Terça-feira, 20 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Tempos duros e difíceis para os jornalistas online no Brasil

Por Carlos Castilho em 25/07/2008 | comentários

Os profissionais que trabalham em sites jornalísticos nos principais conglomerados da mídia nacional não escondem a preocupação com o crescimento de duas áreas de atrito que estão se desenvolvendo em torno das páginas voltadas para o jornalismo online.


 


A primeira delas tem a ver com a relação entre as redações online e offline dentro de um mesmo veículo. E a outra está ligada às resistências externas, especialmente de órgãos públicos pouco acostumados com a fluidez e informalidade do ambiente cibernético.


 


Os debates entre os participantes do curso a distância da Universidade do Texas para jornalistas brasileiros são uma amostra da enorme preocupação em encontrar soluções para problemas que têm mais a ver com valores e comportamentos do que com tecnologia e estratégias editoriais.


 


O jornalismo na web no Brasil já é um fenômeno consolidado, embora faltem estatísticas mais detalhadas. O serviço IBOPE/NetRatings ainda está muito distante do Pew Internet, em matéria de medição da penetração do jornalismo pela internet nos hábitos e rotinas dos brasileiros. Mas este é um problema para outro post.


 


A consolidação do jornalismo online na mídia brasileira não produziu ainda um modelo de negócios viável para a transição do papel para os bits e bytes. Mas já mexeu com as rotinas das redações. O pessoal do online vive uma situação complicada porque está mais exposto à participação do público, mas ao mesmo tempo está sujeito a regras e códigos que incorporam a cultura offline, ou seja da imprensa convencional.


 


Como os chefes foram, em sua maioria, formados nas redações de jornais ou da televisão, eles reagem em função de uma cultura profissional consolidada há anos. Já os profissionais da web não conseguem, por exemplo, fazer uma distinção tão evidente entre fato e opinião como está estipulado nos manuais de redação. Surge aí uma clara área de atrito.


 


Isto fica ainda mais nítido nos veículos nos quais a busca de uma imagem de modernidade provocou o surgimento de experiências de jornalismo com participação do público. O relacionamento com pessoas externas à redação, com preocupações, hábitos e, principalmente posicionamentos políticos, provoca constantes focos de tensão cuja gerência é um tema que não está nos manuais jornalísticos.


 


A discussão é complexa e vai ser longa, mas a experiência, mesmo curta, está mostrando que quem não levar em conta a situação do leitor na tomada de decisões editoriais em sites de jornalismo online estará dando um tiro no pé. No jornal impresso, o público ainda podia ser mantido a distância, mas no online a relação com o leitor é parte do modelo de negócios em gestação.


 


A outra fonte de atritos no jornalismo online tupiniquim é o posicionamento de órgãos pouco acostumados e afeitos às idiossincrasias virtuais como o poder judiciário, em especial a justiça eleitoral. Os editores e repórteres online não escondem a preocupação com o fato de que ficarão imprensados entre os políticos e os magistrados na hora de aplicar regras que não foram concebidas em função das peculiaridades da internet.


 


A situação só não é mais tensa porque o ceticismo dos eleitores tornou a campanha morna e insossa, faltando menos de três meses para a votação. Mas a raiz do problema continua intocada, o que cria as condições para novos atritos porque o ambiente informativo online cresce mais rápido do que a capacidade de atualização e adaptação de magistrados e legisladores.


 


Por tudo isto fica claro, que o grande dilema do jornalismo online no momento não está na tecnologia e estratégias de negócios, mas sim da adaptação de rotinas e valores à nova realidade informativa em que o público tem um papel muito mais presente do que nas redações convencionais.


 


O desafiante em tudo isto é que os novos paradigmas terão que sair de muita troca de idéias e experiências entre profissionais, pois se trata de um território inexplorado. Haja reuniões, cursos e debates online para acompanhar a avalancha de mudanças.

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