Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Teoria do complô da mídia sobe os Andes

Por Luiz Weis em 13/05/2006 | comentários

O presidente boliviano Evo Morales fez ontem o que 11 em 10 políticos fazem quando a imprensa divulga o que lhes desagrada, mesmo quando eles só têm a culpar a si mesmos por isso.


Jogam pedra na Geni – a mídia, naturalmente.


Depois que o chanceler brasileiro Celso Amorim admitiu que o governo brasileiro estava indignado, ou perto disso, com as acusações de Morales à Petrobras – e que o Brasil poderia, em último caso, retirar o embaixador em La Paz – o presidente negou que tivesse dito na quinta-feira, em Viena, que a estatal ‘operava ilegalmente, sem respeitar as normas bolivianas’, emendando que ‘há muitas denúncias de empresas petroleiras que não pagam impostos, que são contrabandistas’.


‘Não falei da Petrobras’, recuou bisonhamente o boliviano, alheio ao fato de que jornalistas e diplomatas brasileiros gravaram as suas palavras. As gravações foram transmitidas por celular ao presidente Lula quando ele ainda voava para a capital austríaca.


‘Às vezes é simples para alguns meios de comunicação, com tergiversações e terceiras intenções, provocar confronto, peleja, enfrentamento com o companheiro Lula’, acusou. ‘Isso não vai acontecer’.


A pisada na bola podia ter ficado por isso mesmo, mas não. Hoje cedo, depois de tomar o café da manhã com Lula, Morales disse que Brasil e Bolívia ‘são vítimas de meios de comunicação que tentam criar um conflito’.


O brasileiro não só ignorou a teoria conspiratória do outro, como deu-lhe duas estocadas.


Primeiro, declarou que presidente latino-americano não deve ‘ficar culpando o mundo pela pobreza do seu país’.


Depois, segundo a agência Reuters, fez referência a um comentário de Morales, dias atrás, de que a Bolívia tinha sido exploradapor 500 anos. ‘Acho que se a gente pensar no século 21, a gente pode dar um salto de qualidade. Se a gente ficar remoendo o passado, na verdade nós não andaremos’, contestou.


Isto posto, o melhor do dia sobre o contencioso, visto numa perspectiva ampla, é a entrevista do embaixador aposentado Rubens Ricupero – talvez o maior diplomata brasileiro de sua geração – à repórter Cláudia Trevisan, da Folha.


Insuspeito de ser adversário ideológico da política externa do governo Lula, como o Itamaraty poderia considerar outros ex-embaixadores que, desde o ‘decreto supremo’ de Morales, no Primeiro de Maio, vêm criticando em artigos e entrevistas a diplomacia brasileira na América do Sul, Ricupero disse que ‘o sonho [da integração regional pretendida por Lula] acabou’.


Integracionista, como ele mesmo se define, Ricupero argumenta que tal objetivo depende antes de mais nada da ‘confiança’ entre os países.


E esta deixou de existir, argumenta, quando Morales tratou o Brasil com hostilidade e o presidente Hugo Chávez mandou técnicos venezuelanos a La Paz para fazer devassa nas contas da Petrobras Bolívia. ‘Como podemos entrar em um projeto com esse homem?’, protestou, falando especificamente de Chávez.


Rubens Ricupero, por sinal, conhece de cima para abaixo e de trás para a frente a história da presença da Petrobras na Bolívia. Recorda:


‘O governo brasileiro estava atendendo a um pedido do governo boliviano, que mandou vários emissários para o Brasil.’ Daí considerar ‘absurda’ a nota do Itamaraty, no dia seguinte à nacionalização, que reconhece a soberania boliviana e o seu direito de dispôr dos seus recursos naturais.


Absurda por quê?


Porque ‘foi no exercício de sua soberania que a Bolívia assinou acordos com o Brasil. Soberania não é uma camisa que você põe e tira a qualquer hora’, comparou.


Pessmista, ele acha que as conversações entre brasileiros e bolivianos sobre o contencioso podem dar em nada – por um ‘erro colossal’ do Brasil. Nas suas palavras:


‘O Brasil se dispôs a negociar apesar de tropas estarem cercando as instalações da Petrobras, funcionários nomeados pelo governo boliviano estarem dentro das instalações da Petrobras, em uma negociação com condições estipuladas pelo governo boliviano. Quem aceita negociar nessas condições já perdeu a negociação.’


Para ele, o governo deve trabalhar com a hipótese de interrupção no fornecimento de gás boliviano, com perdas inevitáveis para os consumidores brasileiros que dele dependem. [O Estado de hoje, em editorial, sugere que o próprio governo brasileiro ponha na mesa a hipótese de a Petrobras fechar as torneiras do gasoduto, para pressionar a Bolívia.]


A crise, conclui Ricupero, terá de levar a uma política externa no continente ‘um pouco mais conduzida de acordo com prioridades nacionais’.


É o que defendem os jornais brasileiros que Evo Morales enquadraria entre os que desejariam ‘provocar confronto, peleja, enfrentamento [dele] com o companheiro Lula’.


P.S.


Da série ‘Sempre Alerta’:


Está no New York Times de hoje. A revista New Yorker publicou no seu site um artigo desancando os plagiadores de artigos e reportagens na internet. Minutos depois de o artigo ir para o ar, um blogueiro já denunciava que o próprio texto era um plágio. Só depois de disparar a revelação, ele chegou ao fim do artigo, onde estava escrito: ‘Você nunca pode ter certeza de que aquilo que está lendo é original. Nem mesmo isso.’ Aí se deu conta de que o plágio era proposital: a New Yorker queria saber quanto tempo a fraude ficaria na blogosfera antes ser desmascarada.


Moral da história: ficar sempre alerta é bom; ler as coisas até o fim antes de criticar, melhor ainda.


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Todos os comentários

  1. Comentou em 19/05/2006 Eduardo Esteves

    Sr.Weis , o que se publica sobre esse assunto parece peixe. Tres dias e os artigos já devem ser descartados pelo mal cheiro.
    O cancelamento do contrato com a Occidental Petroleum Corp, empresa norte americana, pelo governo Equatoriano por suposta quebra de contrato proporciona avaliação da política externa do governo do presidente Lula em tempo real, comparando-a com os resultados que o governo Bush obterá no Equador. Querem melhor parâmetro?
    A primeira atitude do governo norte americano foi de retaliação, suspendendo o tratado de livre comércio com o Equador, justamente o que Chavez da Venezuela deseja(Alca al carajo!). Por outro lado, a serenidade e paciência demonstrada pelo presidente Lula, que tantas críticas gera, tem tido como resultado a normalidade do fornecimento de gas. O que muda são as prioridades de investimento da petrobras e os investimentos na Bolivia, que talvez sejam retomados quando pararem o chilique, como faria o mineirinho da piada. E o gasoduto do Chavez pelo jeito vai al carajo, com a ajuda de Deus.
    Saudações de um paciente contribuinte.

  2. Comentou em 17/05/2006 Elisa Sena

    Quando existe um conflito tem sempre quem leve a culpa!

    Adorei a associação da Geni com a mídia.

  3. Comentou em 15/05/2006 Pedro Cavalcante

    Ora a imprensa da o maior motivo!
    A imprensa é a própria Geni!

  4. Comentou em 15/05/2006 Alan Barreto Silva Silva

    Eu não aguento mais, este discurso de esquerda e direita, se o PT for esquerda eu sou DIREITA!

  5. Comentou em 15/05/2006 Alan Barreto Silva Silva

    Não é a primeira vez que, o Brasil perde o trem do futuro, mas pode ser a ultima vez em que, o trem passe na porta de casa.
    Estou me referindo a dois momentos históricos, um com Vargas, durante a 2ª Guerra, o outro ao atual momento, o Lula teve oportunidades reais de transformar o Brasil em nação moderna e mais justa socialmente, , mas preferiu deitar na cama feita pelos outros governos.
    Vai sair do governo, sem ideologia, sem ações contundentes, e o pior sem discurso.

  6. Comentou em 15/05/2006 Dulce Machado

    Luiz, em geral concordo com suas análises, mas dizer que a opinião do Ricupero não é ‘suspeita’ acho que esta for do contexto da história dele. Ele é, sem dúvida, muito astuto, pois sair praticamente ileso do escândalo do ‘canal fechado que abriu’ na parabólica não é para qualquer um. Faço uma analogia ao caso, por exemplo, uma da formas mais perfeitas da sogra minar a nora é ela dizer noinício ao seu querido filho que concorda com ela (a nora), defendê-la nos momentos de briga entre o casal, escolhendo a nora em detrimento do filho. Depois dessa fase, na qual a mãe demonstrou grande apreço e simpatia pela nora, vai ficar muito fácil minar o relacionamento. Basta em uma briga a mãe dizer: ‘Você sabe filho, eu adoro ela e sempre a defendi, mas neste caso, realmente ela não esta certa’.
    Isso, posso garantir, se a nora for bobinha e não perceber, é tiro e queda para destruir a imagem da nora para o filho querido e tudo voltar a ser como antes, ou seja, sem intrusos.

  7. Comentou em 15/05/2006 Margarida Roman

    Carísimo Luiz Weis: estoy en el tema de la integración desde los primeros momentos del Tratado de Asunción. En verdad, considerando como herencia real la base etnica nativa y el holocausto sudamericano – La Guerra del Paraguay – , nuestro continente es un confuso mosaico dónde, de hecho, los líderes negocian la integración de grupos/actividades económicas sin compromiso con el siglo 21: ninguna modernización en las relacciones del ser humano y el capital. Siguen relacciones de exploración formal del ser humano.
    Ese universo, entretanto es el patamar de arriba por que en la de abajo, las reglas son exactamente las ‘denunciadas’ por Morales: el contrabando, el público ilegal.
    En el interior de América del Sur, las comunidades establecen sus própios códigos y a partir de entonces, lo todo de-pen-de de detalle y una ética de-pen-de de la necesidad del momento histórico – ignorancia, miseria, hambre, vacio, soledad y fastidio.
    Morales, como cocalero, maneja las dinámicas de estas comunidades olvidadas por los civilizados poderes centrales; como nativo, conoce la fuerza de los exploradores formales de los territórios y riquezas sudamericanas; como político, juega como los mensaleiros brasileños juegan.
    Quizás esta oportunidad que las circunstancias nos ofrecen merezca una mirada hacia abajo, hacia dónde, nosostros, los humanos que mueven la rueda, estamos.

  8. Comentou em 14/05/2006 francisco latorre

    sr weis:
    Insuspeito de ser adversário ideológico da política externa do governo Lula??
    ora, esse ricupero não é suspeito, ele é manjado:
    tucano ‘soft’,’light’, ‘baixos teores’.
    velho plantador de notícias.
    ‘erro colossal’? tenha dó.

  9. Comentou em 14/05/2006 Haertel Duarte

    Meus caros, não sejamos cruéis com o Sr. Ricúpero, afinal, tal qual o governo atual, o governo FHC também puniu na época o então ministro com o seu afatamento do cargo. Foi ser embaixador brasileiro na Itália ou Portugal, se não estou enganado. Só para recordar: ‘Instado pelo repórter a anunciar as indicações de uma taxa bem menor do IPC-r em setembro, alega que deveria conversar primeiro com os economistas da Fazenda, ‘senão eles me matam. (…) Vão dizer: ´Pó, você proibiu da vez anterior que era ruim, agora que é bom…´ No fundo é isso mesmo. Eu não tenho escrúpulos. O que é bom a gente fatura, o que é ruim, esconde’.

  10. Comentou em 14/05/2006 Raimundo Eleno dos Santos

    A turma da direita quer ver o circo pegar fogo. Dizem para o povo que Lula demonstrou tibieza no episódio da Bolívia com o índio Evo. É claro que Lula é inteligente e não se deixa levar pelos provocadores de plantão. Inteligência independe de título de PHD. Ter sensibilidade política faz com que o dirigente não passe os pés pelas mãos. Já pensou se os ‘ajuizados’ da oposição, segundo seus critérios, estivessem encastelados no poder? Lula esperou com paciência e o índio pediu desculpas. E até disse que ainda não se acostumou com o poder. Realmente ainda não saiu da taba. Vai demorar muito, mas já começou bem com o recuo. Já percebeu que ficaria isolado. Muitos bolivianos ficaram indignados com a posição tomada pelo índio-presidente, que deu munição à direita brasileira para propor a sandice de revanche. Olha, cambada, LULA VAI CONTINUAR LÁ, apesar da atabalhoada performance do PSDB/PFL, que igualmente ao PMDB, não se entendem. Alquimim não é alquimista. A mistura ainda parece explosiva. No PFL há um verdadeiro arranca rabos… quem será o vice José ou José. PMDB e PFL são dois sacos de gatos. Outra coisa, será mesmo que o Alquimim vai decolar, mesmo com as rezadeiras da Bahia de ACM?

  11. Comentou em 14/05/2006 Sandro Silva

    Esse Ricupero tem muito o que falar, mas sobre o escândalo da parabólica. Até meu azulejo sabe que ele é chapa do FHC e que vibra ao ficar criticando a linha da política externa do governo atual. Amiguinho Ricupero, sua época já passou. Você e sua turminha já tiveram sua oportunidade de fazer alguma coisa, já foram entreguistas e alinhados o suficiente, agora deixa com o Amorim e o com o Pinheiro Guimarães que eles sabem muito bem o que fazem. Vai botar sua pantufa e faça o favor de esclarecer ao povão o que você faturava e o que você escondia na época em que era ministro, ok? Isso ajudaria muito mais.

  12. Comentou em 14/05/2006 Anelise Brasil

    Sr. Luiz, Weis, a cada dia que passa parece mais distante a unidade latino americana. o sr. Ricupero tem razão em tudo o que disse… entretanto, a mancha da parabólica nunca vai abandonar este homem – felizmente ainda temos um pouco de memória. Assim, qualquer declaração deste cidadão será relativizada e posta em dúvida…

  13. Comentou em 14/05/2006 J.C. F.

    é necessário corrigir a palavra abaixo:
    >>Pessmista<<, ele acha que as conversações entre brasileiros e bolivianos sobre o contencioso podem dar em nada - por um 'erro colossal' do Brasil. Nas suas palavras:

  14. Comentou em 14/05/2006 ubirajara sousa

    Sempre que posso, tenho colocado aqui no seu blog: cuidado com as críticas. As mal-feitas merecem reparos. Melhor analisar cada situação com cuidado e efetuar as críticas com base em elementos sólidos, do que postá-las precipitadamente e depois ter que retificá-las, como manda o figurino.
    Parabéns Luiz Weis, o seu blog é muito interessante.

  15. Comentou em 14/05/2006 Fernando Lindoso

    Sr. Weis,seu artigo estar muito bom,concordo plenamente com o que
    Sr.Rubens Ricupero neste caso específico,mas ainda não esqueci a
    parabólica,daí se vê a quanto tempo o Itamarty anda sem rumo.
    Fernando Lindoso

  16. Comentou em 13/05/2006 Sidao Ombudsman

    ‘O Petróleo é nosso,
    mas o Gás é deles…’

  17. Comentou em 13/05/2006 Marco Antônio Leite Costa

    Os grandes culpados pela pobreza do povos do Continente, tem culpados, dentre muitos, podemos relacionar os Americanos, Europeus e os capitalistas caseiros. Os povos latinos são escravisados e marginalizados pela falta de empregos, baixos salários e a ignorância cultural que são impostas pela ganância dos mandatários do primeiro mundo. Portanto, uma pátria livre se faz com a união dos povos do continente. Para que este quadro seja revertido, os políticos em geral precisam deixar de lado suas preocupações pessoais e de grupo e, trabalhar em prol do povo pobre. Parabéns pelo artigo. Marco

  18. Comentou em 13/05/2006 Fabio Martins

    Como é de sua nattureza, a matéria do Verbo Solto de hoje também está respeitável. Apenas quando cita avaliações de um ex-diplomata, pergunto é aquele mesmo senhor das parabólicas? O que teria então ele agora falado, se os microfones estivesseem desligados? Se os antigos alertavam com o axioma: timeo hominem unius libri,( temo o homem de um só livro), eu morro de medo de gente com duas falas…

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