente pode haver, mas na verdade me parece que o encaminhamento mais efetivo da solução do problema é uma tarefa para gerações, pelo menos uma geração, algumas décadas, se tudo passar bem.


Mas os dois últimos governos não têm lutado para diminuir a desigualdade?


F.W.R – Há um tropo da literatura sociológica que é esclarecedor: há um estudo famoso executado pelo [Theodor] Adorno, que migrou para os Estados Unidos e que lá em Nova York, no Instituto que ele criou, fez um estudo que se transformou num clássico, que é sobre o exército americano, The American Soldier. Uma das coisas notáveis que esse estudo mostrava é que o grau de frustração em relação às oportunidades de promoção era maior exatamente nos batalhões, nos regimentos onde as promoções eram maiores.


Um dos aspectos que eu quero destacar é isso: você tira o escravo de séculos do fundo do buraco, mostra para ele um mundo novo, bota diante da televisão, mostra o tênis Nike, ou Mizuno, e diz que não tem para ele, a rigor, ou que ele tem que esperar o bolo crescer para um dia sobrar para ele.


País campeão de desconfiança


Deve-se considerar também que existe uma afronta à autoridade, que já existia no passado, mas não como se tem hoje, devido ao fato de que a autoridade não soube honrar seu papel. E o mais visível é a polícia fardada, que, aliás, hoje são todas as polícias. Isso se vê muito nos jogos de futebol, dentro e fora dos estádios. Parece haver, por um número cada vez maior de pessoas, a percepção de que se trata de bandidos situados do lado da lei.


F.W.R – Há uma simbiose, uma mescla entre a criminalidade de um lado e o próprio aparato que supostamente deveria reprimir, combater a criminalidade. Essa mescla assume várias formas diferentes. Eu acho que isso acaba sendo parte de um sistema de desmoralização. Há um dado que eu costumo citar nesse tipo de discussão, extremamente revelador, é que o Brasil é o campeão mundial da desconfiança.


Há pesquisas, que na última vez que eu vi, envolviam 65 países, de níveis de desenvolvimentos diferentes, de culturas diferentes, de religiões diferentes – muçulmana, católica, confucianos –, onde o Brasil, reiteradamente, aparecia como o campeão de respostas negativas diante da pergunta sobre se é possível, em geral, confiar nas pessoas.


No Brasil, só esquálidos 3% de respostas positivas aí. Isso parece tão absurdo que as pessoas têm testado, verificado de novo, e dá sempre nessa faixa. É claro que isso tem a ver com uma certa desmoralização que é geral, que tem a ver com corrupção, com o fato de que a polícia não é confiável. [Ver site Word Value Survey e Ronald Inglehart.]


(Transcrição de Raiana Ribeiro.)

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  1. Comentou em 04/03/2007 Marco Costa Costa

    Não houve ofensa muito menos agressão no meu comentário, o que existe de fato é uma perseguição gratuita de sua parte com relação a minha pessoa. Uso o site para ter um mínimo de informação e também passar um pouco do meu tempo ocioso. Por este motivo, deixo de fazer comentário nos seus artigos, você não precisará ficar aborrecido.

  2. Comentou em 03/03/2007 Marco Tognollo

    Boa entrevista. Malin, só uma perguntinha: Sobre a Veja, diz o professor ‘daria a informação objetivamente, ao invés de introduzir, já ali, digamos, a zombaria que ela percebe como sendo a zombaria que o leitor típico faria.’. Quando comentei nesse mesmo espaço sobre o típico leitor de Veja, na matéria sobre o alcoolismo, o Sr. me disse que eu estava sendo injusto e que não era possível tipificar os leitores da revista. Por que não retrucou o professor? PS. Uma sugestão. As entrevistas, normalmente são bem mais longas que os demais textos aqui publicados. Não teria como o espaçamento entre as linhas ser um pouquinho maior, para facilitar a leitura?

  3. Comentou em 03/03/2007 ubirajara sousa

    Prezado Senhor Malin. O seu comentário (Não importa a quem a agressão é dirigida. Aqui não é lugar para agressões e ofensas.
    ) aqui transcrito, colocou em minha mente a seguinte pergunta: aqui, onde? No OI, ou nos seus escritos? Se o senhor se referiu ao OI, seria bom que desse uma espiada nos artigos do Dines. Neles, o senhor encontrará ambas as coisas, no meu ponto de vista e de muitos leitores/comentaristas do OI. Um abraço.

  4. Comentou em 03/03/2007 Marco Costa Costa

    Não sou demagogo, isto porque não tenho patrão e não vivo em ambientes onde prospera a bajulação. Neste episódio fui desrespeitado, bem como censurado. Esclareço que, em momento algum faltei com educação com o escriba. Pois meu comentário se referia ao texto em questão e não ao competente jornalista. Navego neste site justamente porque sou um admirador de seu trabalho.

  5. Comentou em 02/03/2007 victor lourenço

    Não é de hoje que se reclama que a academia está afastada da realidade, no mínimo defasada no timming dos acontecimentos. Também não é de hoje que a imprensa é considerada mal preparada para tratar de temas complexos, vide o exemplo agora da violência desenfreada no RJ. Então, juntando as duas coisas temos a desinformação completa, pois quem deveria analisar se abisma com o absurdo da violência e quem deveria informar faz a apologia do reducionismo. Então temos que encontrar outro locus para esta discussão.

  6. Comentou em 02/03/2007 Luis Neubern

    Dines , em seu último texto, criticou a análise do professor que considera a imprensa falha no aprofundamento dos estudos sobre a violência no Brasil. Tenho que concordar com o observador. De fato, não é papel da imprensa tal empreitada, mas sim do governo. Entretanto, tomando como exemplo a imprensa americana (posso estar errado, não sou especialista no assunto, apenas uma visão do pouco que leio), que aparentemente faz estatística sobre tudo o que se possa imaginar, talvez mapas estatísticos sobre os motivos dos crimes,po exemplo, poderiam ajudar no debate e na consequente cobrança de ações específicas do governo. Tenho um amigo, delegado aposentado, que me dizia, uns 10 anos atrás, que a maioria dos crimes eram absolutamete fútes, principalmente, motivados por excesso de bebida. Discussões por times de futebol, por exemplo. Quem sabe a imprensa não poderia esquentar os debates nos oferecendo dados estatísticos um pouco mais específicos. Quero crer que isto não requer um estudo aprofundado, a própria polícia deve ter estes dados.

  7. Comentou em 02/03/2007 Marco Costa Costa

    Lamento profundamente vossa atitude, quanto ao meu comentário sobre a carapuça. Não tem nada de ofensivo, vossa senhoria é que ficou melindrado. Na sua resposta existe uma tose elevada de preconceito sobre o comentário que abordei quando disse que a imprensa e a academia não tem cacife para reverter esta onda de criminalidade que assola o país.

  8. Comentou em 02/03/2007 Marnei Fernando

    Fiquei fã do professor Fábio Wanderley Reis…

  9. Comentou em 02/03/2007 Marnei Fernando

    A moda agora é falar da escalada da violência… que escalada??? gostaria que fosse feita uma análise comparativa do aumento ou da redução dos crimes… Sabemos que a violência histórica foi criada e cultivada por políticas erradas, pela exclusão, por privilégios e injustiças… Porém a mídia que não quer de forma alguma que o país dê certo, se orgulha de espalhar sujeira no ventilador pra criar um clima de medo que afasta a razão e os turistas… A solução é demorada, sem soluções mágicas e com engajamento de todos… Da mídia podemos esquecer a ajuda, ela está de olho em 2010 já.

  10. Comentou em 01/03/2007 Marco Costa Costa

    Comentário ofensivo, não será publicado.

  11. Comentou em 01/03/2007 Marco Costa Costa

    Não é a imprensa muito menos a academia que irão resolver o problema da violência. O governo precisa convidar o homem comum para que em conjunto possam criar mecanismos de estancar a onda de violência que tomou conta da população. Os intelectuais não estão na imprensa nem no interior das academias, os verdadeiros sábios fazem parte do povão. Vale lembrar que a teoria na prática é completamente oposta daquilo que se faz no banco de uma faculdade, o que na realidade existe é pura discriminação desses falsos sábios em relação ao trabalhador. Fora imprensa marrom e intelectuais de meia pataca!

  12. Comentou em 01/03/2007 Rosa Sart

    Bem, não há necessidade de ficar estarrecido! A história da humanidade e a nossa, em particular, muito semelhantes às histórias dos países da América Latina, nos levam a crer que ‘algo’ ficou perdido no passado. Não adianta agora chorar o leite derramado. É urgente, verdade, que é preciso ‘transformar’ essas sociedades em lugar de gente que pensa, respeita e apóia seu semelhante. Quem haveria de abdicar de alguns dinheiros em troca de paz, por exemplo? Os que estão muito bem, querem se manter assim até o fim dos tempos. Reclamam, mas não sabem ou não querem buscar a saída. Por quê? Estudos confiáveis existem. Na FioCruz, professora Maria Cecília Minayo trabalha esta questão. Academia, mídia e o resto da sociedade podem muito bem se articular para iniciar debate sobre violência. E por que não o fazem? Falta de dinheiro não é. Academia deve servir ao público. Por que a mídia não elabora trabalho inédito: vamos discutir, trazendo participantes que existem em nossas cidades. Vamos parar de chorar e arregaçar as mangas. Ainda há tempo. Partidos políticos e comunidades populares devem ser chamados a contribuir. Tenho certeza que muitas coisas saírão desse embate. Agora, se cruzarmos os braços, tudo vai piorar. As coisas estão do jeito que estão e a sociedade tem parte na culpa. Vamos desatar este nó? Persistência e dedicação são precisos. Com a palavra o professor Fábio Wanderley…

  13. Comentou em 01/03/2007 Rosa Sart

    Trabalhar comunidade não é algo fácil, principalmente em grandes metrópoles. A palavra mágica ‘organização’ de base exige experiência, liderança, respeito aos direitos humanos. Rádio e tevês comunitárias são bons recursos se bem aplicados. Recordo as Comunidades Eclesiais de Base. Povo e uma face da igreja católica se reuniam para discutir problemas vividos nas comunidades, água, luz, esgoto, moradia, creche, saúde, etc. A palavra era do povo. De uns tempos para cá, a igreja negou reuniões das CEBs e permitiu que formas conservadoras de levar a palavra de Deus,alijada da realidade social, proliferassem entre nós. Calou-se a comunidade. Houve um tempo em que Associações de Moradores e de Favelas discutiam destino das comunidades com debates e eleições. Ongs também trabalham as comunidades. Seu foco e dimensão são outros, distanciando o povo de seu objetivo principal – como sobreviver em comunidades populares sem ser atingido pelas drogas, pelo crime, pelas balas perdidas? Há vários movimentos no interior das comunidades mas não se evidenciam nos bairros, imagine em cidade do porte do Rio de Janeiro, estado reconhecido como o mais favelado do país? A questão, que se coloca, não é a favela em si. Mas ausência de lideranças e capacidade de organizar-se sem intromissão de ‘falsas’ associações de moradores. Quem sabe rádios e tevês comunitárias sejam um alento à nossa organização?

  14. Comentou em 01/03/2007 Calypso Escobar

    Não querem mais usar o termo, mas nada me impede de fazê-lo, o racismo é religioso, se faz na cor, no morro e no asfalto, no saber ler e escrever, a aparência é o grande susto, aquele que tem dinheiro (mesmo roubado) perdeu o caminho da conciência e o medo é o sentimento mais horroroso do homem atual. Mudamos de estado e o estado do pavor é o mesmo, mudamos de casa e o sombrio estremece a qualquer barulho. Longo prazo, vamos diminuir para médio e deixar nossos filhos um tico de esperança. Porém, governantes gerindo mal é uma prova cabal da violência, tem muito a ver com o Poder para si… mais prisões, mais terrenos de obras e mais punições e outras modalidades do ‘bacharel’ defender criminosos e o menor se apavorar um tanto mais, são soluções a conta-gotas, mas EXISTE se for do interesse político. Não se escreve um romance da tragédia de João; inquéritos apurados e regime sem atribuir delongas como a ladra do INSS, estupradores, matadoras dos pais e mais e mais… Vamos nos desibinir e engaiolar na perpétua imagens como estas, não deixar na obscuridade deveres da LEI.

  15. Comentou em 01/03/2007 Marco Costa Costa

    Para se combater a violência que ora estamos presenciando não é necessário estudos mirabolantes. A médio prazo, basta criar empregos para os chefes de famílias que estão à margem do sistema. Construir escolas com boa infra-estrutura no que tange a qualidade e pagar salários dignos aos mestres da nobre arte de ensinar. Trata-se de um projeto simples, mas que trará grandes benefícios para reduzir aquilo que o sistema criou, ou seja, a violência.

  16. Comentou em 01/03/2007 Fabio de Oliveira Ribeiro

    Excepcional. Agora quem sabe o professor que andou falando bobagens acerca de um assunto que afeta a vidas dos mortais que não frequentam os ‘cumulos nimbos uspianos’ onde ele vive terá que dar uma resposta à altura. Mas para fazer isto terá que descer ao rés-do-chão.

  17. Comentou em 01/03/2007 Lau Mendes

    Sr. M.Malin
    Obrigado por tão oportuna , racional e nada passional entrevista . É muito bom ler o OI , aqui , “não a Veja“.
    Abraço .

  18. Comentou em 01/03/2007 Paulo Campos

    Viva o professor Fabio Wanderley!!!

  19. Comentou em 01/03/2007 Cássio Augusto

    Pois é… também venho a dias denunciando tal atitude em meu Blog… http://www.cassio-nl.blogspot.com visitem!!!

  20. Comentou em 01/03/2007 marina chaves

    Somente gostaria de acrescentar uma questão que me parece importante: temos um Brasil urbano e voltado para o consumismo somente nas regiões mais desenvolvidadas do pais, como nas regiões Sudeste e Sul… Mas se fizermos uma viagem pelo o interior do Brasil sentiremos que a paisagem muda de uma forma drástica, pois parece que as coisas pararam no tempo… Parece que ainda estamos na era dos pistoleiros, jagunços, trabalho escravo, terra de ninguém… A sensação é de verdadeiro medo, mesmo….. Nãoo temos um Brasil desigual e marcado pela divisão entre casa grande e senzala apenas nas grandes cidades…. mas o nosso interior é ainda muito pior… A civilizaçao moderna, tipo Revoluçao Francesa, ainda não chegou lá!

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