Quarta-feira, 18 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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Tempos duros e difíceis para os jornalistas online no Brasil

Por Carlos Castilho em 25/07/2008 | comentários

Os profissionais que trabalham em sites jornalísticos nos principais conglomerados da mídia nacional não escondem a preocupação com o crescimento de duas áreas de atrito que estão se desenvolvendo em torno das páginas voltadas para o jornalismo online.


 


A primeira delas tem a ver com a relação entre as redações online e offline dentro de um mesmo veículo. E a outra está ligada às resistências externas, especialmente de órgãos públicos pouco acostumados com a fluidez e informalidade do ambiente cibernético.


 


Os debates entre os participantes do curso a distância da Universidade do Texas para jornalistas brasileiros são uma amostra da enorme preocupação em encontrar soluções para problemas que têm mais a ver com valores e comportamentos do que com tecnologia e estratégias editoriais.


 


O jornalismo na web no Brasil já é um fenômeno consolidado, embora faltem estatísticas mais detalhadas. O serviço IBOPE/NetRatings ainda está muito distante do Pew Internet, em matéria de medição da penetração do jornalismo pela internet nos hábitos e rotinas dos brasileiros. Mas este é um problema para outro post.


 


A consolidação do jornalismo online na mídia brasileira não produziu ainda um modelo de negócios viável para a transição do papel para os bits e bytes. Mas já mexeu com as rotinas das redações. O pessoal do online vive uma situação complicada porque está mais exposto à participação do público, mas ao mesmo tempo está sujeito a regras e códigos que incorporam a cultura offline, ou seja da imprensa convencional.


 


Como os chefes foram, em sua maioria, formados nas redações de jornais ou da televisão, eles reagem em função de uma cultura profissional consolidada há anos. Já os profissionais da web não conseguem, por exemplo, fazer uma distinção tão evidente entre fato e opinião como está estipulado nos manuais de redação. Surge aí uma clara área de atrito.


 


Isto fica ainda mais nítido nos veículos nos quais a busca de uma imagem de modernidade provocou o surgimento de experiências de jornalismo com participação do público. O relacionamento com pessoas externas à redação, com preocupações, hábitos e, principalmente posicionamentos políticos, provoca constantes focos de tensão cuja gerência é um tema que não está nos manuais jornalísticos.


 


A discussão é complexa e vai ser longa, mas a experiência, mesmo curta, está mostrando que quem não levar em conta a situação do leitor na tomada de decisões editoriais em sites de jornalismo online estará dando um tiro no pé. No jornal impresso, o público ainda podia ser mantido a distância, mas no online a relação com o leitor é parte do modelo de negócios em gestação.


 


A outra fonte de atritos no jornalismo online tupiniquim é o posicionamento de órgãos pouco acostumados e afeitos às idiossincrasias virtuais como o poder judiciário, em especial a justiça eleitoral. Os editores e repórteres online não escondem a preocupação com o fato de que ficarão imprensados entre os políticos e os magistrados na hora de aplicar regras que não foram concebidas em função das peculiaridades da internet.


 


A situação só não é mais tensa porque o ceticismo dos eleitores tornou a campanha morna e insossa, faltando menos de três meses para a votação. Mas a raiz do problema continua intocada, o que cria as condições para novos atritos porque o ambiente informativo online cresce mais rápido do que a capacidade de atualização e adaptação de magistrados e legisladores.


 


Por tudo isto fica claro, que o grande dilema do jornalismo online no momento não está na tecnologia e estratégias de negócios, mas sim da adaptação de rotinas e valores à nova realidade informativa em que o público tem um papel muito mais presente do que nas redações convencionais.


 


O desafiante em tudo isto é que os novos paradigmas terão que sair de muita troca de idéias e experiências entre profissionais, pois se trata de um território inexplorado. Haja reuniões, cursos e debates online para acompanhar a avalancha de mudanças.

Todos os comentários

  1. Comentou em 04/08/2008 Ivan Moraes

    ‘tem a ver com a relação entre as redações online e offline dentro de um mesmo veículo. E a outra está ligada às resistências externas, especialmente de órgãos públicos pouco acostumados com a fluidez e informalidade do ambiente cibernético’: esta PROVADO que os macaquinhos revezam entre a mae robot fria que tem leite e a mae quentinha que nao tem. Antes da media eletronica, ja o faziam, o fazem agora, e o farao quando a media telepatica existir. Se a comida dos macacos eh agora informatica nao muda nada.

  2. Comentou em 30/07/2008 Victor Meras

    Sobre a dificuldade, ou impossibilidade, de a imprensa, online ou não, se desprender de ideologias e do papel ridículo que faz perante alguns cérebros não lobotomizados, nenhuma linha.

  3. Comentou em 29/07/2008 Marco Santos

    Sugiro, particularmente aos mais inconformados com o andar da carruagem, que acompanhem regularmente o q se publica em Carta Capital e no P. H. Amorim http://www.paulohenriqueamorim.com.br/forum/Default.aspx
    Além de acompanhar, muito bom divulgar, pelo menos…

  4. Comentou em 27/07/2008 Marcos Chaves Chaves

    Sobre a primeira idéia: é significante essa preocupação com o leitor como agente de mudanças nos hábitos de leitura, pois agora como nunca, ele pode selecionar o que ler e de quem ler. Deixou de ser um leitor passivo, do tipo que recebia um volume fechado de informações, o que na sua maioria não era aquilo tudo que ele queria ler e saber. Agora falta mais um passo a ser dado no jornalismo eletrônico, além da preocupação com a instantaniedade das notícias e a mera preocupação com o leitor que a julgará o artigo/notícia veiculada. É a resposta aos anseios manifestados por esses mesmo leitores online que se interagem através destes espaços de comentários. A nossa voz tem que encontrar ressonância dentro das redações online e junto aos jornalistas/blogleiros que usam o espaço cibernético como ferramenta para se manifestarem profissionalmente. Está faltando ombudsman no mundo online.

  5. Comentou em 27/07/2008 Jose de Almeida Bispo

    O disco foi uma invenção, inicialmente feita para dar publicidade às obras musicais e logo se converteu num vigoroso negócio à parte. Eis agora a tecnologia digital que trouxe no seu bojo a pirataria, a forma mais eficiente de acabar com o ‘negócio’ e recolocar a gravação no seu devido lugar de mera peça de publicidade. O jornal surgiu como forma de expressão de pessoas e grupos e se transformou no grande negócio midiático e de poder político que ainda conhecemos. Como grande negócio e poder paralelo seus dias estão contados. O sistema está implodindo e ainda tem gente sonhando em ‘por ordem’ como se fosse possível parar o curso do tempo. Parafraseando Lavoisier: Nada se acaba, mas tudo se transforma. O modelo religioso de fazer mídia, onde os órgãos se comportaram que se fosse oráculos, acabou. A religião vagabunda, que muda de dogma a cada segundo, perdeu o terreno. Resta-nos libertar a liberdade de expressão como força maior da verdade e cultivá-la para que movimentos estranhos, em geral contrários à democracia não venham a ganhar força nesse vácuo que ora se forma.

  6. Comentou em 25/07/2008 Guilherme Azevedo

    Castilho, goste demais dos seus textos. São de uma clareza única. E vão sempre no ponto-chave da questão. Sim, já vivemos novos paradigmas no jornalismo e o leitor tem participação fundamental nele, como nunca, antes. E isso é bom, é mais justo. Abraço fraterno.

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