Sexta-feira, 24 de Janeiro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1071
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Telejornalismo também paga o preço da crise na imprensa

Por Carlos Castilho em 11/12/2009 | comentários

Até agora os telejornais olhavam com um certo ar de superioridade em relação aos jornais impressos diante as dificuldades enfrentadas pelos profissionais do papel na luta para encontrar um novo modelo de negócios capaz de assegurar a sua sobrevivência diante da internet.


 


Mas o quadro parece estar mudando, e muito rapidamente. Nos últimos dois meses, algumas das mais importantes emissoras européias admitiram mudanças profundas em seus departamentos de jornalismo, ao mesmo tempo em que a NBC norte-americana anunciou um corte de 700 funcionários da área de telejornais, em conseqüência de uma redução de 800 milhões de dólares nas suas receitas publicitárias desde 2007.


 


Na Inglaterra, o executivo chefe da rede independente de televisão (ITV), Michael Grade, admitiu em depoimento ao parlamento britânico que sua rede não está mais interessada em notícias porque os gastos superam as receitas. Ele disse também que não pedirá mais ajuda pública para os programas jornalísticos regionais porque “eles são um saco sem fundo”. Grade foi ainda mais longe em seu pessimismo, trocando o cargo na principal emissora comercial inglesa por um emprego fora da TV.


 


Emissoras como a inglesa BBC e a alemã ARD (ambas controladas pelo governo) sempre colocaram os seus programas jornalísticos como os carros-chefes de uma programação que seus responsáveis definem como de interesse público e sem fins lucrativos. Os telejornais da BBC e da ARD, bem como de várias outras emissoras européias que recebem fundos estatais, não podem veicular publicidade comercial.


 


As emissoras públicas européias admitem, em privado, que também podem reduzir drasticamente os orçamentos de programas jornalísticos, segundo informações da newsletter Follow the Media. Mas a situação já se tornou dramática em países da Europa Central, o antigo bloco socialista do Leste europeu, onde pelo menos dez projetos de telejornalismo foram desativados por falta de dinheiro.


 


O projeto de televisão comunitária RE:TV, criado na Bulgária há dois anos com recursos de um multimilionário local, anunciou no início de dezembro que sairá do ar até o final do ano. O canal reunia uma equipe formada pelos melhores jornalistas búlgaros e produzia programas retransmitidos por quase todas as grandes emissoras européias.


 


A crise nos departamentos de jornalismo das televisões européias é mais séria do que se imagina, porque no Velho Mundo o telejornalismo é a âncora do resto da programação, ao contrário do que acontece com as emissoras comerciais. Emissoras como a BBC e a ARD usam o jornalismo independente como grande argumento para pedir fundos aos respectivos governos. Para elas, o jornalismo é uma espécie de ícone do interesse publico.


 


Mas não é só isto que está em jogo. Caso a perda de sustentabilidade financeira se agrave ainda mais, o jornalismo na televisão pode tornar-se ainda mais exposto aos interesses comerciais, como já é possível perceber na TV Globo, onde as chamadas ‘promoções da casa’ ocupam cada vez mais espaço nas emissões noticiosas. O caso extremo é o noticiário esportivo, onde quase tudo o que sai no ar tem algum interesse comercial embutido.


 


A informação jornalística menos influenciada por interesses corporativos privados, até agora, estava marcada na televisão pela existência de canais públicos que funcionavam como inibidores da comercialização desenfreada do noticiário. No caso europeu, o fator predominante era a qualidade da informação gerada por uma BBC, por exemplo. Já em países como o Brasil, a simples existência de uma emissora pública, mesmo débil, já é suficiente para criar um parâmetro de comparação em matéria de noticiário.


 


Tudo isso indica que o público terá que se preocupar cada vez mais com o tipo de informação que receberá nos próximos anos, porque as emissoras privadas vão acabar sacrificando a qualidade em nome da sobrevivência financeira e as públicas terão cada vez mais dificuldade para arrancar verbas estatais capazes de manter a programação atual.

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